O Nosso Homem Que Falou de Eusébio na CNN - Duarte Mendonça
Duarte Mendonça tem 29 anos, vive em Londres e trabalha para o famoso canal de televisão CNN. Há dias divulguei um artigo que o site da CNN publicou sobre a morte de Eusébio. Era da autoria do Duarte. Ficou a curiosidade para conhecer melhor o jornalista. É benfiquista, tem um blogue sobre música e cinema, ... tão simples quanto isso, e aceitou sem hesitar partilhar um texto pessoal sobre o seu benfiquismo, a sua admiração por Eusébio e a sua experiência de há um ano quando veio fazer a cobertura do funeral do Rei.
Aqui fica um texto especial no dia que se assinala um ano sem Eusébio, Duarte Mendonça da CNN para o RedPass.
Quando aceitei o convite do João para escrever sobre o Eusébio, uma das primeiras coisas que comecei a pensar foi como abrir o texto. Era importante, como é sempre que se põe palavras no papel (ou neste caso no Word), cativar o leitor logo de inicio.
Não sei porquê, não consegui passar do “Faz hoje um ano que o King nos deixou”, algo que simplesmente me recusei a escrever. Porquê? Porque é mentira!
Sim, o corpo do Eusébio já não se encontra entre nós, mas o seu espírito e legado continuam bem presentes... Arrisco-me até a dizer que hoje mais do que nunca, por ser aquilo que mais nos aproxima daquilo que o Sport Lisboa e Benfica é (ou deveria ser) para os adeptos. Pelo menos é assim que sempre o vi.
A minha paixão pelo futebol começou a desenvolver-se muito tarde.
Estávamos em 1994, tinha eu dez anos e estava no café ao virar da esquina da minha casa a ver o Benfica – Sporting. Sim, esse mesmo... o jogo dos 6-3. Que belo presságio diriam muitos...
Aquilo que começou como mera curiosidade desportiva, rapidamente começou a desenvolver-se em algo de proporções épicas. Com o decorrer dos anos tornei- me num adepto fervoroso, com camisola do João Pinto vestida, cachecol ao pescoço e o meu próprio lugar no antigo Estádio da Luz. Mais do que um passatempo, futebol – e o Benfica – tornara-se um componente completamente intrínseco da minha personalidade. Tinha adoptado toda uma cultura que até hoje está muito presente na minha vida.
Muitos hão de pensar que foi durante esta transformação que comecei a descobrir mais sobre o clube e as suas figuras emblemáticas. Mas não. Muito antes de sequer acompanhar jogos na televisão, já tinha ouvido falar do grande Eusébio da Silva Ferreira. Calculo que não leiam isto com grande surpresa, afinal de contas, o seu nome ia muito para além do desporto em que nos brindou com a sua qualidade monumental.
A minha geração infelizmente não o viu jogar, mas tivemos a felicidade de ter acesso a vários documentários, reportagens e vídeos no YouTube que de certa maneira tornaram a sua carreira quase tangível para pessoas como eu.
Mas foi na passagem de testemunhos de familiares e amigos que realmente conheci, não só o jogador, mas igualmente o homem. Várias foram as histórias partilhadas... umas de teor pessoal e vividas na primeira pessoa, outras contadas de um jeito como quem está a relatar uma lenda antiga, cheia de mística e mistério.
Certo e sabido, senti-me na obrigação de saber mais sobre um ícone, que embora muito associado ao Benfica, era adorado pelo povo Português. O seu lugar na história é inegável... Da mesma maneira que aprendemos sobre figuras incontornáveis da nossa nação como o D. Afonso Henriques, Camões e Fernando Pessoa, também Eusébio faz parte de uma elite que elevou Portugal ao “topo da montanha”.
Podemos questionar e debater o grau de influência, mas nada poderá ofuscar o seu papel na nossa cultura.
Inevitavelmente, ocorre-me sempre um dos períodos, considerado por muitos como sendo um dos mais negros da nossa história. Período esse que remonta para a ditadura liderada por António Salazar durante quase meio século. Apenas aquilo que era conhecido pelos “três F’s” – Fado, Futebol e Fátima - era capaz de distrair e animar as massas durante o período de censura e opressão.
Para todos os efeitos, o homem conhecido por Pantera Negra, continua a ser – mesmo depois da sua morte - o expoente máximo desse desporto que tanto tem vindo a contribuir para que o nome da nossa nação seja evocado pelo mundo fora. Se houve um período que tenha testemunhado o peso do seu nome numa escala global, foi precisamente há um ano atrás.
Lembro-me perfeitamente de receber uma chamada do escritório pedindo-me para viajar com urgência para Lisboa de forma a cobrir a história da morte do Eusébio. Completamente incrédulo com o que se tinha acabado de passar, dei por mim a batalhar um misto de emoções. “Ora amargo, ora doce” como diziam os Ornato Violeta em “Ouvi dizer”...
Se por um lado estava incrivelmente triste com a noticia, por outro senti-me privilegiado por ter a oportunidade representar a CNN num evento de tamanho significado histórico e cultural, no qual uma grande parte de mim estava emocionalmente investida.
No dia do funeral, enquanto procurava dar prioridade às minhas tarefas de âmbito profissional, dei por mim igualmente presente na capacidade de adepto. Quero frisar que quando digo adepto, não o digo como sendo do Benfica, mas antes adepto do Eusébio, homem que mesmo num dia que deveria ser trágico, foi capaz de unir pessoas de vários clubes na celebração da sua vida e carreira. Isso só por si ilustra (e de que maneira!) a sua grandiosidade, cujo o mundo decidiu manifestar respeito e admiração através de uma abundância de tributos.
E volvido um ano, hoje, 5 de Janeiro 2015, denoto que essa experiencia continua acerrimamente vincada na minha memoria, da mesma forma que suponho na memoria de todo um Pais que atravessou, unido, esse período de luto. Luto que mais tarde se transformou em tributo e tributo em celebração.
Hoje, festejamos a herança que nos foi deixada. As alegrias, os títulos, os feitos... fossem eles de águia ou quinas ao peito.
Admiramos a magia, garra e determinação em cada partida. O fino trato da bola de futebol. O petardo de pé direito. A celebração efusiva de cada golo. As palavras de apreço pelo adversário. O fairplay constante. O sorriso fácil. Agradecemos a inspiração e influencia exercida sob vários jogadores espalhados pelo mundo, onde entre eles encontramos outro nome sonante que para os lados da imortalidade caminha: Cristiano Ronaldo.
Recordamos o impacto e a ressonância de toda uma vida e carreira que dispensam textos como o meu, porque não há palavras suficientes que lhe façam justiça.























