Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Red Pass

Tetra Campeões

Red Pass

Tetra Campeões

Um Manto Sagrado Vindo dos Anos 80

índices.jpg

Por esta altura na década de 80 o que mais desejava era ter uma prenda que me parecia sempre inalcançável. Sonhava todos os anos, falo de 1980 a 1989, em receber, quase que como por magia, uma camisola do Benfica. Mas não era uma camisola qualquer. Queria a camisola oficial, como se dizia na altura. Pode parecer estranho nos dias de hoje que já tivéssemos vivido num tempo em que o clube não tinha uma grande loja onde vendesse a camisola da equipa de futebol mas aconteceu. O objecto do manto sagrado era de tal maneira cobiçado que todos nós víamos a grande , e única, oportunidade de ter um quando se invadia o relvado no final das épocas. A loucura atrás dos jogadores era tanta que as camisolas acabavam completamente rasgadas. Ninguém conseguia exibir no dia a seguir uma camisola inteira, mostravam-se pedaços orgulhosamente guardados após árduas lutas.

 

Nas lojas de artigos desportivos em Lisboa havia camisolas do Benfica para venda mas nem se podia chamar aquilo de réplicas. Eram tentativas de aproximar ao que a Adidas fazia. Isto explica alguns fenómenos daquela década. A atracção que todos os miúdos que gostavam de futebol tinham por camisolas de clubes estrangeiros, por exemplo. Sempre que um adulto viajava pela Europa conseguia facilmente comprar camisolas dos maiores clubes que conhecíamos das competições europeias. Era mais fácil vermos equipamentos do Real Madrid, Bayern, Liverpool, etc, nos jogos de rua do que de clubes portugueses. Lá fora já havia sensibilidade para a venda de equipamentos e o cuidado com os pormenores porque já havia fortes patrocínios nas principais equipas. Por cá, até foi o Porto o primeiro a ter e a causar alguma inveja entre nós. A camisola azul e branca com Revigrés na frente era o que mais se aproximava ao que víamos no estrangeiro.

Quando o Benfica aparece com a Shell na camisola foi a loucura. Um orgulho porque sentíamos o clube a ficar moderno. As voltas que o mundo dá... Passados vários anos e alguns patrocínios depois vemos que se chegou a andar em guerra com o marketing do clube por causa do azul da TMN ou os quadrados coloridos da PT. É sinal que a exigência continua a ser uma boa base de orientação dos benfiquistas.

 

Voltando aos anos 80, nunca consegui ter a tal desejada camisola oficial. Tive algumas que eram só parecidas e até valiam logo reprimendas dos companheiros de jogo na rua. As crianças são muito cruéis e dizem tudo sem filtros. Quando apareci a jogar com uma camisola a dizer Fnac no parque de estacionamento do centro comercial Fonte Nova, ouvi das boas. Não era adidas portanto não fazia sentido usar aquilo. Deixei de usar.

 

O futebol progrediu em Portugal, de repente passámos a estar ao nível do topo europeu no que diz respeito a qualidade de estádios, de exploração de marketing e patrocínios. Hoje qualquer pessoa pode comprar a camisola oficial do Benfica. A primeira e a segunda. A adidas ou a réplica mais barata na megastore do Benfica. Deixou de ser um desejo impossível. Passou a ser um capricho caro mas concretizável. Perdeu-se a magia. Já não há invasões de campo atrás das camisolas, agora os jogadores atiram para a bancada quando estão bem dispostos ou oferecem aos putos das cartolinas à boca do túnel. Não é pior nem melhor, é diferente.

índice.jpg

 Esta época comprei a camisola oficial branca. Tinha saudades de um manto sagrado assim, simples e tradicional. Gosto de o vestir mas ainda penso naquela camisola adidas vermelha, com o símbolo antigo da marca, o número às riscas branco nas costas, o emblema antigo na frente e a Fnac com o A em modo de estrela. Há pouco tempo o Benfica passou a vender réplicas destas camisolas dos anos 80. Finalmente. Mas ainda não é bem a mesma coisa, falta o logo da adidas.

 

Foram precisos muitos anos para alinhar várias amizades sólidas e o Benfica é sempre um importante dominador comum. Por causa deste blog tive a sorte de começar a conhecer mais de perto alguns profissionais que sempre admirei da rádio, da televisão, da música, do futebol, do jornalismo, etc. Autênticas referências que se tornaram acessíveis por causa do Benfica. É esta também a magia de pertencer à tal família benfiquista.

Uma das pessoas que mais tinha receio de conhecer era o Pedro Ribeiro. Sempre gostei da boa disposição dele, dos relatos de futebol, da apresentação de concursos e no Curto Circuito, das piadas ribeirinhas, dos comentários de futebol no canal de desporto e , claro, do enorme trabalho à frente da Rádio Comercial. Tinha receio que acontecesse aquilo que leva os ingleses a dizerem: never meet your heroes.

Ora, o Pedro é tudo aquilo que mostra profissionalmente e ainda mais atento, sensível e amigo quando permite uma amizade mais próxima. Já me tinha surpreendido numa parceria com a minha irmã quando me ofereceram um manto sagrado de Cardeuz autografado pelo plantel, e com outras ofertas sempre desarmantes.

Este Natal fica marcado pela chegada à minha mão da camisola vermelha da adidas com fnac na frente e o número 5 atrás. O Pedro Ribeiro surpreendeu-me assim com a oferta da camisola mais desejada desde infância. O ciclo agora fica completo, posso arranjar uma moldura para guardar tão valioso manto sagrado. Só quem é da nossa geração pode perceber a emoção e alegria que é receber algo assim. O Pedro sabe e é daquelas pessoas que não luta só pela sua felicidade porque só está realmente feliz quando vê os seus felizes.

Queria partilhar este oferta tão especial com os benfiquistas, e não só, que seguem as minhas prosas porque tenho a certeza que muitos deles compreendem e partilham estas emoções de gestos tão especiais.

Bom Natal, Viva o Benfica!

7 comentários

Comentar post