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Red Pass

Rumo ao 37

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Benfica 2 - 0 Vitória de Guimarães: Jonas nasceu dia 1 de Abril porque é demasiado bom para ser verdade!

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 Lembro-me que em 1990 fiquei eufórico com os 33 golos que o grande Mats Magnusson fez no campeonato 1989/90. Era a confirmação da tradição de um clube alimentado por grandes goleadores da história do futebol. Isto só para servir de termo de comparação com os dias de hoje, no último dia de Março de 2018, Jonas iguala os 33 golos do sueco com toda a naturalidade. É o melhor jogador estrangeiro que já vestir a nossa camisola. Uma lenda em movimento, um privilégio assistir aos seus jogos, uma epifania inesperada quando chegou à Luz a preço zero.

Está de parabéns hoje, faz 34 anos e faz todo o sentido que tenha nascido no dia 1 de Abril porque é demasiado bom para ser verdade. Este pensamento recolhi das redes sociais que vibram com os feitos do nosso Jonas Pistolas. 

Isto leva-me a perguntar o que é se passa com cerca de 10 mil benfiquistas que tinham entrada garantida na Luz e não apareceram nem passaram essa oportunidade para terceiros. Que não possam ir ao estádio eu entendo mas é inaceitável que não tenham o cuidado de emprestar o cartão a alguém. Nem que seja só para ver o Jonas ao vivo.

 

O jogo com o Vitória não foi nada fácil. A vantagem de Rui Vitória nesta fase do campeonato é ter encontrado um "11" forte e equilibrado que tem repetido quase sempre nas últimas sete partidas. A equipa acaba sempre por conseguir achar o caminho do golo mesmo que tenha apanhado valente susto com um golo anulado por fora de jogo e confirmado pelo VAR. 

Foi preciso esperar pelo final da primeira parte para ganhar um penalti por mão na bola de um adversário que o árbitro não viu mas teve que rever por causa do VAR. É justiça poética que na parte decisiva da prova o VAR seja assim decisivo no Estádio da Luz, confirmando-se que o Benfica seria prejudicado que não houvesse tecnologia, como não houve nas últimas quatro temporadas. 

 Jogar na Luz a meio de uma quadra festiva como é a Páscoa, num fim de semana alargado, proporciona um ambiente diferente na Luz com muitas famílias no Estádio imunes à campanha de destruição do futebol que se verifica todos os dias um pouco por todo o lado. Na Luz respira-se Benfica, os benfiquistas só querem saber da sua equipa, dos seus jogadores, dos seus ídolos e acreditam totalmente no trabalho que o futebol do Benfica. E isto é um pequeno milagre que está a acontecer porque se formos pelo "trabalho" que tem sido feito fora do Benfica por todos os agentes envolvidos na competição o estádio já devia estar vazio. A conclusão é que o Benfica é muito maior que o futebolzinho português todo junto. Algo que já desconfiava mas que agora assume relevo de facto.

 

É aqui que entra em acção o papel dos benfiquistas no estádio. Com o resultado num perigoso 1-0 durante a segunda parte, os adeptos reagiram dando energia extra à equipa. Cânticos fora dos topos, resposta à altura contra a claque do Vitória e uma motivação que levou o Benfica a fazer o 2-0 e mais um momento de magia. Raul Jimenez confirma-se como o melhor suplente do mundo, entra sempre com alegria de um miúdo que vai fazer a sua estreia e trazia um sonho por realizar. Um passe de letra para a cabeça de Jonas ali na Baliza Grande. Um momento para marcar este campeonato.

 

Além de ter o "11" bem organizado, Rui Vitória tem do seu lado o facto de ter um plantel recheado de campeões que sabem o que é preciso realmente fazer nestes últimos meses de competição. Ter no banco de suplentes homens como Luisão, Raul, Samaris ou Salvio, é um luxo que pode ser determinante para esta recta final de campeonato. 

Sente-se que o Benfica está forte e como tal também deve incomodar todos os envolvidos na campanha mais negra contra o futebol que já se viu em Portugal e que julgavam ser suficiente para matar o Tetra Campeão.

Estamos vivos e estamos na luta. 

E temos Jonas!

 

Feirense 0 - 2 Benfica: Vitamina R de Raul e Rafa

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 Tudo ao contrário mas com final feliz para os campeões. Vou deixar a conversa do medo cénico para outra altura. 

Começo antes pelo mundo ao contrário. Mandaram poucos bilhetes, avisaram que não queriam benfiquistas sem ser na bancada visitante, ordenaram que não se entrasse com adereços do Benfica no estádio (em 2018!), o relvado deu polémica durante a semana. 

Enfim, na semana em que recebem o clube que arrasta a maior multidão em Portugal, o Feirense só levantou problemas. À conta disto, muitos companheiros ficaram a ver o jogo em casa apesar da enorme vontade em seguir viagem para apoiar o Benfica. 

O grupo em que eu ia esteve até à última da hora sem saber se tinha bilhetes para ver o jogo. Só estipulei um limite, não pagar mais para ver o Benfica na Feira do que paguei há um ano em Dortmund. Uma questão de principio. 

Muitos contactos depois acabámos por arranjar entradas para todos. Tudo entre benfiquistas, de benfiquistas para benfiquistas. De tal maneira que acabámos por não dar nem um euro ao Feirense já que entrámos todos com convites. Ou seja, um grupo de cinco adeptos dispostos a pagarem um preço justo para ver mais um jogo do seu clube acabou por ver a bola de borla. O Feirense que tire as suas conclusões.

Além disto, garanto que a bancada central em frente aos bancos de suplentes era quase toda do Benfica como se viu nos golos. 

Podem não gostar, podem não querer, podem achar que vão conseguir mas vão mesmo ter que levar connosco em todo o lado. O apoio nunca falta, custe o que custar. 

 

Outra lição do dia, vocês, feirenses, não gostam de futebol. Gostam de odiar, gostam de outra coisa qualquer mas de futebol não podem gostar. A maneira como trataram o Jonas, o melhor jogador que já pisou o vosso mal tratado relvado nas últimas décadas, diz tudo sobre o respeito que têm pelo jogo. 

 

Nesta última viagem ao norte da época 2017/18 o roteiro gastronómico levou-nos a um restaurante de ambiente familiar perto do centro de Santa Maria da Feira. O espaço chama-se Sabores do Campo, o atendimento é simpático e honesto. Apostámos tudo numa arroz de fumeiro divinal que acompanhou rojões, costeletas e nacos à moda arouquesa. Vinho tinto da casa e branco fresco para acompanhar. Entrada com uma tábua de petiscos bons. 

Sobremesa de queijo da serra, broa e ainda um reforço de tinto, desta vez um Bons Ares.

A deslocação estava ganha. Almoço de qualidade superior e convivio à Benfica.

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Quanto ao jogo, foi uma surpresa agradável a maneira como o Benfica encarou o jogo. A intensidade logo no arranque, a pressão, a procura do golo, empurrar o Feirense para a sua baliza. Sentiu-se sempre que estávamos perto de marcar mesmo que a bola não tenha entrado na baliza na primeira parte. 

Aquela jogada do Rafa pelo meio que acaba com a bola a bater no poste era o prenúncio do que aí vinha na 2ª parte.

Rui Vitória optou por tirar Grimaldo, já com amarelo, e lançar Raul Jimenez com o Feirense com menos um jogador devido a expulsão. A decisão foi a mais acertada e rapidamente Raul mostrou ao que vinha. O Benfica fez o 0-1 e afastou todos os fantasmas de sorte e azar.

O 0-2 foi um golo que Rafa devia a si próprio para carimbar mais uma boa exibição como titular do Benfica.

Foi uma exibição forte e convincente com o Benfica a marcar posição quanto ao seu objectivo.

O apoio foi o de sempre, ver os adeptos azuis a saírem das bancadas antes do jogo acabar deu um gozo muito especial.

Última viagem ao norte carimbada com uma bela vitória e viagem tranquila. Como deviam ser todas. 

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 Continuamos na luta.

Quer gostem ou não. 

 

 

 

 

 

Benfica 2 - 0 Aves: Pessoal, Que Desprezo é Esse?!

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Na época de todos os ataques contra o Sport Lisboa e Benfica, numa escala nunca vista em Portugal, a sua equipa de futebol voltou a dar uma demonstração de grandeza e de como nada disto bate certo. 

Se o Benfica criou um sistema que lhe facilita a vida no futebol para ganhar mais que os outros porque é que eu aos 70 minutos de um jogo com o Aves em casa estou a ficar sem fome, apesar de não ter almoçado, estou a vislumbrar insónias, apesar de me ter deitado tardíssimo por causa do Lisboa Dance Festival e ter madrugado no dia jogo? 

O golo de Jonas aos 71 minutos foi arrancado a ferros, foi mais uma jogada só possível pela qualidade superior do nosso "10" mas também pelo remate de Fejsa e pela insistência de Cervi.

Se o Benfica tem a vida assim tão facilitada porque é que sofremos tanto? 

Eu dou a resposta, porque ninguém nos dá nada! Ninguém facilita nada contra o Benfica. 

Numa realidade paralela que foi sendo construída desde o título de 2014 e elevada a uma dimensão gigantesca no verão de 2017, o Benfica é um malandro que só ganha porque controla tudo e todos. 

Na realidade, tal como ela é, eu sou um adepto que nos últimos quatro anos tenho visto a maior parte dos jogos do Benfica nos estádios e posso garantir que a maioria deles foi ganha na raça como este com o Aves. 

 

Neste contexto permitam-me que expressa a minha revolta por ver os adeptos do Benfica na Luz alheados da realidade. 

O jogo termina, sofremos juntos mais de uma hora com um empate a zero, pensámos mil um cenários até aparecer essa entidade superior chamada Jonas, vibrámos com mais um golo do nosso Rúben Dias. Vivemos os últimos minutos aliviados, com o sentimento que o fim de semana estava a correr lindamente, com vontade de ir jantar com amigos e fazer planos bonitos em família para domingo. Tudo porque o objectivo principal estava cumprido.

O jogo termina, os suplentes e a equipa técnica entram em campo para celebrar com os 11 jogadores que terminaram a partida. Felizes, aliviados e com vontade de agradecer a presença e o apoio de mais de 50 mil adeptos na Luz. Mas quando olham para as bancadas, enquanto arranca o "hino" a imagem é desoladora. A maior parte dos benfiquistas já estão do lado de fora do estádio, muitos dos que ainda lá estão nem olham para o relvado e dirigem-se cheios de pressa para as saídas. Isto enquanto os nossos homens, juntos, aplaudem os poucos que ainda lá estão.

Isto não devia ser assim. Não pode ser assim. Os benfiquistas deviam esperar mais uns míseros minutos para aplaudir e agradecer o esforço dos nossos, mostrar-lhes que estamos juntos. Não é nas hashtags das redes sociais que a coisa funciona, isso é realidade paralela. 

É um gesto cultural, educacional até. Ficar mais uns minutos depois do fim do jogo e respeitar a saída dos homens que carregam a felicidade dos nossos dias naqueles pés. 

Eu não acho piada nenhuma aqueles rituais da moda que obrigam os jogadores a irem a vários pontos dos estádios fazer coreografias de plástico e importadas de outras paragens como suposto agradecimento aos seus adeptos. Dispenso isso tudo. Apenas peço que a equipa tenha a dignidade de se juntar, olhar para as bancadas e de cabeça bem levantada agradeça a presença e apoio. Nada mais. E até estou bem à vontade para falar disto porque já tenho aqui criticado ocasiões em que os jogadores se esquecem dos seus adeptos e saem apressados. 

Aqui é ao contrário, na Luz despreza-se aqueles minutos de felicidade e de alivio que faz com a nossa vida seja melhor até aos próximos 90 minutos.

Desculpem o desabafo mas não consigo mesmo entender.

 Quanto ao jogo, agora é fácil dizer que Rui Vitória devia ter começado com um esquema de 4-4-2 com Raul no lugar de João Carvalho. Não sei se a equipa técnica durante a semana chegou a ponderar essa mudança, sei que nós enquanto observadores e adeptos passamos muito tempo a pensar no futebol da nossa equipa e equacionamos todas as hipóteses. Mas mesmo que se defenda esta alteração por ausencia do Pizzi há sempre bons argumentos para sustentar a continuidade do 4-3-3. Desde logo uma nova oportunidade a João Carvalho e, a mais forte de todas, é que tem resultado bem e até serviu para golear o último adversário. 

Desta vez, o muro do Aves foi mais resistente e o futebol dinamico construído pelas alas não estava a chegar para colocar problemas a Adriano. A defesa do Aves esteve muito confortável com o 4-2-3-1 de José Mota. 

Foi mesmo preciso recorrer a Raul Jimenez para abrir o ataque do Benfica e dar mais garra também. Foi tudo construído em tempo útil, a partir dos 70 minutos é quando entramos ali na zona vermelha das emoções, portanto, o 2-0 feito na recta final do jogo é justo. 

O que nos faz sair da Luz de cabeça levantada é o sentimento que sofremos muito para ganhar 3 pontos. Só com a nossa qualidade e luta. Sem truques de golos para lá do tempo, sem VAR's, sem lances polémicos, sem protagonismo de árbitros e terceiros. Esta é a realidade. 

E isto nao deve ser desprezado, caros companheiros de bancada. Nem que fosse só por estarmos a ver a evolução de uma Lenda chamada Jonas ao vivo. 

 

Benfica 5 - 0 Marítimo: Serenata à Chuva de Jonas na Baliza Grande

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 Olá, somos o Marítimo e viemos à Luz descansados da vida. Já não lutamos pela Europa, também já não corremos o risco de descer. Viemos de um ciclo mau de vários jogos a perder mas demos a volta na Vila das Aves e na recepção ao Vitória de Guimarães e, por isso, chegamos ao maior estádio de Portugal tranquilos, sem pressão e com tudo para proporcionar um jogo agradável. 

O primeiro trunfo que temos para lançar neste fim de tarde invernoso no Estádio da Luz é escolher o campo obrigando o Benfica a quebrar a tradição de atacar primeiro de sul para norte. Foi uma rábula que aprendemos com aquele clube de um Presidente que faz muito barulho e já se despediu deste campeonato, tal como de todos os outros desde que chegou. É engraçado porque chateamos logo o adversário e irritamos os adeptos nas bancadas que ligam a estas parvoíces. 

 

Olá, eu sou o Jonas e sou um dos melhores jogadores que a maior parte dos adeptos do Benfica no Estádio da Luz viu jogar pelo Glorioso. Sei ser um ídolo, sei prestigiar a camisola 10 que visto e estou aqui para fazer história em todos os jogos em que entro. Já estou cá há tempo suficiente para saber que na Luz saímos sempre a atacar para a baliza norte, uma tradição que vem de longe. Não acho piada nenhuma quando recebemos adversários que não respeitam a ordem natural da vida. 

Por isso, aviso já que hoje despacho isto tudo logo na primeira parte com um hat trick na baliza grande só por causa das tosses. Vão levar cinco nas calmas para aprenderem a não serem parvos. Pode ser que na próxima visita não se armem em esverdeados.

 

Foi esta a história deste Benfica - Marítimo sob chuva impiedosa e que o Benfica só podia ganhar para manter a perseguição ao primeiro e descolar do terceiro classificado. O onze voltou a ser o mesmo da última jornada e respondeu muito bem com uma primeira parte de encantar culminando com um santo 4-0 ao intervalo.

A segunda parte foi para sentir a tal monotonia maravilhosa daqueles jogos em que a bola rola em modo de piloto automático sem que os adeptos se preocupem com mais nada, sem a menor possibilidade de nos estragarem o resultado final. 

Queria destacar o festejo do Jonas à espera do André Almeida de joelhos para lhe massajar o pé. O André não deixou, chegou ao pé do "10" e levantou-o para o abraçar, ali na nossa frente. Isto é o André Almeida. À Benfica. Também gostei do festejo com um circulo de jogadores sentados e Grimaldo a distribuir jogo. Estas exibições só trazem vantagens, animam quem joga, descansam quem vê e até permite que aquela malta que paga bilhetes e Red Passes só até aos 80 minutos possa sair do estádio ainda mais cedo. A tribo que vai à bola em sofrimento, que mal começa o jogo e começa a pensar a que minuto é que foge dali.Esteja 5-0 ou 1-0. É igual. 

Boa jornada, boa exibição, bom resultado, Pizzi viu um cartão amarelo que o faz descansar contra o Aves na próxima semana também na Luz, ninguém se lesionou.

Enfim, isto devia ser sempre assim. Mas com o adversário a respeitar as ordens de ataque na Luz. 

Bento partiu há 11 anos!

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Sexta-feira, 2 de Março de 2007

O NÚMERO 1 - BENTO

Quando digo que é um choque receber a notícia da morte de Bento estou a falar de um sentimento forte, e que mistura um sentimento de culpa, e uma tristeza enorme. Não é o drama de perder um familiar, é a impotência de vermos um ídolo partir. O sentimento de culpa é porque penso que morreu um homem que tanto influenciou a minha vida, e eu acabei por nunca lhe dizer isso pessoalmente, nem nunca lhe prestei o devido tributo. Nem eu, nem o nosso clube. Bento merecia uma enorme homenagem por parte de todos nós. E essa homenagem haveria de acontecer mais ano menos ano, porque ele estava vivo, trabalhava no clube, e numa altura especial haveríamos todos de fazer uma grande festa ao Bento com livros editados, dvd’s publicados, e ofertas que o iriam sensibilizar. O destino antecipou-se e levou-o antes de tudo isso.

Não quero dizer com isto que Bento tenha sido mal tratado pelo clube, nada disso! Antes pelo contrário, Bento ficou no plantel do Benfica até aos 42 anos de idade, o clube manteve-o mesmo depois da lesão do México. E até anteontem o podíamos ver a treinar os mais novos na Luz. Só que este homem merecia algo à altura da grandeza dele.

Bento foi o Eusébio da baliza encarnada. Eu estimo muito o Pantera Negra, mas nunca o vi jogar, enquanto que, para mim, o Bento confunde-se com o próprio Benfica.
Eu nasci em 1973, Bento chegou à Luz, vindo do Barreirense, em 1972. A estreia foi em Faro a 22 de Abril de 1973, dois dias antes do meu nascimento. Ou seja, eu nasci já o Bento era o nosso guarda redes!
Mas nessa altura a baliza encarnada era de José Henriques, e Bento teve que esperar pela época de 1976/77 para ganhar a titularidade definitiva. 
Eu comecei a viver o Benfica quase no berço, o padrinho da minha irmã ia sempre à Luz, eu ainda hoje vivo bem perto da Catedral e por isso comecei a acompanhá-lo. Depois, havia o meu querido avô que vibrava como ninguém com o Benfica, e que desde sempre simpatizava com a irreverência do Manel. Bem influenciado foi com naturalidade que comecei a olhar para tv quando o Benfica jogava, e tinha eu 4 anos quando uma imagem me marca para sempre. Estávamos em Setembro de 1977 e o Benfica jogava a 2ª mão de uma eliminatória da Taça dos Campeões em Moscovo. Depois de dois empates a zero, com Bento a defender tudo o que o Torpedo chutava, o jogo foi até aos penaltis. Bento defendeu o primeiro, o segundo foi para fora, o terceiro entrou, entretanto o Benfica tinha marcado todos. Quem é que quis ir lá marcar o 4º, e decisivo, penalti? Manuel Bento, claro! Chegou lá e não falhou.
Aos olhos de uma criança de 4 anos é uma loucura, um guarda redes que defende tudo, e ainda marca golos?! Estava encontrado um ídolo admirado por muitos e muitos anos.

Depois foi crescer, aprender o que é o Benfica, estar cada vez mais perto do clube, ver centenas de jogos na Luz e ter sempre uma âncora: Bento. 
Para mim não havia dúvidas, o Benfica começava no número 1, o resto vinha por acréscimo. Daí até querer seguir os passos do capitão foi um tirinho. Na altura as nossas brincadeiras resumiam-se a jogar à bola de manhã à noite na rua. Eu não hesitava, a baliza era minha. Isto é, o espaço entre dois calhaus no chão era meu. Como não podia deixar crescer o bigode, e não tinha caracóis tinha que adoptar outra característica para mostrar a minha marca Bento. Então lá andava eu a defender sempre com os braços em arco bem afastados do corpo e ligeiramente inclinado para a frente, imitando na perfeição aquele jeito castiço que Bento tinha quando caminhava. E, claro, as grandes birras com a minha mãe para ela me comprar a camisola Adidas azulada que o Galrinho usava. Consegui convencê-la.

Discussões com os amigos naquela altura eram inúteis, eu tinha o Bento não havia maneira de não os calar sempre. Uns atiravam com o grande Manel Fernandes, ou Jordão, outros idolatravam o grande Gomes, mas eu nem precisava de avançar no terreno e evocar Nené, ou Filipovic, ou Maniche... Não era preciso, para os grandes avançados dos rivais uma palavra: Bento. E pronto, acabava a discussão sobre melhores e piores.
Que melhor incentivo, e lição de garra, pode ter um miúdo de 9 anos ao ver como Bento reagiu a um toque de Manel Fernandes em Alvalade com o resultado em 1-1? Estava ali tudo o que um puto precisa de saber. Se estou deitado com a bola na mão, e o adversário me pisa, mesmo que por acidente, um gajo tem é que se levantar e ir atrás dele e aviá-lo logo ali! Mais nada. Ok, foi para a rua e perdemos 3-1, mas a lição estava dada. Pelo menos comigo funcionou, nunca mais deixei de mostrar os meus argumentos físicos em qualquer confronto.

Ter o Bento na baliza era um descanso de valor incalculável. Os jogos sucediam-se e raramente o via a ir buscar uma bola ao fundo das redes. Na Luz passava muito tempo a olhar para ele quando o jogo estava no outro lado do campo. Bento não parava quieto, corria o tempo todo de um lado para o outro na sua grande área. Estava a aquecer, aprendi eu com os jornalistas da altura. Isto para quando fosse preciso estar preparado para defender. E resultava. Nunca mais vi um guarda redes a aquecer daquela maneira durante os jogos. A maneira como batia com as chuteiras contra os postes da baliza para tirar a terra era única. Eu queria usar chuteiras só para poder imitar aquele movimento.
Depois havia uma imagem de marca espectacular. A maneira como Bento lançava ataques colocando a bola onde queria, no companheiro que queria só com a força do braço e perícia da mão. Os lançamentos à mão do Bento eram impressionantes. Nunca mais voltei a ver tal coisa. Da mesma maneira que um pontapé de baliza dele quase sempre resultava em ataque nosso.
Depois havia os recitais entre os postes, e fora deles. Saltava mais alto que todos, atirava-se para os lances mais confusos com uma convicção incrível. E nos penaltis tínhamos sempre grande esperança que ele fosse lá buscá-la. 
Há um penalti na Luz a favor do FC Porto que podia dar a vitória aos azuis. Gomes vai marcar. É preciso dizer que Gomes foi o melhor ponta de lança português que eu vi jogar, por isso quando o via a correr para bola o meu coração quase que parava. Bento defendeu, e como se não fosse nada com ele preocupou-se logo em lançar a bola para o contra ataque. 

Bento tinha tanta classe que até nos golos sofridos era uma figura! A imagem era sempre a mesma, um golo sofrido por Bento significava que nos segundos a seguir íamos ter direito a grande correria do nº1 em direcção ao fiscal de linha, ou do árbitro, ou do primeiro companheiro de equipa que apanhasse à frente. A culpa nunca era dele. Nunca! E não era mesmo.
Porque quando a culpa era do Bento então aí era coisa em grande, à séria. Das raras vezes que resolvia enterrar eram momentos épicos de tão raros. Pela Selecção levou 5 da União Soviética em Moscovo. Foi da alimentação. Em Anfield Road levou 3 do Liverpool. Foi da iluminação. Na Luz levou 4 do Liverpool. Bem aí foi do... Rush!
Só que no jogo a seguir, não só recebia monumentais ovações do 3º anel, como rubricava fabulosas exibições. Essas são as mais fáceis de serem lembradas; Estugarda, França’84, o jogo que fez no México 86, na Escócia pela Selecção, em Roma, muitas nas Antas, muitas em Alvalade, e quase todas na Luz.

A minha primeira duvida existencial aconteceu aos 11 anos. Convenhamos que aos 11 anos nenhuma criança tem dúvidas existenciais. Pois bem, eu tive e confrontei a minha mãe com ela. Perguntei-lhe uma noite antes de adormecer, e depois de mais uma tarde gloriosa passada na Luz, o que ia acontecer ao Benfica quando o Bento deixasse de jogar?! Ninguém me soube responder. Fiquei sempre com essa angústia no meu subconsciente. O meu problema não eram os anos seguintes, sim porque eu sabia que o Bento ia durar até eu ser adolescente, ele não se lesionava, muito raramente ele perdia um jogo. Para mim era tão natural ter o Bento em campo como estarem lá as balizas, ou os postes com as bandeiras dos clubes a jogar atrás da baliza. Mas quando ele saísse?!
Assim foi uma forma de me preparar para esse dia, nunca me tinha passado pela cabeça como seria depois de ele morrer. Isso nunca me passou pela cabeça.

A verdade é que em 1986 ele tem a lesão, até aí foi coisa em grande. Uma lesão a sério, à Bento! Pé partido. Pronto, estava levantado o drama.
O Benfica tal como eu o conheci, e como me foi apresentado tinha acabado, porque esse era o “Benfica do Bento”. A partir daí foi assistir ao esvaziamento da tal mística benfiquista, e ver a baliza encarnada desprotegida. Ver o Silvino a titular não fazia sentido. O Silvino jogava no Setúbal, e no Aves!! Como era possível ir para o lugar do Bento?! O Neno era bom moço, mas também não convencia. Esses dois juntos não faziam um Bento. E depois? Ver o Bossio naquele lugar dava vómitos. O único que dignificou o nosso nº1 foi o belga Preud’Homme. Mas não foi melhor que o Bento, nem pensem nisso! O Bento foi o melhor, e o único à sua altura foi o Damas.

Sorte tem o meu avô que agora tem do lado dele os dois melhores guarda redes que eu vi jogar, só que os derbies que vão fazer do outro lado vão todos acabar zero a zero. Com o Bento a protestar muito.
Muito obrigado por tudo Bento, até sempre.

Paços de Ferreira 1 - 3 Benfica: Nem o anti Jogo do Veríssimo Resistiu à Revolta dos Campeões!

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Que jornada épica de benfiquismo. Depois da ida ao Algarve, há duas semanas, regresso às viagens até ao norte do país. 

Comecemos pela parte mais pessoal que é a viagem entre amigos. Saída de Lisboa pelo meio dia e paragem combinada para um almoço de sábado que abria muitas expectativas. Desta vez, o destino foi Palmaz. Antes de Oliveira de Azeméis e pelos caminhos tortos entre árvores junto ao rio Caima. Em Palmaz, a recepção entusiasmada, amigável e carinhosa que as gentes do norte tão bem sabem proporcionar. O restaurante Café Convívio tem uma belíssima vista e uma oferta gastronómica maravilhosa.

O vinho verde à pressão e o tinto da casa, ambos muito eficazes na arte de acompanhar pratos que merecem um lugar de destaque na nossa vida só por existirem. Carne de Vitela do outro mundo, daquela que se desfia quanto cortamos e com um sabor incrível, um polvo à lagareiro dos melhores que já provei e um bacalhau, que confesso envergonhadamente que não cheguei a provar tal foi o tratamento que dei à Vitela e ao polvo. 

Dezenas de benfiquistas à mesa, em Palmaz, distrito de Aveiro, a deliciarem-se com a gastronomia local, a conversarem sobre o que os une nesta vida, gente que vem um pouco de todo o lado, amigos do dia a dia, aqueles que só vemos por causa do Benfica, companheiros que conhecemos por causa destes convívios, outros que são do norte e até um grupo motivado pela despedida de um companheiro que vai ter que abdicar destes dias históricos por força de ir viver para o outro lado do mundo, um grande abraço ao J.M.. 

 (clicar para ver mais)


Com o objectivo de almoço cumprido, a viagem entre Palmaz e Paços de Ferreira fica fácil de fazer. Passa num instante aqueles quilómetros até à Capital do Móvel. 

Chegar cedo, ainda com a luz do dia, ir conviver até ao espaço de restauração junto ao Estádio, na prática falo de uma concentração de roulotes, reencontros com mais benfiquistas, beber umas cervejas, conversar, sentir o nervosismo do jogo a chegar. 

O Estádio Capital do Móvel, para mim será sempre Mata Real, cresceu e modernizou-se bem. Três bancadas cobertas, uma nova e para meu azar, outra de condições precárias que é sempre onde tenho de ficar. 

 

Vamos ao jogo. 

Começou mal. A entrada do Benfica não foi convincente a entrega dos jogadores do Paços estava no nível máximo oposto do que vimos os do Estoril fazer a meio da semana e adivinhou-se logo muitas dificuldades para o Benfica.

Para complicar mais o cenário, o Paços de Ferreira faz um golo construído pelo lado esquerdo da defesa do Benfica, que tem sido o sector mais promissor.

Com o Paços a ganhar, o Benfica a não conseguir impor o seu jogo, com a bola longe da área do Paços começou a apareceu um terceiro elemento no jogo que me surpreendeu pela lata evidenciada.

Quem me lê sabe que raramente perco muito tempo com árbitros. Pois bem, hoje sou obrigado a dedicar um bom trecho a este Veríssimo.

Já me aconteceu sair de estádios com aquela sensação inútil de ter sido prejudicado pela arbitragem. Já aconteceu a todos os adeptos de futebol, acho eu. O que nunca me tinha acontecido foi sentir que estava ali um tipo que, teoricamente, só tinha de ser isento, mas que tirou a noite para gozar com a minha cara. 

Falo do sorriso com que olhava em volta enquanto o Rafael Defendi perdia tempo a bater todo o tipo de bolas paradas, por exemplo. Aliás, o brasileiro acabou o jogo sem ver um cartão amarelo e conseguiu tirar bastante tempo útil de jogo. Por falar nisso, há alguém que tenha acesso ao tempo útil desta partida, quantos minutos houve de futebol na Mata Real? 

O Veríssimo conseguiu amarelar Zivkovic aos 16 minutos mas precisou de mais de uma hora para mostrar um cartão a um jogador do Paços, isto apesar da reincidência faltosas.

O Veríssimo deu um show de bem gozar connosco na 2ª parte. Consegui esquecer-se de levar o spray da marcação de faltas, fez de tratador de relva, arranjando um pedaço na área do Benfica enquanto Varela esperava para bater um pontapé de baliza, chamou um GNR para dentro do relvado, não me lembro de ter visto tal coisa até aqui, andou preocupado a recolher objectos do relvado para depois ir entregar na linha, punha a conversa em dia com os jogadores do Paços enquanto esperávamos um eternidade pela marcação de faltas, dialogava imenso fazendo o jogo estar parado em vez de se preocupar em ter a bola a rolar, mostrou estar perdido em algumas paragens quando já nem sabia como devia recomeçar o jogo, teve problemas com as comunicações, com o apito e com os auriculares. Bolas duvidosas na área do Paços esbracejava logo com vigor abanando a cabeça para ninguém ter ideias de ir ver se houve mão ou não. 

Enfim, como dizia o companheiro R.S. ao meu lado, foi a primeira vez que tivemos direito a um árbitro a fazer anti jogo! Nunca tinha visto tal coisa. Não me esquecerei.

  (clicar para ver mais)

Estou convencido que foi precisamente na atitude do Veríssimo que começou a reviravolta do Benfica. Uma equipa de futebol pode desmoralizar por perceber que não está nos seus dias, por sentir que do outro lado o adversário está intransponível mas nunca fica indiferente ao sentir que estão a gozar com o seu trabalho. E como tudo estava a ser demais começou a sentir-se que era preciso apertar. As duas bancadas nos topos do Estádio estavam pintadas a vermelho e também fizeram o seu papel, empurrar a equipa de uma forma arrepiante. 

Falta só expor a parte que falta nesta miserável jornada de futebol. A atitude dos jogadores do Paços de Ferreira. Nem falo do pobre coitado Micael, que é só um frustrado mal educado e esquecido. Falo da obsessão com que os castores passaram a não querer jogar descobrindo todas as formas possíveis de parar o jogo. Aí ajudados pelos apanha bolas, por imbecis que atiravam bolas para dentro de campo com o jogo a decorrer, mesmo à terceiro mundo, e por um público absolutamente triste, sem identidade e que só está ali disfarçado de adepto do Paços quando na verdade são quase todos portistas fanáticos e anti benfiquistas primários. Daí mostrarem os cinco dedos no final da partida, daí até gritarem Porto, dentro e fora do estádio. Pobre e coitado clube com adeptos sem personalidade nem ligação local. É um passatempo a tentar roubar pontos a um rival, nada mais que isso. Não consigo respeitar um clube com uma alma tão vendida, lamento.

 

O nosso Benfica reagiu à campeão. Estava difícil Jonas fazer o que sabe. Esteve perto mas foi preciso esperar pelo minuto 72 para soltar toda a revolta acumulada. Aliás, não deu para soltar tudo. Foi só um festejo rápido a sentir que o melhor vinha a seguir. 

Todos sentimos na bancada que ia acontecer reviravolta, que depois de mais de uma hora a ficar com o coração mais gelado que os pés, o que é obra derivado daquele frio polar de Paços, chegava o momento do Tetra Campeão explodir com tudo à volta, anti jogo, palhaçadas, verisssimos, e pobres de espírito. O Capitão Luisão deu o mote fora do banco a incentivar o povo que nunca lhes vira costas, Raul já tinha entrado para revolucionar aquele ataque, Sferovic também já lá estava dentro, Jonas estava mortinho para activar aqueles dois vulcões vermelhos atrás das balizas e aos 88', no auge da podridão do anti-jogo abençoado pelo Veríssimo, Seferovic entrega a bola ao Pistolas que dispara e entrega-se a todo um festejo cheio de classe mesmo ali à nossa frente. O vulcão rebentou, o banco explodiu de alegria e correu para os titulares, os antis sentiram a força que os faz odiarem tanto o Benfica, a bancada central começou a ficar despida por gente cabisbaixa que não aguentou sentir a fúria da revolta dos campeões. 

E como o 1-2 fez cair a máscara a duas equipas que só se preocuparam em não jogar ainda houve tempo e espaço para Rafa fechar tudo em delírio com 1-3.

Rafa vem pela nossa esquerda, vira para dentro, está enquadrado com a baliza e antes de rematar oiço um companheiro na bancada já a festejar: "Mereces tanto, Rafa"! Rafa chuta para o meio da baliza e marca. Se isto não vale um dia inteiro na estrada, ficar em pé gelado 90 minutos e ficar sem voz, então nada vale a pena.

Isto é o Benfica. Sei que poucos entendem, entendo que muitos invejem mas ninguém pode achar que consegue parar esta forma de viver só porque não gosta. 

Poucas coisas sabem melhor que aquela sandes de leitão da Área de Serviço da Mealhada no triunfante e cansado regresso a casa. Sim, é preciso pedir um empréstimo bancário para pagar um repasto daqueles ali mas sabe pela vida.

Seguem-se dois jogos na Luz. Façamos a nossa parte.

 

 

Benfica 4 - 0 Boavista: Com a Mesma Dignidade de 2002

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Como é difícil manter a sanidade mental nos dias que correm fugindo de todas as maneiras possíveis à espuma dos destaques da imprensa. E não só imprensa desportiva mas sim da imprensa global. Um sábado com um clássico Benfica - Boavista foi dominado pelo gestor do maior circo que o futebol português já viveu. E o que devia ser desprezado e problema de associados e adeptos de um só clube passa a ser o destaque nacional com capas de jornais, directos em canais privados e públicos, e assunto do país. Todos querem saber se são citados pela figura maior do lodo em que tudo isto se transformou. E são, claro. Meios de comunicação, jornalistas, comentadores, rivais, vai tudo a eito. E , pelos vistos, todos adoram e dão eco a tudo aquilo. 

Antes que comecem já a responder que aqui se está a fazer o mesmo tenham a bondade de dar o beneficio da duvida e perceber o porquê desta introdução, pedindo, mesmo assim, desculpa por abordar um tema tão lamacento.

É que aquilo que não se ouve, nunca se ouviu e nem se vai ouvir naqueles monólogos delirantes é a explicação do facto sobre o qual o último clube a ganhar um campeonato nacional sem ser o Benfica ou o Porto pôde festejar sem jogar. Se calhar, muitos já não se lembram, outros nem sabem, que a última vez que um clube de Lisboa sem ser o Benfica, venceu a Liga foi porque o Benfica cumpriu o dever de vencer o Boavista na penúltima jornada da temporada 2001/02. O Benfica ia terminar a Liga em 4º lugar, já não lutava por nada mas jogou para ganhar mesmo sabendo que a vitória tornava o clube vizinho campeão. Assim o fez. Sem complexos, sem dramas, percebendo que se vivia um ciclo anormal na história gloriosa do Benfica que será por muito e muito tempo o clube com mais campeonatos ganhos, com mais Taças de Portugal ganhas e até com mais Taças da Liga ganhas. Não se pode vencer sempre, como esse ciclo de 2002 mostrou bem mas não se pode perder a dignidade. 

Portanto, a última vez que foram campeões a sério, não falo destes delírios de acrescentarem títulos à conta de pára quedistas, festejaram, celebraram, entraram em clima de festa no dia seguinte na semana seguinte contra o Beira Mar em casa (já que contra o Vitória em Setúbal não foram além de um empate), tudo porque o Benfica venceu o Boavista. O Benfica entregou o último título de campeão ao Sporting. Não vejo ninguém recordar isto. E recordo que nesse tempo o Sporting, ou o seu Presidente, não tinha o tempo de antena absurdo em toda a comunicação social que hoje tem. Na altura vencia, agora faz barulho. Na altura o Benfica não era uma obsessão tão grande como hoje porque até lhes entregava campeonatos. 

 Dezasseis anos depois, o Benfica é Tetra campeão e recebe o Boavista na Luz num contexto complicado com um historial recente de resultados negativos contra os axadrezados. Hoje como há dezasseis anos, o foco era ganhar. O foco é reunir a nossa gente, encher o nosso estádio, vibrar com a nossa equipa de futebol, celebrar mais uma vitória e sentir o entusiasmo de momentos do jogo vibrantes.

Novamente, a dupla de centrais a marcarem no mesmo jogo na Luz. Ruben Dias a assumir o seu glorioso destino no clube ao abrir o marcador e depois Jardel a dar tranquilidade no resultado antes do intervalo. Para Jardel uma palavra de conforto já que dedicou o seu golo ao falecido avô. 

Ver a cumplicidade entre Grimaldo, Cervi e Zivkovic faz-nos sonhar com mais um fim de época épico. Jonas foi a jogo mas não foi feliz quando foi chamado a cobrar um penalti que dava o 1-0. Foi importante mas ficou em branco.

As ausências de Krovinovic e Salvio podiam ser dramáticas mas a verdade é que Rafa e Zivkovic estão a aparecer com vontade de os fazer esquecer e manter a dinâmica de vitórias da equipa. 

Ontem na Luz, os 4-0 espelham bem o estado de espírito da equipa e da multidão que a apoia. O golo de Raul Jimenez é simbólico por vir do banco e dar ideia que a equipa quer mais e está mais focada que nunca. O facto de ter sido aos 90 minutos foi um maravilhoso castigo para a malta que vira costas ao jogo e abandona o estádio antes de ouvir o Ser Benfiquista e aplaudir a equipa no final do jogo. 

Pessoal, agora a sério, onde é que vocês vão com tanta pressa a partir dos 70 e muitos minutos? O que é que há lá fora assim de tão importante que eu não saiba? Caramba, é o Benfica que está a jogar, ainda por cima a golear, o que é que há assim de tão importante que supere o prazer supremo de ver o Benfica na Luz? Nunca conseguirei entender. Por mim, ganhávamos os jogos todos por 3-0 com golos aos 89, 91 e 93 minutos só para lixar a malta que sai antes do final. 

Foi um jogo de ironia profunda, pois o Boavista leva uma bela série de golos marcados em lances de bola parada e na Luz sofreu desse veneno, além de ter sido uma bonita maneira de acabar com os maus resultados contra o Boavista.

Com a dignidade de sempre, com o foco do costume, sem distracções da imensa poluição sonora ali dos vizinhos e com a possibilidade da família benfiquista passar um santo domingo na frente do campeonato enquanto prepara a ida a Paços de Ferreira.

 

Portimonense 1- 3 Benfica: Campeões Europeus dos 3 Pontos

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 Segunda viagem ao Algarve esta época, coisa rara nas épocas futebolísticas nas últimas décadas. Encontro com benfiquistas do sul que nos encaminharam para uma experiência gastronómica que merece ser destacada a abrir a crónica.

Dizer que não se come bem, a não ser franguinho da Guia, e o atendimento no Algarve não é simpático tem aqui uma forte oposição.

Em Boliqueime existe um restaurante chamado O Lavrador que tem uma decoração bem rústica e com um espaço bem aconchegante com duas lareiras a aquecerem a sala.

O cicerone Luís tem enorme orgulho nos produtos caseiros e serve chouriças, queijo amanteigado e seco, torresmos divinais e outras iguarias que davam logo um belo almoço. Mas são só entradas para abrir apetite ao cabrito em forno de lenha e polvo à lagareiro. Tudo impressionantemente bom. Sobremesas regionais e um medronho do outro mundo.

Tão satisfatório que o bom do Luís propôs colocar a disposição duas carrinhas para nos levar dali ao estádio e trazer de volta após o jogo. E como tudo acabou bem em Portimão voltámos à carga no Lavrador pela madrugada fora. Lulas, javali, costeletas de porco preto. Enfim, um dia inesquecível. Malta do Algarve, em Boliqueime há ouro. Não hesitem.

 

De alma e estômago bem aconchegados e envolvidos no mar vermelho que invadiu o estádio do Portimonense nada melhor que começar o jogo com o golo de Cervi e ficar na frente do marcador. Uma óptima forma de regressar a Portimão tantos anos depois para o campeonato.

Jogo a correr bem mas com o Portimonense a mostrar que não ia ser uma noite descansada.

Na 2ª parte um momento de pânico com a saída de Jonas. Primeiro sinal negativo da noite. Segue-se o golo do empate e de repente o encanto da viagem ao Algarve perde-se nas bancadas.

Por falar em bancadas, vamos lá esclarecer aqui algo que não considero chocante, antes entendo como normal.

O jogo está empatado, a perda de pontos no horizonte e, de repente, umas filas abaixo na bancada onde estou oiço alguém histérico e claramente feliz a gritar: Portugal ganhou o Europeu!

Recordo que faltavam poucos minutos e o Benfica estava a perder pontos.

Se uns minutos antes uma entidade superior me pedisse para escolher entre o Benfica ganhar 3 pontos e Portugal um Europeu de futsal, não havia um segundo de hesitação para escolher os 3 pontos.

Mas isto não é nada contra o futsal, que aproveito para elogiar e salientar o papel dos jogadores do nosso Benfica. É que se me perguntassem se preferia os 3 pontos ou acabar com a fome no mundo, eu preferia ganhar em Portimão, obviamente. Para mim, é esta a ordem lógica da vida.

 

Posto isto, chegou a vitória do Benfica na recta final. Meu querido Cervi, marcou a abrir e cobrou aquele livre directo ali na minha frente em forma de poema e pintura clássica ao mesmo tempo. Que maravilha. E no fim Zivkovic eleva o nosso fim de semana para contornos épicos. Até abriu o apetite apesar do que foi ingerido ao almoço.

Jogo muito complicado, muito boa réplica do Portimonense, campo bem difícil onde os triunfos têm que ser muito trabalhados.

Grande vitória do Benfica. Precisamos de recuperar Jonas e pensar em ganhar ao Boavista porque a nós ninguém nos dá nada. Estamos na luta.

Que o Portimonense se mantenha por cá muitos anos, o Algarve merece jornadas destas.

Benfica 5 - 1 Rio Ave: Inspiração na Baliza Grande

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Entre o dia 4 de Fevereiro de 1985 e o dia 4 de Fevereiro de 2018, nasceu Rúben Dias em 1997.

Em 1985, num fim de semana como este, eu tinha 11 anos e apressei o fim do almoço familiar. Para espanto dos meus pais, o motivo era um jogo do Benfica. Um jogo da Taça de Portugal que , tal como agora, passava sempre para segundo plano quando o adversário era de divisões inferiores. Eu expliquei que ia pelo Benfica e que não interessava contra quem era. Até que a minha mãe perguntou afinal com quem era o jogo. Régua, respondi de imediato. 

Pelo silêncio e pelo ar preocupado percebi que os meus ficaram preocupados. A partir dali deixaram de estranhar as idas à Luz. 

Esse jogo com o Régua aconteceu no mesmo dia desta partida com o Rio Ave. Foi uma tarde divertida, havia muita gente que da Régua nas bancadas, os equipamento da equipa da 3ª divisão eram originais, camisola com o desenho da bandeira municipal de Lisboa mas em vermelho e branco o que obrigou o Benfica a jogar com o lendário equipamento branco adidas da Shell. 

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 Dei conta desta efeméride ao preparar o jogo com o Rio Ave e isto fez-me viajar no tempo. Como tenho a felicidade de conversar com craques daqueles tempos, antes da partida de ontem puxei conversa com o José Luís sobre esse jogo. Ele foi titular com o irmão, o Jorge Silva que até fez o primeiro golo, e sorriu quando lhe mostrei imagens do jogo. Fotografias que o ilustre benfiquista Francisco Araújo, de Arcos de Valdevez, me fez chegar depois de lhe perguntar se ele tinha alguma coisa sobre aquele dia. O Francisco tem sempre algo sobre qualquer jogo do nosso clube. É uma reserva enciclopédica que foi ainda mais longe. Contou que o guarda redes do Régua dessa tarde é benfiquista ferrenho e costuma vir à Luz ver o Benfica! 

 

Em 1997 já estávamos longe dos tempos gloriosos dos anos 80. Já tinha passado muito tempo daquele Benfica - Rio Ave de 1986 num sábado à noite, que era um acontecimento por ser à noite e que só acontecia em vésperas de compromissos europeus. Eu adorava os jogos à noite, aquelas torres de iluminação acesas, os jogadores com quatro sombras projectadas no relvado, o orgulho de termos a luz mais potente do país e uma das mais eficazes da Europa. Depois banalizou-se, como se sabe. 

Nessa recepção ao Rio Ave de 1986, já com Silvino na baliza, o meu primeiro ano pós Bento, o Benfica venceu por 3-1 um aguerrido Rio Ave que quase sempre se mostrou ambicioso nestes confrontos. Depois fomos a Bordéus e não demos a volta ao 1-1 da Luz, perdemos 1-0 e caímos na Europa.

Em 1999, já Rúben Dias era nascido, e nosso Vietname ganhava contornos dolorosos, voltámos a repetir o 3-1. Era o arranque da 2ª volta com Souness e Vale e Azevedo, com Nuno Gomes (vão ver o Conversas à Benfica com ele)  a marcar um golo e a falhar um penalti, com Cadete a fazer o 2-1, com o Benfica a jogar em casa de camisola preta e calções vermelhos e com um tal de Pepa a entrar nos minutos finais para fazer o 3-1 deixando a Luz em delírio e a acreditar que ia chegar ao titulo.

Em 2009 com Quique Flores o Benfica só tinha vencido um campeonato desde o jogo de 1999. Corria atrás do primeiro lugar já na 2ª volta do campeonato e para vencer o Rio Ave foi preciso chamar Pedro Mantorras, o jogador do povo como Hélder Conduto lhe chamou nessa noite no relato para a RTP. Mas ainda não foi naquela época que o Benfica voltou a festejar um campeonato. Faltava-nos qualidade e jovens que sentissem o clube desde cedo.

Faltavam-nos jogadores como Rúben Dias que em 2018 são titulares naturais do Benfica e participam numa reviravolta épica num jogo com o Rio Ave.

 

Foram dois jogos e meio a sofrer com este Rio Ave. Só ao fim de dois jogos e meios é que o Benfica 2017/18 conseguiu dar a volta ao futebol dos vilacondenses. Fê-lo com força e à campeão. Aquela segunda parte faz-nos sonhar mas também nos faz pensar porque é que não pode ser sempre assim e, de preferência, logo de inicio nos jogos.

 

 

 

De 0-1 para 5-1 em 45 minutos. Golos todos marcados na Baliza Grande da Luz. Também só foi possível alimentar o mito da Baliza Grande porque o Rio Ave respeita a ordem natural de ataques do Estádio da Luz, ao contrário de outras equipas de verde, diga-se.

 

A conclusão a tirar desta goleada é que a atitude, a dinâmica, a motivação e o empenho, são mais importantes que qualquer 4-3-3 e que não é só por um jogador estar ausente que devemos sofrer com a questão da sua substituição. A maneira com que se abordou a 2ª parte é que é determinante, se foi com o Zivkovic ou com o João Carvalho, acaba por ser secundário. Mesmo porque deu para jogarem os dois e até foram os centrais a darem o exemplo de como se finaliza na área de cabeça.

 

Vou repetir o que disse sobre o Belenenses do Silas, o treinador do Rio Ave merece a boa imprensa que tem, merece elogios pelo seu futebol mas se não lutar com os seus jogadores para que estes não caiam na tentação do anti jogo com perdas de tempo primárias nunca poderá ter o cenário todo positivo. 

 

O sentimento de satisfação de uma vitória do Benfica é sempre o mesmo, seja contra o Régua em 1985, seja contra o Rio Ave em 1999, seja em plena luta pelo Penta, o que nos tem que interessar é sempre o Benfica. 

O golo do Rúben Dias festejado ali no Topo Sul da Luz com ele a bater no emblema e a olhar para os seus é um grande momento. Mesmo assim guardo com mais carinho o primeiro dele pela equipa principal, foi no Bonfim e os que lá estavam sabem como foi especial.

 

Viajar com o Benfica ao longo do tempo é um privilégio de uma vida.

 

PS: agora não se esqueçam de irem investigar a Taça de Portugal de 1985 por causa daquilo do guarda redes do Régua...

Belenenses 1 - 1 Benfica: Jonas Num Mal Menor

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 Sinto-me como naquela noite em que empatámos na Madeira com o União em Dezembro no caminho do Tri. Esperava muito mais no Restelo, pensava que a equipa ia embalar com o extraordinário apoio vindo das bancadas, mesmo com bilhetes a 30€ num 2ª feira à noite às 21h!

Quis acreditar que aquela triste imagem que ficou do final do jogo com o Chaves, com a lesão de Krovinovic, ia dar lugar a uma resposta forte dos seus companheiros e que a equipa não iria sentir assim tanto a sua falta.

Afinal, o Benfica esteve uns furos abaixo do que se viu nas últimas jornadas e o seu futebol atacante esteve quase sempre previsível. Só com passes a apelar à velocidade individual é que resultavam em perigo. Não se viu aquele fulgor atacante e é impossível não relacionar isso com a ausência de Krovinovic. Mesmo porque esperava que João Carvalho e Pizzi dessem conta do recado de caras e não aconteceu bem assim.

De qualquer maneira, na 2ª parte o Benfica fez o suficiente para chegar à vantagem. Primeiro com um penalti desperdiçado por Jonas, depois com uma jogada que Cervi não soube finalizar. A tal eficácia que já nos custou pontos na primeira volta. E depois o "Karma" do quem não marca sofre. Tal como no Bessa ou, mais recentemente, em Vila do Conde. O Belenenses chega ao 1-0 depois de ter estado mesmo perto do K.O..

Valeu ao Benfica uma atitude de acreditar até ao fim que valeu salvar um ponto com Jonas a marcar com mais facilidade um livre directo do que o penalti.

Vamos ver que danos reais são estes no futuro com a perda de dois pontos no Restelo.

Uma palavra para Silas. Eu até simpatizo com a figura e a atitude ambiciosa do Silas mas os jornalistas deviam ter confrontado aquele discurso pós jogo de estar numa clube grande que joga para ganhar, que nem tem de aceitar o empate e tal com a postura da sua equipa em campo o jogo todo. O Belenenses teve com primeira preocupação perder tempo. Começou no primeiro tempo e no segundo abusou. Então aquela queda do guarda redes sozinho na sua área enquanto o Benfica atacava foi escandalosa. Desculpa lá, Silas, mas se queres mesmo usar esse discurso então apresenta um futebol sem esses truques baixos de perda de tempo mesmo que com a ajuda do árbitro que nada fez para contrariar esse anti jogo.