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Red Pass

Tetra Campeões

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Feirense 0 - 2 Benfica: Vitamina R de Raul e Rafa

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 Tudo ao contrário mas com final feliz para os campeões. Vou deixar a conversa do medo cénico para outra altura. 

Começo antes pelo mundo ao contrário. Mandaram poucos bilhetes, avisaram que não queriam benfiquistas sem ser na bancada visitante, ordenaram que não se entrasse com adereços do Benfica no estádio (em 2018!), o relvado deu polémica durante a semana. 

Enfim, na semana em que recebem o clube que arrasta a maior multidão em Portugal, o Feirense só levantou problemas. À conta disto, muitos companheiros ficaram a ver o jogo em casa apesar da enorme vontade em seguir viagem para apoiar o Benfica. 

O grupo em que eu ia esteve até à última da hora sem saber se tinha bilhetes para ver o jogo. Só estipulei um limite, não pagar mais para ver o Benfica na Feira do que paguei há um ano em Dortmund. Uma questão de principio. 

Muitos contactos depois acabámos por arranjar entradas para todos. Tudo entre benfiquistas, de benfiquistas para benfiquistas. De tal maneira que acabámos por não dar nem um euro ao Feirense já que entrámos todos com convites. Ou seja, um grupo de cinco adeptos dispostos a pagarem um preço justo para ver mais um jogo do seu clube acabou por ver a bola de borla. O Feirense que tire as suas conclusões.

Além disto, garanto que a bancada central em frente aos bancos de suplentes era quase toda do Benfica como se viu nos golos. 

Podem não gostar, podem não querer, podem achar que vão conseguir mas vão mesmo ter que levar connosco em todo o lado. O apoio nunca falta, custe o que custar. 

 

Outra lição do dia, vocês, feirenses, não gostam de futebol. Gostam de odiar, gostam de outra coisa qualquer mas de futebol não podem gostar. A maneira como trataram o Jonas, o melhor jogador que já pisou o vosso mal tratado relvado nas últimas décadas, diz tudo sobre o respeito que têm pelo jogo. 

 

Nesta última viagem ao norte da época 2017/18 o roteiro gastronómico levou-nos a um restaurante de ambiente familiar perto do centro de Santa Maria da Feira. O espaço chama-se Sabores do Campo, o atendimento é simpático e honesto. Apostámos tudo numa arroz de fumeiro divinal que acompanhou rojões, costeletas e nacos à moda arouquesa. Vinho tinto da casa e branco fresco para acompanhar. Entrada com uma tábua de petiscos bons. 

Sobremesa de queijo da serra, broa e ainda um reforço de tinto, desta vez um Bons Ares.

A deslocação estava ganha. Almoço de qualidade superior e convivio à Benfica.

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Quanto ao jogo, foi uma surpresa agradável a maneira como o Benfica encarou o jogo. A intensidade logo no arranque, a pressão, a procura do golo, empurrar o Feirense para a sua baliza. Sentiu-se sempre que estávamos perto de marcar mesmo que a bola não tenha entrado na baliza na primeira parte. 

Aquela jogada do Rafa pelo meio que acaba com a bola a bater no poste era o prenúncio do que aí vinha na 2ª parte.

Rui Vitória optou por tirar Grimaldo, já com amarelo, e lançar Raul Jimenez com o Feirense com menos um jogador devido a expulsão. A decisão foi a mais acertada e rapidamente Raul mostrou ao que vinha. O Benfica fez o 0-1 e afastou todos os fantasmas de sorte e azar.

O 0-2 foi um golo que Rafa devia a si próprio para carimbar mais uma boa exibição como titular do Benfica.

Foi uma exibição forte e convincente com o Benfica a marcar posição quanto ao seu objectivo.

O apoio foi o de sempre, ver os adeptos azuis a saírem das bancadas antes do jogo acabar deu um gozo muito especial.

Última viagem ao norte carimbada com uma bela vitória e viagem tranquila. Como deviam ser todas. 

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 Continuamos na luta.

Quer gostem ou não. 

 

 

 

 

 

Benfica 2 - 0 Aves: Pessoal, Que Desprezo é Esse?!

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Na época de todos os ataques contra o Sport Lisboa e Benfica, numa escala nunca vista em Portugal, a sua equipa de futebol voltou a dar uma demonstração de grandeza e de como nada disto bate certo. 

Se o Benfica criou um sistema que lhe facilita a vida no futebol para ganhar mais que os outros porque é que eu aos 70 minutos de um jogo com o Aves em casa estou a ficar sem fome, apesar de não ter almoçado, estou a vislumbrar insónias, apesar de me ter deitado tardíssimo por causa do Lisboa Dance Festival e ter madrugado no dia jogo? 

O golo de Jonas aos 71 minutos foi arrancado a ferros, foi mais uma jogada só possível pela qualidade superior do nosso "10" mas também pelo remate de Fejsa e pela insistência de Cervi.

Se o Benfica tem a vida assim tão facilitada porque é que sofremos tanto? 

Eu dou a resposta, porque ninguém nos dá nada! Ninguém facilita nada contra o Benfica. 

Numa realidade paralela que foi sendo construída desde o título de 2014 e elevada a uma dimensão gigantesca no verão de 2017, o Benfica é um malandro que só ganha porque controla tudo e todos. 

Na realidade, tal como ela é, eu sou um adepto que nos últimos quatro anos tenho visto a maior parte dos jogos do Benfica nos estádios e posso garantir que a maioria deles foi ganha na raça como este com o Aves. 

 

Neste contexto permitam-me que expressa a minha revolta por ver os adeptos do Benfica na Luz alheados da realidade. 

O jogo termina, sofremos juntos mais de uma hora com um empate a zero, pensámos mil um cenários até aparecer essa entidade superior chamada Jonas, vibrámos com mais um golo do nosso Rúben Dias. Vivemos os últimos minutos aliviados, com o sentimento que o fim de semana estava a correr lindamente, com vontade de ir jantar com amigos e fazer planos bonitos em família para domingo. Tudo porque o objectivo principal estava cumprido.

O jogo termina, os suplentes e a equipa técnica entram em campo para celebrar com os 11 jogadores que terminaram a partida. Felizes, aliviados e com vontade de agradecer a presença e o apoio de mais de 50 mil adeptos na Luz. Mas quando olham para as bancadas, enquanto arranca o "hino" a imagem é desoladora. A maior parte dos benfiquistas já estão do lado de fora do estádio, muitos dos que ainda lá estão nem olham para o relvado e dirigem-se cheios de pressa para as saídas. Isto enquanto os nossos homens, juntos, aplaudem os poucos que ainda lá estão.

Isto não devia ser assim. Não pode ser assim. Os benfiquistas deviam esperar mais uns míseros minutos para aplaudir e agradecer o esforço dos nossos, mostrar-lhes que estamos juntos. Não é nas hashtags das redes sociais que a coisa funciona, isso é realidade paralela. 

É um gesto cultural, educacional até. Ficar mais uns minutos depois do fim do jogo e respeitar a saída dos homens que carregam a felicidade dos nossos dias naqueles pés. 

Eu não acho piada nenhuma aqueles rituais da moda que obrigam os jogadores a irem a vários pontos dos estádios fazer coreografias de plástico e importadas de outras paragens como suposto agradecimento aos seus adeptos. Dispenso isso tudo. Apenas peço que a equipa tenha a dignidade de se juntar, olhar para as bancadas e de cabeça bem levantada agradeça a presença e apoio. Nada mais. E até estou bem à vontade para falar disto porque já tenho aqui criticado ocasiões em que os jogadores se esquecem dos seus adeptos e saem apressados. 

Aqui é ao contrário, na Luz despreza-se aqueles minutos de felicidade e de alivio que faz com a nossa vida seja melhor até aos próximos 90 minutos.

Desculpem o desabafo mas não consigo mesmo entender.

 Quanto ao jogo, agora é fácil dizer que Rui Vitória devia ter começado com um esquema de 4-4-2 com Raul no lugar de João Carvalho. Não sei se a equipa técnica durante a semana chegou a ponderar essa mudança, sei que nós enquanto observadores e adeptos passamos muito tempo a pensar no futebol da nossa equipa e equacionamos todas as hipóteses. Mas mesmo que se defenda esta alteração por ausencia do Pizzi há sempre bons argumentos para sustentar a continuidade do 4-3-3. Desde logo uma nova oportunidade a João Carvalho e, a mais forte de todas, é que tem resultado bem e até serviu para golear o último adversário. 

Desta vez, o muro do Aves foi mais resistente e o futebol dinamico construído pelas alas não estava a chegar para colocar problemas a Adriano. A defesa do Aves esteve muito confortável com o 4-2-3-1 de José Mota. 

Foi mesmo preciso recorrer a Raul Jimenez para abrir o ataque do Benfica e dar mais garra também. Foi tudo construído em tempo útil, a partir dos 70 minutos é quando entramos ali na zona vermelha das emoções, portanto, o 2-0 feito na recta final do jogo é justo. 

O que nos faz sair da Luz de cabeça levantada é o sentimento que sofremos muito para ganhar 3 pontos. Só com a nossa qualidade e luta. Sem truques de golos para lá do tempo, sem VAR's, sem lances polémicos, sem protagonismo de árbitros e terceiros. Esta é a realidade. 

E isto nao deve ser desprezado, caros companheiros de bancada. Nem que fosse só por estarmos a ver a evolução de uma Lenda chamada Jonas ao vivo. 

 

Benfica 5 - 0 Marítimo: Serenata à Chuva de Jonas na Baliza Grande

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 Olá, somos o Marítimo e viemos à Luz descansados da vida. Já não lutamos pela Europa, também já não corremos o risco de descer. Viemos de um ciclo mau de vários jogos a perder mas demos a volta na Vila das Aves e na recepção ao Vitória de Guimarães e, por isso, chegamos ao maior estádio de Portugal tranquilos, sem pressão e com tudo para proporcionar um jogo agradável. 

O primeiro trunfo que temos para lançar neste fim de tarde invernoso no Estádio da Luz é escolher o campo obrigando o Benfica a quebrar a tradição de atacar primeiro de sul para norte. Foi uma rábula que aprendemos com aquele clube de um Presidente que faz muito barulho e já se despediu deste campeonato, tal como de todos os outros desde que chegou. É engraçado porque chateamos logo o adversário e irritamos os adeptos nas bancadas que ligam a estas parvoíces. 

 

Olá, eu sou o Jonas e sou um dos melhores jogadores que a maior parte dos adeptos do Benfica no Estádio da Luz viu jogar pelo Glorioso. Sei ser um ídolo, sei prestigiar a camisola 10 que visto e estou aqui para fazer história em todos os jogos em que entro. Já estou cá há tempo suficiente para saber que na Luz saímos sempre a atacar para a baliza norte, uma tradição que vem de longe. Não acho piada nenhuma quando recebemos adversários que não respeitam a ordem natural da vida. 

Por isso, aviso já que hoje despacho isto tudo logo na primeira parte com um hat trick na baliza grande só por causa das tosses. Vão levar cinco nas calmas para aprenderem a não serem parvos. Pode ser que na próxima visita não se armem em esverdeados.

 

Foi esta a história deste Benfica - Marítimo sob chuva impiedosa e que o Benfica só podia ganhar para manter a perseguição ao primeiro e descolar do terceiro classificado. O onze voltou a ser o mesmo da última jornada e respondeu muito bem com uma primeira parte de encantar culminando com um santo 4-0 ao intervalo.

A segunda parte foi para sentir a tal monotonia maravilhosa daqueles jogos em que a bola rola em modo de piloto automático sem que os adeptos se preocupem com mais nada, sem a menor possibilidade de nos estragarem o resultado final. 

Queria destacar o festejo do Jonas à espera do André Almeida de joelhos para lhe massajar o pé. O André não deixou, chegou ao pé do "10" e levantou-o para o abraçar, ali na nossa frente. Isto é o André Almeida. À Benfica. Também gostei do festejo com um circulo de jogadores sentados e Grimaldo a distribuir jogo. Estas exibições só trazem vantagens, animam quem joga, descansam quem vê e até permite que aquela malta que paga bilhetes e Red Passes só até aos 80 minutos possa sair do estádio ainda mais cedo. A tribo que vai à bola em sofrimento, que mal começa o jogo e começa a pensar a que minuto é que foge dali.Esteja 5-0 ou 1-0. É igual. 

Boa jornada, boa exibição, bom resultado, Pizzi viu um cartão amarelo que o faz descansar contra o Aves na próxima semana também na Luz, ninguém se lesionou.

Enfim, isto devia ser sempre assim. Mas com o adversário a respeitar as ordens de ataque na Luz. 

Bento partiu há 11 anos!

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Sexta-feira, 2 de Março de 2007

O NÚMERO 1 - BENTO

Quando digo que é um choque receber a notícia da morte de Bento estou a falar de um sentimento forte, e que mistura um sentimento de culpa, e uma tristeza enorme. Não é o drama de perder um familiar, é a impotência de vermos um ídolo partir. O sentimento de culpa é porque penso que morreu um homem que tanto influenciou a minha vida, e eu acabei por nunca lhe dizer isso pessoalmente, nem nunca lhe prestei o devido tributo. Nem eu, nem o nosso clube. Bento merecia uma enorme homenagem por parte de todos nós. E essa homenagem haveria de acontecer mais ano menos ano, porque ele estava vivo, trabalhava no clube, e numa altura especial haveríamos todos de fazer uma grande festa ao Bento com livros editados, dvd’s publicados, e ofertas que o iriam sensibilizar. O destino antecipou-se e levou-o antes de tudo isso.

Não quero dizer com isto que Bento tenha sido mal tratado pelo clube, nada disso! Antes pelo contrário, Bento ficou no plantel do Benfica até aos 42 anos de idade, o clube manteve-o mesmo depois da lesão do México. E até anteontem o podíamos ver a treinar os mais novos na Luz. Só que este homem merecia algo à altura da grandeza dele.

Bento foi o Eusébio da baliza encarnada. Eu estimo muito o Pantera Negra, mas nunca o vi jogar, enquanto que, para mim, o Bento confunde-se com o próprio Benfica.
Eu nasci em 1973, Bento chegou à Luz, vindo do Barreirense, em 1972. A estreia foi em Faro a 22 de Abril de 1973, dois dias antes do meu nascimento. Ou seja, eu nasci já o Bento era o nosso guarda redes!
Mas nessa altura a baliza encarnada era de José Henriques, e Bento teve que esperar pela época de 1976/77 para ganhar a titularidade definitiva. 
Eu comecei a viver o Benfica quase no berço, o padrinho da minha irmã ia sempre à Luz, eu ainda hoje vivo bem perto da Catedral e por isso comecei a acompanhá-lo. Depois, havia o meu querido avô que vibrava como ninguém com o Benfica, e que desde sempre simpatizava com a irreverência do Manel. Bem influenciado foi com naturalidade que comecei a olhar para tv quando o Benfica jogava, e tinha eu 4 anos quando uma imagem me marca para sempre. Estávamos em Setembro de 1977 e o Benfica jogava a 2ª mão de uma eliminatória da Taça dos Campeões em Moscovo. Depois de dois empates a zero, com Bento a defender tudo o que o Torpedo chutava, o jogo foi até aos penaltis. Bento defendeu o primeiro, o segundo foi para fora, o terceiro entrou, entretanto o Benfica tinha marcado todos. Quem é que quis ir lá marcar o 4º, e decisivo, penalti? Manuel Bento, claro! Chegou lá e não falhou.
Aos olhos de uma criança de 4 anos é uma loucura, um guarda redes que defende tudo, e ainda marca golos?! Estava encontrado um ídolo admirado por muitos e muitos anos.

Depois foi crescer, aprender o que é o Benfica, estar cada vez mais perto do clube, ver centenas de jogos na Luz e ter sempre uma âncora: Bento. 
Para mim não havia dúvidas, o Benfica começava no número 1, o resto vinha por acréscimo. Daí até querer seguir os passos do capitão foi um tirinho. Na altura as nossas brincadeiras resumiam-se a jogar à bola de manhã à noite na rua. Eu não hesitava, a baliza era minha. Isto é, o espaço entre dois calhaus no chão era meu. Como não podia deixar crescer o bigode, e não tinha caracóis tinha que adoptar outra característica para mostrar a minha marca Bento. Então lá andava eu a defender sempre com os braços em arco bem afastados do corpo e ligeiramente inclinado para a frente, imitando na perfeição aquele jeito castiço que Bento tinha quando caminhava. E, claro, as grandes birras com a minha mãe para ela me comprar a camisola Adidas azulada que o Galrinho usava. Consegui convencê-la.

Discussões com os amigos naquela altura eram inúteis, eu tinha o Bento não havia maneira de não os calar sempre. Uns atiravam com o grande Manel Fernandes, ou Jordão, outros idolatravam o grande Gomes, mas eu nem precisava de avançar no terreno e evocar Nené, ou Filipovic, ou Maniche... Não era preciso, para os grandes avançados dos rivais uma palavra: Bento. E pronto, acabava a discussão sobre melhores e piores.
Que melhor incentivo, e lição de garra, pode ter um miúdo de 9 anos ao ver como Bento reagiu a um toque de Manel Fernandes em Alvalade com o resultado em 1-1? Estava ali tudo o que um puto precisa de saber. Se estou deitado com a bola na mão, e o adversário me pisa, mesmo que por acidente, um gajo tem é que se levantar e ir atrás dele e aviá-lo logo ali! Mais nada. Ok, foi para a rua e perdemos 3-1, mas a lição estava dada. Pelo menos comigo funcionou, nunca mais deixei de mostrar os meus argumentos físicos em qualquer confronto.

Ter o Bento na baliza era um descanso de valor incalculável. Os jogos sucediam-se e raramente o via a ir buscar uma bola ao fundo das redes. Na Luz passava muito tempo a olhar para ele quando o jogo estava no outro lado do campo. Bento não parava quieto, corria o tempo todo de um lado para o outro na sua grande área. Estava a aquecer, aprendi eu com os jornalistas da altura. Isto para quando fosse preciso estar preparado para defender. E resultava. Nunca mais vi um guarda redes a aquecer daquela maneira durante os jogos. A maneira como batia com as chuteiras contra os postes da baliza para tirar a terra era única. Eu queria usar chuteiras só para poder imitar aquele movimento.
Depois havia uma imagem de marca espectacular. A maneira como Bento lançava ataques colocando a bola onde queria, no companheiro que queria só com a força do braço e perícia da mão. Os lançamentos à mão do Bento eram impressionantes. Nunca mais voltei a ver tal coisa. Da mesma maneira que um pontapé de baliza dele quase sempre resultava em ataque nosso.
Depois havia os recitais entre os postes, e fora deles. Saltava mais alto que todos, atirava-se para os lances mais confusos com uma convicção incrível. E nos penaltis tínhamos sempre grande esperança que ele fosse lá buscá-la. 
Há um penalti na Luz a favor do FC Porto que podia dar a vitória aos azuis. Gomes vai marcar. É preciso dizer que Gomes foi o melhor ponta de lança português que eu vi jogar, por isso quando o via a correr para bola o meu coração quase que parava. Bento defendeu, e como se não fosse nada com ele preocupou-se logo em lançar a bola para o contra ataque. 

Bento tinha tanta classe que até nos golos sofridos era uma figura! A imagem era sempre a mesma, um golo sofrido por Bento significava que nos segundos a seguir íamos ter direito a grande correria do nº1 em direcção ao fiscal de linha, ou do árbitro, ou do primeiro companheiro de equipa que apanhasse à frente. A culpa nunca era dele. Nunca! E não era mesmo.
Porque quando a culpa era do Bento então aí era coisa em grande, à séria. Das raras vezes que resolvia enterrar eram momentos épicos de tão raros. Pela Selecção levou 5 da União Soviética em Moscovo. Foi da alimentação. Em Anfield Road levou 3 do Liverpool. Foi da iluminação. Na Luz levou 4 do Liverpool. Bem aí foi do... Rush!
Só que no jogo a seguir, não só recebia monumentais ovações do 3º anel, como rubricava fabulosas exibições. Essas são as mais fáceis de serem lembradas; Estugarda, França’84, o jogo que fez no México 86, na Escócia pela Selecção, em Roma, muitas nas Antas, muitas em Alvalade, e quase todas na Luz.

A minha primeira duvida existencial aconteceu aos 11 anos. Convenhamos que aos 11 anos nenhuma criança tem dúvidas existenciais. Pois bem, eu tive e confrontei a minha mãe com ela. Perguntei-lhe uma noite antes de adormecer, e depois de mais uma tarde gloriosa passada na Luz, o que ia acontecer ao Benfica quando o Bento deixasse de jogar?! Ninguém me soube responder. Fiquei sempre com essa angústia no meu subconsciente. O meu problema não eram os anos seguintes, sim porque eu sabia que o Bento ia durar até eu ser adolescente, ele não se lesionava, muito raramente ele perdia um jogo. Para mim era tão natural ter o Bento em campo como estarem lá as balizas, ou os postes com as bandeiras dos clubes a jogar atrás da baliza. Mas quando ele saísse?!
Assim foi uma forma de me preparar para esse dia, nunca me tinha passado pela cabeça como seria depois de ele morrer. Isso nunca me passou pela cabeça.

A verdade é que em 1986 ele tem a lesão, até aí foi coisa em grande. Uma lesão a sério, à Bento! Pé partido. Pronto, estava levantado o drama.
O Benfica tal como eu o conheci, e como me foi apresentado tinha acabado, porque esse era o “Benfica do Bento”. A partir daí foi assistir ao esvaziamento da tal mística benfiquista, e ver a baliza encarnada desprotegida. Ver o Silvino a titular não fazia sentido. O Silvino jogava no Setúbal, e no Aves!! Como era possível ir para o lugar do Bento?! O Neno era bom moço, mas também não convencia. Esses dois juntos não faziam um Bento. E depois? Ver o Bossio naquele lugar dava vómitos. O único que dignificou o nosso nº1 foi o belga Preud’Homme. Mas não foi melhor que o Bento, nem pensem nisso! O Bento foi o melhor, e o único à sua altura foi o Damas.

Sorte tem o meu avô que agora tem do lado dele os dois melhores guarda redes que eu vi jogar, só que os derbies que vão fazer do outro lado vão todos acabar zero a zero. Com o Bento a protestar muito.
Muito obrigado por tudo Bento, até sempre.