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Rumo ao 38

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Os Meus Avós "Unidos" Por Cádiz

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 A mais valia de ter um blogue pessoal dedicado a um tema especifico é a oportunidade de partilhar histórias que só se contaram na esfera de amigos ou de familiares e por aqui chegar a muitos mais que partilham a mesma paixão por um clube. Acredito que todos nós temos as nossas memórias que marcaram o começo da nossa ligação com o emblema que adoramos. É dos exercícios mais gratificantes contarmos como cresceu em nós o fascínio pelo clube, isto será transversal a todos os adeptos de futebol. É por isso que um dos autores que mais admiro é o Nick Hornby, sem o Fever Pitch nunca teria tido vontade de escrever sobre futebol e o Benfica.

 

Isto vem a propósito de algo muito pessoal que tenho vivido nas últimas semanas e como de costume leva-me ao Benfica. Resumindo a situação, a mãe da minha mãe caiu e partiu o fémur. Está hospitalizada e esperou mais de uma semana por uma operação que aconteceu anteontem. Aparentemente correu tudo bem. Durante esses dias de espera fui visitá-la para lhe dar ânimo. É incrível como aos 92 anos se pode ter ainda tanta memória e vontade de conversar, ela tem apesar da debilidade física.

Eu cresci a ouvir que não devia falar da minha avó à frente do meu avô e vice-versa. Quando nasci já eles eram divorciados e seguiram as suas vidas incompatibilizados, por isso nunca vi os pais da minha mãe juntos. Não era muito normal ter avós separados, vi aquilo como um sinal de modernidade da família. Mas o tema era mesmo delicado, eu a minha irmã, os meus primos, todos crescemos a aprender que não se falava de um à frente do outro e na verdade isso nunca foi problema, acatámos com naturalidade.

 

O meu avô, a minha referência benfiquista em termos de memórias e histórias contadas de tempos que não vivi, cedo percebeu que o melhor desbloqueador de conversa com o neto era falar de bola em geral e do Benfica em particular. Vivia eu dias de encanto com o Benfica do jovem Sven-Göran Eriksson e já o meu avô apontava ali erros e defeitos porque a sua bagagem era "só" o Benfica Bi-Campeão europeu! Eu ficava irritado quando ele apontava defeitos ao treinador ou a Filipovic mas depois pensava que nem vinte anos antes ele andou a festejar conquistas de taças europeias e calava-me. É , aliás, o que mais me faz confusão nos dias de hoje em que uma boa parte dos benfiquistas critica treinador e jogadores como se há 20 anos também tivessem festejado conquistas europeias. Mas adiante.

 

 

Entre as muitas histórias que guardo com carinho, e vou contando quando me lembro, está a de Cádiz. Uma vez no auge do verão tinha o avô a jantar lá em casa, ainda não tinha começado a época futebolística e a RTP ia transmitir um jogo amigável do Benfica, coisa rara na altura.

O avô Alberto era homem de prezar a hora de jantar e não gostava nada de atrasos nem improvisos à hora da refeição. Disse-lhe com naturalidade que tínhamos de comer rápido ou virados para a televisão porque ia dar o nosso Benfica. Levei uma reprimenda que me surpreendeu porque julgava estar a brilhar com a minha sugestão. Então, ele explicou-me que jogos amigáveis não servem para nada. Se não há pontos, eliminatória ou troféu em disputa nem vale a pena sacrifícios que devíamos guardar para os jogos a serio que , basicamente, são todos os oficiais. Engoli em seco e perante o meu silêncio a seguir ao jantar e com um olho no jogo, pois claro, resolveu compensar-me explicando-me o que é são jogos que valem a pena seguir naquela altura de verão.

Foi aí que descobri que o Benfica tinha uma taça linda e gigantesca no seu museu, era o Troféu Rámon de Carranza. Mostrou-me a foto que ilustra este texto. A imagem estava na carteira dele em formato de calendário. Fiquei impressionado. Mas o melhor veio a seguir com a explicação que um troféu daqueles merecia uma deslocação a Cádiz para dar força ao Benfica. Juntou-se com uns amigos e no verão de 1963 foram para Cádiz buscar a taça. O ar perdido de riso com que contava a proeza estava carregado de uma expressão "ai se eu te pudesse contar a rambóia que aquilo foi". Mas ficámos pela vertente futebolística. Retive no fim um desabafo do tipo depois quando regressámos é que foram elas mas já estava fascinado com a taça e só pensava em ir vê-la à Luz. Fiquei também a saber que os espanhóis ficaram tão rendidos aquele Benfica que venceu a Fiorentina num torneio em que entraram também Valência e Barcelona, que convidaram-nos nos dois anos seguintes. Aí perdemos a final para Betis e Saragoça. Voltámos lá para ganhar novamente o torneio contra o Peñarol na final em 1971. Só uma equipa portuguesa, além do Benfica, venceu o torneio, foi o Nacional em 2012.

 

Emocionei-me há pouco tempo quando vi o Troféu Ramón de Carranza bem destacado e documentado no Museu. Vale a pena perder uns minutos a ver todos os detalhes. Nessa visita ao Museu contei à minha mulher esta história do meu avô e acrescentei o detalhe que já ouvi bem mais tarde na minha vida. Durante muitos anos a companheira dele, neste caso a sua terceira mulher que para mim foi sempre a sua companheira, desabafava que gostava de saber um dia como é que uns malandros se metem num carro para ir a Cádiz para ir ver um jogo de futebol, na verdade foram dois porque é um quadrangular, e estão uma semana sem aparecer nem dar notícias. Não havia internet, nem telemóveis e afins. Quando o confrontei com estes desabafos deu-me uma palmada nas costas, riu-se e disse: é o Benfica, filho!

O que eu não esperava é que a primeira mulher dele, a minha avó, portanto, um dia falasse do episódio de Cádiz. É que a coisa foi tão boa ou tão má que até ela soube da ida a Espanha para ver o Benfica. O comentário dela abanando a cabeça disse tudo: Imagino a bela viagem que foi...

 

Já não tenho fisicamente o meu avô desde 1999 mas fiquei com histórias destas para a vida e a avó Ilda aos 92 anos está aí cheia de força. Devíamos pedir ao Cádiz para voltarmos a participar no torneio.

 

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