Gosto sempre de ver o Benfica jogar com equipas alemãs porque são do campeonato que mais admiro, além da Premier League. Costumo dizer que nunca é bom desportivamente ter desafios com germânicos porque do lado de cá só se dá valor ao Bayern de Munique ou, recentemente, ao Borussia Dortmund. A falta de cultura futebolística geral leva sempre a multidão a pensar que os jogos contra as equipas que não tenham Bayern ou Borussia no nome são de vitória obrigatória ignorando toda uma realidade de brutal poder financeiro que acontece na, exemplarmente organizada, Bundesliga.
No caso do Bayer a ilusão é maior porque o Benfica nunca perdeu com a equipa de Leverkusen tendo passado as duas eliminatórias disputadas. Como aqui escrevi em Fevereiro de 2013, o último duelo entre as duas equipas será ultrapassado na memória colectiva pelo peso romântico do jogo fabuloso de 1994 que terminou empatado 4-4.
Na verdade os adeptos do Bayer devem estar bem mais apreensivos do que nós. A sua história com equipas de Lisboa não é nada favorável. Em Maio de 1988 o Leverkusen ganhava a Taça UEFA mas uns meses após a grande conquista calham com o Belenenses na ronda inaugural da UEFA 1988/89. Todo o favoritismo alemão caiu com duas derrotas por 1-0 com os azuis! Estive no Restelo na 2ª mão a ver os detentores da Taça UEFA a serem afastados com um golo de Adão aos 84 minutos depois de Mladenov ter dado a vitória na Alemanha!
Uns anos depois, em 1994, voltei a ver o Bayer em Lisboa. Tinham uma senhora equipa com Schuster (ausente na 1ª mão), Kirsten, Thom, Worns, e o excelente guardião Vollborn mais o romeno Lupescu e o brasileiro Paulo Sergio! Assustaram a Luz com o poder atacante e o jogo colectivo. Thom fez o 0-1 aos 66 minutos e a partir daí parecia mais ou menos fatal a saída do Benfica daquela Taça das Taças. Só que antes do apito final Isaías reacendeu a chama da esperança com o empate que mesmo assim era um mau resultado.
Na Alemanha já todos conhecem a história, uma noite mágica e um apuramento por mais golos fora de casa.
No ano passado aconteceu o reencontro, agora na Liga Europa. Em 2010 o Benfica já com Jesus ao comando acabou com a maldição de décadas sem ganhar um jogo na Alemanha. Em Estugarda o Benfica venceu.
Em 2012/13 o duelo com o Bayer foi ainda mais épico em termos de resultados, 2-1 na Luz, 0-1 em Leverkusen! Mas os 4-4 é que ficarão para sempre em destaque.
Este primeiro encontro com o Bayer para a Liga dos Campeões é um duro teste para o Benfica. Na Alemanha fala-se que o campeão português vendeu muito e devido à austeridade reforçou-se com jogadores de segunda linha. É isso que se quer, eles que pensem que vai ser fácil. Recordo que na última visita a Leverkusen Jesus deixou de fora do 11: Lima, Rodrigo, Maxi, Enzo e Salvio! E ganhámos 0-1 como podem recordar aqui.
Já sabemos que o treinador vai mexer na equipa do Benfica, importa olhar para o outro lado e ver com o que podemos contar.
Desde logo salta a vista o reencontro com o guarda redes Leno, o atacante Kießling, os médios Bender, Castro e Rolfes. Na verdade não vamos rever Gonzalo Castro que está lesionado tal como o polaco Sebastian Boenisch.
A estes velhos conhecidos juntam-se dois dos maiores craques actuais da Bundesliga, o avançado coreano de 22 anos Son e o médio atacante turco de 20 anos Çalhanoğlu, ambos com passado no Hamburgo. Há ainda o eficaz avançado suíço Drmic, o veterano defesa bósnio Spahić e jovens de grande qualidade como Reinartz ou Bellarabi no meio campo.
É uma equipa muito competitiva e com grande qualidade, forte a jogar na BayArena. Na Bundesliga estão em 3º com 3 vitórias, 2 empates e 1 derrota, 11-9 em golos. Na Taça passaram com facilidade a 1ª eliminatória contra adversário secundário e chegaram à fase de grupos da Champions League afastando o Copenhaga sem dificuldades. A estreia correu mal com uma derrota no Mónaco mas onde tiveram as melhores oportunidades de golo.
Contra o Benfica o técnico R. Schmidt deve apostar em: Leno; Hilbert, Jedvaj, Spahic e Wendell; Bender, Reinartz; Bellarabi, Çalhanoğlu, Son; Kießling.
* o Bayer já ganhou por 3 vezes ao Sporting mas isso é outra conversa
Chegámos ao fim de Setembro, segundo mês de competição da época 2014/15, boa altura para olharmos para o que tem sido o comportamento do Benfica até aqui antes da segunda jornada europeia que marca o começo de Outubro.
Depois de um mês de Agosto com a conquista da Supertaça e um arranque positivo no campeonato a afastar de vez a aura negativa que se apoderou de adeptos e , sobretudo, comunicação social ávida em colocar o rótulo Crise no clube, o Benfica confirmou que as previsões que o tiravam da luta pelo 1º lugar estavam algo erradas.
O mercado fechou-se, o Benfica arrumou a casa reforçando-se já em Setembro com o atacante Jonas. Não é a situação ideal mas sabemos que terá de ser sempre assim. Infelizmente, o clube não tem os argumentos financeiros dos mais ricos da Europa e tem de esperar pelo final do mercado para definir o plantel. Não é um problema do Benfica, é um problema de todo o futebol europeu. Mais importante do que qualquer chegada foi a manutenção do trio argentino, Gaitan, Enzo e Salvio. Um verão inteiro a sermos ameaçados com a saída de um deles e, felizmente, ficaram todos.
Com a Supertaça ganha e a liderança na Liga, a época começa bem mas há algumas dúvidas muito preocupantes para dissipar nos próximos tempos.
A estreia na Europa foi horrível com a derrota na Luz com o Zenit e os pontos perdidos para o Sporting ainda custam a digerir.
Baliza
Não é bom chegarmos a Outubro com a situação da baliza neste estado de alerta. Artur continua a ser o guarda redes mais utilizado quando já nem devia estar no clube, Júlio César chegou tarde e demora a sossegar a nação benfiquista por causa da sua condição física. Até Paulo Lopes se lesionou e com a expulsão de Artur na Champions corre-se o risco de lançar o jovem Bruno Varela às feras em Leverkusen. É um sector mal resolvido, nota negativa. Esperemos pela afirmação de Júlio César.
Defesa
Na defesa também há dúvidas que temos de levantar. Se Luisão e Maxi são óbvios titulares, o mesmo não se pode dizer na esquerda. Eliseu foi a última solução encontrada para suceder a Siqueira. A seu favor tem a sua larga experiência a jogar ao mais alto nível, a confiança do treinador e o poder de remate de longe que já valeu dois golos decisivos e valerá mais alguns certamente. Isto não resolve o problema da falta de eficácia a defender e a ocupar tacticamente bem o lugar de defesa esquerdo. Espera-se que vá melhorando enquanto podemos perguntar por Loris Benito...
No centro o lugar de Garay tem sido ocupado pelo voluntarioso Jardel que é homem para segurar as pontas mas não tem qualidade suficiente para ser o titular, como já sabemos há muito tempo. Steven Vitória é carta fora do baralho, a dúvida está no argentino Lisandro Lopez. Fez uma boa temporada em Espanha, tem 25 anos, parece preparado para uma oportunidade no Benfica mas tarda em ser aposta de Jesus. É estranho porque se não tem mais qualidade que Jardel é preciso pensar em procurar um central de bom nível e não só útil. Há ainda o jovem brasileiro de 21 anos, César que ainda deve estar a esquecer o trauma de ter alinhado ao lado de Sidnei na pré-época. Ainda falta o importante regresso de Sílvio lá mais para a frente.
Quando o Benfica está em posição defensiva e a bola anda perto da zona de Artur, Jardel e Eliseu ouve-se falar na bancada em triângulo das bermudas. Isto pode e deve ser melhorado porque é a maior lacuna que há para apontar ao Benfica desta época. É verdade que até se tem sofrido menos golos em comparação com a época passada mas sente-se a insegurança defensiva ao longe.
Meio Campo
Do meio campo para a frente estão as melhores novidades. Desde logo com Talisca em destaque. Este é mesmo reforço e sente-se a crescer de jogo para jogo. Além do número de golos marcados, nota-se a evolução táctica e a movimentação em campo jogando mais perto de Lima no ataque. E a boa notícia é que só pode melhorar, tanto a nível físico como técnico. Aposta mais do que certa.
Já quanto a Samaris a questão não é tão clara. Nota-se que tem tudo o que é preciso para a posição mas parece que lhe falta maior rapidez de processos e ainda está longe de ser posicionalmente perfeito. Não é nada fácil chegar e impor-se naquela zona do campo, para já não tem sido totalmente convincente mas pode lá chegar com calma. Tem contra si o elevado preço que custou que aumenta a pressão exterior mas está longe de ser uma desilusão. Esperemos para ver como evolui. Esperar também é o que resta ao promissor jovem italiano contratado ao Milan. Cristante aguarda a sua vez e nós também.
Ter ficado com o trio argentino foi o maior trunfo que Jesus podia ter para esta época, Gaitan, Enzo e Salvio são a marca de qualidade superior nesta equipa e fazem toda a diferença. O novo número 10 da equipa, Nico Gaitan, tem estado em excelente nível e com ele em campo ficamos sempre mais confiantes. Salvio tenta confirmar todo o seu talento longe das lesões que tanto atrapalham a sua carreira e até agora tem sido determinante na ala direita e Enzo é o menos extravagante do trio mas está a caminho do seu melhor nível de jogo para jogo.
Nota ainda para a utilização regular de André Almeida que se confirma como jogador de enorme utilidade ainda para mais com a ausência de Ruben Amorim e Fejsa.
Ataque
Na frente Lima estava a começar a desesperar com a seca de golos e a imprensa já soltava números inquietantes que podiam atrapalhar a eficácia do brasileiro. Felizmente, nos últimos dois jogos marcou e tem sido o principal farol no ataque. Diga-se que em Portugal há avançados em clubes de topo que não marcam um único golo desde Dezembro de 2013 e ninguém se chateia. Ai se fosse o Lima...
Com a partida de Rodrigo parecia que Jesus ia ter aqui outra grande dor de cabeça mas a surpresa Talisca tem disfarçado a mudança. Também há que destacar a utilidade de Derley que tem sido importante sempre que chamado a refrescar o ataque. A grande expectativa está guardada para o ex-Valência Jonas. Se o brasileiro pegar de estaca e confirmar as suas qualidades, Jesus fica com interessantes opções para construir um ataque que até aqui está demasiado dependente da forma de Lima e da explosão de Talisca.
Grandes pontos de interrogação para o que vai ser a época de Sulejmani, Nelson Oliveira, Jara, Pizzi e Ola John, sendo que o holandês parece ser o mais motivado pelas oportunidades que tem tido.
Conclusão
Há algumas dúvidas preocupantes mas também há grande expectativa em ver algumas peças importantes atingirem um bom nível que leve este plantel para um patamar de qualidade que nos dê garantias de sucesso esta época.
É óptimo estar à frente do campeonato com a equipa ainda longe do ideal porque a tendência é para melhorar e estando à frente a moral é maior.
Estamos, portanto, muito longe daquele cenário negro de calamidade nacional que se montou no auge do Verão por causa das derrotas na pré-época e das ameaças de ver partir todos os craques e da falta de qualidade dos reforços. É preciso ter calma e agora é que se começa a ver com que linhas é que nos cosemos.
Este último recado é para a imprensa desportiva e generalista que encheu páginas e páginas de jornais, alimentou noticiários, produziu horas e horas de especiais na televisão sobre a "crise" no Benfica e com alguns protagonistas infelizmente conhecidos de todos nós.
Não é para os adeptos que desesperaram mais ou menos durante o verão. Cada um vive a pré-temporada como quiser. Eu há muito que me deixei de tragédias de verão sabendo que o mercado fecha a 31 de Agosto. Deixa-me muito mais nervoso o facto de termos Artur no plantel ou Jardel a titular do que a possibilidade de vir a perder todos os craques já em Janeiro.
Repito a pergunta que fiz ontem, onde anda aquele pessoal que se envolve em programas sobre "crise" no Benfica? Pensava que o recado estava bem endereçado à malta da CMTV, por exemplo, mas houve muitos a acusarem o toque. Mal, diga-se.
Agora é esperar que Outubro continue a correr bem. Não coloco grande importância no jogo de Leverkusen, muito importante é vencer o Arouca na Luz, um jogo que na época passada acabou 2-2, recordo! Na Champions League só quero dignidade e rotação da equipa. Nada de esforços extras ou colocar em risco jogadores importantes para o campeonato. Apenas peço atitude à Benfica na Europa. Como diz Jesus, muito bem, o objectivo é fazer algo que as gerações mais novas de benfiquistas nunca viram, ganhar o campeonato dois anos seguidos.