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Red Pass

Rumo ao 38

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Benfica 0 - 1 Braga: Sim, Estamos com Problemas!

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Faço questão de começar por elogiar o Braga e dar os parabéns pela vitória na Luz. Excelente trabalho de Rúben Amorim que veio à Luz fiel à sua ideia de jogo mesmo arriscando lançar um defesa central sem experiência na linha de três. Não me custa nada reconhecer o bom trabalho de um adversário do Benfica e escrever que fizeram por ganhar na Luz. Uma palavra também para os Hortas que por terem feito a sua formação do Benfica são sempre injustamente visados antes e depois destes reencontros com o Benfica. Hoje ganharam e estão de parabéns. 
Mas este exercício ficaria melhor a quem tem responsabilidades no futebol e na imprensa, dirigentes, comentadores e jornalistas, que colocaram em causa a seriedade dos profissionais do Braga, destes e de outros que já saíram, sempre que falam ou escrevem sobre este clássico do futebol português. Não é bonito gritar para os profissionais bracarenses que contra o Benfica não se empenham tanto ou passar a mensagem para a opinião pública que o Braga oferece os 3 pontos ao Benfica. Agora, estão todos satisfeitos, entretidos a fazer piadas e eufóricos com a ideia de aproximação e não conseguem ter cinco minutos para pedir desculpas publicamente e assumirem que foram umas bestas sempre eu colocaram em causa a seriedade do adversário do Benfica. Possivelmente, até estão a divulgar que foi graças a essas miseráveis declarações que o Braga hoje venceu. Não foi. Nem é preciso andar muito para trás no tempo para lembrar que este clube já eliminou o Benfica na Luz para a Taça de Portugal, tirou uma final da Taça da Liga e, pior, afastou o Benfica numa meia final europeia a contar para a Liga Europa. 

 

Hoje o Benfica sabia que tinha uma tarefa difícil num contexto emocional exigente. A derrota no Dragão fez mossa mas resultou de um clássico demasiado polémico dentro e fora de campo. O jogo seguinte em Famalicão teve desfecho positivo porque significou o apuramento para o Jamor mas com um empate 1-1 que não entusiasmou ninguém. Este era o jogo certo para a equipa dar sinais de vitalidade. 

De fora veio a melhor das respostas, a Luz recebeu cerca de 60 mil adeptos em ambiente de jogo grande, com coreografia e tudo, e com envolvência de partida importante. 

O Braga rapidamente mostrou que vinha para jogar com a qualidade que o levou a bater Porto e Sporting por duas vezes no espaço de poucas semanas e que já rendeu um troféu a Rúben Amorim. Bom para o futebol. Jogo aberto, dividido, com os melhores a terem que assumir as suas responsabilidades. Da parte do Benfica com Taarabt à cabeça sempre à procura de inventar soluções que deixassem Rafa ou Vinicius e em boas situações de finalização, assim como Cervi e Pizzi a fazerem chegar a bola à área com cruzamentos através das alas. E aqui começam os problemas do Benfica. Assim que se percebe que a finalização não está afinada, um certo nervosismo apodera-se da equipa na altura de posse de bola. Aquele circular paciente de bola, aquela calma que se estendia até aparecer um golo, mesmo que tardio, tem dado lugar a uma ansiedade que faz com que as oportunidades para o Benfica apareçam mais por erros forçados do que por organização ofensiva. Desta vez, esse nervosismo não passou para a bancada, houve sempre apoio na Luz a tentar dar a tranquilidade necessária à equipa. 

A verdade, é que nenhuma das ocasiões de golo foram aproveitadas e o Braga consegue fazer um golpe duro antes do intervalo. Numa falta inexistente de Rúben Dias, nasce um livre que leva perigo à baliza do Benfica. Odysseas defende superiormente mas no canto Palhinha fez mesmo o 0-1.

Aqui duas notas. As arbitragens dos jogos do Benfica têm dado pano para mangas. Hugo Miguel deu mais uma demonstração da falta de qualidade da classe. Momentos exemplares na primeira parte, uma falta sobre Rafa aos 21´para vermelho e um lance em que Taarabt atinge um adversário que devia ter sido falta e cartão amarelo para o marroquino. Mais a falta inexistente do Rúben que acaba por estar na origem do golo, temos aqui exemplos da incompetência com que temos sido brindados nesta Liga. E até estou a dar exemplos para os dois lados para não pensarem que acho que este mau momento é desculpável. Não é. Mas existe. 

A segunda nota vai para o momento de Odysseas, guarda redes de nível superior. Gigante. A melhor notícia desta fase.

 

Na 2ª parte pedia-se mais oportunidades de golo, mais velocidade, mais posse bola, mais dinâmica entre Tomás e Pizzi, Grimaldo e Cervi, Rafa mais solto e Vinicius mais incisivo. Só houve mais Taarabt. O Braga ao não abdicar de continuar a fazer o seu jogo tirou espaço e bola às ideias do Benfica. Esse sinal ficou bem claro quando Ruben Amorim tirou Galeno e lançou Trincão.

A resposta de Lage veio aos 62' e pareceu mais do mesmo em relação a semelhantes cenários recentes. Sai Cervi entra Seferovic. A Luz não gostou e fez-se ouvir com assobios. Mais tarde entrou Chiquinho por Weigl e aos 86' Dyego Sousa por Tomás Tavares. Eu diria que nada de bom veio daqui. Vou repetir o que escrevi aqui sobre o jogo no Dragão, os adeptos do Benfica já não estavam habituados a este nível de improviso, já estavam confortáveis com a insistência na ideia até ao fim com alguns ajustes. Mas acabar o jogo com Vinicius, Dyego e Seferovic é atípico. E ter o suíço como primeira opção quando nas últimas 16 chamadas só marcou num jogo é estranho. Não está em causa o valor do melhor marcador do último campeonato, está em análise o rendimento actual neste quadro competitivo. 

Sim, temos problemas. Quanto mais depressa os identificarmos e assumirmos mais rápido podemos corrigir e mudar. Os últimos dois jogos para o campeonato representam seis pontos perdidos, portanto é evidente que há soluções por encontrar. 

 

Última nota para Raul Silva, o central do Braga não merece a fase que o clube que representa atravessa. Para não ir mais longe.

Segue-se o regresso à Liga Europa. Novamente, é muito importante diferenciar o contexto competitivo tal como aconteceu na Taça de Portugal. Foco e inteligência na Ucrânia, o destino Europeu não se decide numa só noite. É preciso saber construir um cenário que proporcione um final feliz depois na Luz. Determinante mesmo é a deslocação a Barcelos de 2ª feira a oito dias, aí é que não há margem de erro. 

No fim do dia a menos má das notícias é o facto do Benfica partir para a próxima jornada como líder. Com maior ou menor vantagem, no fundo, tem sido esta a vida do Benfica nos últimos seis anos, sem margens de erro nem confortáveis vantagens. Quando as temos parecer que fazemos questão de as desperdiçar... Tem sido assim. Haja a garra, o foco, a concentração e determinação que houve em cinco desses últimos seis anos. tem a palavra a equipa. Com o apoio não se preocupem, em Barcelos lá estaremos todos juntos a puxar para o mesmo lado. 

Porto 3 - 2 Benfica: Impotência Frustrante

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Já nem me lembrava o que era fazer a A1 em esforço para Lisboa. Estivemos num ciclo incrível em que estas viagens até pareciam mais curtas, na última noite voltei a sentir o peso da distância, também porque vim a conduzir, depois de uma derrota. Já não me lembrava, quero esquecer rapidamente e desejo que não volte a sentir tão cedo. 

Aproveitando o facto de ter vivido o clássico por dentro começo por partilhar algumas notas à volta da organização do jogo que acho úteis para quem não está tão por dentro destas logísticas. Em 2020 está muito acessível e confortável ir até ao Dragão ver o Benfica. Fui na década de 90 às Antas e já fui ao novo recinto de comboio, de carro sem escolta e ontem em carro próprio seguindo a sugestão da policia. A maioria dos adeptos benfiquistas de Lisboa optaram por ir de autocarro e saímos todos juntos a pé para o estádio. Sem qualquer dificuldade e com a moral em alta. Seria impensável ir com esta facilidade toda a um clássico no Porto até há pouco tempo. Portanto, só posso deixar elogios ao Benfica e à PSP por toda a operação. Isto é de valor, tem de ser sublinhado porque quando corre mal todos criticamos. 

 

Sigo por uns recados para as entidades que mais se põem em bicos dos pés durante a temporada futebolística. Começo pela tarja de boas vindas aos adeptos do Benfica fixada num viaduto do Porto.

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A juntar às boas vindas ainda tivemos direito a bonecos enforcados, um com equipamento do Benfica e outro, suponho, deve ser o árbitro. Quando estamos a atravessar tempos tão sensíveis socialmente e que tantas vezes vemos imediatas reacções de João Paulo Rebelo, o zeloso Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, e de Pedro Proença, Presidente da Liga Portugal, por exemplo, é estranho que até agora ninguém tenha mostrado indignação.

 

Por falar em Liga Portugal, eu enquanto adepto que pago caro o meu bilhete para ver um jogo, este custou 31€, que pago a deslocação e passo o dia dedicado ao espectáculo que a organização deve defender, gostava muito de perceber porque é que no Dragão o número oficial de espectadores termina sempre com o número da camisola do jogador que faz o primeiro golo do Porto. Também gostava de saber porque é que o Porto atrasa as suas entradas em campo para que os jogos comecem invariavelmente mais tarde. É que as partidas já são marcadas para um horário tardio, não é preciso atrasar mais o seu começo. E ainda, gostava de entender porque é que o guarda redes do Benfica, com pressa, vai buscar uma bola para recomeçar o jogo e acaba a levar cartão amarelo, a perder tempo e continua sem bola depois disso tudo. Sendo que para seguir o jogo aparecem depois duas bolas em campo.

Este episódio leva-me a questionar agora a coerência do Sérgio Conceição. Há pouco tempo queixou-se, mais do que uma vez, do anti jogo e tempo útil de jogo. E bem. Podemos falar disto neste clássico ou é só quando o Sérgio está apertado. Sérgio, o teu Porto da segunda parte deste jogo foi igual ao teu Vitória de Guimarães na Luz há uns anos. Coerência é isto. 

 

Agora o jogo.

O Benfica tinha uma oportunidade óptima de fazer história no Dragão ou, pelo menos, de fazer mossa no rival. Vários cenários eram apetecíveis para o líder que nunca tinha estado nesta posição confortável nas visitas ao Porto. Por incrível que pareça, este conforto faz mal ao Benfica. Parece que tudo funciona melhor quando a pressão está no limite como na época passada. 

Pedia-se ao Benfica que entrasse autoritário, com posse de bola, impusesse o seu estilo e o seu jogo, que dominasse o jogo de forma natural. Tinha tudo a seu favor, inclusive a previsibilidade do seu adversário. 

Sem margem para erro, Sérgio Conceição foi pela única via possível, um 4-4-2 com Soares e Marega na frente, no meio campo Uribe, Diaz, Sérgio Oliveira e Otávio e na defesa uma chamada de Pepe ao lado de Marcano com Alex Telles e Corona nos corredores a darem muita projecção atacante. Tudo isto assente numa pressão intensa e uma reacção à perda de bola agressiva. Ou seja, o Porto na sua zona de conforto, na sua atitude preferida em postura de tudo ou nada e com conhecimento das limitações defensivas do Benfica que, aliás, já tinha explorado com sucesso na Luz. Veja-se o golo que Marega inventou. 

Nos tempos de Giovanni Trapattoni eu sei bem como é que este jogo era encarado. Mas os tempos são outros e a exigência está no auge, felizmente. Ninguém ia perdoar a Bruno Lage um plano de jogo para não perder. Quando tudo parecia claro para encarar o clássico surge a baixa de Gabriel e várias opções se levantaram. A equipa técnica do Benfica optou por lançar Weigl e Taarabt que se juntava a Chiquinho atrás de Vinicius. Destes três, dois são claramente ofensivos e com necessidade de ter bola, depois Rafa a ameaçar na esquerda e Pizzi na direita. Na defesa nada de novo. Na teoria, era uma equipa com vontade de ter bola e ofensiva. Houve sinal ambicioso na entrada em campo. 

O Benfica não entra mal nos primeiros minutos mas aos 4 minutos Marega deixa Taarabt K.O. no relvado e deu o mote para o jogo do Porto. O facto deste lance não ter merecido qualquer reparo de Soares Dias nem de Tiago Martins também deixou claro ao que íamos. Estes são dois nomes apontados para o sucesso de Portugal no futebol internacional a nível de arbitragem. Por isto é que não temos nenhum nome de arbitragem em fases finais de Mundiais, Europeus ou Champions League. São ridículos na sua altivez e abjectos na sua vaidade. Lamento.

Aos 10', Otávio centra e Sérgio Oliveira faz o 1-0 e foi a primeira vez que o Dragão reencontrou a sua identidade. Até aí todos pareciam muito receosos, equipa e adeptos. 

Tal como na época passada, o Benfica reagiu e 8' depois Carlos Vinícius marca na mesma baliza onde João Félix tinha feito a festa há um ano. O sector visitante ficou ainda mais motivado e nada apontava para o que veio a seguir. Cartão amarelo para Taarabt, cartão amarelo para Weigl, em três minutos os homens do meio ficaram condicionados e 6' depois Tiago Martins vê um penalti de Ferro. Soares Dias, que nada assinalou em cima do lance, foi ao VAR e abriu caminho para o 2-1 que Alex Telles agradeceu. Se é verdade que há mão do Ferro, também é evidente que Soares empurra o central do Benfica. A questão é, que imagens é que Artur Soares Dias viu para ignorar assim a falta do avançado portista?!

E assim se esfumou a reacção do Benfica. Pior que isto, a equipa acusou os três amarelos seguidos, o penalti, e o facto do Porto continuar a atacar pelo lado esquerdo da defesa do Benfica, entre Grimaldo e Ferro, acabando por chegar ao 3-1 antes do intervalo com Rúben Dias e Odysseas a não conseguirem reparar a mossa de Marega. 

Desilusão total ao intervalo. Pedia-se uma nova abordagem na 2ª parte. E o Benfica acreditou que era possível ir atrás de um bom resultado, Rafa assistiu Vinicius que aos 5' reduzia para 3-2. Ficava toda uma 2ª parte para brilhar. Uma palavra de conforto para o avançado brasileiro que bisou no Dragão, não foi por ele que as coisas correram mal. 

A partir daqui o Benfica fez o que sabe melhor fazer, ter bola, circular, procurar soluções e tentar chegar ao empate. O problema é que foi durante um período muito curto porque rapidamente a equipa de Sérgio Conceição levou o jogo para a perda de tempo. O episódio que já referi do Odysseas aconteceu aos 64'.

A partir dos 66', o Benfica perdeu as suas raízes de jogo. Bruno Lage com meia equipa "amarelada" optou por partir o jogo e levar tudo para o campo do improviso. Tirou Adel, que estava na primeira linha para ser expulso, lançou Seferovic. Nada de bom saiu daqui. Dez minutos depois trocou Weigl por Samaris. Mais dez minutos e saiu André Almeida que deu lugar ao estreante Dyego Sousa. Rafa passou para defesa direito e o futebol do Benfica já era só desespero à procura de um milagre final. O Porto sempre confortável com esta anarquia e todo este improviso. Tudo saiu mal ao Benfica. Perdeu-se o controlo do jogo e caiu-se na tentação de um futebol que não sabemos jogar, abdicando de tudo aquilo que a equipa costuma fazer até ao fim. 

Foi mau. Ficou aquela sensação do costume, sempre que podemos fazer estragos profundos naquele recinto acabamos por lhes dar vida. Tem sido isto a minha vida toda. Em 2010 podíamos e devíamos ter sido campeões ali. Não fomos e foi o que se sabe nos anos seguintes. Desta vez podíamos ter aumentado para 10 pontos a vantagem, saímos com 4. É frustrante. Entre estes dois jogos tivemos momentos muito bons no Dragão mas nenhum tão saboroso como um título ou uma vantagem histórica. O mais próximo que se conseguiu foi na época passada. Em máxima pressão, lá está.

A ironia disto tudo, é que há um ano saímos do Porto com uma vantagem de 2 pontos na liderança. O regresso para Lisboa foi em total euforia. Com 2 pontos de avanço e um calendário delicado pela frente. Desta vez, regressamos com 4 pontos de vantagem e uma calendário menos agressivo mas a decepção e frustração é gigante. Porque já não somos o Benfica de Trapattoni, não equacionamos empates e quando a derrota chega é como uma abalo sísmico de alta intensidade em todo o universo benfiquista. Ficamos a mastigar todo o jogo em loop e a pensar que devia ter sido tudo diferente. Tudo, não. Os golos do Vinicius mantinham-se. 

Resta-nos fazer um rápido luto e ganhar força para ir a Famalicão garantir um dos objectivos essenciais da temporada que é regressar ao Jamor. Ir com ganas de voltar a encarar a A1 para Lisboa com felicidade. 

Só depois é que podemos pensar na continuação da Liga NOS. Que esta impotência dos clássicos seja a excepção numa prova imaculada até ao fim, como foi a primeira volta. 

Quem passou o sábado dedicado a esta operação que foi estar no Dragão tem uma pequena mas valiosa compensação em relação ao resto do universo benfiquista, passar um dia em família unida no espaço do maior inimigo do nosso clube dá-nos sempre um conforto na alma e uma mais valia nas nossas vidas dedicadas ao Benfica que nenhuma derrota nos vai tirar porque este sentimento é o coração que faz bater a grandiosidade do Sport Lisboa e Benfica. Foi assim nos anos 90 e continua a ser assim hoje. 

 

Benfica 3 - 2 Belenenses SAD: Magia de Adel Contra a Maldição do Ano Passado

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O futebol é muito pródigo em criar tradições, cultos, fantasmas e universos próprios entre clubes. O historial de confrontos entre o Benfica e Clube de Futebol "Os Belenenses" dava para um livro. Histórias de jogos para o campeonato ou para a Taça de Portugal que atravessam décadas no futebol português. É um derby muito rico em episódios marcados por jogadores que vestiram as duas camisolas e transformou-se num clássico do nosso futebol. Infelizmente, essa história foi interrompida há uns anos e deu lugar a um novo ciclo. Agora é um derby sem grande passado e já não é um clássico porque estamos a falar de outro clube. Ou de um projecto que ninguém sabe ao certo como se chama, B SAD, Codecity, Belenenses SAD. No lugar da cruz de Cristo aparece um logo feito à pressa, não tem estádio, não tem adeptos, enfim, é uma SAD a competir no maior campeonato do país. 
Mas como escrevi ao abrir o texto, o futebol é muito pródigo em criar tradições, cultos, fantasmas e universos próprios entre clubes. Muito pródigo e muito rápido. Tão rápido que os jogos desta época com o Belenenses SAD, chamemos-lhe assim, levantam maus pensamentos. Na primeira volta, no Jamor, 18 mil benfiquistas foram apoiar a equipa mas desconfiados da derrota da época passada. Uma noite negra de chuva intensa, com arbitragem de Soares Dias e uma derrota amarga. O triunfo deste ano serenou os adeptos e tirou uma certa carga negativa que os jogos contra este projecto acarretam.

Para o primeiro jogo da 2ª volta da Liga NOS na Luz, temos o Belenenses SAD. O Benfica vinha de uma vitória na Mata Real, com um balanço incrível de vitórias e golos marcados e o pensamento de muitos já na próxima saída ao Porto. Muito optimismo antes do jogo mas à medida que se aproxima a hora de começar novos pensamentos afectam o tal optimismo. Na época passada, depois da vitória mais épica de Bruno Lage, 1-2 no Dragão, a curta almofada de conforto trazida do norte desapareceu logo com um incrível empate com o Belenenses SAD a quem o Benfica não venceu nenhum jogo. 

Na primeira volta o enguiço foi quebrado mas esta ironia de voltarmos a defrontar a mesma equipa tão perto da visita ao Dragão podia agitar fantasmas?

 

A resposta veio precisamente depois do 2-0. O Benfica na primeira parte parecia ter construído o suficiente para voltar a ter uma noite tranquila, como teve em Paços de Ferreira. O treinador deu o sinal mais importante ao resto da equipa ao não abdicar de André Almeida no onze, mesmo sabendo que um cartão amarelo o tirava do clássico da próxima jornada. O sinal foi claro, o jogo que interessava era este e ninguém queria facilitar. Bruno Lage lançou Adel Taarabt no lugar de Gabriel, única mudança na equipa, à procura de mais criatividade no meio campo e imprevisibilidade para contornar a linha de cinco defesas que Petit preparou, um esquema que tem dado dores de cabeça a Bruno Lage na abordagem dos jogos no último ano. 

Aposta mais do que ganha, o marroquino abriu o livro e foi o melhor em campo. Fez uma jogada genial a driblar todos os que lhe apareceram pela frente em metade do campo, uma jogada que acabou por dar golo graças à insistência de Vinicius. Tudo épico, as fintas de Adel, o passe para Cervi, a cabeça à trave de Vinicius que acabou por ser uma "auto assistência" para o seu golo. Momentos que já justificavam a ida ao estádio para mais de 45 mil adeptos. 

 

Pelo meio e justo destacar a importância de Odysseas que negou o golo ao Belenenses SAD, em especial numa defesa soberba a um livre directo na primeira parte. 

Um Belenenses SAD motivado pela vitória na última jornada, atrevido, determinado a pressionar alto e a arriscar desafiar o Benfica na Luz, uma boa imagem deixada por Petit. 

O Benfica descansou com o 2-0 e na 2ª parte pareceu querer controlar o jogo sem grandes riscos desde muito cedo. O 3-0 tardou em aparecer e os tais fantasmas apareciam na Luz. Comentava-se nas bancadas que ainda podia acontecer o drama do ano passado e os jogadores pareciam demasiado ansiosos com a bola. 

Sem grande explicação lógica, o jogo cai de repente num carrossel de lances imprevisíveis e emoções descontroladas. Licá faz mesmo o 2-1 e toda a gente pensou no desfecho da última época. As bancadas inquietaram-se e começaram a passar o nervosismo para o relvado de forma irresponsável. André Almeida, Ruben Dias e até Bruno Lage pediam calma e apoio ao Estádio da Luz. A equipa reagiu e lá apareceu mais um golpe de génio. Ruben passou para Vinicius que num toque de calcanhar simples e vistoso isolou Chiquinho que contornou o guarda redes e fez o primeiro golo na Liga pelo Benfica. O festejo foi simbólico, sentou-se no relvado e estado zen, como que pedindo tranquilidade no ambiente da Luz. 

Depois do golo de Taarabt, o golo de Chiquinho a acabarem com o mito de não conseguirem marcar pelo clube no campeonato. 

Estávamos a pouco mais de 10 minutos do final do jogo e o 3-1 parecia acalmar os nervos. Mas seis minutos depois Rafa acaba por fazer penalti sobre Varela e permite que Licá reduza para 3-2. 

Com cerca de 10 minutos para jogar, o Estádio da Luz virou um lugar de loucos. Na minha tentativa de me acalmar, fixei o olhar na bancada por trás do banco do Benfica enquanto ia alternando com a visão do jogo. O momento é tão rico graficamente que acabei por me rir sozinho. Riso de nervosismo, claro, mas só dava para rir. 

Então, tínhamos sócios de pé a refilar e a dar indicações à equipa, adeptos a assobiar, outros em silencio a sofrerem com as memórias do empate de há um ano, e, pasme-se, muitos benfiquistas completamente indiferentes ao desfecho da partida e a virarem costas ao relvado para saírem do estádio como se estivéssemos a golear ou o jogo tivesse terminado. A sério, como é que conseguem. É que não foram poucos, olhem para as várias saídas do estádio e estavam dezenas neste ritual. Quero pensar que é malta com problemas cardíacos e que se recusa a ficar até ao fim por problemas de saúde... Este recinto, às vezes, parece uma casa de loucos. 

Tudo acaba bem quando o Benfica vence. Com muito mais dificuldade que seria de esperar depois do 2-0, com muito mais sofrimento daquele que eu acho aceitável para a minha vida mas no fim do dia respiramos fundo e concluímos: fizemos mais 5 pontos no campeonato só contra esta equipa em relação ao último campeonato. Vamos dormir com 10 pontos de avanço na liderança e agora os outros que se esforcem. Com estas duas vitórias ao Belenenses SAD acabou-se a maldição dos pontos perdidos.

Esta noite tem que ficar na memória de todos como a noite da magia de Adel.

Desejo tudo de bom ao Petit e que evite a descida, apenas e só pela estima que tenho por ele, mas espero, sinceramente, que a médio prazo esta aberração do B SAD desapareça e dê lugar a um clube a sério no escalão maior do futebol português. 

 

Paços de Ferreira 0 - 2 Benfica: Não Recuamos Nem 4 Centímetros!

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Diz o GPS que são 682 quilómetros passados na estrada num só domingo para ir de casa a Paços de Ferreira ver o Benfica e regressar. É uma viagem repetida, já fui à Capital do Móvel várias vezes noutros anos e à medida que a idade avança torna-se cada vez mais complicado explicar o que nos move nestas maratonas só para ver um jogo de futebol.

Acordar cedo num domingo, pensar no local onde se almoça, chegar lá a horas, enfrentar nevoeiro denso que nos lembra outras viagens bem menos agradáveis, parar o carro ainda longe do estádio, passar pelas condições miseráveis de entrada no recinto, ficar numa bancada descoberta e sempre com ar de provisória. Nada disto parece apetecível. Mas depois, já no lugar atrás da baliza ao vislumbrar aquelas camisolas vermelhas de mangas compridas a entrarem no verde relvado do outro lado do estádio, começar a identificar os jogadores um a um, esboça-se um sorriso e pensa-se com orgulho, ora aqui está a razão para estar às 17 horas de dia 26 de Janeiro a 341 quilómetros de distancia da minha casa. 

 

O almoço é um pretexto para nos juntarmos com outros benfiquistas, colocar as conversas e discussões em dia e, claro, comer bem. Desta vez, fomos ao Telheiro em Paços de Ferreira. Comeu-se bem mas não foi inesquecível. Lá está, valeu mais pelo convívio do que pela gastronomia.

Na bancada mais reencontros. Recordar outros tempos, outros jogos, outras histórias e o tempo passa mais depressa. De repente, já estamos na hora de começar o jogo. A mesma rapidez com que a noite cai sobre o Estádio Capital do Móvel. O cenário das casas estendidas pelo cenário verde visível para lá das bancadas deu lugar ao escuro e ao frio do norte. 

Começava assim a 2ª volta do campeonato, num terreno de uma equipa que luta para não voltar para a 2ª divisão e que não perdia, nem sofria nenhum golo há quatro jogos. 

O Benfica vinha de uma magnifica série de 17 triunfos seguidos fora da Luz a contar para o campeonato. Queria dar seguimento à vitória no derby e começar a segunda metade da Liga NOS da melhor maneira à procura de fazer o que tem feito sempre nos últimos anos, uma segunda metade de temporada melhor do que a primeira. 

Um Benfica na máxima força sem lesões a atrapalhar. Rafa começa como titular, Chiquinho foi para o banco. O efeito de Alvalade manteve-se na exibição de Rafa. Exibição autoritária do Benfica de olhos postos na baliza do Paços e com pressa de chegar à vantagem.

Dois topos do estádio vestidos de vermelho a gritarem Benfica de um lado para o outro, uma equipa empolgada com o apoio, qualidade individual e colectiva. O Benfica a ameaçar fazer o 0-1 até que Vinicius descobre Pizzi na área e festeja-se o primeiro golo. Sentimento de alivio por ver a bola lá dentro e logo a seguir o mundo parado porque a equipa de arbitragem acha que é fora de jogo. Corrida aos telemóveis para consulta ao público do sofá. Várias respostas a dizer que é impossível ser fora de jogo. A decisão é tomada pelo árbitro, fora de jogo. Revolta na bancada. Ninguém fica convencido. Vem a explicação por sms: está adiantado 4 centímetros. QUATRO CENTÍMETROS?!? Isto é brincadeira. 

Então mas a empresa que fornece a tecnologia do VAR não disse que há uma margem de erro de 5 centimentros? Andamos a anular golos por supostos 4 centímetros? 

Ok, isto noutros tempos seria um duro golpe e podia trazer desconfiança à equipa e às bancadas. Mas não a este Benfica das 17 vitórias seguidas fora de casa. Começamos tudo de novo. Apoio na bancada, paciência na circulação de bola, procura dos craques que podem resolver isto e aparece Rafa, pois claro. Entrada em corrida na área, viragem à esquerda, para o lado de dentro sem fazer sinal, jogador do Paços ultrapassado e na cara do guarda redes remate certeiro com pinta de interrogação: e agora também faltam 4 centímetros ou já podemos festejar?

Rafa é que é o verdadeiro campeão de inverno, o seu regresso é um reforço notável para equipa. 

 

Ao intervalo voltámos ao tema VAR. Então conseguiram ver os 4 centímetros e sobre uma falta sobre Rúben Dias na área não houve análise? Parece que as comunicações do VAR não funcionaram durante 22 minutos. Para nosso azar, estavam óptimas no golo anulado e inexistentes no penalti sobre o Rúben. Ai futebol português...

 

Era preciso fazer mais e aumentar o resultado na 2ª parte para ficarmos a salvo de surpresas indesejadas. A atacar para a nossa baliza, à semelhança do que acontece nos jogos da Luz, o Benfica pressionou e chegou mesmo ao 0-2. Desta vez, Rafa ofereceu o golo a Vinicius e em pouco tempo ficam com as contas mais equilibradas entre ofertas para golo na dupla de avançados. 

Depois, foi tempo de Odysseas brilhar, já o tinha feito na 1a parte com uma grande defesa junto ao poste esquerdo e voltou a estar bem numa bola rasteira. Estamos em plena 2ª volta do campeonato e Odysseas sofreu 6 seis golos. Em 13 jogos não sofreu nenhum. Que época!

Confortáveis com o resultado e com menos bola foi possível perceber que Ferro voltou ao seu melhor. Cervi continua em alta rotação, Gabriel voltou a encher o campo e Weigl... Bem, Weigl precisa de um espaço só para si.

Quando voltamos a pensar o que nos pode ainda motivar para ir ver jogos destes ao vivo temos que juntar à lista esta opção: ver Julian Weigl ao vivo. 

Tive a felicidade de ver os quatro jogos de Weigl nos estádios e vou afirmar isto sem hesitar: o alemão é um jogador de se ver na bancada. Não é jogador de televisão nem resumos. Tem que ser visto ao vivo. Não é pelos 90% de acerto de passes, é pelo posicionamento, pelo equilíbrio que dá com e sem bola, é pela leitura de jogo e por vê-lo a quebrar linhas de passe imaginárias em série. Foi o melhor em campo, é um reforço brutal para o futebol do Benfica. E depois tem aquele sorriso desarmante na hora de festejar o segundo golo a olhar para a nossa bancada. 

 

O tempo passa, o Benfica está a ganhar, está confortável no jogo, entram Adel e Seferovic e sente-se que vem aí mais golo. Só não aconteceu porque o suíço resolveu homenagear Bryan Ruiz em vez de ter feito o 0-3. Prefiro golos, Sef. 

 

A naturalidade com que a equipa assume a responsabilidade de ganhar sem facilitar, de somar novos registos e recordes a uma caminhada épica deixa-me muito motivado para o que falta desta maratona. 

A despedida à equipa a pedir o 38, os agradecimentos dos jogadores com aquele sorriso do dever cumprido, a ligação bancada - relvado é o que nos dá força para uma pequena seca ao frio para sair daquela miserável bancada e percorrer a pé mais de um quilometro até ao carro. A viagem de regresso é feita com o mesmo entusiasmo. Porque o segredo destas jornadas está no benfiquismo que une cada um dos passageiros. Mais velhos, mais novos, homens, mulheres, todos unidos pelo amor a um clube. As horas passam rápido porque é uma excelente maneira de colocar a conversa em dia. 

Uma merecida paragem no Manjar do Marquês, em Pombal para o último prazer do dia, comer aquele arroz de tomate com filetes, panados ou pasteis de bacalhau. Depois até casa é um instante. 

Chegar a casa com sentimento do dever cumprido e pensar: tenho de voltar a ver o Weigl a jogar. 

Que tempos maravilhosos para se ser do Benfica. Mais uma viagem, mais um capítulo de benfiquismo preenchido de forma riquíssima neste longo livro que vamos escrevendo enquanto cá andarmos. E que nunca tenhamos como certo o dia de amanhã nem o sucesso do Benfica. É preciso aproveitar todos os novos dias, como se percebe com o chocante desaparecimento do lendário Kobe Bryant e é preciso lutar pelo Benfica bem sucedido. Todos os dias enquanto cá andarmos. 

Sporting 0 - 2 Benfica: Rafa Resolve!

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Certamente, a esta hora já ninguém se lembra do preço do Rafa quando saiu do Braga para o Benfica. Nem tão pouco daqueles que criticaram as verbas envolvidas. É esta a magia do futebol. Em pouco tempo tudo muda, tudo se transforma. O Rafa deixou um Braga que raramente vencia o Porto e antes do derby foi ganhar ao Dragão. Quando o Rafa chegou ao Benfica, o Sporting vivia tempos de euforia com um Presidente/Adepto e Jorge Jesus a treinar. Rafa foi titular em Alvalade e viu já no banco o empate de Lindelof que seria importante para o tetra. 

O mundo continuou a girar, o Benfica volta a Alvalade como campeão, como tem sido normal nos últimos anos, e prepara-se para um derby que é sempre aliciante. Só que desta vez soube só a normalidade. 

Chegar a Alvalade cedo teve uma vantagem, foi possível seguir tranquilamente as surpreendentes incidências do jogo do Dragão. O Porto perde, o Benfica entra em campo e, de repente, o contexto de pressão muda todo. Aquilo que os portistas esperaram o dia todo e que a TSF bem ilustrou numa noticia que envelheceu mal e rapidamente, tornou-se num pesadelo. Em vez de um último suspiro de um abatido leão que roubasse pontos ao rival e deixasse os azuis a um ponto, passou para um cenário de distância de 7 pontos! 

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Não sei se fui só eu a ficar com esta sensação em Alvalade, mas o momento do Sporting é deprimente e alastra-se às bancadas tornando o ambiente do estádio vulgar e embaraçoso. Claques ausentes, recinto por esgotar, zero empatia entre equipa e adeptos, e um cenário demasiado fraco para um derby deixando no ar uma estranha sensação a zona de conforto para os adeptos do Benfica que não sabem o que é perder ali para a Liga desde aquele penalti manhoso do Ricky van Wolfswinkel há oito anos! 

Se dúvidas haviam quem tinha mais vitórias em derbys para o campeonato com o Sporting como visitado, dizia-se que havia um empate porque não querem contar com um jogo em campo neutro mas que era o Sporting a jogar em casa, então agora já nem dá para essas manobras. Por falar em manobras, é degradante ver aqueles panos pendurados com os campeonatos que o Sporting venceu noutro século. Estão noutro ciclo de 18 anos sem vencer a Liga e não percebo se querem mostrar aos sócios mais novos que em tempos também foram campeões ou se é para impressionar quem lá vai. Da nossa parte, só sentimos vergonha alheia e espanto por ver ali mais campeonatos do que realmente venceram, sendo que numa época até tiram um nosso com uma lata incrível. Sim, 1937/38 é nosso.

Faltava ver o que o jogo nos dava. A tal imprevisibilidade do derby. O factor Bruno Fernandes, a motivação de ser contra o eterno rival, tudo podia trazer um jogo complicado. 

Nada disso. Em Alvalade está tudo a bater certo, a equipa tem a alma e a alegria de um fidalgo falido. Futebol deprimente do Sporting. Ironicamente, a pior coisa que podia ter acontecido ao Benfica foi saber o resultado do Porto antes do derby. A equipa ao sentir que o Sporting está perfeitamente ao alcance e que mesmo com um empate aumentava a diferença pontual para o 2º classificado, o futebol do Benfica não teve aquela vertigem e velocidade que costuma dar vantagem. É evidente que não podemos esquecer como é que ambas as equipas chegaram aqui. O Sporting jogou no Sábado contra os restos do plantel do Vitória FC, numa jornada vergonhosa para o futebol português e na 3ª feira ficou no sofá a ver jogos da Taça de Portugal de onde foi corrido pelo Alverca. Portanto, o Benfica quis controlar o ritmo e o esforço físico. E mesmo em contenção percebia-se que ia chegar à vitória assim que acelerasse o jogo ou chegasse um jogador mais inspirado. É verdade que Rafael Camacho teve aquela oportunidade, erro de Ferro, e acertou no poste, e também houve um golo anulado em claro fora de jogo mas o resto do jogo do Sporting foi muito frágil e previsível. 

Bruno Lage apostou em Gabriel e Weigl no meio. O alemão ganhou o seu lugar e Gabriel aproveitou a estabilidade de Weigl para encher o campo em Alvalade. Fez um jogão pontuado com aquele cabrito em Bruno Fernandes. Cervi justificou a aposta na esquerda, Pizzi indiscutível na direita e Chiquinho mais perto de Vinicius. O português não foi explosivo e acabou substituído por Rafa que foi decisivo. Vinicius deu tudo e ainda foi importante no 0-1. A vitória do Benfica apareceu da maneira mais natural possível, Rafa entra no jogo determinado em resolvê-lo. Fresquinho, preparado para procurar a bola e sair disparado, estava no lugar certo na hora certa para fazer o primeiro golo. Sentiu-se ali que os três pontos estavam ganhos. Tudo tão previsível e natural que nem parecia um derby. O 0-2 já foi um bónus para fechar o jogo, Seferovic excelente a assistir Rafa. Dois homens vindos do banco. Essencial neste calendário tão apertado. 

Muitos desabafos na bancada no final da partida a dizer que ganhar ali para o campeonato passou a ser uma boa rotina, e mais preocupação com o próximo jogo na Mata Real do que euforia. Fechámos a primeira volta com uma confortável vantagem mas se queremos fazer do derby da 2ª volta uma festa épica, sim o Sporting fecha este campeonato na Luz, vamos ter que voltar a encarar todos os adversários com a mesma determinação. Guimarães e Alvalade era saídas de risco, jogaram-se muitas fichas contra a liderança do Benfica, afinal até se aumentou a vantagem. 

Acho que não há o perigo de euforia entre adeptos. Esta vitória neste derby morno sabe bem mas não entusiasma cegamente. Foi tudo com naturalidade. E isso é bom porque assim ninguém saiu dali a pensar que já estava tudo feito. 

 

O que levo desta visita a Alvalade? Bem, levo com carinho dois momentos em que Alvalade é capaz de ser caso único no mundo. A maneira como aquela gente protesta os lances. A forma como reagem com assobiadelas a decisões da arbitragem. Reparem que não estou a falar em golos anulados, penaltis ou lances capitais. Não, nada disso. Falo de um simples lançamento lateral. Seja de um lado, seja do outro, é incrível ver e ouvir a maneira épica como as centrais de Alvalade assobiam e se espumam a protestar todo e qualquer lançamento lateral. Chega a ser cómico e viciante. Maiores assobiadores do mundo.

Outro bom episódio aconteceu na 1ª parte quando o Benfica quase marcava. A bola sai ao lado do poste e ainda agita as redes da baliza por fora, claro. "Bruá" no sector visitante, normal. Reacção da multidão verde à volta: gozarem por termos achado que ia ser golo. Mas a gozarem à grande mesmo. Como se não estivessem a caminho de ficar a 19!! pontos do rival. Foi giro. 

Já agora, explicar que o Benfica atacou primeiro para a baliza onde estavam os seus adeptos porque Bruno Fernandes escolheu campo. É estranho porque o Sporting gosta de atacar primeiro para o lado do sector visitante. Mas depois de vermos o triste espectáculo das claques com mais uma chuva de tochas e fumos ficamos a pensar que, se calhar, o Bruno sabia coisas. 

Por falar em Bruno. A imprensa portuguesa toda preocupada com a saída do Bruno Fernandes antes do derby ainda não tinha percebido que para o Benfica é indiferente a sua presença. O Bruno que realmente interessa é o Lage. Com o Mister Bruno, o Benfica ganhou por 2-4 e 0-2 para a Liga e, pelo meio, deu 5 na Supertaça quando o Bruno ameaçava sair. Foi ficando, a imprensa toda contente e depois de ser goleado na Supertaça vê o Mister Bruno aumentar para 19 pontos de avanço na tabela. O Sporting actual também é isto, uma equipa de um homem só. Pobre Bruno Fernandes. Espero que ainda vá à Luz na última jornada. Tem dado sorte. 

 

Noite tranquila em Alvalade, triunfo natural com Rafa em grande e um olhar para o futuro com um sorriso nos lábios. Por causa da pontuação, por causa da incrível série de vitórias e pela qualidade individual à disposição do Bruno. O bom. 

Venha de lá essa segunda volta. Um obrigado a todos os que mandam no futebol português por nos terem feito chegar a casa no dia a seguir ao jogo da Taça na 3ª feira e ao derby de hoje. A verdadeira Liga da Madrugada. 

 

Benfica 2 - 1 Aves: Alma Até Almeida

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"Com a frase «Alma até Almeida» pretende-se elogiar quem nunca desiste, quem leva até ao fim um trabalho árduo ou perigoso – como se regista no Dicionário de Expressões Correntes (Editorial Notícias, 2.ª edição, 2000)".

 

O dicionário tem sempre a resposta certa para colocar em palavras o que queremos transmitir. A crónica do jogo podia terminar aqui que toda a gente percebia o seu sentido. 

Mas para chegarmos até à expressão "Alma Até Almeida" é preciso também ter mundo. É preciso ter a sorte de ter amigos que vivem o Benfica além dos jogos. Que se juntam depois de uma vitória sofrida para jantar e discutir a partida. Mesmo que nessa mesa estejam benfiquistas que vivem a 300 quilómetros e sigam viagem só após o repasto, mesmo que nessa mesa se repitam presenças dos jogos fora da Luz e, especialmente, mesmo que nessa mesa esteja quem seja aniversariante e mesmo assim se junte à tertúlia. E no fim, nas despedidas, sai um "Alma Até Almeida" como sugestão para tópico da crónica. 

Por falar em fazer anos, passei o jogo quase todo a tentar perceber o que se estava a passar neste final de tarde com o Aves. Dia 10 de Janeiro comemora-se o aniversário da Dalila, a minha mãe. Não me lembro do Benfica agravar desfeitas neste dia. A minha ausência num jantar de anos é justificada pela causa maior de ver o Benfica jogar. É uma justificação aceite maternalmente. Improvisa-se um almoço em detrimento do jantar, que seria mais lógico. Tudo resolvido. Mas para acabar dentro da normalidade faltava o Benfica cumprir a sua parte. Mãe, foi complicado mas resolveu-se. O golo do André Almeida é uma espécie de prenda celebrada em família. 

 

Todas as épocas há um jogo assim. Receber o último classificado depois de ganhar em Guimarães. A tentação de lançar Jota, André Almeida, Seferovic e Weigl, num jogo que teoricamente seria o mais indicado para todas estas soluções, torna-se num pesadelo com os imprevistos do futebol. 

Foi assim há um ano com o Tondela em casa, voltou a acontecer agora com o Aves. A boa noticia é que o Benfica arranjou uma maneira de resolver os jogos mesmo que nas pontas finais. 

Jota não foi feliz, André Almeida mostrou a tal alma depois do empate de Pizzi, Weigl mostrou-se e ficou a perceber que isto não é tão fácil como podia parecer e Seferovic luta contra si próprio na hora de mostrar eficácia na finalização. 

Foi preciso chamar Cervi e, essencialmente, Vinicius que entrou e agitou o jogo para o lado do Benfica.

Num noite em que o Benfica bateu o recorde de remates à baliza num jogo da Liga NOS, a vitória em forma de reviravolta é justificada mas só foi possível devido à atitude da equipa até ao fim. 

Há muito tempo que não festejava tanto um golo como este do André Almeida. Os tais momentos mágicos, celebrações que mais não são do que um profundo suspirar de alivio. Tal como no ano passado com o o golo de Seferovic ao Tondela na Luz, este golo do André fica na memória de todos daqui para a frente. Sabe bem festejar, é uma emoção única ver a bola a entrar naquela baliza onde costumo ver os jogos. Tudo muito certo mas continuo a preferir um 4-0 ao intervalo como aconteceu em 1985 no primeiro jogo entre os dois clubes na Luz.

No fim da noite são três pontos, um aniversário feliz para quem merece.

O próximo jogo é dia 14. Dia de anos do meu pai. Agora pensem. 

 

Vitória de Guimarães 0 - 1 Benfica: Conquista no Berço da Nação

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Se gostam de futebol, se adoptaram um clube para a vida, se apreciam o espectáculo ao vivo, independentemente das vossas cores, façam o favor de colocar nos vossos afazeres uma ida a Guimarães para assistirem a um jogo da vossa equipa com o Vitória SC. Esqueçam o perigoso fanatismo dos adeptos de Guimarães e os episódios negativos que já aconteceram ali. Informem-se da melhor maneira de estacionar e ir para o estádio e vão ver que está tudo bem organizado pelas forças de segurança. E depois desfrutem de uma experiência rara em Portugal, estar em minoria num estádio vestido de preto e branco, orgulhoso da sua cidade e incansável no apoio à sua equipa. Um ambiente contagiante que motiva ainda mais o sector visitante e leva ao limite todas as manifestações de apoio, das mais habituais às mais radicais. Arremessar tochas para o relvado é uma idiotice, já escrevi isto aqui vezes sem conta. Troca de tochas entre bancadas já é ultrapassar os limites do bom senso, arremessar cadeiras para outras bancadas e relvado também é dispensável. Tudo isto aconteceu com da parte das duas bancadas, da casa e da visitante. São excessos indesejados mas que resultam de um contexto de tensão e confronto no limite. Já tinha acontecido antes, vai voltar a acontecer mas não retira força à experiência de viver fortes emoções à volta de um jogo de futebol. 
Por tudo isto, a visita ao D. Afonso Henriques é sempre encarada com desconfiança e respeito. O único objectivo é somar 3 pontos e seguir na frente do campeonato. Mas para se vencer em Guimarães é preciso uma enorme dose de esforço, paciência, suar muito, perceber todos os momentos do jogo, fazer golo e jogar com o tempo e espaço dado pelo adversário. 

A equipa do Vitória é superiormente treinada por Ivo Vieira, tem jogadores muito interessantes, merecem estar na parte superior da tabela do futebol português e jogam muito bem. Ganhar ali não é é para todos. É preciso estar focado, concentrado e atento a todos os pormenores da partida. Na bancada é preciso ter voz, garganta e pulmão para que a equipa do Benfica nunca se sinta sozinha naquele ambiente adverso. 

Quando Pizzi contraria toda uma bancada que do outro lado do estádio pedia para rematar à baliza para fazer um passe atrasado para Cervi, todos entramos num segundo de hesitação. Como se os milhares de benfiquistas suspendessem a respiração naquele topo. Para dois segundos mais tarde explodirem num festejo colectivo tão alto que chegou às muralhas do castelo. Pizzi é um génio a decidir. Cervi é um profissional que soube esperar a sua vez para mostrar toda a sua qualidade e como pode ser decisivo numa maratona que tem muitas oportunidades para oferecer. É o grande momento da noite. Pizzi na direita a optar por assistir, em vez de rematar e Cervi a rematar de pé direito, o pior, para um golo tão desejado quanto festejado. 

Depois havia que sofrer muito. Todos sabíamos. A equipa está habituada a estes cenários e sabe tudo sobre estes jogos. Ferro e Ruben em grande noite e Adel Taarabt com uma exibição enorme e poderosa foram os elementos mais valiosos. Acima de todos, Odysseas imperial na baliza a assinar a exibição perfeita. Daquelas que valem pontos. 

Quem larga tudo para viajar no primeiro sábado do ano e fazer mais de 700 quilómetros só para ver um jogo de futebol ao frio impiedoso do Minho, tem de gostar muito do clube e de futebol. E se gosta tanto, então sabe que a expectativa para esse jogo não é ver um recital de futebol, uma partida divertida e cheia de bom futebol. Porque o futebol não é só exibições a terminarem com goleadas e facilidades. O futebol também pode ser, e é muitas vezes, um jogo de sofrimento, de nervos, de receios, de incertezas. Um jogo em Guimarães está sempre muito mais perto de ter esta cara de batalha de futebol e menos de poesia de bom futebol e muitos golos. Por tudo isto, quando o jogo acaba e se vence por 0-1 o sentimento de conquista e dever cumprido é muito maior do que na grande maioria dos jogos do calendário português. Entrar nesta aventura de ir atrás da nossa equipa de futebol para testemunhar um jogo destes é quase um acto de masoquismo. Quando acaba bem até parece que o regresso de 360 quilómetros marcados no GPS é uma viagem curta e agradável. 

E todos nos sentimos um bocadinho responsáveis pela vitória. É muito bonito ver toda a bancada visitante em harmonia com a equipa no pós jogo. Aquele momento em que tudo faz sentido, eles no relvado a sentirem que deram tudo a agradecer o apoio de um topo que transpira orgulho na sua equipa. 

Isto é o futebol vivido por quem guia a sua vida à procura destas emoções. É muito frustrante quando corre mal mas é muito compensador quando corre bem. 

 

Tudo o que vai além deste contexto já é outra coisa que nenhuma ligação devia ter com o futebol. No rescaldo do jogo aparecerem dezenas de figuras que se limitam a estar no sofá ou em estúdios de televisão de telemóvel na mão a orquestrarem reacções de acordo com o que mais lhes convém para destruírem tudo o que foi conquistado no ambiente que já descrevi, é um atentado ao jogo. Pessoas que não sabem o que é largar a família, pagar um bilhete caro, gastar dinheiro em gasolina, refeições e portagens, passar um dia na estrada só para ver 90 minutos de futebol ao frio, rodeado de policias, a sofrer lance a lance, a vibrar a cada golo e a cada defesa decisiva, pessoas que só apareceram nos últimos anos com o propósito de explicar ao mundo que tudo isto é um engodo e que está tudo viciado. Pessoas que estão tão confortáveis nos seus poleiros e de bolsos cheios e felizes com as figuras que fazem que nem dão pelo tempo passar. Só nos últimos seis anos, passaram cinco nisto e só em uma temporada é que tudo foi limpo, legal e bem ajuizado. O resto é tudo uma falcatrua gigante e só truques para prejudicarem as suas equipas. Nenhuma dessas figuras, no entanto, se farta deste roubo e se dedica à sua área profissional. Assumirem que o futebol é só o assunto mais importante das coisas sem importância e partirem para melhorarem a classe política, a classe jurídica, a classe dos músicos portugueses, a classe dos jornalistas, assumirem-se como comentadores com cores próprias e deixarem de ser falsos isentos sonsinhos ou, simplesmente, pagarem o que devem. Mas não! Estão ali perpetuados no seu papel justiceiro de dedo apontado. Nem que seja só a um lance em 90 minutos. Um lance reduzido a frames manhosas que nada explicam e apenas justificam narrativas nojentas fazendo de estúpidos todos os adeptos que ainda vivem para encher estádios. 

 

Sugiro que se acabe com as transmissões televisivas de todos os jogos do campeonato português. Desliguem as câmaras. Devolvam o futebol a quem o joga e a quem quer sentir as suas emoções nas bancadas. Se quiserem viver às custas de conspurcarem o jogo diariamente, tirem os rabinhos das cadeiras e sofás e façam-se às estradas deste país e sofram o que nós sofremos, semana após semana, só para vermos as nossas equipas ao vivo. Ou então façam o mesmo que eu fiz nos anos 90. A partir do momento que vi guarda redes a defenderem com a mão bolas fora da grande área, que vi golos anulados por anca na bola, ou por foras de jogo bíblicos que devem atormentar o pobre Amaral até hoje, ou árbitros a fugirem à frente de uma equipa em fúria, por exemplo, passei a ir só à Luz em movimentos automáticos sem questionar o que me levava a continuar a ir aos jogos. Apenas ia porque gostava de estar na Luz. Mas deixei de discutir futebol, passei a ver mais jogos internacionais e deixei de ir ver jogos fora da Luz com regularidade. Ou seja, sofria para dentro, não acreditava naquilo mas também não chateava ninguém. 

 

O Benfica ganhou sem brilho, o Benfica passou aflito no teste de Guimarães, o Benfica venceu pela margem minima. Sim, sim. Foi isso tudo. Ou então, o Benfica somou 3 pontos no cenário mais duro que teve de enfrentar até agora.

Foi uma enorme vitória do Benfica, foi um arranque de ano maravilhoso. Fui a Guimarães, voltei e estou a escrever às 4 e tal da manhã. E faço-o para contrastar com quem só destrói o jogo. Por respeito a amigos e companheiros que estão acordados a esta hora e rumam agora ao aeroporto de Lisboa para voltarem para o seu local de trabalho actual, como o grande TM que nos guiou hoje de Lisboa a Guimarães e de Guimarães a Lisboa, foi a casa buscar a mal e segue para a sua rotina. Bem longe dos estádios portugueses, a sofrer ao longe mas feliz por aquilo que Bruno Lage tem dado ao clube desde que chegou. Indiferente ao ruído poluente. 

O Benfica é muito, mas mesmo muito, maior que todos os ódios juntos porque o amor e entrega dos seus adeptos abafa a raiva e inveja do resto do país. 

Benfica 4 - 0 Famalicão: Um 2019 Épico na Liga

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Dia 17 de Outubro de 1998, perto da meia noite em Lisboa. Portugal vivia um período de esperança, em particular Lisboa estava em empolgada no pós Expo' 98. Mas o Benfica não sabia o que era festejar um campeonato desde 1994. Em 1998 ainda não havia blogues e estes desabafos ficavam nas mesas de cafés e nas ruas estreitas e labirinticas do Bairro Alto. Como nesta noite de 17 de Outubro de 1998, depois de mais uma ida ao Estádio da Luz. Um ritual nunca interrompido mesmo que na altura não fizesse o menor sentido ser um dos 25 mil adeptos que se dignavam a ir ver um Benfica - Alverca para o campeonato nacional. Um adepto com cativo e orgulhoso de não falhar nenhum jogo na Luz. Mesmo que na ficha desse jogos estivessem Paulo Santos, Abel Silva, José Soares, Marco Freitas, Ramires, Maniche e Mário Wilson no banco do... adversário! 

Era o mundo ao contrário. O Benfica de Souness empatava 2-2 com o Alverca. 

O hábito era ir para a Luz motivado por uma misteriosa esperança e sair de lá, invariavelmente, frustrado. Essa tristeza levava-me a longas noites de reflexão com amigos. Uma terapia sempre à procura de algo positivo que nos mantivesse ligados a qualquer coisa. 

Em Outubro de 1998, depois desse 2-2 com o Alverca, alguém projectou o futuro numa conversa bem regada e dizia algo como isto:

Um dia vamos rir destas noites. Vamos recordar estes pesadelos quando liderarmos com frequência a primeira liga. Por exemplo, em 2019 vamos chegar ao fim do ano, olhar para os jogos que disputámos a contar para o campeonato e dizer: perdemos um jogo em Portimão no primeiro jogo do ano mas no último vamos dar 4 ao Famalicão e confirmar a liderança na passagem de ano. Entretanto, vamos recuperar 7 pontos de atraso entre Janeiro e Maio e vamos festejar o 37º de campeão. Depois, damos 5 aos lagartos na Supertaça e, apesar, de perdermos um clássico em casa, fechamos o ano a golear e com vantagem para o rival Porto. Depois de Portimão, todo e qualquer jogo fora da Luz que façamos em 2019 a contar para Liga vamos ganhar. Nem empatamos, só ganhamos. Em Guimarães, em Braga, em Alvalade, no Dragão, em Moreira de Cónegos, nos Açores, nos Arcos, onde quiserem. Só ganhamos. Teremos um jovem treinador que pega na equipa e só não vence duas vezes. De resto, ganha tudo com 109 golos marcados e 21 sofridos. 

Mais: vamos ter um português a partir tudo, a marcar golos, a dar golos, a fazer jogar com o nome de Pizzi. E um marroquino a jogar um futebol mágico. 

Alto!! Aqui mais ninguém estava a ouvir este amigo optimista. No 2-2 com o Alverca o nosso marroquino era o Tahar. Não dá para imaginar um jogador desta nacionalidade a ser uma referencia da equipa. Fiquemos pelo Hajry. 

A conversa nunca existiu, foi só um exercício de imaginação porque ninguém teria a capacidade para imaginar em 1998 um ano como o de 2019. Quem diz 1998 diz entre 1995 e 2004. Ganhar, golear, jogar bem, ter jogadores de nível superior, era toda uma realidade cada vez mais distante num clube que até 1994 parecia destinado a ganhar todos os anos. 

Por ter vivido intensamente essas épocas, dou muito valor a noites como a de hoje. Voltar a ver o Famalicão na Luz, com personalidade, bem treinado, descomplexado contra um Benfica em alta rotação e a jogar um futebol atraente, é algo natural para as gerações mais novas mas é um orgulho maior para quem passou pelos anos negros. 

O Benfica cresceu em Leipzig e veio melhorar desde o jogo da Alemanha. Depois da goleada no Bessa, dos 3-0 ao Zenit, um 4-0 ao Famalicão em forma de grito de guerra a apontar a qualidade de Pizzi, Tomás Tavares ( a crescer tanto ), Adel, Chiquinho, Cervi e Vinicius, por exemplo. 

O Benfica está a jogar bem, Bruno Lage assinou uma página histórica no clube em 2019 que vai ser lida com espanto e saudade daqui a anos.

Só peço que 2020 traga uma normal continuidade deste ciclo incrível. 

Para o campeonato, 2019 morre aqui. Temos de esperar, quase, um mês para jogar nesta competição.

Se em 1998, alguém me dissesse que ainda ia viver um ano como este de 2019 a ver o Benfica, eu iria reagir com violência. 

Ainda bem que vivi o suficiente para ver este ciclo e este jogo. Aproveitem este Benfica. 

Boavista 1 - 4 Benfica: Categórico Fecho de Ciclo

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Vale a pena voltar aquela noite fria de meio de semana em Portimão no começo deste ano. Com a desilusão instalada, a viagem Algarve - Lisboa foi das mais duras de sempre. Se alguém dissesse naquela noite que a partir dali íamos ganhar todos os jogos fora da Luz para o campeonato até ao final do ano seria assassinado com justa causa. 

Aliás, proponho ao prezado leitor que prestigia este blog com a sua visita, o seguinte desafio: alguma vez teve um ano civil em que o Benfica tenha ganho todos os jogos fora de casa para o campeonato? 

Alguma vez se atreveu a pedir nuns daqueles desejos de passagem de ano "neste ano novo só quero que o Benfica vença todos os jogos para a Liga como visitante!"? 
As respostas mais prováveis são negativas. 

E, no entanto, o ponto de partida foi Portimão. Tivemos que passar pelo Dragão, por Alvalade, por Guimarães, duas vezes por Braga e agora pelo Bessa, entre tantos outros destinos que aqui fui documentando ao logo de 2019. 

Contar todos estes jogos por vitórias é estrondoso. Fechar o ciclo com uma goleada no Bessa contra o Boavista de Lito Vidigal e com uma arbitragem de Jorge Sousa é épico! 

 

Grande jogo do Benfica na cidade do Porto. Vitória categórica do Benfica num estádio muito difícil contra uma equipa fortemente competitiva, com uma abordagem muito física e com reforço defensivo sempre à procura de desfazer e contrariar o adversário. 

O Boavista jogou exactamente aquilo que se esperava mas encontrou um Benfica completamente focado na vitória e com absoluto conhecimento do adversário. Parecia que os jogadores do Benfica adivinhavam tudo o que o Boavista tinha preparado para esta batalha. 

O facto de Pizzi ter marcado um golo muito, anulado com a ajuda do VAR, mostrou ao Boavista que não ia ser fácil quebrar o ritmo, perder tempo, cair no anti jogo e adormecer o Benfica levando-o para a zona de confronto tão conhecido pelos jogadores de Vidigal. 

O golo de Vinicius com um passe soberbo de Pizzi veio confirmar a intenção do campeão. Só nos últimos minutos da 1ª parte com o golo do Boavista o jogo pareceu dividido. E depois no arranque da 2ª parte o Boavista tentou manter o balanço só que a equipa de Bruno Lage sabia que tinha feito mais do que suficiente para estar a ganhar o jogo nos primeiros 40 minutos, era só manter o ritmo, a atitude e a ambição até voltar à vantagem. E foi o que aconteceu. Cervi fez o 1-2, num lance em que os boavisteiros, e não só, ficaram a pedir uma falta que não existe, depois Vinicius decide o jogo com mais um belíssimo golo e Gabriel fecha as contas com um raro golo de cabeça. 

1-4 no Bessa é um claro sinal da boa forma da equipa de Lage na Liga. Confirma a excelente exibição na Luz contra o Marítimo na jornada passada e faz pensar que o Benfica nos últimos anos tem vindo sempre de menos a mais no campeonato, portanto, a tendência é melhorar e jogar mais e melhor daqui para a frente. 

Com o Benfica a preparar assim o jogo, a jogar desta maneira, a marcar com esta facilidade, com uma apoio magnifica naquele topo por trás da baliza para onde atacou a equipa na 2ª parte, com a atitude e a ambição com que contornou as dificuldades extra vindas de Jorge Sousa, o Benfica deu um claro sinal de força na defesa de um título que foi ganho de forma lendária na primeira parte deste ano. 

Por falar em apoio, talvez o segredo para esta série incrível de vitórias longe da Luz esteja relacionado com o ambiente que a equipa encontra nestes jogos fora. É um contraste gigante com o ambiente que se vive por estes dias nos jogos em casa. Não é uma critica, é constatar um facto. Que sirva para reflexão. 

Um 2019 só com vitórias fora de casa depois de Portimão é outro tipo de monotonia que preciso na minha vida. E esta eu nunca tinha vivido. Que se mantenha assim em 2020. 

Benfica 4 - 0 Marítimo: Prova de Vida

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O Benfica é uma óptima ideia que veio ao mundo há mais de cem anos. Um conceito abstracto que é abraçado por milhões de simpatizantes e que na teoria tem tudo para ser a melhor ideia de sempre. Algo que influencia a vida das pessoas, algo que passa a guiar e a influenciar quase tudo na vida daqueles que desde sempre abraçam esse ideal de ser benfiquista. O futebol do Benfica é algo de tão esmagador que passa de geração em geração, gera amor e ódio e transforma a exigência em demência. 

É tão abrangente que se tornou o objecto mais mediático do país para o bem e para o mal. É algo de tão forte que divide o universo benfiquista em vários sub géneros. Alguns transversais a todos os universos de adeptos de todos os clubes, os mais optimistas, os que só querem falar do que está bem, e o mais pessimistas, os que acham que está tudo mal e se desgastam à espera das desgraças para poderem crescer para os optimistas com o clássico "eu não disse?". Há de tudo um pouco no magnifico universo benfiquista, como em tudo na vida.

Mas  a grande tendência destes novos tempos, os tempos das opiniões sábias das redes sociais, das condenações públicas jogo a jogo a treinadores, dirigentes e jogadores, das exigências e intolerâncias, a grande tendência, dizia eu, é a de ver tudo pela negativa. Não é dramático porque é um estado de espírito que obriga o clube a andar sempre no limite, que não dá tempo nem espaço a zonas de conforto nem a adormecimentos. 

Ganhar por 1-0 é uma vergonha, por 2-1 é porque se sofre um golo, por 3-1 e com exibição pouco entusiasmante é uma vergonha, por 5-0 é porque o adversário era fraco, por 10-0 é falta de respeito e por aí fora. Todos nós já ouvimos isto, todos nós já teremos dito algo assim. 

Como disse, é bom porque obriga sempre a mais e melhor.

Mas também é imensamente triste. Também é perigosamente injusto. Acima de tudo, é estupidamente redutor e tira-nos algo que vai passando de geração em geração que é a, muito lusa, conclusão de que antigamente é que era bom. 

Um fado que transforma o passado em ouro e o presente em insuficiente. Algo que faz com que nem haja espaço para umas horas de folga, respirar fundo e concluir: porra, estou a ver o Rúben Dias a crescer em campo jogo a jogo. Que orgulho! 

Caramba, o Taarabt é mesmo um craque de mão cheio e o nosso clube está a proporcionar-lhe encher o relvado da Luz de classe. O marroquino hoje foi "só" o melhor em campo. Ninguém vai usufruir disto porque virá sempre o passado do marroquino à baila. 

Por falar em relvado, no Benfica uma simples troca de relvado é assunto de Estado! Parece resolvido. E isso é bom? Claro que não, somos o Benfica e nunca devia ter acontecido. Mesmo que se desconheça que o lendário Benfica dos anos 60, 70 e 80 raramente apresentava um relvado melhor que este. 

Por falar em Benfica de outras décadas. Em 1993 o Benfica recebia o Marítimo a 3 jornadas do final do campeonato. O Benfica tinha jogadores como Futre, João Pinto, Paneira, Veloso, Mozer, Schwarz, Paulo Sousa, Kulkov, Yuran, Rui Águas, Rui Costa e Isaías, só para dizer alguns nomes. A maioria dos nomes vem à conversa sempre que se quer denegrir a equipa actual, ou o trabalho recente. "Ah, isto nos tempos do Rui Costa, Mozer, João Pinto, Paneira, Futre..." 

Eu fui ver esse jogo com o Marítimo na Luz. Chovia muito. Apareceram no Estádio antigo, que à hora em que escrevo faz anos que foi inaugurado, pouco mais de 10 mil pessoas. O Benfica não ganhava sempre, os adeptos do Benfica não enchiam sempre a Luz, os jogadores do Benfica não jogavam sempre bem. Isto, apesar, de se dizer hoje que antigamente é que era à Benfica. 

Os números que Bruno Lage apresenta em 2019 para o campeonato nacional são estrondosos, a facilidade com que o Benfica goleia faz com que Lage já tenha mais de 100 golos marcados em cerca de 30 jogos para a Liga. O Benfica é líder e campeão em título. Podia viver em clima de festa, confiança e superioridade. Felizmente, não vive. O dia a dia à volta do clube é de uma eterna crise.

Ninguém quer ir para casa rever a exibição do Taarabt. Ninguém quer admitir que se precipitou ao condenar a contratação do Vinicius, ninguém quer dizer que o Pizzi é um dos melhores jogadores da história do Benfica, ninguém quer parar para apreciar a qualidade do Rúben Dias e a evolução do Ferro porque a ânsia de os ver errar é maior que o prazer de os ver triunfar. 

Tudo o que foi feito de bom esta noite nunca será valorizado se num futuro próximo o Benfica perder pontos da Liga, como se as coisas estivessem ligadas. Ou seja, como se um bom trabalho de uma noite ficasse à espera de validação eterna. 

 

Esta urgência há muito que extravasou para fora do jogo. Veja-se a maneira como se trata a questão das claques em Portugal. Um problema como se fosse uma podridão, como se não houvesse gente boa e de bem no meio de cada claque. É legalizar e pronto. É obrigar esse pessoal a usar um cartão para ter direitos nos estádios e está resolvido. Como se esses movimentos não tivessem uma história, não fossem movidos a paixão e dedicação, como se, como dizia o Gullit, o facto de meia dúzia de estúpidos estragar o que a maioria faz de bom desse o direito de transformar o todo num lixo. 

Muitos viram uma faixa aberta no Topo Sul do Estádio da Luz dedicada à Petra. Muitos perguntam quem é a Petra. Ninguém faz a menor ideia do que é ver e sentir uma amiga, uma companheira, uma associada exemplar na sua dedicação ao clube e ao Topo a sofrer por causa de uma doença injusta, traiçoeira e desesperante. 

Não interessa quem é a Petra, quem a conhece entende o tamanho e o significado de uma faixa a exigir Força com o reconfortante recado de Estamos Juntos. Isto é que devia fazer reflectir os imbecis e hipócritas que querem impor leis às três pancadas a grupos de associados que se manifestam da forma mais humana e solidária que a vida pode mostrar. 

Viver com saúde é um privilégio que não devia ser descurado. Devia ser aproveitado para elogiar a classe do Adel, a finalização do Vinicius, a qualidade do Pizzi, a determinação do Rúben, o incrível trabalho do Bruno Lage que desde que tomou conta da equipa só não venceu dois jogos no campeonato. A vida é demasiado curta para ser vivida em negatividade disfarçada de moralidade e exigência. 

Hoje ganhámos, aproveite-se o momento. Amanhã logo se vê. Um dia vamos todos pedir streamings daqueles tempos em que o Benfica só sabia ganhar na liga portuguesa, umas vezes a jogar bem, outras nem por isso, com resultados curtos e com goleadas, com remontadas e com nota artística. Mas nada que nunca leve ninguém no momento a dizer algo como isto: É tão bom estar na Luz a ver este Benfica. 

Uma frase que nos devia fazer reflectir, um autentico objectivo de vida, ter oportunidade familiar, financeira, social, e, acima de tudo, com saúde que nos permita estar ali ao lado da equipa do Benfica naqueles 90 minutos. 

O Benfica é maior que a vida mas só pode ser vivido enquanto estivermos a passar por cá. Todo o tempo que perdemos a antever o pior, é energia gasta. 

Grande beijinho Petra, juntos. À Benfica!