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Red Pass

Rumo ao 38

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O Tempo das Mágicas 4ªs Feiras Europeias

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 Voltemos a 1987. Isto pode ser uma viagem com revelações chocantes para os leitores mais novos que só começaram a viver a paixão do futebol depois dos anos 80. Fica o aviso.

Tinha eu 13 anos e já carregava uma assinalável bagagem europeia, isto é, já tinha absorvido informação das provas da UEFA em grandes doses. Era o tempo das 4ªs feiras europeias, dias de sonho em que havia um número interminável de equipas em acção, já que se jogavam partidas da Taça dos Campeões, da Taça das Taças e da Taça UEFA tudo ao mesmo tempo, imagine-se! Eram os dias da rádio. A televisão só tinha papel principal quando transmitia algum jogo em directo, muitas vezes em modo de surpresa de última hora.

Nessa altura já eu tinha tido a sorte de ver duas meias finais europeias ao vivo e uma final disputada pelo Benfica na Luz. Juntando as boas prestações europeias desses anos à herança ainda bem fresca dos feitos dos anos 60, estava preparada uma explosiva atracção pelos jogos europeus.

 

Havia tanta vontade de saber mais sobre tudo o que acontecia nas provas europeias que qualquer publicação ou artigo dedicado eram logo consumidos. Foi assim que passei a brilhar em aulas de Geografia sabendo de cabeça o nome das capitais europeias, as cores de bandeiras de países menos falados e até um pouco de história dessas cidades. Uma boa campanha de um clube de um país menos desenvolvido fazia mais pelo mediatismo no estrangeiro do que os seus governos em anos. Descobrimos que existia um Videoton na Hungria quando foram à final da UEFA com o Real Madrid do Hugo Sanchez, os últimos suspiros do futebol de leste foram dados pelo Steaua de Bucareste, ficámos a saber que em Praga havia um Dukla com belas camisolas, entre muitas outras histórias.

Esta avidez de saber mais transformava-se em desejo que as equipas portuguesas fossem longe, assim os jornais iam acompanhando as campanhas e iam ensinado mais sobre o futebol de cada adversário. Vibrei com carreiras europeias do Vitória de Guimarães, Boavista, Belenenses e até do Chaves.

Quando o Sporting jogava em casa para as competições europeias eu ia ver os jogos, desde que o Benfica não estivesse a jogar ao mesmo tempo. Comecei por ir a Alvalade mais depressa às 4ªs feiras do que em dias de derby. Por lá vi grandes equipas como o Feyenoord, Real Sociedad, Barcelona, Sevilha, Inter de Milão, Nápoles, Colónia, entre muitas outras. Geralmente o Sporting fazia grandes jogos mas acabava eliminado. Na altura não ia para lá torcer contra o rival nem gozar com os amigos da rua onde vivia que eu acompanhava. Também não ficava deprimido. Hoje parece impossível mas naquele tempo ia para ver futebol, conhecer outras equipas de outros países, e se o os nossos rivais ganhassem eu não ficava chateado. Cada um daqueles jogos davam para semanas de conversa na rua e na escola. Eram noites mágicas.

 

O mesmo se passava com os jogos do Porto. Na altura a rivalidade suprema que existe hoje ainda estava a nascer. Conseguíamos ver os jogos do Porto desejando que passassem as eliminatórias. Claro que quando caíram com Wrexham houve risos mas nada da loucura que é hoje em dia.

Na campanha do Porto 1986/87, houve jogos que vi com mais amigos, nenhum do Porto, e todos festejámos as suas vitórias. Lembro-me de dois jogos à tarde, um na Dinamarca com o Brondby e outro em Kiev com o Dinamo. As prestações dos azuis foram tão empolgantes que ficámos felizes com o apuramento para a final. Quando o Porto vence a Taça dos Campeões a 27 de Maio de 1987 em Viena contra o Bayern o impulso no final da partida foi agarrar no bandeirão do Benfica que estava sempre na varanda e correr para a rua para festejar com mais pessoal que levava outras bandeiras de outras cores e abraçar o meu amigo Paulo que vivia uns prédios acima do meu e portista ferrenho. Foi uma festa que aconteceu um pouco por todo o país.

Eram tempos inocentes de puro gosto por futebol. Aos 13 anos ficava feliz com o sucesso de uma equipa portuguesa. Já uns anos antes tinha torcido por eles na final da Taça das Taças contra a Juventus e não achei piada à vitória de Platini

Curiosamente, foi esta vitória que acabou com estes tempos de festejos alheios.

Um ano depois o Benfica regressa à final da Taça dos Campeões mas perde nos penaltis para o PSV. Enorme desilusão que teimava em não passar.

No dia seguinte calha estar a ver o telejornal da RTP, só havia dois canais lembre-se, e numa peça mostrava-se como se viveu a triste final numa sala de hotel no Porto. Imagens de uma plateia em silêncio na altura dos penaltis até que quando Veloso falha vê-se (e ouve-se) duas pessoas a explodir de felicidade com a vitória holandesa. Não eram holandeses.

Fiquei chocado e comecei a perceber que aqueles dois não eram os únicos. Ficámos a saber que muito se festejou entre portistas a derrota do Benfica. Foi uma desilusão e foi como que entrar já para idade adulta como adepto de futebol. A partir desse dia nunca mais festejei sucesso nenhum alheio. De 1988 até hoje muito se jogou e muito se passou. Hoje já ninguém acha estranho os rivais festejarem as derrotas europeias uns dos outros, até se torce muito para que isso aconteça. Mas nem sempre foi assim. No meu caso foi por causa de uns portistas em 1988. Felizmente, uns meses depois foram jogar com o PSV e levaram 5 em Eindhoven. Foi a minha primeira grande alegria alheia do tempo pós-inocência.

Hoje espero que o Bayern seja feliz.

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