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Red Pass

Rumo ao Tetra

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Paços de Ferreira 0 - 0 Benfica: Nulidade

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 Jogos fora do Benfica, um eterno desafio. Ver em casa ou ir atrás deles? Cada um de nós tem a sua maneira de os viver. Todas válidas, claro.

Penso que se este blog tem algum reconhecimento entre benfiquistas devido ao facto de quem lê acabar por se rever em alguns relatos que aqui partilho. É natural, gostamos todos do Benfica e queremos todos vivê-lo, daí que coincidam muitas vezes as maneiras como nos manifestamos.

Eu, podendo, prefiro sempre estar no estádio onde o Benfica joga. O principio básico desta ideia é muito simples, odeio ter que ver um jogo do meu clube na televisão. Sinto-me preso, inútil e impotente. Irrito-me muito mais, seja por causa dos comentários, que acho que são sempre anti-Benfica, seja por causa das realizações que insistem em repetir mil vezes um lance mesmo com o jogo a decorrer o que nos faz perder partes do desafio. O ecrân é pequeno para um jogo do Benfica que é aquele momento em que a nossa vida pára, em que só temos olhos para o jogo. Sinto que é redutor ver isso através de uma televisão. Isto para já não falar da maneira como o vivemos. Sempre preocupados em não fazer figuras tristes, não dá para cantar bem alto e de pé, não dá para começar de uma lado para o outro porque o campo de visão fica curto. Enfim, já perceberam a ideia.

Só que não dá para ir sempre, pelas mais variadas razões. Mesmo assim, nos últimos largos anos tenho tido a felicidade de ver a maioria dos jogos fora da Luz.

Esta introdução serve para contextualizar algo mais forte e além do jogo. É que estas viagens ao fim de uns tempos tornam-se autenticas jornadas de benfiquismo. Não querendo entrar em pormenores privados lanço a seguinte a questão: de que maneira é que eu ia acabar a ser recebido pela família de um amigo, e companheiro destas jornadas, com outros compinchas na distante aldeia de Chelo, do município de Penacova?

Antes do jogo, passar uma tarde à mesa a comer leitão, beber vinho de qualidade superior e conviver com gerações mais novas e mais velhas sempre com o Benfica como fio condutor das conversas.

Ir a Paços de Ferreira e voltar para dormir na zona de Coimbra. Repetir o almoço, agora com uma incrível chanfana, e apreciar uma paisagem natural, respirar ar puro e depois viajar de volta.

A resposta à questão anterior é simples: por causa do Benfica.

A conclusão é interessante, nós andamos atrás do Benfica e vamos construindo amizades para a vida. Vamos semeando carinho em vários grupos de amigos unidos pelo benfiquismo. Vamos vivendo, conhecendo novos cantinhos do nosso país, aproximamo-nos de gente que tem o mesmo amor que nós e que, geralmente, gosta tanto de conversar como de gastronomia.

A enorme vantagem disto é que a maioria destas jornadas acaba bem, com vitórias do Benfica. Das poucas vezes que a nossa equipa não corresponde e nos deixa abatidos, sentimo-nos em família e torna-se um pouco menos doloroso a passar a desilusão.

Esta é uma forma de agradecer a todos os que vão fazendo parte destas viagens e aos desconhecidos que ainda sentem vontade de dar uma palavra de conforto antes ou depois dos jogos.

Neste particular, e isto foi tudo para chegar aqui, quero deixar aqui um enorme abraço a uns benfiquistas de Fafe que ontem depois do jogo me surpreenderam de forma bem original.

Estava eu sozinho à espera junto ao carro do pessoal que ia seguir viagem de Paços de Ferreira para Coimbra quando oiço chamarem pelo nome. João Gonçalves do RedPass! Gonçalves, tu continua a escrever sobre o nosso Benfica. Vamos ser campeões! Olha, tu é que vais ficar com a bola do jogo, tens de levar contigo a bola. E depois escreve que a malta de Fafe te ofereceu a bola.

Nisto, atiraram mesmo a bola. Não me perguntem como é aquele pessoal saiu do estádio com uma bola. Não faço a menor ideia. Mas resolvi aceitar e trouxe mesmo a redondinha comigo que vou guardar com carinho. Obrigado, pessoal!

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A grande desilusão no relvado

Sobre o jogo apetece-me começar por perguntar: mas, afinal, o que é que foi aquilo?!

Antes do confronto directo com o rival que luta connosco pelo título de campeão, eu esperava uma vitória. Sofrida, com muita luta, muita entrega mas uma vitória.

Casa cheia, bancada nova inaugurada, topos completamente vermelhos, o mini estádio da Luz instalado na Capital do Móvel.

Tudo o que não esperávamos era uma exibição completamente apagada do Benfica. Fiquei com a bomba do Eliseu que o poste devolveu na memória e o lance do Jonas no final do jogo. Mais nada!

A equipa não apresentava alterações significativas mas a produção individual foi uma desilusão total, principalmente dos homens que costuma desequilibrar e resolver. Zero à direita com Salvio, zero à esquerda com Zivkovic. Pizzi, Jonas e Mitroglou nunca estiveram perto de de resolver o problema que a postura defensiva do Paços de Ferreira criava.

Se aquela bomba do Eliseu não entrou, então era preciso esperar um rasgo de génio daqueles jogadores que tornam o nosso plantel acima da média. Infelizmente, não me lembro de uma única jogada que me fizesse sonhar com uma finalização mágica.

 

Claro que o Paços teve mérito na forma como defendeu mas não é aceitável que o Benfica apresente tamanha apatia numa altura tão decisiva da época. A esperança de uma mudança vinda do banco de suplentes também terminou depressa. Nem Rafa, nem Raul, nem Cervi, alteraram nada.

Correu mal, foi mesmo uma desilusão. Os jogadores, a equipa técnica e os dirigentes devem sentir o mesmo.

 

(Fotogaleria: João Trindade)

 

Aqueles segundos após o apito final são do pior que o futebol tem para nos dar. Parece que o mundo se abate sobre a nossa cabeça ali mesmo. Aqueles instantes em que os jogadores saem cabisbaixos e os adversários festejam não fazem sentido nenhum. Não foi para aquilo que saí de casa de manhã e fiz centenas de quilómetros. Não foi para um nulo que estive ali 90 minutos de pé a cantar e a puxar pelo Benfica. É uma sensação horrível. Será que não era melhor estar em casa naquele preciso momento? A ideia de passar mais um dia com companheiros de luta, naqueles segundos, parece parva. Só apetece ir para casa.

Mas depois respira-se fundo, o tempo começa a passar e vamos arranjando maneira de lidar com a desilusão? Como e com quem? Como sempre, com os mesmo de sempre. Discutindo o jogo, conversando sobre o que está mal e imaginar como poderemos dar a volta. Temos direito a isso, vivemos muito para isto e gostamos de ter as nossas opiniões.Faz parte da nossa vida.

Lembrei-me logo que antes daqueles 3-6 em Alvalade, senti o mesmo que em Paços de Ferreira. Isto é cíclico no futebol. Nem está tudo mal quando não se ganha, nem está tudo bem quando se ganha. A menos que se percam muitos jogos seguidos, e aí está mesmo tudo mal, ou que a equipa esteja a golear e a resolver facilmente os jogos todos, e aí está tudo maravilhosamente bem.

 

Já falei da distante época de 1993/94 mas vamos para um ciclo bem mais presente. Espero que este 0-0 seja o mesmo que foi aquele 0-0 na época passada na Madeira com o União. Naquela noite achei que tínhamos entregue o título. Ontem convenci-me que oferecemos a liderança do campeonato. Fizemos por isso.

Depois do empate com o União, o Benfica reagiu bem. Espero que depois de Paços de Ferreira aconteça o mesmo.

 

O bónus veio quase 24h depois quando o Porto não fez melhor e manteve tudo na mesma. Temos que aproveitar esta milagrosa oportunidade para mostrarmos o quanto queremos este tetra. Temos de ganhar o clássico.

Sobre o melhor 11 a apresentar neste momento tenho dúvidas, sobre a qualidade individual no plantel nem por isso. Temos várias opções que têm de ser bem aproveitadas.

Esta passagem pela Mata Real foi decepcionante mas agora falta menos um jogo e acabou por ficar tudo igual em relação ao rival. Acho que a paragem na Liga acaba por ser positiva para o Benfica, é preciso recarregar baterias para o derradeiro assalto ao título.

Nós vivemos para estar com o Benfica, sabemos que estas desilusões fazem parte de um processo que queremos vencedor. Por isso, cada vez somos mais e desejamos melhor.

 

Borussia Dortmund 4 - 0 Benfica: Crónica de uma Viagem a Dortmund

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 Para eles será sempre a noite de Aubameyang, para nós será sempre a noite dos adeptos do Benfica no Westfalenstadion.
A esta hora já todos os leitores viram os vídeos que captaram os cânticos dos benfiquistas que deixaram os alemães rendidos. Foi um momento de inspiração, não foi exibicionismo porque ao intervalo não há jogadores em campo, não há televisões em directo, só há adeptos no estádio.

Quem se emociona a ver os vídeos não consegue imaginar o que foi viver aquilo ao vivo. Mas já volto a este momento.

 

Como tudo começa

 

Muita gente, conhecida ou não, contacta-me das mais variadas maneiras perguntando como é que é a melhor maneira para ir ver o Benfica no estrangeiro. Meus amigos, estamos em 2017 portanto permitam-me que diga que o que é mesmo preciso é muita força de vontade. Havendo essa vontade e sentindo que não podemos ficar de fora desse momento único que é estar nas bancadas de um estádio mítico a apoiar o nosso clube, meio trabalho está feito. O resto é capacidade de sacrifício, poder financeiro e sentido de organização. Há hipóteses para todos.

Pessoalmente, não tenho um plano definitivo. Em Liverpool, há 11 anos, investi bastante dinheiro para poder ir e vir no mesmo e não ter de faltar mais de 8 horas no trabalho. Mas também já fui para Faro apanhar um avião para Birmingham e depois seguir para Londres, assim como já segui de carro para o Porto onde dormi umas horas para depois ir de avião para Eindhoven, ou ir de avião para o Porto e seguir no dia seguinte para Munique, ou fazer Lisboa - Madrid - Bruxelas de avião, alugar uma carrinha e seguir por estrada até Amesterdão.

Enfim, dou todos estes exemplos para se perceber que há opções para todos os gostos. A comodidade e o conforto pagam-se, quem pode pagar avança das formas mais simples e óbvias, quem não pode tem que se fazer à vida. Claro que dormir em aeroportos, stressar com ligações que chegam a parecer perdidas, lidar com imprevistos, torna tudo mais emocionante e desesperante. Óbvio, que quando contamos o que passamos e fazemos só para estar 90 minutos ao lado da nossa equipa, há muita gente que não entende mas para nós faz todo o sentido. Sendo que todos os que sentimos isto da mesma maneira temos tendência para nos aproximar-mos, para nos ajudarmos e assim nascem companheirismos e amizades que ficam para a vida, apenas e só baseado em algo abstracto chamado benfiquismo.

Por isso, o conselho que dou é que quando tiverem muita vontade de estar com a equipa do vosso coração seja onde for, juntem-se a quem já esteja mais habituado. Mas comecem o trabalho ainda antes do sorteio, prevejam cenários e definam os vossos orçamentos para a aventura. Se for grande sigam directos da maneira mais rápida, ninguém vos pode levar a mal. Se não podem gastar o que não têm, há um mundo de alternativas mais fáceis do que parece.

Só para finalizar este primeiro capítulo, desta vez, assim que soube que o Benfica ia ao Westfalenstadion avisei uns amigos que já estavam com o dedo no gatilho para contarem comigo. Voo na véspera do jogo, com regresso marcado para o dia seguinte, pela TAP de Lisboa para Dusseldorf, casa alugada via Airbnb, viagem de comboio Dusseldorf - Dortmund - Dusseldorf para o dia de jogo e bilhete de jogo comprado. Tudo tratado via chat de facebook entre uma dezena de benfiquistas. Tudo correu bem, tudo bateu certo. É muito simples quando a vontade é maior que hesitação.

Isto tudo, claro, partindo do principio que estamos no universo dos benfiquistas disponíveis para uma aventura destas. Para não virem já os que não podem por razões profissionais, familiares, de saúde, financeiras e afins. Como é evidente.

Eu cruzei-me nestes dias com amigos de longa data e desconhecidos que chegaram ao jogo vindos dos pontos mais incríveis do mundo. Seis canadianos foram para Dusseldorf sem bilhete de jogo. Só para dar um exemplo. E também posso falar aqui de quem venceu todas as contrariedades e foi sempre arranjando soluções entre TGV's e carrinhas até chegar ao destino.

 

 

 

Que tal é Dusseldorf?

 

À hora que escrevo esta crónica sabe-se que o dia seguinte ao jogo de Dortmund fica marcado por um ataque assustador na estação central de comboios de Dusseldorf. Só por isto, apetece-me dizer que a cidade não merece este mediatismo por estas razões.

Dusseldorf é uma cidade simpática quando vivida na parte mais perto do rio Reno. A zona de Altstadt é bonita. Fiquei a saber que a Volta à França vai partir de uma praça daquele bairro e já tem publicidade ao evento. A oferta gastronómica é boa e basta seguir as indicações do Trip Advisor para se encontrar um local simpático para degustar um clássico joelho de porco com cerveja.

À noite também se encontra boa oferta de restaurantes, bons bares irlandeses sempre com muita atenção para o futebol. Em noite de Liga dos Campeões podíamos seguir os jogos em qualquer lado.

Nota-se que é uma cidade habitada por gente com poder de compra, basta reparar nas lojas de marcas fortes no centro da cidade. Ou seja, vale uma visita, sim senhor.

 

E a cidade de Dortmund? O Museu do Futebol.

 

Não querendo ser injusto, devo dizer que fui influenciado pelas opiniões de quem já lá tinha estado. Todas as indicações apontavam para não passar lá muito tempo porque não era uma cidade atraente, nem de dia, nem de noite. Daí a opção de teremos dormido as duas noites em Dusseldorf.

O clima não ajudou nada. Um dia cinzento, sempre a chover e com um frio desagradável.

O plano era simples. Sair na estação central de comboio de Dortmund, atravessar a rua, literalmente, e visitar uma loja do Borussia. Deu para comprar o cachecol do jogo e ver a excelente oferta que há para os adeptos do clube amarelo. Depois, andar uns metros e entrar no Museu do Futebol. Os 17€ que pedem à entrada podem desmotivar alguns mas eu ia determinado a encontrar-me com a minha história de adepto.

Quem costuma acompanhar as minhas prosas sabe da minha admiração pelo futebol alemão, a minha simpatia pelo Hamburgo e pela Selecção da Alemanha.

Podem imaginar a emoção que senti quando fiquei a centímetros da camisola 6 de Buchwald. Entre mim e o camisola mais linda de sempre em competições de Selecções estava apenas um vidro a separar-nos. Para animar, mesmo ao lado estava a azul de um tal de Maradona, a relembrar o grande duelo daquela final de Roma de 1990. Nunca tinha estado tão perto de um futebol que me marcou para sempre.

Senti o mesmo arrepio quando estive à mesma distância das camisolas do Hamburgo, claro, do Borussia Mönchengladbach, um clube respeitadíssimo na Alemanha, do Colónia ou da mítica 18 do Klinsmann, meu ídolo de juventude, do Bayern.

Há muito para ver, tudo sobre a selecção campeã do mundo, muitas curiosidades. É uma visita que recomendo a quem apreciar o futebol da Bundesliga. Gostei, foi uma óptima maneira de passar o tempo até ao almoço.

Aí valeu de novo o Trip Advisor. Fomos parar a um restaurante de decoração incrivelmente clássica, com pratos locais e boa cerveja. Já se sabe que almoço em dia de jogo do Benfica no estrangeiro é coisa para durar horas.  Histórias desta época e recordações de outros tempos. Gerações mais novas a ouvirem, aprenderem e, também, a ensinarem. Gente que vai ao Estádio da Luz e benfiquistas que vieram da Holanda. Realidades diferentes, mundos distantes, apenas unidos por um simples fio, o Benfica. Um restaurante em Dortmund que por algumas horas parecia uma casa portuguesa com mesas cheias de benfiquistas vindos sei lá eu de onde. Um aceno, um sorriso, um "vamos a eles", unem o universo benfiquista que parece estar todo ali naquela zona da Alemanha.

Depois umas cervejas bebidas no centro da cidade, algumas num bar de adeptos do Borussia nada incomodados com a invasão vermelha, diga-se, mas com pouco ambiente nas ruas devido à chuva e frio.

A ida para o estádio é muito fácil, tal como já tinha sido em Munique. Transportes eficientes, saída mesmo no estádio, tudo bem organizado sem margem para erros. É a Alemanha.

 

 

 

O Westfalenstadion

 

Sim, eu reparei numa tarja que os adeptos do Borussia mostraram a recordar que ali é o Westfalenstadion, apesar do naming obrigar a chamá-lo de Signal Iduna Park. É o estádio com maior capacidade na Alemanha, mais de 80 mil pessoas devido aos lugares em pé. Em noites europeias baixa para 65 mil por causa da UEFA.
A grande atracção é a bancada, chamada muro amarelo, por trás da baliza .

Mas o encanto começa cá fora. É uma zona de parque, acessos pedonais amplos, muitos pontos de venda de comida, bebida e artigos do Borussia. Há uma imagem incrivelmente romântica e forte que é observar a fachada da bancada central do estádio paralela ao recinto antigo do clube. O passado e a modernidade lado a lado. Lindíssimo cartão de visita para quem vê numa espécie de beer garden.

Adeptos da casa simpáticos e tolerantes, ambiente descontraído. Entrada fácil e acesso à nossa bancada sem problemas.

Primeiro impacto com o estádio vazio. Aquilo é maior do que parece na televisão. Não é só o muro. É tudo.

Muitos adeptos nossos queixaram-se do ambiente, esperava-se mais. Eu não consigo concordar. Só não ouvi o muro a cantar porque o sector do Benfica teve uma noite de sonho. Não se ouvia nada mais a não ser Benfica.

Porque eu vi e ouvi o que esperava dali. Antes das equipas entrarem, escutei, e até cantei para dentro, o You'll Never Walk Alone em versão alemã. É bonito mas não chega ao epicismo de Anfield Road. De qualquer maneira, foi respeitado pela nossa bancada que até aplaudiu no fim. Era o mote para uma noite memorável.

A coreografia não desiludiu. Uma original alusão à goleada do Borussia em 1963. Se ainda se lembram e até levaram jogadores dessa época ao relvado para os homenagear só engrandece o Benfica, eles sabem que foi uma proeza incrível bater o Glorioso dos anos 60. Gostei de ver.

Depois, a partir do começo do jogo não deu para perceber mais nada porque o os 3 ou 4 mil, não sei ao certo, que estavam no sector visitante resolveram dar um show vocal como nunca tinha visto. Pelo menos, com aquele intensidade e durabilidade.

Mas o estádio tem ambiente, estava esgotado e aqueles adeptos têm cultura de futebol.

 

 

 

O respeito do Borussia merece ser eternamente reconhecido

 

O jogo começou e o apoio ao Benfica disparou para níveis altos. Não sei o que se cantava no muro amarelo porque os nossos cânticos faziam eco! O 1-0 veio muito cedo e o Westfalenstadion explodiu, mais de alivio do que de euforia. A eliminatória estava empatada e poderia esmorecer o apoio vermelho e branco.

Mas aquilo só serviu para motivar ainda mais a mancha vermelha. Os golos ali são assinalados nas colunas com a passagem do "Go West" dos Pet Shop Boys. Pois bem, o pessoal aproveitou e imprimiu a sua força roubando o cântico e começando a cantar "Allez, Força Benfica, Allez", sem parar. Mas sem parar mesmo.

A equipa correspondeu e equilibrou o jogo. Passámos a discutir a posse de bola, soltámos os artistas. Salvio andava a fintar amarelos no meio campo, Nelson subia com perigo, Cervi pedia bolas em velocidade. Finalmente, o Benfica discutia o apuramento cara a cara.

Tal como em Munique no ano passado, o golo cedo só veio dar força à nossa equipa para subir no terreno e mostrar os seus argumentos.

A bancada sentiu o crescimento dos jogadores, os adeptos sentiram que todo os esforços feitos para ali estar naquela noite faziam sentido e expressavam-se a uma só voz com uma força que entrava nos ouvidos de quem lá longe acompanhava o jogo, via televisão, internet ou rádio.

Quando se chega ao intervalo com 1-0 significa que após um jogo e meio estávamos empatados na discussão de um apuramento na Champions League com o colosso de Dortmund.

Quando o apito soou para o intervalo cantava-se a versão "Lisboa Menina e Moça" adaptada pelo Topo Sul que termina com um forte "O Amor da Minha Vida".

Os jogadores saíram ao som disto. Os adeptos no resto do estádio preparavam-se para um intervalo normal. Só que o sector visitante num momento de inspiração benfiquista, numa espontaneidade sem igual e numa demonstração de benfiquismo puro e descontrolado não parou de cantar "Benfica, o Amor da Minha Vida" em loop. O tal momento que tem sido divulgado em vídeos.

O que esses vídeos não mostram é o espanto dos alemães a olhar, a fotografar, a filmar e a aplaudir aquela dezena mágica de minutos.

O que esses vídeos não explicam é a vontade incontrolável que eu tive de fechar os olhos enquanto gritava a plenos pulmões: Benfica, o Amor da Minha Vida. Olhos que quando se abriam estavam húmidos de tanta emoção de fazer parte daquele momento.

O que esses vídeos não captam é o que cada um de nós observou. Olhei para trás e vi uma menina, tinha uns 15 anos, de braços no ar, olhos brilhantes a olhar para o céu enquanto gritava Benfica, e de mão a bater no peito do lado do coração quando chegava a parte do Amor da Minha Vida.

Isto explica-se? Não. Sente-se.

Cinco minutos já me lavava a alma. Mais de dez, marca-me para sempre. Ao nível do que vivi há 11 anos em Anfield Road.

E há ingénuos que pensam que aquilo vem por causa de uma alucinação colectiva. Uma bebedeira geral. Pensam que é tudo por causa de um jogo, de 90 minutos na Champions, pela possibilidade de apuramento. Nada disso. Estão enganados. O Benfica é muito mais que um jogo. É muito mais que uma vitória inesperada ou uma derrota mais pesada. É muito mais que uma eliminatória. O Benfica também é muito maior do que aquilo que cabe em estádios como o do Feirense. Por isso, os benfiquistas quando sentem que o Benfica está no local certo, na hora certa, no estádio certo com o mundo todo a ouvir, manifestam-se assim.

O Benfica é o amor da nossa vida e nós cantamos desta maneira não pelo presente, não pelo imediato, mas sim pelo futuro. Por sentirmos que temos o Benfica de volta. Aquele Benfica que anda sempre na alta roda europeia. Que nos faz sonhar mesmo nos estádios mais míticos do mundo. Nós cantamos assim porque temos memória. Temos bem presentes na memória os grandes feitos que já vivemos, conhecemos bem a Glória conquistada nos anos 60 mas também não nos esquecemos nunca da sensação de impotência de não termos futebol para um HJK na Luz, de cair aos pés de um Halmstadt ou , pior, nem participar nestas noites.

Nós temos muita memória e muito benfiquismo, sabemos contextualizar um jogo como este em Dortmund. Isto não são só mais 90 minutos. Por isso cantamos assim. Agora, o muro e as muralhas amarelas à volta, ficaram a saber o que é a força do Benfica.

E sabem porque é que tudo isto foi possível?
Porque aconteceu num local onde o futebol é sagrado. Onde o respeito pelos adeptos é uma lei omnipresente.

Os responsáveis do Borussia ao assistirem aquela manifestação única e apaixonante dos adeptos visitantes optaram por não interromper. Não meteram música, não falaram, não estragaram. E estavam na sua casa, ninguém lhes levava a mal. Estiveram 10 minutos em silêncio como se não houvesse instalação sonora e speaker no relvado. E quando tiveram que abrir as colunas tiveram o cuidado de deixar as da nossa bancada em silêncio.

No final do jogo a mesma coisa. Os adeptos do Benfica assistiram ao festejo da equipa com o muro amarelo e aplaudiram em sinal de respeito. A equipa do Borussia deu uma volta ao campo para se despedir dos seus adeptos e ao passar no nosso canto, que não parava de cantar Eu Amo o Benfica, olharam cá para cima e chegaram a aplaudir! Ao nosso lado, no topo e na central, vi adeptos de camisolas amarelas a sorrir e a aplaudir. No metro fomos elogiados e cumprimentados com respeito e admiração.

Isto também faz um clube ser grande. O nosso e o deles.

 

O Jogo

 

Todos sabíamos ao que íamos, certo?

Vimos a maneira como ganhámos na Luz onde o Borussia mostrou um poder ofensivo impressionante e uma ideia de jogo atraente. Precisávamos de mais uma noite feliz para dar tudo certo.

Depois daquela derrota em Lisboa, o Borussia goleou por 3-0 duas vezes, e despachou com um 6-2 o Bayer. Não estamos a falar de uma equipa qualquer, é um dos modelos de jogo mais fascinantes do futebol actual.

O futebol é engraçado, o Aubameyang deve ter tido uma das noites mais infelizes da sua carreira na Luz. Em casa só precisou de 4 minutos para fazer um golo. Como é que se lidava com aquele desbloqueador tão rápido?

O Benfica respondeu bem. Equilibrou o jogo até ao intervalo.

O futebol pode ser muito cruel. Quando me perguntam qual é o auge de emoção na tua vida, eu invento qualquer coisa para não dizer: são aqueles décimos de segundo quando estou a olhar para um jogador do Benfica que se prepara para fazer golo. Sentir aquela adrenalina descontrolada no momento em que a bola vai parar aos pés de Cervi, ali bem no meio da área amarela, mesmo à nossa frente, parece que a vida pára e tudo acontece em fragmentos mais lentos que a câmara lenta da tv. Em tão curto espaço de tempo eu consigo ver onde é que o Cervi tem de meter a bola, consigo imaginar a melhor maneira de rematar, já estou a ver a bola a entrar naquelas redes pretas e amarelas. Tudo em 2 ou 3 segundos. É esta a magia de vivermos para estas emoções. Só que o remate do argentino é bloqueado por um muro. Parece que a outra bancada entrou dentro de campo e tapou a baliza do Burki. Se aquela bola entra estou convencido que estávamos a falar de uma noite mais do que épica, bíblica!

Não entrou.

O Borussia sentiu a ameaça, esteve perto de ficar atrapalhado na eliminatória. A resposta foi esmagadora. Em três minutos acabaram com a questão. E só assim podiam mesmo resolver o duelo.

O 2-0 nem tem grande impacto porque continuavamos a ter de marcar um golo para seguir em frente e isso permanecia possível. Mas o 3-0 logo a seguir, e a bater um Ederson que tinha estado em modo Galrinho Bento, abateu todas as possibilidades.

Com 3-0 o assunto estava encerrado. Mas o benfiquismo no sector visitante estava mais vivo que nunca. Não havia problema sermos afastados pelo Borussia. Fizemos o que pudemos, lutámos e sonhámos com aquele remate do Cervi. Acabou por prevalecer a lógica e a equipa com maiores craques, sem desrespeito para nenhum dos nossos, ganhou. O Aubameyang não tem duas noites horríveis. Ontem levou a bola de jogo e do seu hat tirck para casa. Geralmente, no futebol, ganham as equipas onde jogam os "Aubameyang's".

O resultado ficou em 4-0 mas ninguém naquela bancada se sentiu envergonhado. Vimos como foi construído, discutimos isto durante mais de partida e meia. Ganhámos em casa, perdemos fora. Paciência.

A sensação não é boa mas depois pensamos nos adeptos do milionário PSG e até dá vontade de sorrir. Ou da tareia que o Arsenal levou do Bayern, ou do triste fim das fanáticas gentes do San Paolo. É a Champions.

Em Setembro há mais e nós lá estaremos para mais histórias.

 

 

Um Enervante Rescaldo

 

Esta é a parte mais pessoal da crónica.

A seguir à dramática derrota de Amesterdão com o Chelsea tive tempo de sobra na viagem de regresso para ver as redes sociais que frequento. Fiquei de tal maneira revoltado com a absurda alegria de pessoas que gostam mais que o Benfica perca do que das vitórias dos seus clubes que dei por mim a eliminar dezenas e dezenas de "amigos". Foi libertador e fiquei com timelines muito mais dignas. Hoje em dia mantenho alguns amigos adeptos de outros clubes. São amigos que respeitam e merecem o meu respeito.

Isto só foi possível porque percebi que no Benfica não precisamos de lidar com o ódio. Nós estamos sempre mais perto de arrancar momentos mágicos como estes que aqui falei porque os nossos cânticos são TODOS pró Benfica. Não se canta uma única vez num jogo de Champions algo contra lagartos ou tripeiros como ouvimos constantemente nos momentos de alegria deles. Nem em jogos de Champions nem em nenhum. Felizmente, é uma cultura de estádio 100% pelo Benfica que foi adoptada por todos os adeptos.

Também não precisamos do sarcasmo, ironia ou humor de terceiros. É que para nos rirmos nas nossas desgraçadas temos também os melhores. Quem tem a rapaziada do Azar do Kralj, do Cota do Bigode, do Boloposte ou Insónias de Carvão, não precisa de mais nada. Nós lidamos bem com as piadas sobre os nossos dramas.

Eu não conheço outro clube onde isto aconteça, ou seja, as melhores piadas virem de dentro. É que isto vacina-nos para o que vem de fora. Também aí são mais fracos que nós. Não é uma opinião, é constatar um facto.

 

Bem, mas onde eu quero chegar é a algo mais pessoal e aborrecido. Depois daquela lavagem que referi no pós final de Amesterdão, dei por mim ontem à noite a remover "amizades" e "follows" a uma velocidade alucinante. Mas só a gente benfiquista.

Desculpem mas a minha tolerância para a parvoíce acabou. Continuem lá nos vossos dramas, na vossa realidade paralela mas longe do meu olhar. Não estou para sair de alma cheia de um estádio como o do Dortmund e levar com comentários do tipo: que vergonha não jogaram nada.

Aliás, isto serve para a nossa imprensa. Não toquei num único jornal português desde que voltei. Olhei para as capas e desisti.

Não perceber a diferença de valor individual e colectivo entre Benfica e Borussia é preocupante.

Mas exigir ao Benfica que passe pelo Dortmund como se estivesse a jogar com o Arouca, só porque também são amarelos, é parvo. Comentar que os jogadores são uns tristes e ignorar que estivemos dentro do sonho mais de meia partida é desonestidade intelectual.

Reagir desta maneira severa após um duelo desta intensidade é, em última análise, uma prova que, se calhar, torcem pelo clube errado.

Cada vez tenho mais a impressão que a grande maioria de benfiquistas, aquela dos milhões do Guiness, aquela que invade o Marquês, aquela que pode ser sócia mas não quer, aquela que pode ir ao estádio mas não vai, aquela que pode apoiar mas prefere assobiar, só é do Benfica porque quer estar ligada, de alguma maneira, a um clube ganhador. Portanto, o Benfica ganha 49 jogos seguidos mas quando perde um é o fim do mundo. O Benfica chega aos 1/8 de final da Champions, mas é pouco. Tem que ir às meias finais, no mínimo.
O Benfica ganha ao Borussia em casa mas não serve porque jogou muito mal, porque foi o 1-0 que envergonha a maioria benfiquista que se manifesta nas redes sociais.

Realmente, voltou a ser muito fácil ser do Benfica.

Eu não consigo ser assim, e agora também já não consigo tolerar isso. Estou a ficar velho e resmungão, eu sei. Mas cada vez que me lembro que estive na Luz a ver jogos de competições oficiais com mais 2 mil benfiquistas num estádio que chegou a levar mais de 120 mil... Desculpem, mas quando falo disto com alguém que me responde que também lá estava, chego à conclusão que devo conhecer todos os que iam nessa altura miserável aos jogos. Ou então, éramos mesmo poucos e hoje vive-se o milagre da multiplicação.

Não sou nem mais nem menos que ninguém, mas já não me apetece conviver com falsos exigentes e residentes de um mundo perfeito que não existe.

Meus amigos, o Benfica não vai ganhar sempre todos os jogos. Mas enquanto tiver uma massa adepta como a que tem actualmente nos estádios, vai estar sempre muito mais perto de ganhar do que perder. Isto devia chegar para se encherem de orgulho, para aprenderem alguma coisa em vez de quererem que o Benfica seja o vosso super homem particular e vos levarem às festas e a fazerem boas piadas nas redes sociais contra os vossos rivais.

Que os tristes de verde façam piadas no ano em que o Legia foi à Liga Europa e eles ficaram no sofá é digno da alarvidade odiosa em que vivem. Que benfiquistas se sintam envergonhados e revoltados com uma noite destas, é porque não percebem o que é o Benfica.

Para começar, esgotem o nosso estádio em qualquer jogo da Champions League, como eu vi ontem na Alemanha, e não apenas quando cá vem o Barça ou o Bayern. Esgotem os Red Passes no começo da época. Quando isso acontecer, aí sim, podemos falar de exigência galáctica.

O Benfica foi eliminado da Champions. Sim, fomos varridos pelos alemães.

E sim, pode acontecer uma surpresa do Estoril na Luz e ficarmos sem Jamor.

E sim, podemos perder o campeonato numa dessas finais que faltam até Maio.

E então? Se acontecer vão ficar mais felizes para poderem escrever "eu não disse?".

Isto é futebol, não são decretos. Temos que ir à luta e vencer. Ninguém nos dá nada. São todos contra nós. O que nos motiva é que hoje estamos sempre muito mais perto de ganhar do que perder. Foi isso que senti em Dortmund.

Se amanhã a equipa falhar e não corresponder ao que esperava não vou deitar os cartões fora, não vou virar costas, nem vou por tudo em causa.

Eu passei o Vietname do Benfica, expressão usada pelo Pedro Ribeiro, e não desisti nunca. Agora, em tempos destes é que ia deprimir? Só sou maluco pelo Benfica, não sou parvo.
Mas eu sou dos que ainda hoje não lidam bem com o afastamento europeu em Braga, e fico possuído quando alguém me diz que foi melhor assim porque perdíamos a final com o Porto. Nós que não perdemos uma final de Taça de Portugal ou confronto com eles na Taça da Liga, há anos e anos. Mas eu é que sou o maluco...

Não gostam do Luisão, do Salvio ou do Pizzi? Eu vi o Beto a marcar contra o Manchester e a assistir contra o Liverpool. Eu acreditava que o Rojas e o Leónidas iam ser campeões pelo Benfica. Não me lixem.

Acreditem em mim, hoje na casa do muro amarelo há muito mais respeito pelo Benfica do que havia antes dos 4-0. Pensem nisto.
Não perguntem o que o Benfica deve fazer mais por vocês, vejam o que podem fazer pelo Benfica. Vivam mais o clube. Vivam o Benfica. Viva o Benfica!

 

Chaves 0 - 2 Benfica: Para Lá do Marão, Uma Viagem à Tricampeão

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Esta era a deslocação mais desejada desde a definição do calendário para esta temporada. O regresso de Trás-os-Montes à primeira divisão e a oportunidade para muitos benfiquistas, como eu, de irem conhecer a zona de Chaves naquela que terá sido a viagem mais longa em Portugal para assistir a um jogo do Benfica.

Depois de ponderar alguns cenários ficou decidido atacar a jornada toda no mesmo dia. Sair bem cedo de Lisboa e regressar após o jogo a casa. Quase 900 Km, cerca de 8 horas e meia de viagem de carro. Parece assustador mas tem tudo a ver com a motivação.

Desde logo, a principal; ver o Benfica. Depois, descobrir a região transmontana e a sua gastronomia, finalmente, passar um dia com amigos que encarem estes desafios com a maior naturalidade de quem vai só ali passear, comer e ver um jogo de futebol do Glorioso. É uma combinação que não falha. São muitos os amigos e companheiros que vivem assim a sua paixão pelo clube. Este sábado muitos puderam viver a aventura Chaves, muitos outros não puderam cumprir este desejo pelas mais variadas razões mas também estão lá connosco a apoiar através das nossas vozes.

 

A Viagem

 

As primeiras horas de viagem foram normais. A ligação Lisboa - Porto é do mais rotineiro que pode haver na nossa vida. Quase todos os jogos a norte de Lisboa cumprem esse trajecto. Destaque para o encontro na área de serviço de Leiria com a nossa equipa de andebol. Ganharam ao Ismai, obrigado rapazes!

Como já estávamos mentalizados para uma viagem bem mais longa do que o habitual, deu-me ideia que a nossa aventura só começou a sério quando nos arredores do Porto virámos em direcção a Vila Real por vias rápidas que eu ainda não tinha experimentado. E a partir daí, sim, foi olhar com mais atenção para a paisagem. A curiosidade de atravessar o túnel rodoviário mais longo da Península Ibérica, quase 6 Km na Serra do Marão, enquanto continuávamos a subir o país.

Primeira paragem em Vidago. Tínhamos de ir ao local onde o Benfica estava hospedado e ainda bem porque vi a beleza exterior do Palace Vidago Hotel. Deslumbrante cenário com o edifício a fazer lembrar as imagens da série Downton Abbey. Estava à espera de encontrar a todo o momento Mr. Carson. Aquele quadro ficava ainda mais bonito com a presença do autocarro do Benfica ali estacionado. Um dia tenho que apostar num fim de semana naquele paraíso.

 

A ligação de Vidago para Chaves é tranquila e rápida. A chegada à cidade revela logo a invasão encarnada. Benfiquistas por todo o lado. Vislumbra-se o Castelo no horizonte, por outro lado descobre-se o rio Tâmega e a agitação era visível. Mesmo numa cidade onde nunca tinha estado, assim que saí do carro senti-me em casa. É esta a magia do Benfica. Somos do país, somos do mundo. Descobrimos logo caras conhecidas, companheiros de outras viagens, consócios que conhecemos da Luz e gente boa que faz questão de nos cumprimentar porque já passaram por este blog ou noutro lugar qualquer. É o Benfica.

 

O Almoço, A Gastronomia

 

A aposta para almoço foi no restaurante Adega Faustino. Um almoço tardio, eram 15h quando quase duas dezenas de benfiquistas sentiam que os muitos km's percorridos se tinham transformado em vontade de atacar todos os petiscos locais. E foram muitos que nos serviram.

Atendimento cinco estrelas, grande simpatia e prazer em servir iguarias como o obrigatório presunto, alheira, linguiça, bacalhau desfiado e vários tipos de carne com arroz e batatas fritas. Vinho tinto e branco , foi até não sobrar uma ponta de fome. Embora ainda tenha testado a encharcada com o café e a forte aguardente que foi oferta da casa.

 

O espaço é castiço, era uma enorme adega agora decorada de maneira simples e regional. O nosso entusiasmo foi premiado com a visita da Srª Odete, a responsável com uma respeitável idade e um orgulho no serviço que apresenta que é contagiante. Em cima de uma cadeira, no topo da mesa, agradeceu e aplaudiu os cânticos improvisados que esta boa gente, que só quer ver o Benfica a ganhar e comer bem, lhe dedicou. São estes momentos que justificam estas loucuras de atravessar o país de um lado ao outro no mesmo dia.

 

A primeira parte estava ganha, agora era seguir a multidão e ir a pé para o estádio ajudando à digestão de tanta caloria.

 

A Vergonhosa Entrada no Estádio

 

Infelizmente, tem sido quase sempre assim. O entusiasmo por reencontrarmos clubes históricos, por visitarmos localidades longínquas e distantes dos habituais cenários de competição do nosso futebol, dá lugar à decepção e tristeza como alguns idiotas e imbecis tentam assumir modernas, desnecessárias e pacóvias rivalidades. O tempo de antena que a imprensa dá aos incendiários e índios que todos os dias mostram ao país que o caminho para o sucesso passa por afrontar, insultar, criticar, provocar e alimentar o ódio ao maior clube de Portugal, resulta em momentos dignos da Pide do tempo da outra senhora à entrada no estádio.

Muitos benfiquistas tinham bilhete para a bancada central coberta do Estádio Municipal Engº Manuel Branco Teixeira. Entre bilhetes comprados e convites, eram muitos os adeptos do Benfica que se preparavam para entrar nas portas indicadas pelo bilhete. Só que a entrada foi barrada a todos os adeptos que tivessem algo vestido com o emblema do Tricampeão ou algum acessório!

Ouvir qualquer coisa como "Você com essa camisola não pode entrar" é algo que em 2016 bate todos os recordes de atrasadice mental. Parabéns a todos que todos os dias intoxicam o país nas redes sociais e órgãos de comunicação social com as suas cruzadas anti Venfique. Isto está a resultar. Continuem.

 

Muitos adeptos contaram-me que tiveram de tirar camisolas e casacos, outros optaram por vestir ao contrário e até houve quem entrasse em tronco nu! Isto numa bancada que tinha de ter obrigatoriamente um espaço para adeptos visitantes. Enorme confusão cá fora com benfiquistas indignados perante a indiferença de forças policiais e Liga de clubes.

A entrada acabou por se fazer na porta mais lateral perto do topo dos adeptos do Benfica mas lá dentro verificou-se que não ia haver lugares sentados para todos. Enfim, um triste e muito preocupante episódio originado por responsáveis de um clube que os benfiquistas aceitaram com carinho na hora do regresso ao futebol principal.

 

Foi a única nódoa negra de um belo dia de futebol. O ambiente do estádio é excelente, os adeptos do Chaves são empolgados, puxam bem pela equipa, vibram muito com o jogo e dão uma enorme dignidade à região. Os dirigentes não precisavam de ter estragado tudo com aquela atitude bélica na entrada de adeptos visitantes. Ou querem ser recebidos da mesma maneira quando forem à Luz?

 

O Jogo

 

 O jogo começava com um cenário belíssimo. O relvado visto do canto entre a bancada central coberta e o topo dos adeptos encarnados proporciona um quadro de beleza natural incrível. As pequenas bancadas do outro lado e a paisagem verde até perder de vista a lembrar que estamos para lá do Marão a ver futebol de primeira. Ver as camisolas vermelhas a moverem-se em tão bonito cenário vale a viagem.

Rui Vitória tinha lembrado que em Outubro conta com o verdadeiro reforço do plantel quando voltarem os lesionados. Só para lembrar que íamos para mais um jogo com soluções de recurso. Apostou em Ederson na baliza, talvez para tirar proveito dos longos lançamentos do jovem guarda redes, e armou a equipa na zona atacante à volta de Mitroglou, com Pizzi na esquerda e Salvio na direita e Guedes no meio.

Apesar da intenção em atacar, o Benfica da primeira parte deixou uma preocupação no ar por tão pobre exibição com poucas possibilidades de marcar. O facto de André Horta e Fejsa terem ficado demasiado dependentes das ajudas dos alas tirou consistência defensiva à equipa. O desequilibro na zona central do terreno onde Jorge Simão tinha Battaglia, Rafael Assis e Braga sempre em superioridade, dava hipótese ao ataque do Chaves se tornar realmente perigoso com as investidas de Fábio Martins e Perdigão nas alas e Rafael Lopes sempre à procura de espaço na frente.

 

Mesmo assim, foi o Benfica que podia e devia ter ficado em vantagem com um oportuno golo de Mitroglou misteriosamente anulado! Se já não havia muitas oportunidades e quando o golo aparecia não contava, a tarefa complicava-se bastante.

O Chaves acaba a primeira parte muito perto do golo com a bola a bater duas vezes seguidas na poste direito da baliza de Ederson, terminado com Rafael Lopes a cabecear ao lado.

 

O susto serviu para o Benfica mudar de atitude e pegar mais no jogo. Fejsa ameaçou mas foi de bola parada que se desatou o nó. Grimaldo marca um livre descaído para a direita e Mitroglou corresponde com uma cabeçada perfeita para o 0-1. Estava feito o mais difícil. Mais uma vez as bolas paradas a serem muito importantes no jogo do Benfica.

Apesar das entradas de Cervi e, principalmente, de Celis, o jogo ficou perigosamente aberto até perto do fim. Até que Grimaldo voltou a cobrar um livre perigoso, a bola bateu na barreira e foi ter com Pizzi que parecia estar ali a aguardar o momento para ser feliz na sua região e confirmar a vitória saborosa.

Mais uma vez, a equipa arranjou alternativas à falta de inspiração e também de alguns intérpretes, como Jonas, que fazem sempre falta. O objectivo foi cumprido.

Uma palavra para o Chaves que fez uma bela exibição, tem uma equipa equilibrada, bem montada e sabe o que quer nos momentos importantes do jogo. Não será fácil passar aqui em Trás-os-Montes, o que valoriza ainda mais este triunfo do tricampeão e líder.

 

O Regresso

 

Excelente ambiente na saída do estádio, umas cervejas para o caminho e o carinho de vários adeptos benfiquistas e flavienses que contrastava com a vergonha da entrada nas bancadas. Fiquei com boa imagem das gentes de Chaves porque é preciso não confundir dirigentes imbecis com os adeptos que apesar da derrota não levantaram problemas nenhuns na bancada. No fim trouxe uma pequena bandeira do Chaves oferecida por um jovem adepto que confessou torcer pelo Glorioso apesar de envergar uma bonita camisola do Barcelona transmontano, como ouvimos referir.

 Viagem para baixo tranquila apesar da chuva. O almoço tardio e forte deu para aguentar a fome até Coimbra onde houve paragem no café Atenas para atacar uma francesinha que sabe sempre bem num sábado à noite.

Quão feliz se pode ser num carro conduzido por um benfiquista de uma geração ligeiramente mais antiga que a minha, com o seu filho e nosso companheiro mais jovem de outros jogos enquanto conversamos um pouco sobre tudo, inclusive com o elemento que falta referir a descobrir que já foi "vizinho" da família do banco da frente? Muito.

É o Benfica em todo o seu esplendor.

E é tão bom ser do Benfica.

Rio Ave 0 - 1 Benfica: Obrigado, Mantorras, perdão, Raúl Jimenez!

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 (Fotos: João Trindade)

 

Está a ser uma ponta final em esforço com um suplente de luxo a herdar a aura dourada de Pedro Mantorras. Mais um jogo resolvido por Raul Jimenez, mais que um golo, foi uma enorme prenda de anos num dia inesquecível.

 

Como tinha explicado antes da ida a Vila do Conde, jogos do Benfica a 24 de Abril são sempre especiais para mim por se transformarem na minha festa de anos. O historial tem sido favorável e ontem, mais uma vez, o meu clube não me deixou mal.

Ao optar por viajar cerca de 600 km no meu aniversário para poder estar a ver o Benfica jogar, há toda uma logística familiar por acertar. Tudo pensado para que ninguém se sinta mal. Jantar tardio no dia 23 para poder esperar pela meia noite e festejar em família a entrada na nova idade. Bolo, prendas e sorrisos de aniversário que resolvem logo nas primeiras horas o problema de uma ausência por motivos de força maior. Com boa vontade tudo se resolve. 

 

Depois partida para norte rumo ao encontro gastronómico com a outra família, a benfiquista. Cozido à portuguesa dentro de pão. Um almoço em Cucujães ao nível das exigências para mais de duas dezenas de benfiquistas em viagem para apoiar a sua equipa na penúltima deslocação da temporada para o campeonato.

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(Fotos de Ricardo Solnado)

 

Completamente rendidos às iguarias da memorável refeição, nova ida para a estrada até ao estádio dos Arcos. Multidão vermelha à volta do estádio, o costume. O Benfica ia esgotar mais um estádio.

Se não fosse tão forte o desejo de ver o nosso clube, teríamos muito para falar dos acessos às bancadas de um estádio que até recebe provas europeias. A ida para a bancada descoberta é digna de um jogo de distritais, passar no meio de terra e lama, por caminhos que parecem hortas abandonadas até à última barreira de controlo é surreal. Se nos pedem 15/20€ ou mais por um bilhete nestas condições, então o Benfica devia pedir sempre mais de 50€ só para poderem entrar no estádio da Luz.

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A visão da bancada no fim de tarde vilacondense é bonita, o pôr do sol atrás dos arcos que rodeiam o estádio, o céu azul a escurecer no horizonte, os jogadores no relvado a aquecerem para o embate, um cenário agradável onde procuramos descansar o olhar já demasiado nervoso a prever o sofrimento que vinha aí. 

 

Confirmou-se a teoria do muito sofrimento e pouco divertimento. A bola começa a rolar e acabaram-se os sorrisos. Só preocupação, só ansiedade, só angústia a cada cruzamento falhado, a cada tentativa de contra ataque. Desespero ao ver que jogadores como Pizzi continuam a mostrar algum cansaço e pouca clarividência, igual desespero ao ver uma arbitragem que parecia tudo fazer para nos irritar. Na memória fica um canto de Gaitán retardado por Soares Dias que foi lá dizer não se sabe o quê. Apita para que saia, finalmente, a bola para a área e no segundo seguinte volta a apitar por uma falta que ninguém viu. 

Uma primeira parte sem sentirmos que seria possível fazer um golo, tudo demasiado equilibrado. Pulsações aceleradas por sabermos que já temos menos 45 minutos para sermos felizes.

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Felizmente, não vi o Rio Ave a utilizar o anti jogo da Académica ou Boavista, isso dava uma certa esperança de, pelo menos, termos jogo até ao fim. Enquanto o resultado está zero a zero os minutos passam de uma forma tão rápida que parece que estamos a viver em "fast forward" como nos vídeos. O facto do Benfica ter conseguido encostar o Rio Ave e ter tido algumas oportunidades dentro da grande área começava a dar esperança num desfecho positivo.

Entretanto, a cada bola parada, a cada falhanço, a cada pausa do jogo, acontecia uma luta interna a desfilar imagens de outros 24 de abril a lembrar que também já tinha sofrido assim no Algarve e contra a Juventus, por exemplo. Precisava de um golo como aquele do Lima ao Bufon. Não. Precisava era de uma cabeçada como aquela do Luisão ao Estoril. Também não, que isso foi só o empate. Precisava mesmo era de um Mantorras a entrar e a acabar com aquela resistência verde e branca. É isso! E lá saltou do banco Raúl Jimenez. Sorri a pensar que faço anos e não ia ter que fazer 300 km de regresso em silêncio. 

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Quando André Almeida ali na minha frente cruza para área até parece que ouvi: Oh João, aqui vai a tua prenda! 

Quando Vilas Boas (que feliz coincidência) corta atrapalhado para a trave, sustive a respiração até ver o salto de Mantorras, perdão, Jimenez para fazer de cabeça aquilo que me fazia estar ali naquele momento. Explosão de alegria, 73 minutos depois podiamos rir e gritar de felicidade. Estava feito o 0-1. Uma felicidade muito passageira e adiada porque havia que sofrer mais 20 minutos até confirmarmos os 3 pontos. 

Tirando um remate de Wakaso, não me lembro de sofrer muitos mais até ao apito final. Quando o jogo acaba é que sinto a felicidade total de um dia bem resolvido. Finalmente, podia festejar o meu aniversário sem me preocupar com mais nada. 

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Isto é, tive direito a uma hora e meia de boa disposição suprema. As outras vinte e tal horas foram sempre bem passadas mas com uma pergunta no sub consciente a incomodar, algo começado por " E se... ? ". 

 

Altura para agradecer a todos os que me felicitaram na bancada e fora do estádio, aos de sempre, aos que nem conheço e aos que só conheço de vista. Obrigado a todos. Muitos me disseram depois do fim do jogo que até aos 73 minutos pensaram no que publiquei sobre os jogos a 24 de Abril e isso ajudou a manter a fé. Eu também me agarro a essas coisas, fazem parte desta loucura que é ser adepto de um clube.

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A todos que me ligaram ao longo do dia, aos que mandaram sms, aos que deixaram algo escrito no facebook, aos que não conseguiram ligar por ter ficado sem rede no estádio e sem bateria até regressar para Lisboa, o meu muito obrigado.

Aos que compreendem esta necessidade de viver estes momentos deixando para trás entes queridos, o meu agradecimento.

A quem não entende e critica nas costas, a minha indiferença.

Aos companheiros de sempre espalhados por vários veículos e com destinos diferentes de norte a sul do país, dizer que a família benfiquista existe mesmo, é muito forte e faz parte da nossa vida.

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Esta foi só mais uma jornada num dia especial, mas são apenas 3 pontos conquistados. Seguramente que há muito por sofrer, esperemos que também haja muitos mais momentos como aquele minuto 73. De certeza que nunca faltará é este convívio que envolve gastronomia, boa disposição e motivação a cada jogo que vivemos. Isso é o mais valioso e importante, não se compra, não se apregoa em redes sociais, nem se inventa só porque sim.

O Benfica é maior que a vida. 

Bayern de Munique 1 - 0 Benfica: Sofrer, Resistir e Mostrar ao Mundo o Benfica!

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Vamos começar por um exercício de imaginação absurdo. Estão a jantar com os vossos familiares mais queridos e um deles pede-vos que vão ter com ele durante 90 minutos daí a duas semanas só para estarem juntos no centro da Europa.

Depois, esse elemento, dos que vocês mais estimam, recordo, informa que terão de ir mas com os custos todos a vosso cargo e, por isso, sugere uma rota mais económica do que um simples voo directo da vossa cidade para onde ele vos espera.

Começa a explicar que terão de sair ao fim da tarde de uma 2ª feira em direcção ao Porto. Vão de avião, porque por 20€ conseguem ir e vir tranquilos. A seguir apanham no Porto outro avião rumo a Munique, uma cidade escolhida ao acaso, e fazem as quase 3 horas de ligação para chegarem lá de manhã.

O avião parte às 9h e tal da manhã, por isso terão que ir cedinho para o aeroporto. Chegados ao destino, aproveitam e passeiam pela cidade até chegar a hora de estar com ele os tais 90 minutos.

Depois ele vai à sua vida e vocês ficam com uma noite e um dia pela frente porque o avião de regresso ao Porto só acontece na 5ª feira de manhã. Marcam um quarto digno e económico, aproveitam para fazer turismo pela cidade e quando chega 4ª feira à noite procuram um bar para ver os jogos europeus dessa noite e beber umas cervejas.

No fim, já cansados de tanto andar, lembram-se que não podem ir dormir porque resolveram não marcar nenhum quarto para essa noite já que vão ter de estar no aeroporto para regressarem a casa antes das 6h da manhã. E só depois de uma noite sem dormir voltam para o Porto e passam a manhã no aeroporto Sá Carneiro à espera do voo de regresso a Lisboa que, por acaso, até atrasa.

Mas seria tudo por uma boa causa, estar 90 minutos a conviver com um ente familiar, muito querido, que podem ver em vossa casa de 15 em 15 dias, pelo menos. Só que meteu na cabeça que quer este encontro especial.

Ora bem, mesmo perante toda a família a resposta seria algo do género: mas está maluquinho ou quê ?!
Mais coisa, menos coisa. E ninguém vos levava a mal pela reacção nem deixavam de gostar da pessoa em causa.

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Se duas bolas tiradas ao acaso por um estranho algures na Suíça ditarem um encontro do Benfica com o Bayern e a reacção for um imediato impulso de marcar viagem, aí já tudo o que descrevi em cima passa a fazer sentido. Quando dizem que a magia da paixão por um clube não se explica, é verdade mas há exemplos que, pelo menos, ajudam a entender. Seja de quem for a paixão, seja qual for o clube.

 

Esta é a história de uma viagem há muito anunciada e sonhada.

Já expliquei muitas vezes ao longo da minha vida que tenho uma atracção muito forte pelo futebol alemão desde criança. Especialmente, na altura das fases finais de Europeus ou Mundiais tenho sempre que explicar porque torço incondicionalmente pela Alemanha. Volto a repetir aqui, muito resumidamente, que um amigo da minha mãe trabalhava no Consulado Geral de Portugal em Hamburgo e que sempre que vinha a Portugal trazia cassetes VHS com resumos da Bundesliga porque achava piada ao meu interesse por futebol. Como eu vi o HSV ganhar a Taça dos Campeões na televisão no começo dos anos 80, sempre achei que os alemães tinham um futebol incrível. Daí ter ficado fã do Hamburgo para sempre mas sem nunca desenvolver nenhum ódio a qualquer clube alemão. Tanto que gosto do St. Pauli, rivais da cidade.

Torço, quase sempre, pelos clubes alemães nas provas europeias, vi o Werder Bremen ganhar a Taça das Taças ao Mónaco na Luz, por exemplo. O Klinsmann foi um ídolo para mim, e entre os jogadores que mais me marcaram, a nacionalidade mais presente é a alemã.

Em 1988 recebi a camisola com que a Alemanha ia jogar o seu Europeu meses antes da prova. Foi das melhores prendas de aniversário de sempre. Ainda hoje procuro uma réplica dessa camisola que depois veio a ganhar o Mundial 90. Acompanho sempre muito de perto a Bundesliga e há muito que sonhava em ir à Alemanha ver futebol. Tentei ir em 1988 a Estugarda ver o Benfica - PSV mas esqueci-me que era menor de idade e a minha mãe manteve-me em casa com juízo.

 

Portanto, esta ida a Munique era o melhor pretexto de sempre para avançar. Ajudado por quem conhece bem os truques nas marcações mais económicas de viagens e estadias decidi logo ir e embarcar no espírito aventureiro da deslocação.

Foi tudo o que contei no primeiro parágrafo do texto. Acrescento que fomos em grupo, tudo gente boa, e que ainda tivemos a companhia de um casal benfiquista que vive no norte e nos apresentou a famosa francesinha da Taberna Belga em Braga na "escala" da noite no Porto. Bem hajam pela refeição, companhia e benfiquismo.

 

Como sempre acontece nestas alturas, a viagem rumo ao local onde vamos estar com o Benfica é sempre uma animação. Não há cansaço absolutamente nenhum desde que levantamos voo de Portugal até à altura de abandonar o estádio. O benfiquismo que nos move é à prova de tudo. Vivemos tudo numa intensidade que nos parece tão normal que só dias depois percebemos o seu valor.

 

Pessoalmente, era uma viagem muito especial pelo que já expliquei. Estava impaciente para saber como era estar nas ruas de Munique, como eram os alemães, como era o ambiente, como seria o estádio. Acho que só para Liverpool senti a mesma ansiedade.

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Facilmente percebi que Munique era tudo o que esperava. Até tive a estranha sensação de estar a pisar terrenos familiares, apesar de nunca ter ido à Alemanha. De tanto ler, de tanto ver imagens, tudo me parecia fazer sentido.

Organização exemplar, um sentimento de segurança total de manhã à noite, o metro funciona de madrugada sem o menor problema. É um povo tão organizado e de mentalidade tão evoluída que partem do principio que todas as pessoas são civilizadas e pagam para usufruir transportes competentes. Por isso não há nenhum tipo de controlo nas entradas e saídas do metro, por exemplo, não se sente nenhuma observação exagerada por parte das autoridades em nenhum local. Um país de primeiro mundo, uma expressão que oiço tantas vezes, deve ser isto.

 

A minha experiência em contacto com os alemães foi positiva. As ideias com que ficamos de um povo tem tudo a ver com a maneira como as vivemos. Depois, quando há várias pessoas a partilhar a mesma opinião é que dizemos que esse povo é mais ou menos simpático, por exemplo.

Eu fiquei com a ideia que os alemães são simpáticos quanto baste. Não têm aquela forma mais expansiva de receber mas tentam ser simpáticos e úteis. Não se esforçam por ter um inglês exemplar mas dá para manter sempre a ligação.

Houve episódios curiosos em que nos mostraram o seu gosto pelo nosso país e por Lisboa. Um senhor, já com idade respeitável, parou a sua bicicleta no meio do nosso grupo quando íamos a atravessar a ponte da estação de Hackerbrücke só para nos dizer que adorava Lisboa. Assim, do nada. E ouvi outras manifestações simpáticas tanto para o nosso país como, especialmente, para o nosso Benfica.

 

Munique é uma cidade que vive o futebol. Vê-se muita gente a usar roupa ou acessórios do Bayern mesmo sem ser em dia de jogo, também há muitos adeptos da outra equipa da cidade e que mostram o seu orgulho pelo TSV Munique apesar de estarem na divisão secundária. Pena jogarem de azul e com um leão ao peito.

A quantidade de lojas do Bayern espalhadas pela cidade mostra bem a importância que o futebol ali tem.

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No dia do jogo, 3ª feira, aconteceu o habitual convívio entre adeptos do Benfica. Um almoço inesquecível no Augustiner Bräustuben deu para ficar com uma óptima ideia do que é o espírito germânico à volta de uma mesa cheia de cerveja, que não achei assim tão má como a pintam, e pratos de carne de porco. Adorei um pernil com uma camada estaladiça. Adeptos dos dois clubes a comerem e beberem no melhor ambiente possível.

Sinais dos tempos são traduzidos na emoção da boa sensação de rever ali companheiros benfiquistas de sempre juntos nos brindes ao Benfica. Eles que tiveram que ir para longe daqui para viverem a sua vida com a dignidade que merecem. O Benfica junta-nos sempre, a quem veio da Holanda, de Londres, de Paris ou de outras cidades da Alemanha. É sempre bom conviver com amigos benfiquistas mas estes momentos sabem ainda melhor. Gente boa que não merecia a tortura de viver tão longe da sua paixão.

 

Depois, todos os caminhos nos levam a Marienplatz, a belíssima praça principal de Munique invadida por benfiquistas de todos os lados. Aqui tenho que agradecer a todos os que me ofereceram cerveja e me cumprimentaram com palavras de um carinho e generosidade incrível. Adeptos que vieram de outros países, adeptos de Portugal mas que nunca vi, tantos que perderam um minuto para falar deste blog ou do programa em que participo na BTV. Inesquecível, o companheiro que se agarrou a mim a chorar e o irmão que acabou por nos tirar uma foto. Se lerem isto mandem-me a foto que eu gostava de guardar, grande abraço a todos.

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A ansiada partida para o Allianz Arena deu-se da estação de metro de Marienplatz. Um mar vermelho a caminho da bola, coisa linda de se ver. O Bayern tem cores de bom gosto.

Não tive nem vi nenhum problema na viagem. Vivi uma festa incrível na carruagem do metro com cânticos que punham os alemães a rirem. Estavam divertidos a ver a nossa motivação. Nunca se mostraram arrogantes apesar de terem festejado nos últimos anos títulos mundiais a nível de clube e selecção.

 

Assim que se sai da estação olha-se para a esquerda e o coração bate mais forte, o Allianz Arena está no nosso horizonte. Até parei no meio da multidão com o impacto visual. À medida que nos aproximamos o estádio torna-se cada vez mais imponente e bonito. Com a noite a cair assistimos à mudança de cor gradual do branco para o vermelho. Um espectáculo digno de se ver. Até acertamos o passo com o ritmo da mudança de cor para ver se lá chegamos perto com o estádio iluminado de vermelho.

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A sensação que tive ao caminhar de frente para o recinto é que parecia um bloco rectangular de formas arredondas com um magnetismo mágico. Parecia que tinha um poder de íman e que nos chamava para o seu interior. Raramente, vi um estádio tão bonito ao vivo.

Entre encontros inesperados, fotografias, conversas com adeptos adversários e algum espanto por ver tantos bilhetes vendidos ali em segunda mão, o tempo passava e anoitecia. Quando passamos os torniquetes que davam acesso ao passeio em redor do estádio conseguimos olhar lá para dentro e a sensação é logo de aprovação. Dar a volta por fora à procura do nosso sector e ver tantos adeptos do Bayern de natureza tão diferente é curioso. Vi aqueles famosos blusões de ganga cheios de emblemas bordados, típicos dos anos 70, vi um figurão vestido com cachecóis do Bayern, vi gente de fato e gravata, vi muitos jovens, muitas mulheres, muitos casais apaixonados. O tal ambiente familiar que a Bundesliga gosta de mostrar.

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Encontrado o sector tivemos que subir muita escada. Para entrar na bancada tivemos de passar o bilhete novamente e depois foi respirar fundo dar passos lentos e entrar no nosso sector e ver com os próprios olhos a sua imponência.

Que estádio maravilhoso!

 

Tive ali longos minutos sentado a olhar à volta a procurar todos os detalhes, a lembrar-me de quantos jogos já vi ali disputados mas na televisão. É muito mais bonito ao vivo. A casa da "minha" selecção alemã. Que emoção!

 

Sonhei com aqueles momentos várias vezes mas o melhor de tudo é que estava ali para ver o Benfica.

Tratar de arranjar um lugar para ver o jogo. Escolher ficar entre benfiquistas que vivem longe e estar perto deles naquelas emoções.

É incrível como aqueles minutos antes do jogo passam num instante. Parece que estamos a viver mais rápido que o tempo.

De repente lá está a mítica bola dos campeões agitada no meio campo e oiço a apresentação do Bayern. Sai-me um sorriso quando oiço o nome dos campeões do mundo que jogam nos bávaros. Até me apetece aplaudir jogadores que tanto admiro. E aplaudo mesmo.

Entram as equipas e o grito de Benfica que sai daquela bancada não engana. Estamos todos ali para fazer história. A motivação subiu ainda mais quando percebemos que Rui Vitória honrou o pensamento maior de Cruyff, mentor de Guardiola, e mostrou ao mundo a equipa do Benfica que costuma usar. Sem adaptações, sem invenções, sem encolhas, sem medo. Se tivermos que cair que seja com as nossas ideias, a nossa filosofia de jogo. E ali estava o onze do Benfica com os dois avançados.

 

Ambiente muito bom com os alemães a entoarem o hino do Bayern, lá estava a bancada do outro lado do estádio atrás da baliza com a claque do Bayern em grande estilo.

Um pormenor absolutamente maravilhoso, quando as equipas estão prontas para entrar em campo o risco luminoso que atravessa todo o estádio por cima da última fila de lugares no topo como a acender e apagar ao ritmo de batidas cardíacas que se ouvem nas colunas em crescendo. Genial!

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Infelizmente, rapidamente percebi que também alternava alegremente entre branco e vermelho no golo da equipa da casa.

A bola sai nossa e antes que se esgote o primeiro minuto de jogo já o Bayern estava a assaltar a baliza à minha frente. Com um minuto e 32 segundos fizeram golo.

Só me tinha acontecido em Anfield Road olhar para o relógio no marcador do estádio e entrar em pânico por que aos 40 segundos já estávamos a sofrer um canto contra. Agora senti o mesmo. E ao ver a equipa de vermelho a repor rapidamente a bola em jogo temi o pior.

 

Aqui aproveito para explicar a todos os que me disseram que eu não regulava bem por querer ir ver um jogo em que íamos "encher o saco", benfiquistas incluídos, que o que me move não é triunfos ou golos. O que me motiva é o Benfica, é o ser benfiquista, é o estar no meio dos benfiquistas seja onde for, é viver a história do Benfica ao lado da equipa e acreditar que podemos ajudar com a nossa voz. O objectivo é sempre ganhar, a motivação é sempre ter o privilégio de ver as nossas camisolas ao vivo. Bem bonitas, por sinal. Este equipamento alternativo é tão Benfica, não é?

 

Isto foi um autentico dois em um, ver o meu clube e ver uma equipa que faz história no futebol mundial. Ver as movimentações tácticas e posicionais dos jogadores de Pep é um misto de pânico, desespero e encanto.

A bola está no lado direito do ataque do Bayern, a tendência é os jogadores irem para aquele lado, só que no outro flanco nós estamos a ver quatro(!!) jogadores de vermelho à espera da bola. É assustadora a forma tranquila com que mudam de alas e aparece meia equipa na área pronta para finalizar. Lewandowski ou Müller podem aparecer a cruzar bolas para a área que encontram Vidal, Ribery ou Thiago prontos para finalizarem. É uma rotação de loucos e que baralha qualquer defesa.

Os nossos laterais não conseguiam acertar a marcação porque era gente a mais a passar por ali. Durou cerca de vinte minutos aquela sensação de impotência, Ederson deu o mote mostrando segurança batendo o pé ao Bayern. Numa saída brilhante a negar o golo a Müller, após um livre superiormente marcado a isolar o atacante, o jogo mudava.

O Benfica, finalmente, mostrou que tinha acertado marcações, defendeu compacto, alto, e olhos nos olhos. Procurou ter a bola, foi a equipa com maior posse de bola nos últimos tempos naquele recinto, e procurou chegar à baliza contrária. Uma ousadia que deixou os alemães calados na bancada e começou a revelar a paixão benfiquista em forma vocal para todo o mundo ouvir.

 

Gaitán cruza para a área e Lahm a deslizar deitado na relva corta a bola com a mão. Nós no outro lado gritámos penalti, Gaitan também. Via telemóvel recebíamos a informação que tinha sido mesmo mão. Não foi marcado, paciência.

Aqui importa parar um pouco.

O que disse Nico Gaitán sobre este lance?

"O que peço é penálti, mas são jogadas muito rápidas e o árbitro também é humano. Pode errar, como nós e vocês, jornalistas, também. É uma jogada muito rápida, mas que não foi cobrada. Para mim é penálti, mas ele não viu ou entendeu que não era nada e já está"

 

É isto mesmo. Sem dramas, sem choros, sem teorias da conspiração, sem vitimizações. Isto é o Benfica. Sabemos que o futebol é assim.

Por isso mesmo, dispensamos todos capas como aquela coisa que o Record fez no dia seguinte. Uma manchete que é um lixo. Um lixo que encontra paralelo no que fizeram no dia seguinte à morte de Cruyff. Uma coerência de que não queremos fazer parte. Tiveram oportunidade de mostrar indignação com uma arbitragem há pouco tempo após a final de Turim. Não quiseram, agora não se esforcem para nos fazerem passar por ridículos porque nós não somos esse clube que o Record tanto bajula. Isto com todo o respeito pelos profissionais que lá trabalham, tenho lá amigos que são excelentes profissionais. O lixo é a capa. O Benfica é o conteúdo das afirmações de Gaitán. Que fique bem claro.

 

Obviamente, lamentamos o penalti não marcado mas queremos é continuar a procurar surpreender o Bayern. E isso foi conseguido na 2ª parte. Que jogo do Benfica!

Ver o Benfica a trocar a bola, ver o Jonas a fazer o chamado sombrero a Vidal, ver o André Almeida a fazer a chamada cueca a um adversário, ver os avançados do Benfica a pressionarem na saída de bola do Bayern, assistir ao desespero das bancadas do Allianz Arena que assobiaram forte e feio a sua equipa por não estar a conseguir atacar, tudo momentos que não esqueceremos.

Não me peçam para criticar o Jonas pelos golos não marcados. Falhar um golo perante dois guarda redes tem que ter desculpa. Sim, dois. O Bayern na Baliza tem o Manuel e o Neuer. Um só para defender outro só para fazer parte da rotação da bola. É um monstro.

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Inacreditável aquele momento em que Renato Sanches desata a correr na esperança que Neuer cometesse um erro também pressionado por Jonas. Neuer resolveu, apertadíssimo, com um passe magistral no meio dos adversários e o Bayern saiu calmamente para o ataque. Olhámos uns para outros e rimos. É de outro mundo!

O outro falhanço de Jonas após vários ressaltos e quando eu senti que íamos mesmo marcar, foi devido à intervenção de Javí Martinez que entrou para o lugar de Kimmich que não estava a dar conta do recado. Mérito de Guardiola que tem à sua disposição uma colecção de jogadores de um nível incrível.

 

O mérito do Benfica foi ter posto em sentido a equipa e os adeptos do Bayern, ter conseguido resistir ao assalto final que derrubou a Juventus, por exemplo, e continuar sempre a espreitar o ataque.

Acabámos o jogo vivos. Para todos os imbecis que me perguntaram se agora tinha passado a festejar derrotas deixo mais uma explicação: nós nunca festejamos derrotas. Quando estamos a perder em casa com o Zenit 0-2 ou com o Sporting 0-3 e o estádio espontaneamente explode num só grito de "eu amo o Benfica", não estamos a festejar nada. Estamos só a mostrar que sabemos que não podemos sempre ganhar mas quando perdemos não deixamos de sentir um enorme orgulho de ser deste clube.

O que aconteceu em Munique não foi festejar coisa nenhuma, foi demonstrar a nossa motivação, o nosso orgulho por estarmos vivos a meio da eliminatória contra um dos maiores colossos do mundo a jogar a bola. Aquilo não era o estádio do Skënderbeu e não levámos 3. Nem 6. Nem 7. Percebem?

 

Após este jogo em Munique, onde tivemos o resultado menos pesado de sempre, há muitas esperanças para a Luz. Há dignidade e honra pela nossa história. Mas, não tenho dúvidas, o Bayern continua a ser favorito a seguir em frente. Não mudou nada, e é óbvio que os alemães podem chegar à Luz e fazer golos. Aliás, será o mais natural. A nós cabe-nos a missão de fazer mais um jogo superior e disputar até ao fim o acesso à meia final da melhor prova do mundo de clubes.

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O pós jogo foi divertido. Saímos das bancadas muito mais aliviados do que entrámos.

O estádio por fora à noite é tão lindo que não apetece sair dali. Aquele vermelho em forma de aliança a romper o céu escuro é hipnotizante. Ficámos ali a ver a eficácia surreal como o trânsito é escoado, a organização incrível com que dezenas de autocarros saem dos parques para levar de volta milhares de adeptos do Bayern pelo país fora. Isto sem nunca vermos o trânsito parado.

 

Sem saber como, o nosso grupo arranjou uma bola mini réplica da adidas da final de Milão. Voltámos todos a ter 10 anos e ficámos ali a jogar perante o olhar divertido de polícias e adeptos que iam saindo aos poucos do recinto. Um deles até tentou entrar no jogo e interromper uma série de toques de um dos nossos craques que ao sentir a aproximação do alemão fez-lhe um cabrito épico. Risada total, e cumprimento de aprovação do adversário temporário. O futebol é tão maravilhoso.

 

Regresso para o centro da cidade e a constatação de dois factos inesperados. Munique dorme cedo, na zona histórica não há onde comer tarde. Fomos salvos por umas pizzas. A outra constatação surpreendeu-me pela negativa, na terra de Angela Dorothea Merkel há muitos jovens sem abrigo a dormir encostados a montras. Muitos mesmo.

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O conforto de saber que íamos ter camas para dormir e recuperar do cansaço acumulado não superava a excitação pelo que tínhamos vivido naquelas bancadas. Não foi fácil adormecer.

 

No dia seguinte a motivação estava em alta. Um dia inteiro para dar umas voltas por Munique. Foi unânime a escolha de irmos conhecer o mítico estádio olímpico. Muito bonito o parque olímpico. Complexo desportivo com zonas para correr e pedalar, piscinas, um pavilhão que acolhia naquela noite a famosa banda pop norueguesa A-Ha e campos para vários desportos.

Mas o objectivo era estar no estádio que acolheu os jogos olímpicos de 1972 onde Mark Spitz brilhou, onde Cruyff perdeu aquele Mundial de 1974, onde Klinsmann dizimou o nosso Benfica.

Não fazia a menor ideia que o estádio tinha sido construído para baixo. A entrada é feita ao lado das torres de iluminação! Bonitas, por acaso. À entrada uma dúvida. Pagamos 3€ para uma visita simples ou apostamos nos 8€ com direito a guia e passagem pelo interior do estádio? Em boa hora optámos pela visita mais completa.

 

Começámos pelo topo da bancada atrás da baliza onde Dimas marcou um golo. Na rede cá em cima uma singela homenagem a Cruyff.

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O que mais chocava no olhar pelo estádio era a falta do verde da relva. Foi substituída por alcatrão para uma corrida de DTM com a participação do irmão de Michael Schumacher há dois anos e optaram por manter assim. A conservação da relva era muito cara e não tinha uso. O futebol da cidade mundo-se para o Allianz Arena, o TSV também lá joga, e os maiores eventos agora são concertos de música. Elton John irá lá, por exemplo, este ano.

Mesmo assim o estádio mantém um nível de conservação impressionante. O hall de entrada principal está modernizado, há salas de conferência, uma equipa de cozinheiros bem alargada.

A descida aos balneários é longa. Aí ficamos a saber que o estádio foi feito para baixo para mostrar que o povo alemão aprendeu com os erros do passado e queriam mostrar eficácia em vez de imponência. Daí não se ver o estádio ao longe ao contrário do que acontece normalmente.

Entrámos naquele que era o balneário do Bayern que mantém o aspecto que sempre teve. Sente-se a história que por ali passou. Há retratos gigantes ao longo dos bancos, Karl-Heinz Rummenigge e Lothar Mathaus, por exemplo. Deu para tirar foto ao lado do mítico "10" campeão do Mundo em 1990.

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 Oportunamente passam um vídeo nas televisões ali instaladas com os momentos mais marcantes daquele estádio. Aparece Enke, ficamos a saber que o TSV só venceu 3 derbys, e revivemos as emoções de outros tempos. Ficamos no ponto para a subida ao "relvado". Pisamos alcatrão mas a imaginação encarrega-se de nos fazer sonhar. Pensar que naquele espaço aconteceu tanta história. Fui de uma ponta a outra, vi a torre de comunicações lá fora e lembrei-me das imagens da moeda ao ar que enquadravam a torre, lembrei-me de tantos jogos, do Euro 88, etc.

As bancadas são de desenho simples mas imponente. Deu para sentir ali o peso da história e de alguns pedaços importantes do futebol mundial. Ainda bem que o Estádio se mantém aberto. Noutro país qualquer era abandonado com certeza, ali respeita-se a história.

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Depois, o resto do dia foi andar de loja em loja em busca de livros, adereços e camisolas ligadas ao futebol. Trazia dezenas de camisolas e livros, felizmente, mantive a minha sanidade mental e consegui optar só por duas ou três amostras. Mas já tenho cachecol e bandeira para torcer no próximo Euro.

 

Foi um dia bem passado pelas ruas de Munique, inesquecível pela experiência e pela companhia. Pelas histórias contadas, pela troca de opiniões, por conhecer gente nova, por saber mais aventuras à volta do Benfica, enfim, foi óptimo por nos sentirmos vivos e a viver.

 

Vimos os outros jogos das Liga dos Campeões num pub. Festejámos os golos de outros alemães contra o Real, e sorrimos com os golos do Manchester City. Sonhámos com viagens para ver Supertaça europeia e Mundial de clubes. É parvo? Até pode ser. Mas sabem porque é que o fizemos? Porque podemos! Porque estamos lá. Temos direito a tudo.

 

E aos poucos a frescura física e mental vai diminuindo para níveis dramáticos. As pernas pesam, a cabeça acusa as poucas horas dormidas e no horizonte está uma madrugada sem cama com ida para o Aeroporto e um voo que só parte depois das 6 da manhã. É aqui que o plano que parecia tão bom no papel passa a parecer uma alarvidade.

Mas todos sabemos porque estamos ali. Foram só 90 minutos com o nosso amor mas foram os minutos que dão sentido a todos os blocos de 90 minutos que depois passamos à espera de regressar. É duro? Talvez.

Mas andar de metro a meio da madrugada é uma experiência engraçada. Estar num aeroporto que parece nunca dormir é marcante. Adormecer nos bancos ou nas bancadas onde se carregam telemóveis é humano. Lá fora o dia amanhece, os nossos voltam a invadir o aeroporto com cachecóis e camisolas do Glorioso. Chega a hora de partir e voltam os sorrisos. Está tudo vivo.

A viagem Munique - Lisboa pareceu-me teletransporte. Adormeci antes de levantar voo, acordei ao lado do Cristo Rei. No entanto, foi um sono falso sempre com a sensação que já dormi melhor.

Ainda faltava a espera final, uma manhã no aeroporto do Porto com direito a atraso. Nunca ninguém perdeu a paciência. Foi mais tempo para mais histórias, mais risadas e mais assuntos sobre o Benfica.

Chegámos a casa, Estádio da Luz, a meio da tarde de 5ª feira. Esgotados mas de alma cheia. Olhei para o nosso estádio e pensei no Allianz Arena, quanto mais viajo mais gosto do Benfica.

Se fosse para ir ver o tal familiar durante 90 minutos, quando o podemos ver regularmente perto de casa, seria bonito mas utópico. Para ir ver o Benfica é dar sentido a uma vida. A uma, não. A milhares. E não me refiro só aos 4 mil que estiveram em Munique. Naquela bancada possuída por cânticos de incentivo ao Benfica, e zero de ofensa a adversário, não estamos só nós. Nunca somos só nós. Estão todos os que não podem lá estar. Estão através da voz e pensamento de cada um. Os que não podem por razões profissionais, os que não têm razões profissionais para poderem ir, os que ainda não têm idade, os que já partiram mas serão sempre do Benfica, os que podem e não conseguem, e os que conseguem e não podem. Estamos todos juntos sempre que se puxa pelo Benfica. É um clube maior que a vida.

Esta foi só mais uma etapa maior numa história de vida magistral.

Testemunhá-la é um privilégio.

Viva o Benfica!

 

Próxima Paragem: Munique!

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Há poucos clubes na Europa que despertem logo um enorme alerta de respeito no final de cada sorteio europeu. O lote é mesmo muito restrito do ponto de vista dos benfiquistas e , até, dos observadores e comentadores de futebol. A minha luta é sempre a mesma, o futebol muda, evolui e todas as épocas as equipas sobem ou descem de valor. Há o tal grupo reduzido de emblemas que só pelo nome assustam. Sempre que ouvimos falar em Real Madrid, Barcelona, Manchester United, Liverpool, AC Milan, Inter, Juventus ou Bayern, soa o alarme. E reparem que não incluo PSV, Sevilha, Chelsea ou Anderlecht, tudo clubes que já nos ganharam uma final europeia. Estes nunca os consideramos favoritos, não têm o estatuto dos primeiros anunciados.

Isto é devido ao passado glorioso do Benfica que habituou os nossos pais e avós a verem o clube bater os colossos espanhóis e lutar de igual para igual em finais disputadas até ao fim com os gigantes italianos. Como a maior parte dos adeptos não segue atentamente o desenvolvimento das ligas europeias recusam-se a achar que o Benfica não seja favorito contra qualquer equipa que lhe saia num sorteio europeu, tirando aquelas honrosas excepções. É um erro que já desisti de combater.

Um simples exemplo de futurologia: na próxima época calha-nos jogar com o Leicester, campeão inglês (se tudo correr bem), e logo haverá sorrisos indiferentes às qualidades da equipa de Ranieiri. Ninguém quererá saber se são fortes colectivamente ou não. É o Leicester, é para eliminar. No entanto, podem chegar como reis de Inglaterra e o estádio da Luz nem enche para os ver. Mas se sair o Manchester United é casa cheia e o optimismo reduz-se drasticamente. No entanto, o United vem de épocas miseráveis e com um futebol que não assusta ninguém.

É assim a cultura futebolística.

 

Quando o nome em causa é o Bayern de Munique, aí o caso muda de figura. O clube alemão será o mais temido, de longe, de todo e qualquer adepto. Desde o mais informado ou mais distraído, desde o mais novo até ao mais velho, desde o mais optimista ao maior dos pessimistas. O nome Bayern é um pesadelo e as hipóteses de sucesso contra eles descem para níveis muito baixos.
O seu palmarés é assustador. Três títulos mundiais de clubes, cinco ligas dos campeões, uma taça uefa, duas supertaças europeias, vinte e cinco campeonatos e quinze taças na Alemanha.

O historial de encontros entre Benfica e Bayern é negro para nós.

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Em 1976, também nos 1/4 de final da Taça dos Campeões, houve um empate animador em Lisboa sem golos mas em Munique com Uli Hoeneß, Sepp Maier na baliza, o kaiser Franz Beckenbauer, os goleadores Rummenigge e Gerd Müller, entre outros ilustres, golearam por 5-1 o Benfica que contava com José Henrique na baliza, Toni, Shéu, Jordão, Vítor Baptista e Nené que fez o golo de honra.

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Em 1981/82 repetiu-se a dose. Logo na 2ª ronda da Taça dos Campeões o Benfica de Lajos Baroti voltava a empatar a zero com o Bayern de Pal Csernai. Um curioso duelo de húngaros, Lajos despedia-se nessa época e Pal viria parar à Luz uns anos mais tarde para uma época que não deixou saudades, apesar da Taça ganha ao Porto.

Se na Luz os alemães não sabiam o que era marcar, no Olympiastadion abusavam! Nova goleada por 4-1, um hat trick de Hoeneb e um golo de Paul Breitner deixaram Bento enlouquecido na nossa baliza. Nené voltou a fazer o golo da ordem, desta vez de penalti.

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Em 1996 o duelo foi para a Taça UEFA. A primeira mão foi na Alemanha e o Benfica até respondeu bem ao primeiro golo sofrido e empatou por Dimas. Jurgen Klinsmann não gostou da ousadia e, indiferente à presença de Preud'Homme, brindou-nos com quatro (!) golos. No dia seguinte os diários desportivos nacionais falavam em KataKlinsmann.

Na 2ª mão não conseguimos manter a tradição de deixar os alemães a zero. Klinsmann continuava possuído e fez mais dois, o austríaco Herzog fez o outro. Valdo foi o marcador da casa que até o abriu o marcador dessa noite que acabou em 1-3.

 

Só em 2007 houve motivos para um pequeno sorriso contra o Bayern. Foi num torneio de começo de ano no Dubai onde o Benfica aguentou o 0-0 e venceu nos penaltis. Depois até ganhou o torneio batendo a Lazio na final, também por penaltis.

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Tirando esta gracinha, falar de confrontos com o Bayern até dá calafrios.

Por isto tudo, o Bayern é o único clube verdadeiramente temível porque não temos nada a que nos agarrar. Prefiro pensar no duelo deles com o Belenenses em 2007, já no Allianz Arena do que me lembrar das recentes passagens dos dois rivais por lá.

 

Mas nós somos o Benfica. Ao contrário do que aconteceu recentemente com craques milionários da Juventus, Zenit ou Chelsea, que desprezaram o nosso clube antes de jogarem, os alemães mostram um respeito que me assusta ainda mais. É incrivelmente bom ler e ouvir Guardiola, Lahm, Douglas Costa e outros a falarem em tons tão elogiosos para com a nossa equipa. Ao mesmo tempo é sinal de inteligência e de que será mais difícil surpreende-los.

 

Foi esta mentalidade que cedo me apaixonou pelo futebol alemão, o meu preferido no mundo inteiro. O futebol inglês é o mais romântico e será sempre a casa do futebol. Mas a eficácia, organização e espectacularidade do futebol alemão cativou-me desde os anos 80.

O Hamburgo é a minha equipa preferida. Fiquei fascinado por aquela camisola com BP na frente e pela equipa que venceu a Taça dos Campeões em Atenas contra a Juventus com um golo de Magath, tendo como grande figura Hrubesch. O HSV tinha ficado ligado ao futebol romântico três anos antes ao perder com o mítico Nottingham Forest a final do Bernabéu que dava a segunda Taça dos Campeões a Brian Clough.

 

Como Portugal quase nunca participava nas fases finais de Europeus e Mundiais, cedo optei por torcer pela Alemanha por causa do tal fascínio que tinha pelos clubes germânicos nas provas da UEFA. Quem me conhece sabe o quanto adoro o futebol alemão.

Tive poucos ídolos de juventude mas Jurgen Klinsmann foi um dos maiores. Muito antes do KataKlinsmann, eu adorava o avançado já nos tempos do Estugarda. Todas as semanas nos resumos curtíssimos da Bundesliga havia golões de Jurgen. Acompanhei com entusiasmo a sua carreira pelo Mónaco, Tottenham e Bayern e vibrei com todos os golos que apontou pela selecção.

Vejo a Bundesliga como o melhor campeonato da Europa em termos competitivos, com vários campeões nas últimas décadas, e há muito que tinha o sonho de ir ver um jogo à Alemanha.

 

Agora o Benfica tornou possível este encontro marcado na minha cabeça desde os anos 80, vou a Munique ver o Benfica. Sei que vou adorar estar na Alemanha pela primeira vez, sei que tudo vai corresponder às minhas expectativas.

Tenho noção do poderio da equipa de Guardiola mas vou com o mesmo espírito que fui para Anfield Road defrontar o campeão europeu na altura. Vou com o mesmo espírito com que fui para o Camp Nou ver o Barcelona de Messi. Sem medo, com orgulho e já com bilhete comprado para a segunda mão. Somos o Benfica, por isso é que em vez de nos preocuparmos com o que se vai passar com o Tondela ou o Belenenses estamos ocupados a viajar para o centro do mundo futebol internacional.

 

 

 

Vitória de Setúbal 2 - 4 Benfica: Contra Choco Estragado Temos Pizzi de Eleição

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(Fotos: João Trindade)

 

 Entusiasmante ver este Benfica a ganhar dimensão com novas rotinas e ideias vencendo jogos longe da Luz que se adivinhavam mais complicados. A vitória no Bonfim foi do Bi-Campeão que assinou uma exibição mais do que convincente confirmando alguns valores que começam a ser certezas.

 

Mas a viagem a Setúbal é sempre rica em histórias adjacentes. Durante a semana comentávamos entre amigos que todas as deslocação ao Bonfim são sempre envolvidas numa aura misterioso que marca cada uma delas como inesquecível. Todos nós, adeptos que costumamos acompanhar o Benfica à cidade do Sado, temos episódios para contar ao longo dos anos. Há sempre tensão dentro e fora do estádio porque é dos locais onde há sempre um dispositivo de segurança policial absolutamente desproporcionado que não raras vezes acaba em disparate. Junte-se um estranho ódio dos locais aos benfiquistas e uma forte adesão dos adeptos encarnados a estes encontros e temos sempre matéria prima para novelas.

Ontem o facto mais grave teve a ver com a entrada no estádio. Um clássico para aqueles lados. Uma porta minúscula para receber milhares de adeptos que formam uma fila longa e desesperante que deixa de fora do recinto muitos benfiquistas nos primeiros minutos jogo. Não há época que não aconteça isto.

 

Esta é a única deslocação que temos a sul do Tejo ao longo do campeonato. Das viagens mais curtas para fazer que proporciona sempre um motivo para se combinar um convívio entre amigos e companheiros destas jornadas à volta de uma mesa com petiscos regionais. Ao longo dos anos fui partilhando aqui relatos desses encontros gastronómicos antes do jogo com o Vitória. Cheguei ontem à conclusão que paramos quase sempre no mesmo restaurante há mais de uma década. Costumamos ser bem recebidos, bem atendidos, bem alimentados e já tivemos algumas surpresas agradáveis como umas tertúlias com a senhora Simone de Oliveira.

Não havia dúvidas em encaminhar o pessoal para o mesmo local. Mas como em Setúbal nunca nada é certo, desta vez tivemos a pior das surpresas. O estabelecimento mudou de gerência e o petisco rapidamente tornou-se um pesadelo. Atendimento embaraçoso, lentidão a servir e duas travessas de choco frito estragado e denunciado devido ao cheiro insuportável ao chegar à mesa. Como é possível? Aconteceu.

Refeição estraga e sitio para riscar do mapa: o Cantinho dos Petiscos na Avenida Luísa Todi morreu. Nunca metam lá os pés! Por aqui costumo divulgar bons locais para comer, desta vez o serviço público é para vos evitar intoxicações alimentares.

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Caminhada frustrante para o estádio sem estômago satisfeito e uma visão dos infernos ao chegarmos ao largo dos portões onde entramos. As tais filas intermináveis ali à nossa frente. Enquanto pensava se havia de ir stressar para a fila ou esperar um pouco sou chamado para a esplanada em frente à nossa bancada por companheiros destas aventuras. Não há nada mais prazeroso neste contexto do que me sentar a beber uma cerveja com amigos prontos a meter a conversa em dia mesmo que estejamos impedidos de ver o nosso Benfica nos primeiros minutos do jogo que ali nos levou.

 

Porta desimpedida e entrada tranquila na bancada. Tudo igual, 0-0 e o Benfica a agarrar no jogo. Ataque para a outra baliza, que é o mesmo que dizer bem longe dos nossos olhos devido à distância da bancada para o relvado com a pista de tartan pelo meio.

Não foi preciso esperar muito para festejar o primeiro golo da noite. Pizzi faz um trabalho tão bom que se notou à distância e dá a desejada vantagem. E ainda festejávamos o golo quando Jonas faz o 0-2. Nos últimos 10 minutos da primeira parte o jogo ficava quase resolvido. Já me tinha passado a frustração do jantar desastroso, a equipa local estava a ser castigada.

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 Quando aos 53 minutos Mitroglou faz o 0-3 todos sentimos os 3 pontos garantidos, mesmo que Vasco Costa tenha reduzido a seguir, e admitíamos que a equipa tem crescido bastante depois da triste jornada do derby em casa. O 1-4 serviu para nos rirmos de tanto ressalto e sair dali com um sorriso maior que nem o golo de Suk conseguiu estragar.

 

A experiência de bancada, a jornada com os companheiros do costume estava selada com sucesso e mais uns episódios para contar nesta longa novela que são as deslocação a Setúbal.

Depois veio a necessidade de ver o jogo em casa calmamente na televisão e ver todos os pormenores desta 13ª partida no campeonato.

Rui Vitória voltou a apostar na dupla atacante de maior sucesso, Jonas e Mitroglou, assume Pizzi no lado direito com Gonçalo Guedes na esquerda, fez regressar Samaris ao meio campo ao lado de Renato Sanches e não mexeu na defesa. Sem Luisão, Salvio e Gaitán, esta é uma equipa forte e que deu bem conta do recado.

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O destaque já não é Renato, o jovem é já uma certeza no onze, o destaque vai todo para a aposta de Pizzi na ala. Excelente resposta do transmontano que teve um papel determinante na movimentação atacante do Benfica na ausência de Gaitán. São as suas diagonais, os seu movimentos interiores que criam mais espaço e soluções para um ataque de uma equipa cada vez mais entrosada e a entender as desmarcações de Jonas e Mitroglou. Pizzi tem em sido essencial neste crescimento da equipa no campeonato.

Também uma nota para Samaris que é o meio campo do Benfica mais precisa para jogos com esta dinâmica.

Grande surpresa aos 68 minutos com a entrada de Djuricic. Dizia-se que o sérvio não ia jogar mais porque isso implicava pagar ao seu anterior clube mais dinheiro por uma clausula de utilização. Não sei se é verdade ou não, sei que Djuricic entrou muito bem e ainda ajudou a avolumar o resultado.

Fejsa entrou para o lugar de Renato e Raul Jimenez rendeu Mitroglou nos últimos minutos.

Há uma ideia de jogo interessante e um futebol atacante agradável. É preciso manter este nível na 3ª feira na Madeira para continuarmos a pensar no nosso "Tri".

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 Uma palavra elogiosa para Quim Machado que se manteve fiel ao seu entusiasmante modelo de jogo que lhe rende muitos golos e bons espectáculos, merece sorte na prova porque procura um futebol positivo e atacante. Tem uma equipa muito bem construída e gosto de destacar quem procura pontos com golos em vez de esquemas ultra defensivos com recurso ao anti jogo total.

 

 

 

Ir a Roma e Não Sentir a Loba

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A odisseia da Itália no seu Mundial, que revelou ao mundo um novo herói chamado "Toto" Schillaci,  a final que a Alemanha ganhou a Maradona, a épica final da Taça dos Clubes Campeões Europeus que a Roma perdeu na dança dos penaltis de Grobbelaar, aquela tarde que faltei às aulas na escola primária para ver o Benfica ganhar em Roma, aquela noite em que invadimos a casa do amigo que tinha parabólica com RAI para ver a Roma de Aldaír a vingar-se, aquele regresso contra a Lazio que tão mal acabou e podia estar aqui a mencionar momentos mais recentes, como a selfie de Totti, para dizer que o Estádio Olímpico de Roma era um destino que há muito tinha em mente.

 

Aproveitei mais uma viagem de turismo para incluir no menu uma visita de cultura futebolística. Bem, não foi só mais uma viagem, tratou-se da chamada "lua de mel" mas para quem já me atura há oito anos sabia que teria de passar por mais um estádio mítico.

 

Tinha grandes expectativas com esta visita a Roma. Queria sentir o pulsar dos tiffosi e saber o que conheciam do Benfica. Enfim, o normal para qualquer visita a uma cidade europeia. A desilusão não podia ser maior. Já se sabe que nestas aventuras cada qual tem uma experiência diferente. A minha foi fraca.

Não senti que Roma respirasse futebol, raramente encontrei alguém disposto a conversar sobre as equipas da cidade, não registei reacções aos meus passeios de casaco ou camisola com o símbolo do Benfica. Aconteceram excepções que partilharei mais à frente mas por norma não vislumbrei grande entusiasmo na cidade. Visitei uma das lojas da Roma onde vi artigos do clube. Fora desse contexto, zero!

Tudo começa na loja da Roma onde se pode comprar bilhetes para o jogo. Lá fui pedir dois bilhetes para o lado da curva sud. Não é simples o levantamento dos ingressos. É preciso dar a identificação das pessoas que vão entrar, os nomes são impressos no bilhete e é pedido que se leve o mesmo documento identificativo no dia do jogo. O meu custou 35€, o da minha mulher 31€. Desconto simpático.

 

Da loja não fiquei tentado por mais nenhum artigo. Achei até uma oferta fraca.

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Domingo, dia de jogo, a minha expectativa aumentava. Sentia que, finalmente, ia conviver com os famosos adeptos da Roma na recepção à Atalanta. Sempre achei muito charmosa esta maneira de usar o sentido feminino numa frase em que se fala de equipas de futebol, coisas à italiana.

 

Já tinha percebido no mapa que o Olímpico ficava longe do centro da cidade. Por esta altura já tinha caminhado entre quase todas as atracções em forma de monumentos da capital italiana.
Bilhete comprado, 1,50€ cada, autocarro apanhado na Piazza Veneza e lá vamos rumo ao estádio. Viagem mais curta do que era de esperar por haver algumas vias encerradas ao trânsito. O motorista garantiu que o caminho a pé até ao estádio era tranquilo e rápido. Tinha razão.

Até aí, diga-se, que não vi nenhum sinal de que havia jogo na cidade. Perto da rotunda onde começa o parque onde está o recinto é que aparecem os primeiros policias e adeptos trajados de amarelo e vermelho. Finalmente, sorri.

Ao fim de uns metros a caminhar ia fazendo comparações na minha cabeça. Aquilo lembrava-me o caminho para o estádio do Jamor. Árvores, recintos desportivos e o estádio lá ao longe.

Os adeptos todos muito discreto e calmos. Aproveitámos para parar no primeiro quiosque e matar a fome. Duas sandes de salame picante e duas birras. Vinte euros! Pois.

O salame era mesmo picante e, portanto, a birra escorregou num instante.

 

Havia que seguir o nosso caminho, como diz o treinador do Glorioso, e aproximamo-nos do estádio. Acontecem as primeira surpresas agradáveis.

Logo no primeiro portão um simpático adepto romano aponta para a minha camisola branca, a alternativa desta época, e repete várias vezes a palavra Benfica. Paro, volto para trás e tento um italiano/castelhano/português para saber porque identificou o manto sagrado. Só ouvi elogios, e o senhor, com idade para ser meu pai, acaba a sorrir afirmando ser grande admirador do Benfica desde pequeno. Soube bem o reconhecimento e os elogios.

Mais animado e motivado resolvi entrar numa loja improvisada num insuflável antes de entrar na área do estádio. Gostei de uma t-shirt em promoção e quando me preparava para experimentar por cima do manto sagrado aparece um senhor ainda mais velho que o simpático italiano. Era inglês e tinha uma história épica.
Queria cumprimentar-me porque é simpatizante do Benfica desde que viu Coluna e Eusébio a jogarem. Então, desenvolveu um ritual que consiste em visitar a Luz de dois em dois anos, para ver um jogo, beber cerveja e comprar camisolas. Estava triste porque ainda não tinha conseguido arranjar uma daquelas camisolas vendidas pelo nosso museu, réplicas dos anos 60, porque não há para o generoso tamanho dele.

Fica o apelo para que o Benfica mande fazer um tamanho XXL para os britânicos mais volumosos comprarem. No ano que não ia à Luz combinava com um amigo e escolhiam um estádio mítico para verem bola. Desta vez era o Olímpico de Roma. Fiquei tão feliz com este encontro que saí da loja sem comprar nada e fui direito à entrada do estádio. As revistas são mais apertadas do que cá, muitos policias e três paragens para ser revistado antes de subir as escadas do Olímpico.

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Quando, finalmente, estou de pé em frente ao relvado e à bancada central no meio daquelas cadeiras azuis, lembro-me de todos os momentos com que comecei esta prosa. Sente-se ali a história de um campo mítico. Ali estava eu nas bancadas do Olímpico de Roma. Foram momentos em que olhei para o relvado e tentei imaginar Conti, Falcão, Cerezo ou Giannini a jogarem. Ou os golos de Filipovic, ou o penalti de Brehme.

 

Depois lembrei-me de olhar para a esquerda e ver a famosa Curva Sud e os seus fieis tiffosi. E aí começa toda uma desilusão. A Curva está dividida para um separador em acrílico que os adeptos não toleram. Por isso, não há ultras no sector em jeito de protesto. Ou seja, vi zero dos famosos ultras da Roma.

A seguir percebo que o ambiente em volta da equipa também não é o melhor. Há assobios incríveis na altura do anuncio das formações. Rudi Garcia deve ficar surdo com tamanha assobiadela.

Pensei que tinha a ver com a goleada sofrida em Barcelona mas depois entendi que os adeptos da Roma estão fartos do seu treinador há mais tempo.

 

Mais assobios ao treinador da Atalanta, esteve dois anos a treinar a Lazio, mais assobios a De Sanctis porque não confiam no guarda redes, outra vez assobios ao "hino" da Serie A que é tocado no alinhamento das equipas.

Só um momento de euforia, no "hino" da Roma todos de pé com cachecol ao alto a gritar bem forte pela loba.

O jogo começa e a desilusão aumenta. Não se ouve um pio nas bancadas, conseguimos ouvir os pontapés mais fortes na bola. A Roma sem Gervinho e Salah é banal apesar de De Rossi, Dzeko e Pjanic. O futebol é triste e previsível, e a Atalanta chega à vantagem sem surpresa. Fica para memória o grande pontapé de Gomez mesmo ali à minha frente.

Um jogo para esquecer, um ambiente horrível. Salvou-se a conversa que fui mantendo com dois adeptos atrás de mim que iam explicando o que se passava e os risos dos muitos ingleses perto de nós que estavam ali na mesma condição de turistas.

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Ao intervalo um encontro ao pé do bar com dois rapazes benfiquistas que ao verem a minha camisola começaram logo a cantar pelo Glorioso. Também estavam de visita à cidade e estavam tão decepcionados como eu com o triste espectáculo que nos calhou. Serviu para matar saudades das conversas à volta do Benfica e partilhar a convicção de uma vitória em Braga no dia a seguir.

 

A segunda parte não melhorou nada, a Atalanta fez mais um golo e senti vergonha alheia ao ver os adeptos da casa a virarem costas ao jogo sem hesitações. Se a Roma ganhasse ficava a um ponto do líder mas, mesmo assim, os adeptos não aparecem. O estádio nem meia casa tinha preenchida.

 

À saída percebi que o acesso pela porta principal que vai dar à ponte é mais movimentada e , finalmente, vi pontos de venda de artigos relacionados com o clube. Nada de material Ultra nem pins. Pior foi não ter como comprar bilhetes para o regresso de autocarro e não saber que em Roma ninguém paga para andar de transportes. Não arriscámos a borla e acabámos numa longa caminhada até à Piazza del Popolo.

Salvou-se o jantar na pizzaria La Baffetto.

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 Nos dias seguintes ninguém mostrou interesse em falar de bola. Desprezo quase total pelo futebol. Ainda tentei na 2ª feira à noite numa café durante o Nápoles - Inter mas os empregados viam o jogo pouco interessados em alimentar conversas. Nem em encher a chávena do café que pedi. Fiquei a perceber bem o conceito de "italiana".

 

Ponto positivo, nas livrarias é possível encontrar muita literatura dedicada a jogadores, treinadores, dirigentes, jornalistas e clubes italianos. E até livros sobre os adeptos. Comprei um sobre a Curva Sud, outro sobre a grande Roma de Liedholm e mais um sobre as maiores figuras do AC Milan, onde nao falta uma página dedicada a Rui Costa.

 

De resto, Roma tem muito para oferecer em termos históricos, museus, monumentos, atracções católicas e gastronomia própria. Os italianos e italianas são simpáticos e prestáveis, a cidade é segura, e parece que passamos uns dias dentro de um postal ilustrado entre a imponência do Coliseu e a beleza da fonte de Trevi.

De futebol é que há pouco rasto.

 

 

Gil Vicente 0 - 5 Benfica: Este Campeonato Não Merece Este Benfica

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Depois do circo à volta do nome de um treinador rival, passou-se uma semana a falar do árbitro escolhido para este jogo do Benfica. O tal Capela, que a mim só me faz lembrar uma expulsão a Pablo Aimar em Olhão, antes de um importante clássico, e outra expulsão épica de Cardozo num derby na Luz em que CarDeuz deu um murro na relva e foi de vela, expulso pelo Capela.
Uma festa, rosnaram os azuis, choraram os verdes e até Zé Mota ouviu vozes do outro lado do mundo!

Depois começa o jogo e acontece mais um recital de bola do Benfica, com um futebol de ataque irresistível, jogadas bonitas ao primeiro toque e golos para todos os gostos e feitios.
Fico chateado com este tipo de exibições do meu clube porque acho que são mesmo pérolas a porcos, o futebol português não merece uma equipa a jogar futebol deste nível. Claro que nós, adeptos benfiquistas, merecemos isto tudo e muito mais mas todos os outros não! Mereciam é que o Benfica não mostrasse mais do que duas ou três jogadas vistosas por encontro e chegasse à vitória de penalti. Podia ser com um daqueles sete que o Capela deu ao Porto em 12 jogos que arbitrou.

 

Felizmente, nos últimos anos o Benfica voltou a estar sempre na luta pelo primeiro lugar. Voltámos ao nosso lugar de conviver em busca da glória semana a semana, jogo a jogo e por isso a conversa de colinho já não tem qualquer efeito negativo no clube ao contrário do que acontecia até há pouco tempo. Habituámo-nos a ver o nosso excelente futebol ser reduzido por rivais, imprensa, observadores e comentadores a ... colinho.

Quando se ganha um campeonato nacional com David Luiz, Aimar, Saviola, Di Maria, Ramires, Fábio Coentrão e Cardozo, tudo rapaziada que não joga mal à bola, convenhamos, e a justificação para o sucesso é colinho, em vez de nos questionarmos como é que um Braga conseguiu lutar até ao último minuto contra esta equipa, está tudo dito sobre o futebol português.

A partir daqui foi remédio santo, quando se levanta a questão do colinho, como tanto se tem feito este ano, e o Benfica responde com uns meros 0-5 no Minho é a maior prova que estamos vacinados. Repito, não merecem este futebol.

 

Já nós, adeptos, sabemos a equipa que temos e sentimos que grandes dias estão para acontecer. Por isso, vivemos cada jogo como se vivem os grandes momentos da vida.

Acredito que qualquer benfiquista prefira assistir as estas jornadas no estádio ao lado da equipa, embora saiba de quem não tenha paciência para a logística envolvente e não se importe de ver confortavelmente na televisão mas são uma minoria.

Da minha parte, se pudesse, via todo e qualquer jogo do Benfica ao vivo. Entre outras razões, odeio ver na televisão porque não gosto das realizações, dos comentários e tudo me deixa nervoso, além de saber que vou saber que o meu clube marcou uns bons segundos depois de a coisa ter acontecido no local.

 

Decidir ir para Barcelos a meio de um fim de semana prolongado pode trazer um certo desconforto caseiro. Está bom tempo a sul, a minha mulher é lá que tem a família, e seria uma óptima oportunidade para um retiro ao sol e um regresso calmo com passagem por casa da minha mãe para lhe dar um beijo neste dia que alguém resolveu dedicar a elas. Felizmente, que tenho uma mulher que lida com toda a naturalidade do mundo à explicação do "eu tenho de ir para Barcelos" e uma mãe que me avisa "oh, filho o importante é o Benfica ganhar". Caminho livre para Barcelos.

 

Amigos reunidos, carros organizados e objectivo definido: ir apoiar o Maior e atacar a gastronomia local. Sendo que "local" aqui é em sentido alargado. Sair de Lisboa de manhã e parar em Torres Vedras para uma sandes de cozido com umas minis. Que pequeno almoço à campeão!

Bom mote para uma viagem até Poiares, São Roque, perto de Ponte de Lima. Taberna do Afonso, casa familiar com paredes de pedra que serve um bacalhau assado fortíssimo com azeite, tal como umas costeletas de tamanho xxl de óptima qualidade. Broa a acompanhar e malga de vinho verde tinto sempre cheia. Antes da abaladiça, um pouco de queijo com marmelada e maçã. Agora, sim, a ida para o estádio Cidade de Barcelos estava acautelada.

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Entrar na bancada e perceber que Sulejmani está no lugar de Salvio em vez de Ola John ou Talisca. Parecia boa ideia. Foi boa ideia.

De estômago bem forrado, ali de pé preparado para sofrer na penúltima saída do campeonato rapidamente deu para perceber que o cinzento do céu não ia alastrar à nossa exibição.

Portugal é assim, nós ali em pleno Minho à chuva, com temperatura fresquinha, o céu bem carregado no seu cinzentismo tão nortenho e no telemóvel uma fotografia de uma praia do Algarve cheia de sol e céu azul com um irónico aviso: aqui também chove. Sim, também gosto muito de ti, mulher!

 

Fácil, bonito, empolgante, contagiante, assim foi o futebol do Benfica que rapidamente tratou de pôr as bancadas em festa total. Tanta ganância barcelense em sacar dinheiro aos adeptos deu num triste cenário de bancadas com muitas cadeiras vazias. Mais uma vez, não merecem o futebol do Benfica.

 

A facilidade com que chegámos ao intervalo a ganhar 0-2 não me deixava tranquilo. Lembrava-me de duas ocasiões em que vi este confronto lá longe no Algarve. Ganhávamos 0-2 e acabou 2-2 acabnado eu a dar um murro na parede que assustou familiares menos preparados para finais dramáticos futebolísticos. O outro foi o da época passada, mais um dramático empate que nem é bom lembrar.

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A jogarem para a nossa baliza, os rapazes não abrandaram o ritmo, e mesmo com a triste saída de Gaitan, a equipa veio fazer 3 golos do nosso lado. Jonas e Lima, uma dupla que dá ainda mais gosto ver quando estamos tão perto do relvado de frente para eles.

Samaris, Fejsa, Ruben Amorim, Pizzi e Talisca, todos a tratarem a bola por tu e com vontade de a fazer circular rumo ao golo. Jardel e Luisão a subirem, sente-se que vem aí golo. E Maxi? que exibição!

São 90 minutos em que tudo parece estar correcto no mundo e que dão todo o sentido à vida. Se fizemos estas centenas de km's para ver o Benfica foi porque o clube só tinha coisas boa para retribuir. Uma viagem em que se festeja mais uma vitória sobre o rival em futsal. Mais uma facada no maior ecletismo do planeta e um excelente tónico para uma caminhada ainda mais animada. O golo de Xavier na vitória da equipa B e uma goleada a deixar o Benfica à beira do Bi-campeonato. Que dia!

Tão bom para nós e que deve doer tanto aos outros. O Colinho é isto, obrigado por terem inventado a expressão.

 

O regresso numa noite de inverno com paragem em Matosinhos para uma francesinha não podia ser mais épico. No Requinte sala cheia e durante a espera um encontro imediato entre dois grupos de adeptos apaixonados pelos seus clubes. Nós e cerca de 30 flavienses!

Uma turma que vinha de Olhão decepcionada com a derrota do Chaves na luta pela subida. Por 100€ cada um deles, homens e mulheres, tiveram direito a voo de ida e volta, carro alugado, alojamento e bilhete do jogo. Só a equipa falhou. Dizem ter saudades de Norton de Matos e prometeram depois do repasto uma viagem rápida para Chaves para receberem a equipa com alguns recados.

Lá dentro, a meio do jantar, da nossa mesa cantou-se "nós só queremos o Chaves na 1ª". Animámos aquela gente que comia em silêncio. Retribuíram a simpatia e saíram mais motivados.

Mais um dia à Benfica. Estou saciado. Gastronomicamente e futebolisticamente. Podem voltar para o vosso circo até ao jogo com o Penafiel.

 

 

 

Sevilha 0 - 0 Benfica ( 4 - 2 nos Penaltis )

Faz hoje, dia 15 de Maio, um ano que perdemos a Liga Europa de forma dolorosa. Parece que foi ontem.

E assim que arranco o regresso a crónicas de jogo. Assim com vontade de mostrar que a dor de hoje não é igual à de 2013.

 

Há um ano parti para Amesterdão ferido de morte por "aquilo" do Kelvin. Tal como aqui contei senti-me renascido durante o jogo e acabei destroçado já a prever o prolongamento do sofrimento até ao Jamor. Depois foi o sofrimento que se sabe e a incompreensão em ver o clube continuar a apostar nos mesmos líderes, técnicos e jogadores. No final do jogo nos Barreiros, já esta época, não aguentei e calei-me para não me tornar num daqueles benfiquistas a viver em negação e sempre a dizer mal de tudo e de todos. Assim que parei de escrever aqui deu-se um milagre, os últimos minutos , que tão cruéis tinham sido connosco, revelaram uma remontada que nos lançou para a conquista do 33º título nacional.

Esta época de todos os jogos oficiais que fizemos na Luz falhei o encontro com o Paços de Ferreira por estar no baptizado da filha de um amigo e companheiro de bancada. De resto , como sempre, estive lá em crescendo de entusiasmo que só se saltou mesmo definitivamente naquele golo do André Gomes e uns dias depois atingiu o auge com Garay e , especialmente, Lima naquele golão à Juventus em pleno dia do meu aniversário. O Benfica , mais uma vez, fez-me sentir nas nuvens.

Depois da heróica noite de Turim em que deixámos de fora o clube favoritissimo à conquista da Liga Europa, percebi que ia acontecer tudo de novo, lá teria de ir para a "guerra" dos bilhetes, dos orçamentos, da marcação de férias, das viagens mas não podia faltar à chamada.

 

Este ano com menos disponibilidade profissional para marcar dias de férias optei pela viagem charter graças à sugestão do amigo T. e assim assumi a presença no estádio da Juventus.

O plano era estar à 4h30 da manhã no aeroporto da Portela no dia da final. Sim, 4h30. E sim, se fosse para trabalhar ou ir ter com uma familiar distante não sei se iria com a mesma facilidade. Mas é o Benfica que me espera lá longe, nem se hesita. 4h30 da manhã pareceu-me uma hora tão boa como outra qualquer. Não conseguir dormir direito, saltar da cama antes da 4h da matina, ir de mota sozinho na 2ª circular a meio da noite e só avistar táxis cheios de pessoal vestido de vermelho com o mesmo destino. É o Benfica.

Chegar à Portela e ver o aeroporto tão cheio de vermelho deixou logo para trás o pormenor da hora obscena. Era como se fosse hora de almoço e estava ali tudo animado para mais uma aventura benfiquista. O bom destas loucuras encarnadas é encontrar amigos de sempre que não são fáceis de ver no dia-a-dia. Logo à cabeça com o grande JPM com os seus encantadores pais com quem me sentei a meter a conversa em dia tão naturalmente como o abraço que troquei com o R. e o J. antes do embarque. Tudo rápido, nada de sentimento de seca. Seca passei eu no complicado processo de renovação de Cartão de Cidadão uma semana antes em que o grande CF me ajudou de forma decisiva. Grande abraço, CF, lembrei-me de ti na altura em que mostrei o bilhete de embarque e o cartão de cidadão.

 

Às 6h já estávamos no avião a partir para Milão. Viagem fácil passada na conversa com o F.P.. Rapidamente estávamos a aterrar em Milão e a entrar no autocarro que nos levaria para Turim. Nesse intervalo entre avião e bus troquei umas palavras animadas com o grande RAP que depressa foi engolido pelos benfiquistas que queriam fotos. O costume. Ainda não foi desta, RAP mas um dia acontecerá como te disse.

 

Viagem de autocarro confortável por uma auto-estrada que tem como cenário os imponentes Alpes cheios de neve. Bonito. Paragem para passarmos a ser escoltados pela polícia italiana, piadas de circunstância a animar o ambiente e orientações para o resto do dia. Os autocarros seguiam para o centro de Turim para o Parque del Valentino e deixava-nos a tarde livre para passear por ali. Reencontro marcado para as 16h30 ( mais uma hora em Turim ) para a ida para o Estádio.

 

O que dizer da cidade de Turim?
Não tinha feito trabalho de casa porque sabia que só ali estaria uma horas e assim apostámos em passeio até ao centro e ir à descoberta. Bonitas ruas, monumentos bem cuidados, polícias simpáticos, raparigas bonitas e muito simpáticas ( beijinho para a Toura que me atendeu na loja do Torino ), muitos restaurantes , muitas pizzas à vista, jardins com relvados ocupados por italianos desejosos de sol e uma cidade relativamente calma em termos de movimento local. O resto era animação de finalistas. Malta sevilhana porreira, não vi problemas nenhuns na cidade ( houve um foco de tensão criado fora do estádio pelos famosos Biris Norte mas sem grandes consequências ).

É sempre uma sensação engraçada andar numa cidade onde nunca estive e enquanto tento descobrir pormenores que me agradem ( estive para comprar uns livros sobre futebol mas nunca irei conseguir ler italiano além da capa da Gazzetta dello Sport) vou encontrando pessoal de forma mais ou menos esperada. Destaco o encontro com o Pedro Adão Silva, fomos colegas na Secundária de Benfica e nunca nos vemos em Lisboa, só pelo twitter falamos mas em Turim não falhou. Troca de cumprimentos com pessoal que vai a todo o lado atrás do Maior, encontros com pessoal que nem sei o nome mas conheço da Luz, e o reencontro com os companheiros de sempre que optaram por aventura de carrinha. Tudo junto atacámos a pizzaria Caravella onde, incrivelmente, estava a almoçar o casal que nos alimenta há anos no Terceiro Anel. Almoço de família benfiquista, pois então. Fotos, animação e um belo almoço de pizzas. Finalmente, posso dizer que já comi pizza em Itália. O azeite picante é que faz a diferença. Tudo óptimo, é para isto que me atiro nestas aventuras. Este convívio tendo como dominador comum o Sport Lisboa e Benfica, é algo único e quase inexplicável. Aquela gente toda ali bem longe de Portugal, tudo por causa do mesmo. Isto são vitórias que ninguém nos tira.

 

Depois regresso ao Parque para ir de autocarro para o estádio. Ambiente bem mais animado. Ao meu lado duas benfiquistas que eram caras conhecidas do bairro de Benfica falam-me do nome do ausente JA. Claro, são amigas da irmã mais nova. Dos tais casos que reconheço as pessoas mas nem do nome me lembro. Fica um beijinho para a dupla C & C , sendo que acho que uma delas até vai ler isto já que me disse que tinha gostado do texto que fiz sobre Eusébio.

 

Chegada ao estádio e mais encontros, mais conversa, mais histórias partilhadas. Um mar vermelho e uma pausa para olhar bem para o Estádio da Juventus. Ali já foi o Estádio dos Alpes, agora nasceu um moderno Estádio da Juventus. Muito curiosa a localização do estádio no meio de nada , só com parques à volta mas com a cidade ali bem perto e do outro lado os tais imponentes Alpes. Bonito o estádio e o contexto paisagístico.

Entrada pacifica com pessoal com quem costumo partilhar os momentos antes das entradas na Luz e companheiros de outras viagens.Tudo boa gente, claro. Entrada nas bancadas e uma vista agradável. Não sendo maior que a Luz o recinto da Juventus é bonito, prático, com boa visibilidade, boa acústica e até de aparência respeitosa por ter as bancadas bem perto do relvado. Gostei do que vi.

Fiquei no piso superior no topo Sul e subi até à fila mais alta. Como na Luz só encontrei malta conhecida. O casal "pobeiro" J&A sempre presente, troca de fotos, poses para mais tarde recordar e o reencontro com o grande JP e seus pais. Ao lado deles vi a 1ª parte.

 

Engraçado como nos habituamos bem e depressa a estas altas andanças uefeiras. No espaço de um ano estar presente em duas finais tira um pouco da magia de um ano para o outro. Ontem já tudo me pareceu mais normal depois daquela emoção de Amesterdão. A mesma mancha vermelha na bancada, o mesmo apoio enlouquecido dos benfiquistas, o mesmo brilho do nosso emblema nos cartazes do estádio e na coreografia da UEFA, a solenidade do momento da entrada das equipas, o mesmo entusiasmo na bancada contrária. Uma pessoa habitua-se a isto e tem até cabeça para puxar da memória e pensar: caramba, estou no mesmo local onde nos rebentaram com o Silvino, onde se jogaram outras finais europeias, onde se jogou o Italia'90... Noutro estádio mas no mesmo sitio. É sempre arrepiante fazer parte da história do futebol. Sempre.

Para o jogo propriamente dito eu não estava muito nervoso. Era a primeira vez que sentia numa final europeia que o meu Benfica era mais forte que o adversário. Lamentava a ausência do Enzo pela inegável importância que tem no meio campo, e notou-se muito, a ausência do Salvio também me deixava apreensivo porque não temos melhor para desequilibrar nas alas e sobre Markovic estava mais calmo porque em Leiria não o vi fazer grande coisa mas seria importante tê-lo no banco para usar como trunfo. Assim, sem três jogadores importantes, encarámos a final com a mesma naturalidade com que fomos encarando todos o jogos na Europa nestes últimos anos. Fiquei enervado quando percebi que a finalização não estava apurada. Nunca senti que o jogo estivesse em perigo apesar de perceber que o Benfica jogou no limite sem grande frescura física.

 

No intervalo mais caras conhecidas nos corredores do Juventus Stadium. O reencontro com o grande RC que ajudou a passar aqueles minutos. Regresso à bancada tardio já com a bola a rolar e por isso não voltei para a última fila, desculpa JP, fiquei pela varanda, como chamávamos no antigo 3º anel.

O grande senão desta mudança posicional foi a perca de visibilidade para fora do estádio. Lá no alto consegue-se lançar a vista além cobertura e vislumbrar a neve nos Alpes com o céu azulado como cenário. É uma vista magnífica, olhar para o relvado e ver a bola fora, subir o olhar e ver Alpes com neve. Não é o Restelo mas era gajo para ver ali muito jogo de bola.

 

Cá em baixo a visão é diferente, ver o piso inferior todo vermelho e pôr os olhos no ataque do Benfica que agora vinha na nossa direcção. Como na Luz. Era na 2ª parte que íamos marcar, obviamente. Mas não foi a nossa noite. A bola parava sempre em pernas sevilhanas, a apontaria estava desafinada e nem a cabeça de Garay deu justiça aquele resultado. O pânico do prolongamento foi se aproximando e só era superado pelo medo dos descontos pós minuto 90. Tudo acabou empatado, este ano não há cá minutos 92 nem 93. Aliás, já devolvemos o efeito Kelvin não uma, não duas mas sim três vezes. Pagaram na Liga, na Taça da Liga e na Taça de Portugal. Pode não parecer relevante mas foi esse triplo pagamento que nos elevou a um estado de alma maior e melhor. Estamos ali na final da Liga Europa em paz connosco e com os nossos. Estamos ali para apoiar e aceitar o que o futebol tem para nos dar. Não é como no ano passado que tudo parecia uma conspiração religiosa feita nos momentos finais de cada partida decisiva. Nada disso.

Em Turim foi só um jogo em que não conseguimos fazer os golos que normalmente fazemos. É futebol.
O prolongamento jogado com uma substituição por fazer fez-me confusão, o Ivan podia ter entrado mais cedo para tentar a sua sorte mas se o treinador achou assim melhor não sou eu que venho aqui contestar. Fiquei só com esta ideia.

 

Aos poucos fui percebendo que não ia ser a nossa noite. A bola não entrava, a reacção dos jogadores a cada golo falhado deixava a entender que a esperança ia acabando. O remata do Bacca que foi ao lado também mostrou que o Sevilha não tinha muito mais para dar além da excelente qualidade do Rakitic e da confiança cega e certeira que tinham no Beto.

Penaltis. Estugarda 1988 nunca me saiu da cabeça, por isso ... A minha esperança rondava os zero. E depois tenho a minha cabeça cheia de informação absolutamente inútil como esta de me lembrar que em Dezembro de 2008 fomos corridos da Taça de Portugal nos penaltis pelo Leixões onde brilhava um tal de ... Beto. O que irrita nem é perder nos penaltis, quer dizer irrita porque já não é a primeira vez mas tendo como um adversário o mesmo do Leixões? É tramado o futebol.

Assim que vi a forma horrorosa como CarDeuz desperdiçou o penalti afastei-me para a saída do estádio e assisti ao inevitável fim infeliz já longe da varanda. Não vi o remate do Gameiro e assim posso dizer que desta vez nem sei como foi o último pontapé.

Não chorei, não me deixei cair no chão como há um ano, ainda confortei uns benfiquistas mais desesperados. Concentrei-me só na tarefa de regressar a casa.

Desta vez não foi uma tragédia, foi só um jogo onde não finalizámos como é costume e acabou mal. Uma final perdida numa altura em que somos Campeões, já ganhámos a Taça da Liga e corremos para um inédito triplete.

 

Cá fora já de noite e com frio ainda ouvi palavras simpáticas de um segurança italiano. Tudo porque optei por levar ao pescoço um cachecol do Torino. Foi a melhor compra que fiz! Desde que saí da loja do Torino e resolvi colocar o adereço grená pendurado ao lado do emblema do Benfica assisti a algo que não esquecerei. Em todo o percurso que fiz na cidade só ouvi palavras simpáticas: Toro! Benfica! Obrigado! Forza Benfica, Grande Toro!

Incrível a força do Torino na cidade. O ponto mais alto foi quando passei a primeira barreira de acesso ao estádio e fui revistado. De seguida um segurança chama-me e indica-me o caminho sorrindo. Pede para eu parar e agarra no meu cachecol e beija o emblema do Torino! Ali, à frente de outros seguranças e polícia. Que belo momento. Força , Toro !

 

Depois foi tentar dormir no autocarro em silêncio até Milão, embarcar e fazer o mesmo no avião e chegar a casa já bem depois das 6 manhã. Mais de 24h nisto. E vale a pena? Vale sempre a pena. 8ª final europeia perdida? Paciência, se me pedirem para assinar já a presença na final do próximo ano eu assino já e preparo já a viagem. São experiências incríveis. E no nosso caso não foi nada de vida ou morte. Não íamos ali salvar a época, era "só" mais uma final neste fim de época bíblico.

Apurámo-nos para a Liga Europa somando 10 pontos da Liga dos Campeões, não entrámos pela porta do cavalo como o Sevilha que só participou porque o Málaga foi castigado e o Rayo não conseguiu autorização.

Fizemos um trajecto na Liga Europa incrível, não perdemos um único jogo, nem o da final em 120', afastámos gregos e holandeses, brilhámos na capital do país do futebol, e deixámos a Europa espantada ao afastar os anunciados vencedores da prova. Morremos nos penaltis. Paciência. Foi uma carreira brilhante para juntar à da época passada. Somos, sem ponta de exagero, uma das grandes equipas do futebol europeu da actualidade. Não ficamos fora da Europa, não andamos a terminar em último em grupos com videotons e genks e não levámos 4 secos de um Sevilha. Jogámos uma final, já tínhamos vencido a Liga e outra final interna e vamos jogar mais uma, e não correu bem. Jogámos aqui o regresso à glória europeia e a concretização de uma época perfeita. Não deu. Olhemos para o que fica que é algo de grandioso, saibamos aproveitar este momento enorme do nosso clube em vez de nos deixarmos abater por uma final maldita. Foi duro? Foi. Mas há muito boa gente próxima de nós que nem sabe o que é ir ver o seu clube a uma final algures na Europa e o nosso clube já andou bem longe destas andanças.

Voltámos ao nosso lugar que é este. A perder ou a ganhar finais ou meias finais eu quero continuar neste ritmo. Eu tenho um orgulho inexplicável em ter feito parte daquelas bancadas carregadas de benfiquismo em Amesterdão ou Turim. Mais ano menos ano voltaremos a sair de um destes estádios como entramos; em grande.

 

Reparem como se passou um texto sobre uma final europeia do Benfica sem de falar de Guttman. A maldição era só para a Taça dos Campeões europeus que até já nem existe. Não precisamos de quebrar maldições, precisamos é de chegar às finais com a equipa toda em força.
Domingo há mais. Sabiam que um triplete é uma coisa espantosa?

Viva o Benfica !