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Red Pass

Rumo ao 38

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Porquê o Liverpool


Há 26 anos era eu um puto completamente viciado no ambiente do estádio da Luz em dia de jogo. Vivia rodeado por gente mais velha que contava o quão enorme tinha sido o Benfica na Europa duas décadas atrás. Sentia a cada jogo que ia ver, e eram quase todos, que tinha sido sido abençoado pela mística encarnada enquanto testemunhava vitórias relativamente fáceis nas tardes de campeonato nacional.
Contudo era das noites que eu mais gostava. Havia uma aura mágica à volta do imponente estádio da Luz com o seu Terceiro Anel inacabado. As luzes acesas, as equipas estrangeiras, os equipamentos que não conhecíamos, o cheiro da relva era mais intenso, eram as famosas noites europeias de quarta feira.
Logo para começar a minha vida de benfiquista tive direito a uma meia final na Taça das Taças e depois a uma final da Taça UEFA e com o respectivo percurso até essas noites. Nada mau. Não havia eu de ficar logo viciado?!

Das muitas equipas europeias que fui vendo na Luz nenhuma me impressionava fortemente. A Roma do Falcão era imperiosa mas foi eliminada.
Foi por essas alturas que ouvia as conversas de gente mais velha e batida na Luz e as palavras de elogios/temor iam sempre parar a uma equipa inglesa, um tal de Liverpool.
Com aquela idade o que eu sabia é que eram da terra dos Beatles cujas músicas eu já cantarolava com maior ou menos dificuldade.
Ouvia falar da eliminatória que o Bola7 retrata hoje muito bem no seu blog.
Finalmente na época 1983/84 saiu o Liverpool. Pela reacção da malta tínhamos calhado com a equipa mais forte da Europa. Ao contrário da maior parte dos benfiquistas eu fiquei contente. Ia poder ver o famoso Liverpool ao vivo.

Eu não acredito na teoria das segundas equipas. Isto é, não fico convencido com quem me diz que tem uma segunda equipa. Isso não existe. Eu sou do Benfica e não tenho mais equipas. O que há depois no universo futebolístico é simpatia ou antipatia por outros clubes. Odeio uns quantos clubes, simpatizo mais com outros e a maior parte são indiferentes. No entanto há um grupo de clubes que , por uma razão ou outra, admiro e goste que ganhem.
Entre eles está o Liverpool. Quando é que eu percebi isso?

Em 1984 ouvi pela rádio o jogo em Anfield Road. Tudo o que ouvia deixava-me espantado. O ambiente relatado, o ruído de fundo, e a força com que a equipa da casa atacava, tudo mexeu comigo. É preciso dizer que nessa altura raramente eu via uma equipa mais forte que o Benfica que , para mim, era das melhores de todo o mundo.
Ficou em 1-0, nada mau comparando com os 4-1 que levámos lá 8 anos antes. Depois devorei as imagens televisivas com o resumo alargado. Fiquei fascinado com aquelas bancadas, com o equipamento do Liverpool, com o futebol deles. Mal podia esperar para os ver em "minha" casa.
2ª mão na Luz e um dado novo: muitos adeptos ingleses na bancada. Senti a emoção de ter estranhos na Luz. Não era muito comum haver tantos visitantes e estes faziam barulho alegremente. Também os vi a serem corridos das bancadas quando se esticaram para os nossos sócios.
Ao vivo aquela equipa inglesa era ainda mais impressionante. Depressa decorei os números e nomes de gente como Grobbelaar, Gary Gillespie, Phil Neal, Steve Nicol, Phil Thompson, Sammy Lee (o actual adjunto que está na foto abaixo), Graeme Souness, Kenny Dalglish, ou Ian Rush.

E aquelas camisolas amarela com riscas vermelhas? Fantástico.
Percebi ali a força do Liverpool e o porquê do receio dos mais velhos. Perdemos 1-4! Nunca tinha visto tal coisa ali.

Nem um ano depois e o sorteio da Taça dos Campeões ditou nova visita do Liverpool. Dessa vez já não achei tanta piada e temi o pior. Já estava esclarecido quanto à força dos reds. Outra vez 1ª mão em Inglaterra. Dessa vez jogámos muito melhor e chegámos a assustar com um golo de Diamantino, mas o terrível Rush respondeu com 3!
Nada perdido, havia esperança de uma grande noite europeia na Luz. E houve mesmo. O Benfica entrou a matar ganhou um penalti que Manniche converteu e começámos o jogo a ganhar 1-0. Não conseguimos um 2º golo e ficou um sabor amargo nesta eliminação.
Ficou a admiração por aquele clube que foi crescendo com as raras transmissões da RTP de jogos europeus e de finais da Taça de Inglaterra. Sem saber tinha descoberto ali a minha equipa estrangeira preferida. Um carinho que fui alimentando e cimentando até hoje.

No verão de 2005 em plena ressaca dos festejos do título nacional comentava entre amigos que era importante fazer uma boa campanha na Champions para recolocar o Benfica no mapa europeu. Tinha ainda um forte desejo: voltar a encontrar o grande Liverpool para uma desforra daquelas noites dos anos 80. Já tinha decidido um dia ir a Anfield Road ver com os meus olhos o lendário estádio e sentir o ambiente do The Kop.
Em 2006 apareceu a oportunidade e como já contei noutras ocasiões não falhei a ida e tive um dos melhores dias da minha vida.

Curiosamente, há pouco tempo desabafei o seguinte: numa época de sonho como esta que estamos a viver só falta um reencontro com o Liverpool. E lá foi feita a vontade novamente!
Esta eliminatória que começa mais logo na Luz é muito mais que dois simples jogos. Pessoalmente são as duas melhores equipas do planeta no mesmo relvado à mesma hora ao mesmo tempo. Acredito na vitória do Benfica e vou torcer para que isso aconteça.
É que pode ser que o segredo esteja na ordem dos jogos.
Primeiro na Luz é que é, já repararam?

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