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Red Pass

Rumo ao 38

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Shakhtar 2 - 1 Benfica: Para Resolver na Luz

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Que fase má do Benfica! A terceira derrota em quatro jogos sem ganhar é um ciclo horrível mas é preciso detalhar este resultado que pode não ser assim tão mau como a derrota anuncia. 

Tal como em Famalicão o empate foi muito melhor que a exibição e cumpriu um dos objectivos da época, voltar ao Jamor, hoje o Benfica deixou em aberto a resolução da eliminatória europeia para daqui a uma semana na partida da Luz.

Mas o momento não é bom. A equipa só reage a espaços e mete-se a jeito de ficar em desvantagem com facilidade. Um dos grandes mistérios do Benfica actual é a posição do Seferovic. É sempre a primeira escolha a ir a jogo e hoje foi a preferência para o ataque do Benfica. Em troca dá uma mão cheia de nada. Perto dele esteve Pizzi, ficando no lado direito Chiquinho e na esquerda Cervi. No meio Taarabt e Florentino que andaram numa montanha russa na primeira parte a acudir no espaço entrelinhas que o Shakhtar conseguia explorar com facilidade. 

O Benfica não conseguiu impor o seu jogo e acabou por ter que andar atrás do futebol da equipa de Luís Castro. 

O nulo ao intervalo era a notícia menos má. O 0-0 e a exibição de Odysseas que continua a ser determinante para agarrar a equipa em alturas em que parece tudo perdido. 

Na 2ª parte esperava-se uma atitude diferente do Benfica mas acabou por ser mais do mesmo. Os ucranianos ameaçaram, na 1ª parte até marcaram um golo anulado rapidamente pelo VAR, e aos 56' marcaram mesmo. Um passe para a baliza de Alan Patrick assistido por Marlos depois de uma jogada fácil do ataque do Shakhtar. 

Estranhamente, o golo fez bem ao Benfica e a equipa, finalmente, tentou jogar o seu jogo. E 10' depois chega ao golo numa jogada de insistência de Tomás Tavares e Cervi. Golo anulado e penalti visto pelo VAR e confirmado pelo árbitro por falta sobre Cervi. Pizzi aproveitou e empatou o jogo. De repente, o Benfica ficava por cima da eliminatória com a vantagem do golo fora. Era uma boa altura para tomar conta do jogo e tirar proveito da falta de ritmo competitivo do adversário. Mas não. 

Rúben Dias facilita incrivelmente na linha de fundo e Junior Moraes aproveita para dar o golo ao Kovalenko que fez o 2-1. Precisamente na altura em que Vinicius foi chamado e antes de Rafa ir a jogo. 

Curiosamente, o Benfica acaba por cima, a fazer pressão, a trocar a bola e a procurar atacar, o que levanta a questão sobre a atitude da primeira parte. Pareceu ser uma equipa demasiado passiva e na expectativa. 

Da Ucrânia o que de bom se traz é o golo de Pizzi, 1-0 na Luz basta para seguir em frente, mas o Shakhtar tem qualidade mais do que suficiente para marcar também em Lisboa.

Cabe à equipa mostrar em casa o que quer da Europa em 2020. Hoje viu-se muita hesitação nessa vontade. 

Benfica 0 - 1 Braga: Sim, Estamos com Problemas!

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Faço questão de começar por elogiar o Braga e dar os parabéns pela vitória na Luz. Excelente trabalho de Rúben Amorim que veio à Luz fiel à sua ideia de jogo mesmo arriscando lançar um defesa central sem experiência na linha de três. Não me custa nada reconhecer o bom trabalho de um adversário do Benfica e escrever que fizeram por ganhar na Luz. Uma palavra também para os Hortas que por terem feito a sua formação do Benfica são sempre injustamente visados antes e depois destes reencontros com o Benfica. Hoje ganharam e estão de parabéns. 
Mas este exercício ficaria melhor a quem tem responsabilidades no futebol e na imprensa, dirigentes, comentadores e jornalistas, que colocaram em causa a seriedade dos profissionais do Braga, destes e de outros que já saíram, sempre que falam ou escrevem sobre este clássico do futebol português. Não é bonito gritar para os profissionais bracarenses que contra o Benfica não se empenham tanto ou passar a mensagem para a opinião pública que o Braga oferece os 3 pontos ao Benfica. Agora, estão todos satisfeitos, entretidos a fazer piadas e eufóricos com a ideia de aproximação e não conseguem ter cinco minutos para pedir desculpas publicamente e assumirem que foram umas bestas sempre eu colocaram em causa a seriedade do adversário do Benfica. Possivelmente, até estão a divulgar que foi graças a essas miseráveis declarações que o Braga hoje venceu. Não foi. Nem é preciso andar muito para trás no tempo para lembrar que este clube já eliminou o Benfica na Luz para a Taça de Portugal, tirou uma final da Taça da Liga e, pior, afastou o Benfica numa meia final europeia a contar para a Liga Europa. 

 

Hoje o Benfica sabia que tinha uma tarefa difícil num contexto emocional exigente. A derrota no Dragão fez mossa mas resultou de um clássico demasiado polémico dentro e fora de campo. O jogo seguinte em Famalicão teve desfecho positivo porque significou o apuramento para o Jamor mas com um empate 1-1 que não entusiasmou ninguém. Este era o jogo certo para a equipa dar sinais de vitalidade. 

De fora veio a melhor das respostas, a Luz recebeu cerca de 60 mil adeptos em ambiente de jogo grande, com coreografia e tudo, e com envolvência de partida importante. 

O Braga rapidamente mostrou que vinha para jogar com a qualidade que o levou a bater Porto e Sporting por duas vezes no espaço de poucas semanas e que já rendeu um troféu a Rúben Amorim. Bom para o futebol. Jogo aberto, dividido, com os melhores a terem que assumir as suas responsabilidades. Da parte do Benfica com Taarabt à cabeça sempre à procura de inventar soluções que deixassem Rafa ou Vinicius e em boas situações de finalização, assim como Cervi e Pizzi a fazerem chegar a bola à área com cruzamentos através das alas. E aqui começam os problemas do Benfica. Assim que se percebe que a finalização não está afinada, um certo nervosismo apodera-se da equipa na altura de posse de bola. Aquele circular paciente de bola, aquela calma que se estendia até aparecer um golo, mesmo que tardio, tem dado lugar a uma ansiedade que faz com que as oportunidades para o Benfica apareçam mais por erros forçados do que por organização ofensiva. Desta vez, esse nervosismo não passou para a bancada, houve sempre apoio na Luz a tentar dar a tranquilidade necessária à equipa. 

A verdade, é que nenhuma das ocasiões de golo foram aproveitadas e o Braga consegue fazer um golpe duro antes do intervalo. Numa falta inexistente de Rúben Dias, nasce um livre que leva perigo à baliza do Benfica. Odysseas defende superiormente mas no canto Palhinha fez mesmo o 0-1.

Aqui duas notas. As arbitragens dos jogos do Benfica têm dado pano para mangas. Hugo Miguel deu mais uma demonstração da falta de qualidade da classe. Momentos exemplares na primeira parte, uma falta sobre Rafa aos 21´para vermelho e um lance em que Taarabt atinge um adversário que devia ter sido falta e cartão amarelo para o marroquino. Mais a falta inexistente do Rúben que acaba por estar na origem do golo, temos aqui exemplos da incompetência com que temos sido brindados nesta Liga. E até estou a dar exemplos para os dois lados para não pensarem que acho que este mau momento é desculpável. Não é. Mas existe. 

A segunda nota vai para o momento de Odysseas, guarda redes de nível superior. Gigante. A melhor notícia desta fase.

 

Na 2ª parte pedia-se mais oportunidades de golo, mais velocidade, mais posse bola, mais dinâmica entre Tomás e Pizzi, Grimaldo e Cervi, Rafa mais solto e Vinicius mais incisivo. Só houve mais Taarabt. O Braga ao não abdicar de continuar a fazer o seu jogo tirou espaço e bola às ideias do Benfica. Esse sinal ficou bem claro quando Ruben Amorim tirou Galeno e lançou Trincão.

A resposta de Lage veio aos 62' e pareceu mais do mesmo em relação a semelhantes cenários recentes. Sai Cervi entra Seferovic. A Luz não gostou e fez-se ouvir com assobios. Mais tarde entrou Chiquinho por Weigl e aos 86' Dyego Sousa por Tomás Tavares. Eu diria que nada de bom veio daqui. Vou repetir o que escrevi aqui sobre o jogo no Dragão, os adeptos do Benfica já não estavam habituados a este nível de improviso, já estavam confortáveis com a insistência na ideia até ao fim com alguns ajustes. Mas acabar o jogo com Vinicius, Dyego e Seferovic é atípico. E ter o suíço como primeira opção quando nas últimas 16 chamadas só marcou num jogo é estranho. Não está em causa o valor do melhor marcador do último campeonato, está em análise o rendimento actual neste quadro competitivo. 

Sim, temos problemas. Quanto mais depressa os identificarmos e assumirmos mais rápido podemos corrigir e mudar. Os últimos dois jogos para o campeonato representam seis pontos perdidos, portanto é evidente que há soluções por encontrar. 

 

Última nota para Raul Silva, o central do Braga não merece a fase que o clube que representa atravessa. Para não ir mais longe.

Segue-se o regresso à Liga Europa. Novamente, é muito importante diferenciar o contexto competitivo tal como aconteceu na Taça de Portugal. Foco e inteligência na Ucrânia, o destino Europeu não se decide numa só noite. É preciso saber construir um cenário que proporcione um final feliz depois na Luz. Determinante mesmo é a deslocação a Barcelos de 2ª feira a oito dias, aí é que não há margem de erro. 

No fim do dia a menos má das notícias é o facto do Benfica partir para a próxima jornada como líder. Com maior ou menor vantagem, no fundo, tem sido esta a vida do Benfica nos últimos seis anos, sem margens de erro nem confortáveis vantagens. Quando as temos parecer que fazemos questão de as desperdiçar... Tem sido assim. Haja a garra, o foco, a concentração e determinação que houve em cinco desses últimos seis anos. tem a palavra a equipa. Com o apoio não se preocupem, em Barcelos lá estaremos todos juntos a puxar para o mesmo lado. 

Famalicão 1 - 1 Benfica: De Volta ao Jamor!

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Há coisa de um ano estava em casa a ver um Famalicão - Paços de Ferreira da Liga Pro numa 4a feira à noite na televisão. Fiquei impressionado pelo estádio cheio, pelo ambiente e pelo futebol dos minhotos. Percebi que iam subir e anotei mentalmente que tinha de fazer um esforço para conseguir lá ir ver um jogo e conhecer aquela realidade. Depois, vi e li várias reportagens à volta do clube e percebi que ali havia uma alma parecida com aquela que faz do Vitória um clube diferente em Guimarães, por exemplo. 

As contratações mediáticas e impressionante primeira volta do Famalicão nesta temporada fazem daquele clube o que mais evoluiu entre as ligas profissionais em Portugal. Um exemplo de gestão e com apostas muito interessantes em jogadores de grande potencial. 

Por tudo isto, tenho sempre elogiado o Famalicão e a vontade de conhecer o Estádio Municipal 22 de Junho foi crescendo. Quis o destino que o Benfica tivesse de jogar quatro vezes com os minhotos. Dois dois jogos da Luz já passaram e o facto da segunda partida da Taça de Portugal estar marcada para uma 3ª feira às 20h45 abria uma janela de oportunidade de investir numa viagem ao norte para conhecer aquela realidade. O desafio foi encher um carro com cinco benfiquistas que ajustaram a sua vida profissional e familiar para, mais uma vez, colocar o Benfica em primeiro lugar e acompanhar o clube a um destino novo e diferente. 

Para tornar tudo ainda mais aliciante houve sondagem entre amigos mais informados para saber onde devíamos parar antes do jogo para conhecer a gastronomia local. Depois de muitas sugestões, optámos pela Casa Pêga porque serviam antes da clássica hora de jantar. Saída de Lisboa pelas 15h, regresso à A1 três dias depois da ida ao Dragão e chegada ao restaurante antes das 19h. Os carros de vários meios de comunicação parados à porta já indicavam que o poiso seria de qualidade. Lá dentro vários profissionais conhecidos da Sport Tv, SIC ou TSF confirmaram que tínhamos feito a escolha certa. A recepção é desarmante. Simpatia e esforço por servir bem. Bolinhos de bacalhau, broa, queijo e uns rojões típicos do Minho que compensaram logo aquela loucura de estar ali numa 3a feira por causa de um jogo de futebol. 

A partir daqui foi sempre a descer.

Infelizmente, a realidade em Vila Nova de Famalicão é mais do mesmo do que temos vindo a descobrir noutros pontos do país. Afinal, os adeptos do Famalicão também são movidos a ódio e no nosso caminho para o estádio só ouvimos insultos e provocações. Tudo se agrava com a existência de uma casa do Futebol Clube do Porto junto ao estádio que costuma estar fechada em dias de jogo. Ontem, curiosamente, estava aberta e cheia de adeptos do Porto bem identificados. 

Acresce a tudo isto a ausência de indicações por parte de quem organiza o jogo. A Federação Portuguesa de Futebol podia ter feito um esforço para dignificar a prova rainha e organizar, por exemplo, um parque de estacionamento para as poucas centenas de adeptos visitantes. Principalmente, a maioria que nunca tinha ido ali e não sabia como se orientar até ao recinto. Nada disso aconteceu, os adeptos do Benfica iam à descoberta e assim passavam junto a elementos da claque do Famalicão e muitos portistas num ambiente de tensão. 

Quando chegámos ao acesso à nossa bancada vieram as piores noticias. Relatos de adeptos benfiquistas que contaram que durante a tarde a festa da Taça foi andarem a roubar adereços do Benfica em permanente provocação. Nem a equipa de reportagem da BTV se safou dos apertos. Nas revistas aos adeptos proibiam os adereços do Benfica a adeptos que tinha comprado bilhete de 25 euros para a bancada central. Continuamos nisto em 2020. 

E para saltar já para o fim, após o jogo fomos obrigados a ficar mais de 40 minutos à espera para sair. Relembro que o jogo começou às 20h45, portanto mais 40 minutos depois de terminar a partida são penosos para quem tanto tinha de andar a seguir. Isto tudo para depois na saída dos adeptos do Benfica haver logo insultos e provocações de famílias movidas a ódio nos prédios ao lado do estádio. Um triste espectáculo. Continuo a desejar tudo de bom à equipa do Famalicão, ao seu treinador e aos jogadores que mostram um bom futebol. Mas em termos de adeptos já não me enganam mais, estão apresentados. Desilusão total na cidade e nas bancadas. 

 

O Benfica tinha de responder à derrota no Dragão. Não o fez de forma categórica, longe disso. Mas a equipa teve o mérito de perceber que não está bem e, portanto, tinha que adaptar-se ao contexto competitivo e fazer o possível para garantir a presença no Jamor.

Bruno Lage voltou ao formato normal depois daquele triângulo no meio campo no Porto. Cervi na esquerda, Pizzi na direita, Rafa e Vinicius no meio. Recuperou Florentino para o meio campo e insistiu em Taarabt para dinamizar o jogo ofensivo da equipa. Tomás Tavares ocupou o lugar do lesionado André Almeida. 

Com uma vantagem mínima e perigosa, o Benfica tentou agarrar no jogo e tirar a iniciativa ao Famalicão. Essa foi a primeira preocupação. E percebe-se bem porque a equipa veio de um jogo muito exigente, afectada pela derrota e encontrava um Famalicão que não se desgastou desde o jogo na Luz. A derrota por 0-7 com o Vitória de Guimarães foi o reflexo da aposta de João Pedro Sousa numa equipa de reservas deixando a equipa fresca para este jogo decisivo.

Em parte, a estratégia do Famalicão resultou porque conseguiu encostar o Benfica e lutar pelo apuramento até ao fim. No entanto, o facto do Benfica ter saído na frente deu uma outra tranquilidade à equipa de Lage. Tranquilidade que Ferro e Grimaldo não conseguem ter. Voltou a ser por aquele lado que o adversário fez mossa. O Benfica acaba por sair com uma simpática vantagem para o intervalo já que viu o golo do empate ser invalidado por fora de jogo. 

Quando se esperava uma forte reacção do Famalicão, por estarem bem mais frescos, o jogo caiu numa surpreendente toada morna que muito convinha ao Benfica. Surpreendeu a falta de objectividade e eficácia do Benfica em vários momentos que podia ter resolvido o jogo com recuperações de bola e ataques rápidos sempre mal definidos e assim deixaram sempre o Famalicão em jogo. O cenário complicou-se a cerca de 10 minutos do fim quando surgiu mesmo o 1-1. O Benfica voltava à condição da época passada em Alvalade, mais um golo sofrido e o Jamor desaparecia. 

Emoção e nervos até ao fim. Mais nervos só mesmo com a atitude de Seferovic no momento de poder fazer o 1-2. O que se passa com o suíço? Que má vontade é aquela? Que desprezo pelo jogo é aquele? Tem sido inexplicável a atitude de Seferovic nestes últimos tempos no Benfica. 

A verdade é que o apuramento para o Jamor foi garantido, sem brilho mas com esforço depois de uma jornada complicada no passado fim de semana. O objectivo de voltar à final da Taça de Portugal foi conseguido. Cumprimos um trajecto digno, passámos por Cova da Piedade e Vizela e depois medimos forças com três equipas do Top 6 da Liga NOS, Braga, Rio Ave e Famalicão. Muito mérito nesta caminhada.

Agora, na final do Jamor, a Federação Portuguesa de Futebol já pode montar toda a estrutura milionária para embelezar a prova rainha. Já ninguém se vai lembrar das condições miseráveis que os adeptos do Benfica encontraram nesta meia final em que não se viu sinal da organização da prova junto de quem dedicou um dia útil para acompanhar o apuramento para a final. Segue-se o fogo de artificio e o glamour VIP do Jamor e da Supertaça e na próxima temporada lá voltam os folhetins de jogos repetidos por repescagens, de aventuras dos Canelas da vida e destas meias finais ridículas a duas mãos e com os golos fora a valerem por dois como na UEFA. 

O mais importante está conseguido, churrasco no Jamor! 

Porto 3 - 2 Benfica: Impotência Frustrante

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Já nem me lembrava o que era fazer a A1 em esforço para Lisboa. Estivemos num ciclo incrível em que estas viagens até pareciam mais curtas, na última noite voltei a sentir o peso da distância, também porque vim a conduzir, depois de uma derrota. Já não me lembrava, quero esquecer rapidamente e desejo que não volte a sentir tão cedo. 

Aproveitando o facto de ter vivido o clássico por dentro começo por partilhar algumas notas à volta da organização do jogo que acho úteis para quem não está tão por dentro destas logísticas. Em 2020 está muito acessível e confortável ir até ao Dragão ver o Benfica. Fui na década de 90 às Antas e já fui ao novo recinto de comboio, de carro sem escolta e ontem em carro próprio seguindo a sugestão da policia. A maioria dos adeptos benfiquistas de Lisboa optaram por ir de autocarro e saímos todos juntos a pé para o estádio. Sem qualquer dificuldade e com a moral em alta. Seria impensável ir com esta facilidade toda a um clássico no Porto até há pouco tempo. Portanto, só posso deixar elogios ao Benfica e à PSP por toda a operação. Isto é de valor, tem de ser sublinhado porque quando corre mal todos criticamos. 

 

Sigo por uns recados para as entidades que mais se põem em bicos dos pés durante a temporada futebolística. Começo pela tarja de boas vindas aos adeptos do Benfica fixada num viaduto do Porto.

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A juntar às boas vindas ainda tivemos direito a bonecos enforcados, um com equipamento do Benfica e outro, suponho, deve ser o árbitro. Quando estamos a atravessar tempos tão sensíveis socialmente e que tantas vezes vemos imediatas reacções de João Paulo Rebelo, o zeloso Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, e de Pedro Proença, Presidente da Liga Portugal, por exemplo, é estranho que até agora ninguém tenha mostrado indignação.

 

Por falar em Liga Portugal, eu enquanto adepto que pago caro o meu bilhete para ver um jogo, este custou 31€, que pago a deslocação e passo o dia dedicado ao espectáculo que a organização deve defender, gostava muito de perceber porque é que no Dragão o número oficial de espectadores termina sempre com o número da camisola do jogador que faz o primeiro golo do Porto. Também gostava de saber porque é que o Porto atrasa as suas entradas em campo para que os jogos comecem invariavelmente mais tarde. É que as partidas já são marcadas para um horário tardio, não é preciso atrasar mais o seu começo. E ainda, gostava de entender porque é que o guarda redes do Benfica, com pressa, vai buscar uma bola para recomeçar o jogo e acaba a levar cartão amarelo, a perder tempo e continua sem bola depois disso tudo. Sendo que para seguir o jogo aparecem depois duas bolas em campo.

Este episódio leva-me a questionar agora a coerência do Sérgio Conceição. Há pouco tempo queixou-se, mais do que uma vez, do anti jogo e tempo útil de jogo. E bem. Podemos falar disto neste clássico ou é só quando o Sérgio está apertado. Sérgio, o teu Porto da segunda parte deste jogo foi igual ao teu Vitória de Guimarães na Luz há uns anos. Coerência é isto. 

 

Agora o jogo.

O Benfica tinha uma oportunidade óptima de fazer história no Dragão ou, pelo menos, de fazer mossa no rival. Vários cenários eram apetecíveis para o líder que nunca tinha estado nesta posição confortável nas visitas ao Porto. Por incrível que pareça, este conforto faz mal ao Benfica. Parece que tudo funciona melhor quando a pressão está no limite como na época passada. 

Pedia-se ao Benfica que entrasse autoritário, com posse de bola, impusesse o seu estilo e o seu jogo, que dominasse o jogo de forma natural. Tinha tudo a seu favor, inclusive a previsibilidade do seu adversário. 

Sem margem para erro, Sérgio Conceição foi pela única via possível, um 4-4-2 com Soares e Marega na frente, no meio campo Uribe, Diaz, Sérgio Oliveira e Otávio e na defesa uma chamada de Pepe ao lado de Marcano com Alex Telles e Corona nos corredores a darem muita projecção atacante. Tudo isto assente numa pressão intensa e uma reacção à perda de bola agressiva. Ou seja, o Porto na sua zona de conforto, na sua atitude preferida em postura de tudo ou nada e com conhecimento das limitações defensivas do Benfica que, aliás, já tinha explorado com sucesso na Luz. Veja-se o golo que Marega inventou. 

Nos tempos de Giovanni Trapattoni eu sei bem como é que este jogo era encarado. Mas os tempos são outros e a exigência está no auge, felizmente. Ninguém ia perdoar a Bruno Lage um plano de jogo para não perder. Quando tudo parecia claro para encarar o clássico surge a baixa de Gabriel e várias opções se levantaram. A equipa técnica do Benfica optou por lançar Weigl e Taarabt que se juntava a Chiquinho atrás de Vinicius. Destes três, dois são claramente ofensivos e com necessidade de ter bola, depois Rafa a ameaçar na esquerda e Pizzi na direita. Na defesa nada de novo. Na teoria, era uma equipa com vontade de ter bola e ofensiva. Houve sinal ambicioso na entrada em campo. 

O Benfica não entra mal nos primeiros minutos mas aos 4 minutos Marega deixa Taarabt K.O. no relvado e deu o mote para o jogo do Porto. O facto deste lance não ter merecido qualquer reparo de Soares Dias nem de Tiago Martins também deixou claro ao que íamos. Estes são dois nomes apontados para o sucesso de Portugal no futebol internacional a nível de arbitragem. Por isto é que não temos nenhum nome de arbitragem em fases finais de Mundiais, Europeus ou Champions League. São ridículos na sua altivez e abjectos na sua vaidade. Lamento.

Aos 10', Otávio centra e Sérgio Oliveira faz o 1-0 e foi a primeira vez que o Dragão reencontrou a sua identidade. Até aí todos pareciam muito receosos, equipa e adeptos. 

Tal como na época passada, o Benfica reagiu e 8' depois Carlos Vinícius marca na mesma baliza onde João Félix tinha feito a festa há um ano. O sector visitante ficou ainda mais motivado e nada apontava para o que veio a seguir. Cartão amarelo para Taarabt, cartão amarelo para Weigl, em três minutos os homens do meio ficaram condicionados e 6' depois Tiago Martins vê um penalti de Ferro. Soares Dias, que nada assinalou em cima do lance, foi ao VAR e abriu caminho para o 2-1 que Alex Telles agradeceu. Se é verdade que há mão do Ferro, também é evidente que Soares empurra o central do Benfica. A questão é, que imagens é que Artur Soares Dias viu para ignorar assim a falta do avançado portista?!

E assim se esfumou a reacção do Benfica. Pior que isto, a equipa acusou os três amarelos seguidos, o penalti, e o facto do Porto continuar a atacar pelo lado esquerdo da defesa do Benfica, entre Grimaldo e Ferro, acabando por chegar ao 3-1 antes do intervalo com Rúben Dias e Odysseas a não conseguirem reparar a mossa de Marega. 

Desilusão total ao intervalo. Pedia-se uma nova abordagem na 2ª parte. E o Benfica acreditou que era possível ir atrás de um bom resultado, Rafa assistiu Vinicius que aos 5' reduzia para 3-2. Ficava toda uma 2ª parte para brilhar. Uma palavra de conforto para o avançado brasileiro que bisou no Dragão, não foi por ele que as coisas correram mal. 

A partir daqui o Benfica fez o que sabe melhor fazer, ter bola, circular, procurar soluções e tentar chegar ao empate. O problema é que foi durante um período muito curto porque rapidamente a equipa de Sérgio Conceição levou o jogo para a perda de tempo. O episódio que já referi do Odysseas aconteceu aos 64'.

A partir dos 66', o Benfica perdeu as suas raízes de jogo. Bruno Lage com meia equipa "amarelada" optou por partir o jogo e levar tudo para o campo do improviso. Tirou Adel, que estava na primeira linha para ser expulso, lançou Seferovic. Nada de bom saiu daqui. Dez minutos depois trocou Weigl por Samaris. Mais dez minutos e saiu André Almeida que deu lugar ao estreante Dyego Sousa. Rafa passou para defesa direito e o futebol do Benfica já era só desespero à procura de um milagre final. O Porto sempre confortável com esta anarquia e todo este improviso. Tudo saiu mal ao Benfica. Perdeu-se o controlo do jogo e caiu-se na tentação de um futebol que não sabemos jogar, abdicando de tudo aquilo que a equipa costuma fazer até ao fim. 

Foi mau. Ficou aquela sensação do costume, sempre que podemos fazer estragos profundos naquele recinto acabamos por lhes dar vida. Tem sido isto a minha vida toda. Em 2010 podíamos e devíamos ter sido campeões ali. Não fomos e foi o que se sabe nos anos seguintes. Desta vez podíamos ter aumentado para 10 pontos a vantagem, saímos com 4. É frustrante. Entre estes dois jogos tivemos momentos muito bons no Dragão mas nenhum tão saboroso como um título ou uma vantagem histórica. O mais próximo que se conseguiu foi na época passada. Em máxima pressão, lá está.

A ironia disto tudo, é que há um ano saímos do Porto com uma vantagem de 2 pontos na liderança. O regresso para Lisboa foi em total euforia. Com 2 pontos de avanço e um calendário delicado pela frente. Desta vez, regressamos com 4 pontos de vantagem e uma calendário menos agressivo mas a decepção e frustração é gigante. Porque já não somos o Benfica de Trapattoni, não equacionamos empates e quando a derrota chega é como uma abalo sísmico de alta intensidade em todo o universo benfiquista. Ficamos a mastigar todo o jogo em loop e a pensar que devia ter sido tudo diferente. Tudo, não. Os golos do Vinicius mantinham-se. 

Resta-nos fazer um rápido luto e ganhar força para ir a Famalicão garantir um dos objectivos essenciais da temporada que é regressar ao Jamor. Ir com ganas de voltar a encarar a A1 para Lisboa com felicidade. 

Só depois é que podemos pensar na continuação da Liga NOS. Que esta impotência dos clássicos seja a excepção numa prova imaculada até ao fim, como foi a primeira volta. 

Quem passou o sábado dedicado a esta operação que foi estar no Dragão tem uma pequena mas valiosa compensação em relação ao resto do universo benfiquista, passar um dia em família unida no espaço do maior inimigo do nosso clube dá-nos sempre um conforto na alma e uma mais valia nas nossas vidas dedicadas ao Benfica que nenhuma derrota nos vai tirar porque este sentimento é o coração que faz bater a grandiosidade do Sport Lisboa e Benfica. Foi assim nos anos 90 e continua a ser assim hoje. 

 

Benfica 3 - 2 Famalicão: O Caminho Para o Jamor é Longo

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O Benfica se quiser chegar ao Jamor tem de afastar 3 equipas do Top 6 da Liga NOS. Braga e Rio Ave já foram afastados, chegou a vez do duplo duelo com o Famalicão.

Segundo de quatro encontros entre Benfica e Famalicão nesta época. Tudo graças a um formato aberrante que transforma o acesso à final da Taça de Portugal numa espécie de eliminatória europeia com os golos fora a valerem por dois em caso de empate como um dia os responsáveis da UEFA inventaram. As meias finais da Taça de Portugal são o total oposto ao espírito da prova que desde Agosto anda a apurar clubes num só jogo. 

Por isso, em vez de termos um emocionante jogo decisivo lá para Março / Abril com porta aberta para o Jamor, temos esta meias finais a duas mãos para se resolverem numa semana. Numa 3a feira à 19h15 era difícil pedir mais gente na Luz para um jogo que nada decide na sombra do grande clássico do próximo fim de semana. 

Bruno Lage não facilitou e chamou Odysseas para a baliza, quebrando a tradição de rotação na prova, André Almeida para defesa direito e apostou em Jardel no lugar de Ferro. Correu mal, o brasileiro saiu lesionado ao intervalo e Ferro foi a jogo. Depois, Weigl descansou cabendo a Gabriel fazer dupla com Taarabt, Cervi e Pizzi mantiveram os lugares, na frente Seferovic e Chiquinho foram titulares. 

Pedia-se ao Benfica uma entrada forte e uma atitude ofensiva que levasse o jogo para um resultado tranquilo que desse conforto para a 2ª mão. A equipa não interpretou assim o jogo e andou uma velocidade abaixo do que é normal tornando a partida aborrecida, convidando o Famalicão a arriscar mais. O nulo ao intervalo mostrava que as equipas estavam à espera de resolver a passagem à final na próxima semana.

A 2ª parte trouxe um novo jogo. Cinco golos que animaram a noite e trouxeram muita emoção à Luz.

Ao golo de Pizzi, num penalti conquistado por Seferovic, o Famalicão respondeu com o melhor futebol que se tem visto por cá esta época. Diogo Gonçalves assistiu Pedro "Pote" Gonçalves no empate e depois o marcador deu o golo a Toni Martinez que deixava o Famalicão mais perto do Jamor. Entretanto, já tinham entrado Rafa e Vinicius e o Benfica encontrou força e motivação para fazer nova remontada. Aos 78' o inevitável Rafa fez o empate e no último minuto Gabriel responde de cabeça a um canto de Grimaldo dando a suada vitória ao Benfica.

No fim do dia, o Benfica sai moralizado com o triunfo perto do fim e parte em vantagem para a 2ª mão no Minho.

O Jamor parece perto mas ainda está muito longe. Vai ter de ser conquistado lá bem no norte em mais uma jornada de futebol a meio da semana, bem longe dos interesses dos adeptos.

Posto isto, um repto para a FPF: acabem com estas meias finais a duas mãos, façam mais uma eliminatória e coloquem as equipas profissionais mais cedo no sorteio. Isto é absurdo. 

Benfica 3 - 2 Belenenses SAD: Magia de Adel Contra a Maldição do Ano Passado

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O futebol é muito pródigo em criar tradições, cultos, fantasmas e universos próprios entre clubes. O historial de confrontos entre o Benfica e Clube de Futebol "Os Belenenses" dava para um livro. Histórias de jogos para o campeonato ou para a Taça de Portugal que atravessam décadas no futebol português. É um derby muito rico em episódios marcados por jogadores que vestiram as duas camisolas e transformou-se num clássico do nosso futebol. Infelizmente, essa história foi interrompida há uns anos e deu lugar a um novo ciclo. Agora é um derby sem grande passado e já não é um clássico porque estamos a falar de outro clube. Ou de um projecto que ninguém sabe ao certo como se chama, B SAD, Codecity, Belenenses SAD. No lugar da cruz de Cristo aparece um logo feito à pressa, não tem estádio, não tem adeptos, enfim, é uma SAD a competir no maior campeonato do país. 
Mas como escrevi ao abrir o texto, o futebol é muito pródigo em criar tradições, cultos, fantasmas e universos próprios entre clubes. Muito pródigo e muito rápido. Tão rápido que os jogos desta época com o Belenenses SAD, chamemos-lhe assim, levantam maus pensamentos. Na primeira volta, no Jamor, 18 mil benfiquistas foram apoiar a equipa mas desconfiados da derrota da época passada. Uma noite negra de chuva intensa, com arbitragem de Soares Dias e uma derrota amarga. O triunfo deste ano serenou os adeptos e tirou uma certa carga negativa que os jogos contra este projecto acarretam.

Para o primeiro jogo da 2ª volta da Liga NOS na Luz, temos o Belenenses SAD. O Benfica vinha de uma vitória na Mata Real, com um balanço incrível de vitórias e golos marcados e o pensamento de muitos já na próxima saída ao Porto. Muito optimismo antes do jogo mas à medida que se aproxima a hora de começar novos pensamentos afectam o tal optimismo. Na época passada, depois da vitória mais épica de Bruno Lage, 1-2 no Dragão, a curta almofada de conforto trazida do norte desapareceu logo com um incrível empate com o Belenenses SAD a quem o Benfica não venceu nenhum jogo. 

Na primeira volta o enguiço foi quebrado mas esta ironia de voltarmos a defrontar a mesma equipa tão perto da visita ao Dragão podia agitar fantasmas?

 

A resposta veio precisamente depois do 2-0. O Benfica na primeira parte parecia ter construído o suficiente para voltar a ter uma noite tranquila, como teve em Paços de Ferreira. O treinador deu o sinal mais importante ao resto da equipa ao não abdicar de André Almeida no onze, mesmo sabendo que um cartão amarelo o tirava do clássico da próxima jornada. O sinal foi claro, o jogo que interessava era este e ninguém queria facilitar. Bruno Lage lançou Adel Taarabt no lugar de Gabriel, única mudança na equipa, à procura de mais criatividade no meio campo e imprevisibilidade para contornar a linha de cinco defesas que Petit preparou, um esquema que tem dado dores de cabeça a Bruno Lage na abordagem dos jogos no último ano. 

Aposta mais do que ganha, o marroquino abriu o livro e foi o melhor em campo. Fez uma jogada genial a driblar todos os que lhe apareceram pela frente em metade do campo, uma jogada que acabou por dar golo graças à insistência de Vinicius. Tudo épico, as fintas de Adel, o passe para Cervi, a cabeça à trave de Vinicius que acabou por ser uma "auto assistência" para o seu golo. Momentos que já justificavam a ida ao estádio para mais de 45 mil adeptos. 

 

Pelo meio e justo destacar a importância de Odysseas que negou o golo ao Belenenses SAD, em especial numa defesa soberba a um livre directo na primeira parte. 

Um Belenenses SAD motivado pela vitória na última jornada, atrevido, determinado a pressionar alto e a arriscar desafiar o Benfica na Luz, uma boa imagem deixada por Petit. 

O Benfica descansou com o 2-0 e na 2ª parte pareceu querer controlar o jogo sem grandes riscos desde muito cedo. O 3-0 tardou em aparecer e os tais fantasmas apareciam na Luz. Comentava-se nas bancadas que ainda podia acontecer o drama do ano passado e os jogadores pareciam demasiado ansiosos com a bola. 

Sem grande explicação lógica, o jogo cai de repente num carrossel de lances imprevisíveis e emoções descontroladas. Licá faz mesmo o 2-1 e toda a gente pensou no desfecho da última época. As bancadas inquietaram-se e começaram a passar o nervosismo para o relvado de forma irresponsável. André Almeida, Ruben Dias e até Bruno Lage pediam calma e apoio ao Estádio da Luz. A equipa reagiu e lá apareceu mais um golpe de génio. Ruben passou para Vinicius que num toque de calcanhar simples e vistoso isolou Chiquinho que contornou o guarda redes e fez o primeiro golo na Liga pelo Benfica. O festejo foi simbólico, sentou-se no relvado e estado zen, como que pedindo tranquilidade no ambiente da Luz. 

Depois do golo de Taarabt, o golo de Chiquinho a acabarem com o mito de não conseguirem marcar pelo clube no campeonato. 

Estávamos a pouco mais de 10 minutos do final do jogo e o 3-1 parecia acalmar os nervos. Mas seis minutos depois Rafa acaba por fazer penalti sobre Varela e permite que Licá reduza para 3-2. 

Com cerca de 10 minutos para jogar, o Estádio da Luz virou um lugar de loucos. Na minha tentativa de me acalmar, fixei o olhar na bancada por trás do banco do Benfica enquanto ia alternando com a visão do jogo. O momento é tão rico graficamente que acabei por me rir sozinho. Riso de nervosismo, claro, mas só dava para rir. 

Então, tínhamos sócios de pé a refilar e a dar indicações à equipa, adeptos a assobiar, outros em silencio a sofrerem com as memórias do empate de há um ano, e, pasme-se, muitos benfiquistas completamente indiferentes ao desfecho da partida e a virarem costas ao relvado para saírem do estádio como se estivéssemos a golear ou o jogo tivesse terminado. A sério, como é que conseguem. É que não foram poucos, olhem para as várias saídas do estádio e estavam dezenas neste ritual. Quero pensar que é malta com problemas cardíacos e que se recusa a ficar até ao fim por problemas de saúde... Este recinto, às vezes, parece uma casa de loucos. 

Tudo acaba bem quando o Benfica vence. Com muito mais dificuldade que seria de esperar depois do 2-0, com muito mais sofrimento daquele que eu acho aceitável para a minha vida mas no fim do dia respiramos fundo e concluímos: fizemos mais 5 pontos no campeonato só contra esta equipa em relação ao último campeonato. Vamos dormir com 10 pontos de avanço na liderança e agora os outros que se esforcem. Com estas duas vitórias ao Belenenses SAD acabou-se a maldição dos pontos perdidos.

Esta noite tem que ficar na memória de todos como a noite da magia de Adel.

Desejo tudo de bom ao Petit e que evite a descida, apenas e só pela estima que tenho por ele, mas espero, sinceramente, que a médio prazo esta aberração do B SAD desapareça e dê lugar a um clube a sério no escalão maior do futebol português. 

 

Paços de Ferreira 0 - 2 Benfica: Não Recuamos Nem 4 Centímetros!

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Diz o GPS que são 682 quilómetros passados na estrada num só domingo para ir de casa a Paços de Ferreira ver o Benfica e regressar. É uma viagem repetida, já fui à Capital do Móvel várias vezes noutros anos e à medida que a idade avança torna-se cada vez mais complicado explicar o que nos move nestas maratonas só para ver um jogo de futebol.

Acordar cedo num domingo, pensar no local onde se almoça, chegar lá a horas, enfrentar nevoeiro denso que nos lembra outras viagens bem menos agradáveis, parar o carro ainda longe do estádio, passar pelas condições miseráveis de entrada no recinto, ficar numa bancada descoberta e sempre com ar de provisória. Nada disto parece apetecível. Mas depois, já no lugar atrás da baliza ao vislumbrar aquelas camisolas vermelhas de mangas compridas a entrarem no verde relvado do outro lado do estádio, começar a identificar os jogadores um a um, esboça-se um sorriso e pensa-se com orgulho, ora aqui está a razão para estar às 17 horas de dia 26 de Janeiro a 341 quilómetros de distancia da minha casa. 

 

O almoço é um pretexto para nos juntarmos com outros benfiquistas, colocar as conversas e discussões em dia e, claro, comer bem. Desta vez, fomos ao Telheiro em Paços de Ferreira. Comeu-se bem mas não foi inesquecível. Lá está, valeu mais pelo convívio do que pela gastronomia.

Na bancada mais reencontros. Recordar outros tempos, outros jogos, outras histórias e o tempo passa mais depressa. De repente, já estamos na hora de começar o jogo. A mesma rapidez com que a noite cai sobre o Estádio Capital do Móvel. O cenário das casas estendidas pelo cenário verde visível para lá das bancadas deu lugar ao escuro e ao frio do norte. 

Começava assim a 2ª volta do campeonato, num terreno de uma equipa que luta para não voltar para a 2ª divisão e que não perdia, nem sofria nenhum golo há quatro jogos. 

O Benfica vinha de uma magnifica série de 17 triunfos seguidos fora da Luz a contar para o campeonato. Queria dar seguimento à vitória no derby e começar a segunda metade da Liga NOS da melhor maneira à procura de fazer o que tem feito sempre nos últimos anos, uma segunda metade de temporada melhor do que a primeira. 

Um Benfica na máxima força sem lesões a atrapalhar. Rafa começa como titular, Chiquinho foi para o banco. O efeito de Alvalade manteve-se na exibição de Rafa. Exibição autoritária do Benfica de olhos postos na baliza do Paços e com pressa de chegar à vantagem.

Dois topos do estádio vestidos de vermelho a gritarem Benfica de um lado para o outro, uma equipa empolgada com o apoio, qualidade individual e colectiva. O Benfica a ameaçar fazer o 0-1 até que Vinicius descobre Pizzi na área e festeja-se o primeiro golo. Sentimento de alivio por ver a bola lá dentro e logo a seguir o mundo parado porque a equipa de arbitragem acha que é fora de jogo. Corrida aos telemóveis para consulta ao público do sofá. Várias respostas a dizer que é impossível ser fora de jogo. A decisão é tomada pelo árbitro, fora de jogo. Revolta na bancada. Ninguém fica convencido. Vem a explicação por sms: está adiantado 4 centímetros. QUATRO CENTÍMETROS?!? Isto é brincadeira. 

Então mas a empresa que fornece a tecnologia do VAR não disse que há uma margem de erro de 5 centimentros? Andamos a anular golos por supostos 4 centímetros? 

Ok, isto noutros tempos seria um duro golpe e podia trazer desconfiança à equipa e às bancadas. Mas não a este Benfica das 17 vitórias seguidas fora de casa. Começamos tudo de novo. Apoio na bancada, paciência na circulação de bola, procura dos craques que podem resolver isto e aparece Rafa, pois claro. Entrada em corrida na área, viragem à esquerda, para o lado de dentro sem fazer sinal, jogador do Paços ultrapassado e na cara do guarda redes remate certeiro com pinta de interrogação: e agora também faltam 4 centímetros ou já podemos festejar?

Rafa é que é o verdadeiro campeão de inverno, o seu regresso é um reforço notável para equipa. 

 

Ao intervalo voltámos ao tema VAR. Então conseguiram ver os 4 centímetros e sobre uma falta sobre Rúben Dias na área não houve análise? Parece que as comunicações do VAR não funcionaram durante 22 minutos. Para nosso azar, estavam óptimas no golo anulado e inexistentes no penalti sobre o Rúben. Ai futebol português...

 

Era preciso fazer mais e aumentar o resultado na 2ª parte para ficarmos a salvo de surpresas indesejadas. A atacar para a nossa baliza, à semelhança do que acontece nos jogos da Luz, o Benfica pressionou e chegou mesmo ao 0-2. Desta vez, Rafa ofereceu o golo a Vinicius e em pouco tempo ficam com as contas mais equilibradas entre ofertas para golo na dupla de avançados. 

Depois, foi tempo de Odysseas brilhar, já o tinha feito na 1a parte com uma grande defesa junto ao poste esquerdo e voltou a estar bem numa bola rasteira. Estamos em plena 2ª volta do campeonato e Odysseas sofreu 6 seis golos. Em 13 jogos não sofreu nenhum. Que época!

Confortáveis com o resultado e com menos bola foi possível perceber que Ferro voltou ao seu melhor. Cervi continua em alta rotação, Gabriel voltou a encher o campo e Weigl... Bem, Weigl precisa de um espaço só para si.

Quando voltamos a pensar o que nos pode ainda motivar para ir ver jogos destes ao vivo temos que juntar à lista esta opção: ver Julian Weigl ao vivo. 

Tive a felicidade de ver os quatro jogos de Weigl nos estádios e vou afirmar isto sem hesitar: o alemão é um jogador de se ver na bancada. Não é jogador de televisão nem resumos. Tem que ser visto ao vivo. Não é pelos 90% de acerto de passes, é pelo posicionamento, pelo equilíbrio que dá com e sem bola, é pela leitura de jogo e por vê-lo a quebrar linhas de passe imaginárias em série. Foi o melhor em campo, é um reforço brutal para o futebol do Benfica. E depois tem aquele sorriso desarmante na hora de festejar o segundo golo a olhar para a nossa bancada. 

 

O tempo passa, o Benfica está a ganhar, está confortável no jogo, entram Adel e Seferovic e sente-se que vem aí mais golo. Só não aconteceu porque o suíço resolveu homenagear Bryan Ruiz em vez de ter feito o 0-3. Prefiro golos, Sef. 

 

A naturalidade com que a equipa assume a responsabilidade de ganhar sem facilitar, de somar novos registos e recordes a uma caminhada épica deixa-me muito motivado para o que falta desta maratona. 

A despedida à equipa a pedir o 38, os agradecimentos dos jogadores com aquele sorriso do dever cumprido, a ligação bancada - relvado é o que nos dá força para uma pequena seca ao frio para sair daquela miserável bancada e percorrer a pé mais de um quilometro até ao carro. A viagem de regresso é feita com o mesmo entusiasmo. Porque o segredo destas jornadas está no benfiquismo que une cada um dos passageiros. Mais velhos, mais novos, homens, mulheres, todos unidos pelo amor a um clube. As horas passam rápido porque é uma excelente maneira de colocar a conversa em dia. 

Uma merecida paragem no Manjar do Marquês, em Pombal para o último prazer do dia, comer aquele arroz de tomate com filetes, panados ou pasteis de bacalhau. Depois até casa é um instante. 

Chegar a casa com sentimento do dever cumprido e pensar: tenho de voltar a ver o Weigl a jogar. 

Que tempos maravilhosos para se ser do Benfica. Mais uma viagem, mais um capítulo de benfiquismo preenchido de forma riquíssima neste longo livro que vamos escrevendo enquanto cá andarmos. E que nunca tenhamos como certo o dia de amanhã nem o sucesso do Benfica. É preciso aproveitar todos os novos dias, como se percebe com o chocante desaparecimento do lendário Kobe Bryant e é preciso lutar pelo Benfica bem sucedido. Todos os dias enquanto cá andarmos. 

A Minha Despedida de Eusébio

Nasci em Abril de 1973 em Moçambique. Vim logo para Lisboa e os meus pais foram viver para a rua em frente ao Califa onde havia uma paragem de eléctricos e autocarros. A paragem em que o povo saía e rumava a pé para a Luz subindo a rua onde eu ia viver mais de três décadas da minha vida.

 

Tinha eu dois meses e meio de vida e o Benfica ganhava 6-0 ao Montijo e sagrava-se campeão nacional. Marcaram Toni e Jordão, pelos humanos. Eusébio fez quatro golinhos.

Esta introdução serve para explicar que não faço a menor ideia qual foi o momento em que deixei o Benfica entrar na minha vida, eu é que entrei na vida do Benfica sem ter consciência disso. Já fazia parte do universo encarnado por defeito. O Estádio ao lado de casa, o povo benfiquista a passar à minha porta aos domingos e quartas à noite, estava tudo feito mas faltava o empurrão. 

O pai da minha mãe, o avô Alberto, fez o resto ao passar-me aquele benfiquismo lindo cada vez que ia lá a casa ver a bola, como se dizia. O padrinho da minha irmã, o tio Victor, criou definitivamente o monstro (eu) ao levar-me para o Estádio quando a família achou que eu já tinha idade para isso.

Até ao dia que entrei na Luz para ver um jogo a sério ficou muito tempo para trás de sonhos a ouvir relatos e, raramente, a ver na televisão com um curioso ritual. Se era jogo europeu, quarta feira à noite, ficava na varanda virada para a rua do califa a olhar fixamente para o impressionante clarão que rompia o negro da noite por trás daqueles prédios vermelhos mais perto do estádio com a janela um pouco aberta para ouvir o , igualmente, impressionante barulho do povo a gritar cada golo. Ainda hoje tenho na mente esse som maravilhoso! Ouvia o relato e assim que se começava a gritar golo na rádio tirava o som para ouvir o verdadeiro "bruá" da Catedral. Era um quadro mágico, o clarão das luzes a iluminar o céu e o som do golo festejado.

Nos jogos de dia ligava o rádio e ouvia os relatos enquanto reproduzia o jogo na alcatifa em cima do tapete do Subbuteo. E tão feliz que uma criança pode ser assim, nem imaginam.

 

Foi também nesta fase pré Estádio que descobri que uma década antes o Benfica tinha dominado a Europa do futebol e que havia muitos jogadores para descobrir além daqueles que jogavam na altura. O avô Alberto contava histórias sobre o Benfica europeu, sobre campeonatos nacionais ganhos, sobre os Magriços e de como era bom ganhar ao Sporting. O tio Victor explicava o problema de sucessão dos grandes craques dos anos 60, das esperanças que tinha nos novos miúdos e de como era bom ganhar ao Sporting. Em comum havia sempre um nome: Eusébio. Já uma lenda na minha cabeça e mal tinha ele acabado de jogar.

 

Depois veio a escola primária, a preparatória e o Liceu. Não poucas vezes ao dizer alto o nome e a naturalidade , Moçambique, recorde-se, o eco era repetido: terra do Eusébio! O orgulho que eu tenho de ter nascido no país do Eusébio!

Frequentei as escolas de Benfica, perto de casa e perto da Luz. Rapidamente as idas ao estádio em dias de jogo se tornaram curtas. Era preciso ir lá ver treinos, estar perto dos jogadores, ver as imensas bancadas despidas, viver o Benfica. Assim foi fácil para mim ter o primeiro encontro com Eusébio relativamente cedo.

Começo dos anos 80, fim de tarde da Luz. Porta principal ao pé da águia de pedra, passam alguns jogadores a caminho dos seus carros e simpaticamente distribuem fotos autografadas a quem os esperava. De repente vejo Eusébio a poucos metros de mim. Eu, que nem 10 anos tinha e andava ali a pedir autógrafos e "bacalhaus" a tudo o que tivesse pernas e saísse da porta dos balneários, fiquei siderado! Não tive reacção, não pedi nada, não falei, ele passou-me a mão pela cabeça e riu-se. Fiquei horas com aquela imagem na mente, o Eusébio tocou-me.

 

E aqui começou uma relação que até hoje nunca consegui clarificar na minha vida. Eu recebi o Eusébio como herança e já em formato de lenda. Mas ao mesmo tempo ele estava ali bem perto de carne e osso.

Mais tarde descobri que Eusébio morava perto da Estrada de Benfica. Foi num daquelas noites de inverno que perto da escola ia com a minha mãe à papelaria, do outro lado da estrada vi Eusébio a sair de um carro. Gritei para a minha mãe que tinha de ir pedir um autógrafo, desatei a correr em direcção a ele para lhe dizer que o primeiro livro que escolhi para ler na biblioteca da escola era sobre o Mundial de 1966. Pelo meio ficou a Dalila em pânico depois de me ver cruzar a estrada de Benfica sem pestanejar. Eusébio ouviu-me, deu-me o autógrafo, esperou pela minha mãe e disse-me para não voltar a atravessar assim a estrada.

A partir daqui cruzei-me com o Rei muitas vezes, felizmente, e sempre com sorrisos à mistura.

 

Foi à conta dele que fiz coisas sem grande sentido para as pessoas que conviveram comigo ao longo dos anos. Tais como ver os jogos inteiros de Portugal em 1966. É estúpido, um gajo já sabe quanto fica o jogo e quem marca os golos. Pois é mas aquilo é magia pura. Mais tarde consegui ver jogos inteiros do Benfica nas caminhadas triunfantes na Taça dos Campeões Europeus. Impressionante!

 

Entretanto, ia crescendo a ver o Benfica. As inesquecíveis noites europeias dos anos 80 na Luz vi com o meu pai, sportinguista, que torcia pelo Benfica na Europa muito por culpa de Eusébio e companhia e nos jogos de domingo à tarde passei a ir com a rapaziada lá da rua.

Habituei-me a ver Eusébio nas equipas técnicas do Benfica, a trabalhar na formação do clube e , mais tarde, como embaixador ou algo assim parecido.

 

Ainda ele fazia parte da equipa técnica como treinador de guarda redes fez-se um passatempo no campo de treinos nº2. Foram às escolas ali da zona convidar os alunos a aderirem a um desafio que era ir defender um penalti do Eusébio para ganhar bilhetes para um jogo europeu. Obviamente fui. Era malta a perder de vista e o bom do Eusébio ali a chutar a tarde toda. Até chegar a minha vez ninguém tinha defendido nada. Recordo-me de estar na baliza, sendo que nessa altura eu tinha a mania que era o Bento nos jogos de rua, e em vez de olhar para a bola fixei o olhar na figura do King. Ele chutou e eu nem vi onde é que a bola entrou, ao ouvir aquele barulho romântico da bola a enrolar-se nas redes saí disparado da baliza para o abraçar perante os protestos dos organizadores. E então , ganhei o bilhete? Claro que não, ganhei um abraço ao Eusébio!

Lembro-me de contar isto em casa todo orgulhoso perante o sorriso de aprovação da minha mãe. Depois a magia acabou quando o meu pai, sempre bem mais realista, fez uma observação pertinente: "Olha lá, mas tu não tinhas aulas à tarde?". Uma criança sofre muito, todos sabemos...

 

Aos poucos percebi que o Eusébio era uma lenda viva demasiado grande para um clube que inevitavelmente ia perder grandiosidade. Habituei-me a um grau de exigência nas bancadas da Luz que roçava o lunático! O Benfica a construir goleadas de 7, 8, 9-0 ao Penafiel, ao Varzim, ao Vitória de Guimarães e eu nunca pude festejar dignamente essas "tareias" porque à minha volta todos eram mais velhos e encolhiam os ombros. "Isto com o Eusébio eram 14 ou 15."

Eu cresci com os ressacados do maior Benfica da história.

 

 

Em 1982/83 vi o melhor Benfica da minha vida. Fui a todos os jogos na Luz, portugueses e europeus, e nunca senti aquelas bancadas verdadeiramente rendidas aquela equipa. Criticavam o Nené, imagine-se! Para mim era maravilhoso ver aquele Benfica jogar mas depois da final perdida com o Anderlecht percebi que, realmente, faltava ali qualquer coisa para ser um Benfica à altura do Benfica de... Eusébio.

 

Depois vieram as lições nobres. Quando eu mostrava orgulho na pêra que o Bento deu ao Manuel Fernandes o avô Alberto explicava que isso já não era o Benfica dele. Ele viu o Eusébio a marcar um golo ao Yashin e em vez de ir festejar foi cumprimentá-lo, ele viu o Eusébio rematar dramaticamente para o golo na final que dava a 3ª Taça dos Campeões ao Benfica em pleno Wembley contra o Manchester United e ao ver que o inglês defendeu valentemente foi dar-lhe os parabéns pela defesa e aplaudiu!

 

Por isso é que 48 anos depois vemos o Old Trafford a aplaudir de pé comoventemente o minuto de silêncio do King.

E é aqui que quero chegar. A grandiosidade, a nobreza, o nome de Glorioso, foi tudo erguido a partir das conquistas internas e externas das equipas onde brilhou Eusébio. Obviamente não vamos esquecer todos os outros grandes nomes que jogaram com ele, que jogaram antes dele e alguns que apareceram já depois da sua retirada. A verdade é que Eusébio pelos seus golos, pela sua educação, pela sua humildade, pela sua figura, encarnou o Benfica e engrandeceu-o à escala planetária.

 

Já me aconteceu em Espanha, na Holanda, em França e , principalmente, em Inglaterra ver e ouvir reacções incríveis só pelo facto das pessoas verem o emblema do Benfica num casaco, numa camisola, num cachecol! Sem eu abrir a boca fui cumprimentado ao som de : "Benfica! EUSÉBIO!" É assim em todo o mundo.

 

Esta foi a herança mais valiosa e pesada que Eusébio deixou ao Benfica, o respeito! O outro nome do Sport Lisboa e Benfica no mundo é Eusébio. O respeito e admiração que as pessoas têm pelo nosso emblema deve-se muito a Eusébio.

 

Infelizmente, Eusébio morreu hoje. O Eusébio dos autógrafos, dos sorrisos na rua, dos acenos, o homem desapareceu. A lenda continua, já era maior que ele há 40 anos quando eu nasci, vai ficar ainda maior.

 

Texto publicado em 2014

Sporting 0 - 2 Benfica: Rafa Resolve!

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Certamente, a esta hora já ninguém se lembra do preço do Rafa quando saiu do Braga para o Benfica. Nem tão pouco daqueles que criticaram as verbas envolvidas. É esta a magia do futebol. Em pouco tempo tudo muda, tudo se transforma. O Rafa deixou um Braga que raramente vencia o Porto e antes do derby foi ganhar ao Dragão. Quando o Rafa chegou ao Benfica, o Sporting vivia tempos de euforia com um Presidente/Adepto e Jorge Jesus a treinar. Rafa foi titular em Alvalade e viu já no banco o empate de Lindelof que seria importante para o tetra. 

O mundo continuou a girar, o Benfica volta a Alvalade como campeão, como tem sido normal nos últimos anos, e prepara-se para um derby que é sempre aliciante. Só que desta vez soube só a normalidade. 

Chegar a Alvalade cedo teve uma vantagem, foi possível seguir tranquilamente as surpreendentes incidências do jogo do Dragão. O Porto perde, o Benfica entra em campo e, de repente, o contexto de pressão muda todo. Aquilo que os portistas esperaram o dia todo e que a TSF bem ilustrou numa noticia que envelheceu mal e rapidamente, tornou-se num pesadelo. Em vez de um último suspiro de um abatido leão que roubasse pontos ao rival e deixasse os azuis a um ponto, passou para um cenário de distância de 7 pontos! 

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Não sei se fui só eu a ficar com esta sensação em Alvalade, mas o momento do Sporting é deprimente e alastra-se às bancadas tornando o ambiente do estádio vulgar e embaraçoso. Claques ausentes, recinto por esgotar, zero empatia entre equipa e adeptos, e um cenário demasiado fraco para um derby deixando no ar uma estranha sensação a zona de conforto para os adeptos do Benfica que não sabem o que é perder ali para a Liga desde aquele penalti manhoso do Ricky van Wolfswinkel há oito anos! 

Se dúvidas haviam quem tinha mais vitórias em derbys para o campeonato com o Sporting como visitado, dizia-se que havia um empate porque não querem contar com um jogo em campo neutro mas que era o Sporting a jogar em casa, então agora já nem dá para essas manobras. Por falar em manobras, é degradante ver aqueles panos pendurados com os campeonatos que o Sporting venceu noutro século. Estão noutro ciclo de 18 anos sem vencer a Liga e não percebo se querem mostrar aos sócios mais novos que em tempos também foram campeões ou se é para impressionar quem lá vai. Da nossa parte, só sentimos vergonha alheia e espanto por ver ali mais campeonatos do que realmente venceram, sendo que numa época até tiram um nosso com uma lata incrível. Sim, 1937/38 é nosso.

Faltava ver o que o jogo nos dava. A tal imprevisibilidade do derby. O factor Bruno Fernandes, a motivação de ser contra o eterno rival, tudo podia trazer um jogo complicado. 

Nada disso. Em Alvalade está tudo a bater certo, a equipa tem a alma e a alegria de um fidalgo falido. Futebol deprimente do Sporting. Ironicamente, a pior coisa que podia ter acontecido ao Benfica foi saber o resultado do Porto antes do derby. A equipa ao sentir que o Sporting está perfeitamente ao alcance e que mesmo com um empate aumentava a diferença pontual para o 2º classificado, o futebol do Benfica não teve aquela vertigem e velocidade que costuma dar vantagem. É evidente que não podemos esquecer como é que ambas as equipas chegaram aqui. O Sporting jogou no Sábado contra os restos do plantel do Vitória FC, numa jornada vergonhosa para o futebol português e na 3ª feira ficou no sofá a ver jogos da Taça de Portugal de onde foi corrido pelo Alverca. Portanto, o Benfica quis controlar o ritmo e o esforço físico. E mesmo em contenção percebia-se que ia chegar à vitória assim que acelerasse o jogo ou chegasse um jogador mais inspirado. É verdade que Rafael Camacho teve aquela oportunidade, erro de Ferro, e acertou no poste, e também houve um golo anulado em claro fora de jogo mas o resto do jogo do Sporting foi muito frágil e previsível. 

Bruno Lage apostou em Gabriel e Weigl no meio. O alemão ganhou o seu lugar e Gabriel aproveitou a estabilidade de Weigl para encher o campo em Alvalade. Fez um jogão pontuado com aquele cabrito em Bruno Fernandes. Cervi justificou a aposta na esquerda, Pizzi indiscutível na direita e Chiquinho mais perto de Vinicius. O português não foi explosivo e acabou substituído por Rafa que foi decisivo. Vinicius deu tudo e ainda foi importante no 0-1. A vitória do Benfica apareceu da maneira mais natural possível, Rafa entra no jogo determinado em resolvê-lo. Fresquinho, preparado para procurar a bola e sair disparado, estava no lugar certo na hora certa para fazer o primeiro golo. Sentiu-se ali que os três pontos estavam ganhos. Tudo tão previsível e natural que nem parecia um derby. O 0-2 já foi um bónus para fechar o jogo, Seferovic excelente a assistir Rafa. Dois homens vindos do banco. Essencial neste calendário tão apertado. 

Muitos desabafos na bancada no final da partida a dizer que ganhar ali para o campeonato passou a ser uma boa rotina, e mais preocupação com o próximo jogo na Mata Real do que euforia. Fechámos a primeira volta com uma confortável vantagem mas se queremos fazer do derby da 2ª volta uma festa épica, sim o Sporting fecha este campeonato na Luz, vamos ter que voltar a encarar todos os adversários com a mesma determinação. Guimarães e Alvalade era saídas de risco, jogaram-se muitas fichas contra a liderança do Benfica, afinal até se aumentou a vantagem. 

Acho que não há o perigo de euforia entre adeptos. Esta vitória neste derby morno sabe bem mas não entusiasma cegamente. Foi tudo com naturalidade. E isso é bom porque assim ninguém saiu dali a pensar que já estava tudo feito. 

 

O que levo desta visita a Alvalade? Bem, levo com carinho dois momentos em que Alvalade é capaz de ser caso único no mundo. A maneira como aquela gente protesta os lances. A forma como reagem com assobiadelas a decisões da arbitragem. Reparem que não estou a falar em golos anulados, penaltis ou lances capitais. Não, nada disso. Falo de um simples lançamento lateral. Seja de um lado, seja do outro, é incrível ver e ouvir a maneira épica como as centrais de Alvalade assobiam e se espumam a protestar todo e qualquer lançamento lateral. Chega a ser cómico e viciante. Maiores assobiadores do mundo.

Outro bom episódio aconteceu na 1ª parte quando o Benfica quase marcava. A bola sai ao lado do poste e ainda agita as redes da baliza por fora, claro. "Bruá" no sector visitante, normal. Reacção da multidão verde à volta: gozarem por termos achado que ia ser golo. Mas a gozarem à grande mesmo. Como se não estivessem a caminho de ficar a 19!! pontos do rival. Foi giro. 

Já agora, explicar que o Benfica atacou primeiro para a baliza onde estavam os seus adeptos porque Bruno Fernandes escolheu campo. É estranho porque o Sporting gosta de atacar primeiro para o lado do sector visitante. Mas depois de vermos o triste espectáculo das claques com mais uma chuva de tochas e fumos ficamos a pensar que, se calhar, o Bruno sabia coisas. 

Por falar em Bruno. A imprensa portuguesa toda preocupada com a saída do Bruno Fernandes antes do derby ainda não tinha percebido que para o Benfica é indiferente a sua presença. O Bruno que realmente interessa é o Lage. Com o Mister Bruno, o Benfica ganhou por 2-4 e 0-2 para a Liga e, pelo meio, deu 5 na Supertaça quando o Bruno ameaçava sair. Foi ficando, a imprensa toda contente e depois de ser goleado na Supertaça vê o Mister Bruno aumentar para 19 pontos de avanço na tabela. O Sporting actual também é isto, uma equipa de um homem só. Pobre Bruno Fernandes. Espero que ainda vá à Luz na última jornada. Tem dado sorte. 

 

Noite tranquila em Alvalade, triunfo natural com Rafa em grande e um olhar para o futuro com um sorriso nos lábios. Por causa da pontuação, por causa da incrível série de vitórias e pela qualidade individual à disposição do Bruno. O bom. 

Venha de lá essa segunda volta. Um obrigado a todos os que mandam no futebol português por nos terem feito chegar a casa no dia a seguir ao jogo da Taça na 3ª feira e ao derby de hoje. A verdadeira Liga da Madrugada. 

 

Benfica 3 - 2 Rio Ave: Futebol de Meia Noite

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Primeiro uma palavra elogiosa para os adeptos do Benfica que compuseram as bancadas da Luz de forma muito digna para um jogo às 21h15, numa noite fria e chuvosa de inverno, numa 3ª feira. Outra palavra para os adeptos do Rio Ave que não puderam assistir ao jogo no estádio porque este horário ignorou por completo que há adeptos em Vila do Conde que gostam do seu clube, de futebol e da competição.

Ou seja, perante o desprezo total pelos adeptos da parte de quem organiza, o Benfica apresentou uma moldura humana interessante mostrando, assim, que é muito maior do que qualquer competição e organização em Portugal. 

Depois do vergonhoso agendamento de jogos dos 1/4 de final da Taça de Portugal espero que a FPF não tenha a hipocrisia de continuar a usar os rótulos de Prova Rainha ou Festa da Taça. 

A única prova rainha desta noite foi o Telejornal da RTP que fez da festa da Taça uma conquista de audiências que já dão para um mês de festa na televisão pública. Tudo com o desprezo total, de novo, para com os adeptos de futebol. 

 

Agora elogios para o adversário. O futebol que o Rio Ave pratica tem que ser elogiado. Que belo trabalho apresenta Carlos Carvalhal à frente do Rio Ave. Futebol com bola, apoiado, com atracções de zonas para depois explorar espaços contrários, futebol atrevido, futebol descomplexado, o gosto de construir a partir de trás, ter paciência a organizar e, também, muita qualidade sem bola, zonas de pressão bem delineadas, posicionamentos fortes, e olhos postos na baliza contrário. Jogadores como Taremi, Diego, Nuno Santos, Piazón e o Dr. Tarantini, fazem dos vilacondenses uma bela equipa de futebol. 

Lutaram pelo apuramento até ao fim, não aguentaram a mais valia individual natural do Benfica e saem da Taça de Portugal com honra. Situação bem diferente daquela que viveram na Taça da Liga de onde foram corridos porque a organização não os quis na Final 4. 

 

Pelo meio umas palavras para Artur Soares Dias. Posso não perceber nada de arbitragens e até ignorar muita coisa relacionada com árbitros neste espaço, porque não gosto mesmo de falar do assunto. Mas peço que não nos tomem por otários. Eu percebi perfeitamente o que aconteceu ali nos dois lances mais polémicos do jogo. Há uma falta sobre Chiquinho na área do Rio Ave que o VAR tem obrigação de ver e dizer a Soares Dias que é penalti ou, pelo menos, para ir rever a jogada. Nada disto aconteceu e na resposta sai golo do Rio Ave. Impensável! 

Depois, do nada, Artur Soares Dias marca um penalti sobre o Adel que se nota logo que é uma decisão absurda. Marcou só para poder dizer que até marca penaltis para o Benfica. Só que ele sabe perfeitamente que ali o VAR não ia ignorar e chamou-o logo para ir rever o lance. Nem era preciso, bastava dizer-lhe que não havia falta e saber se ele estava bem para tomar uma decisão daquelas. Assim, o VAR não decidiu nada e o árbitro emendou de forma previsível. 

O problema destes árbitros é que se sentem as pessoas mais importantes do mundo ao verem que conseguem irritar ao mesmo tempo dezenas de jogares e milhares de adeptos. Quando o que se lhes pede é mais competência e menos vaidade. 

Apesar de tudo isto, o Benfica mostrou uma enorme atitude e força de superação na segunda parte com vários ajustes e novas apostas. Ferro não estava bem no jogo e saiu, Weigl recuou para central (ironia do destino) e entrou Seferovic e fez os dois golos da reviravolta e apuramento para as meias finais da competição.

Para todos os imbecis que acham normal ir insultar o jogador para as redes sociais: vocês não merecem esta alegria. Pensem nisso. 

Ainda foram a jogo Samaris e Rafa. O português é um "reforço" de inverno numa altura em que o calendário se intensifica. 

Tomás Tavares e Cervi tiveram uma noite brilhante, os outros souberam aparecer na medida certa para cumprir os objectivos. Noite infeliz para Zlobin e Ferro.

O Benfica regressa às meias finais da Taça de Portugal, tal como na época passada e aproveito para repetir que este formato é uma aberração numa prova a eliminar. Duas mãos para decidir os finalistas é completamente contra todo o espírito da prova. Mas ninguém quer saber disso e se temos jogos entre os mesmos clubes em fases diferentes da prova, qual é o mal de uma meia final a duas mãos? Enfim.

 

Já a seguir há um derby para jogar. Regressamos ao mesmo contexto de Agosto e tudo o que interessa sobre o derby é se Bruno Fernandes joga ou não. Como se isto fosse problema ou tema para o Benfica. Ele jogou na Supertaça? E qual foi o resultado? E depois saiu? 
Então qual é o assunto? 

Deixo uma dica, se o conseguirem vender, façam uma cláusula que lhe permita vir jogar sempre que houver um derby mesmo depois de vendido. 

Portugal, um país de futebol. Dizem.