
Quando nos saiu a bola do Chelsea no sorteio dos 1/4 de final da Champions League a minha primeira reacção foi qualquer coisa como "eu tenho de estar lá". Não só pela importância do jogo, não é todos os anos que vemos o Benfica entre as melhores oito equipas da europa, mas também pelo facto de Londres ser a cidade que eu mais gosto depois de Lisboa.
Em 1984 tive a sorte de ir com o meu pai para Londres. Tinha eu onze anos e aquela viagem marcou-me para sempre. Depois disso já lá voltei quatro vezes e sei que não foram as últimas. Ainda em Novembro lá estive uns dias antes de ir para Manchester ver o Benfica mas faltava-me estar em Londres com o Benfica.
Após uma primeira consulta de preço fiquei assustado e com a ideia que não ia dar uma vez que os preços de Londres - Lisboa estarem muito caros por causa das férias da Páscoa. Como nestas casos há mais amigos com a mesma vontade rapidamente fui informado que dava para encontrar preços mais em conta mas com mais trabalho ao nível das viagens. Avião de Faro - Birmingham e regresso por cerca de 100€ já entrava mais no orçamento. Junte-se a possibilidade de estadia em casa de um amigo de amigos e o projecto Chelsea nascia.
Tudo começou 2ª feira depois do dia de trabalho. Fomos três de carro para o Algarve. Paragem em canal caveira para um belo jantar à antiga e siga para os bares da Oura para um aquecimento do que íamos encontrar nos dias a seguir. O entusiasmo de virar umas cervejas enquanto se fazia a previsão do que podia acontecer em Londres fez com que as horas de sono fossem reduzidas a muito menos do que o mínimo exigível. Felizmente um de nós tinha casa disponível em Olhos d'Água o que melhorou imenso a logística. O voo era às 8h55 da manhã daí as horas entre o violento acordar e o embarque em Faro foram penosas.
Felizmente voltei a ter sorte com os vôos da Ryanair que continua a abusar da paciência dos seus passageiros ao não cumprir os vôos que vende. Eram muitos os que tinham ficado sem ligação para Inglaterra e outros mais iriam sofrer do mesmo tendo que passar horas e horas em Faro à espera.
O nosso avião saiu atrasado criando alguma apreensão já que tinhamos comprado os bilhetes de combóio Birmingham-Londres para as 13h. Afinal tudo correu bem e chegámos bem a tempo. Para que saibam o aeroporto de Birmingham é tão prático e organizado como os de Londres. Não há como nos enganarmos, orientações precisas e nem é preciso pedir ajuda a ninguém.
A viagem de comboio para Londres voltou a ser tão confortável como já tinha sido as de Londres-Manchester-Londres. Torna-se fácil arranjar alternativas mais baratas não indo directo a Londres.
Um dia inteiro em Londres para passar pelos locais mais emblemáticos, matar saudades de Picadilly, passar por um inevitável Mac. e atacar pubs e pints. Engraçado como é tão fácil a adaptação aquele estilo de vida londrino. Ao fim do dia já estávamos perfeitamente integrados. À noite encontro com outros companheiros de viagem em pleno Soho num bar onde o forte era jarros de cerveja. Cenas de ingleses.
Na 4ª feira ataquei um verdadeiro pequeno almoço britânico que deu quase para o resto dia todo em termos de alimentação. Em Oxford Street finalmente senti o Benfica na cidade. Muitos grupos de benfiquistas exibindo camisolas e cachecóis. Entrei na loja da Adidas e um dos seguranças meteu conversa. O respeito que aquela gente continua a ter pelo Benfica é incrível. Desejou a nossa vitória porque ele é do Arsenal e falou com admiração de Pablo Aimar, Cardozo e Javi!
Ainda deu para encontrar um amigo de longa data com quem comecei a ir ver os jogos do Benfica fora da Luz. Já não nos víamos há uns bons anos e ali em Oxford Street pusemos a conversa em dia sempre movidos por essa paixão comum chamada Benfica.
O aquecimento para o jogo foi feito num pub a duas estações de metro do estádio. Um ponto de encontro tão concorrido que acabámos por encher o espaço com as nossas cores. Deu para conhecer a boa gente benfiquista que vive em Londres, que já nos contactavam via redes sociais, e para encontrar a malta do costume a rapaziada que ajuda a marcar o nome do Benfica por essa Europa fora sempre apoiando a equipa. Não deixa de ser engraçado caminhar pelo bairro de Fulham (o estádio deles é muito perto de Stamford Bridge) entre cânticos benfiquistas.
Fui confirmando as minhas suspeitas em relação ao Chelsea, clube de bairro sem o ambiente em volta do estádio de outros clubes ingleses que já visitei. Só muito perto do estádio se percebe que há jogo e os adeptos azuis são demasiado pacíficos, até sorriem para a imensa e habitual festa que os portugueses montam nas ruas. Um estádio que aparece no meio de prédios com uma fachada que podia ser o edifício de uma qualquer multinacional, pouco cheira a futebol por ali.
Para irmos para a nossa bancada tivemos que continuar pelas ruas do bairro até encontrarmos a nossa porta. Antes de entrarmos uma rápida visita à loja do Chelsea para comprar o habitual cachecol do jogo e o programa. Entrada com direito a três revistas de segurança! Entrada pelos tradicionais torniquetes apertados e entrada para a bancada inferior.
A visão do nosso sector é impressionante. Estava cheio e todos acreditavam numa grande noite apesar de virmos a perder de Lisboa, apesar de não termos nenhum central a jogar e termos lá o Emerson. Mais uma vez percebi que ser do Benfica é mesmo isto, acreditar sempre!
Os jogadores perceberam a nossa crença e partiram para um jogo magnífico. Talvez a exibição mais categórica que vi do Benfica em Inglaterra, ironicamente foi a primeira vez que vi o Benfica perder.
Quando começo a ver a confiança de Javi e Emerson lá atrás, a tranquilidade com que Matic assumiu o meio campo, a vontade com que Bruno César, Gaitan e Witsel estavam em levar o jogo para a frente e a classe com que Aimar pegava no jogo senti o tal enorme orgulho de ser benfiquista. Isto tinha tudo para correr muito mal mas a verdade é que vi o Benfica a jogar cara a cara com o milionário Chelsea e até ao penalti o jogo estava mesmo muito aberto. Depois vem a expulsão do Maxi e aí pensei que tinha acabado a nossa resistência.
Eu não vou discutir a expulsão e o penalti mas tenho que dizer que raramente vi o Benfica fazer 11 faltas e receber cartões em metade delas. Isto em lances que quando aconteciam a Lampard ou Ramires não tinham o mesmo tratamento. Isso revoltou-me muito porque senti que nos estavam a condicionar e a complicar ainda mais uma tarefa que já era muito dura. Daí ter aderido espontaneamente ao cântico "Michel Platini" que agradou a Jesus e , pelos vistos, a Vieira. Foi um grande momento de ironia na bancada a mostrar que os adeptos do Benfica sentem-se como peixe na água em estádios ingleses.
Pela número enorme de SMS que recebi durante a noite a elogiar o nosso apoio fiquei esclarecido quanto ao sucesso da nossa missão na bancada. Junte-se a esse apoio os momentos em que Aimar pegava na bola com aquele equipamento encarnado e branco, o mais bonito em anos e anos, e a viagem já estava mais do que paga.
Ao intervalo uma surpresa que mostra a cultura destes ingleses e a sua paixão pelo futebol. Chamaram John Mortimore para o homenagearem e dar uma volta ao campo de maneira a ser aplaudido pelas adeptos das duas equipas. Foi um grande momento. Ele que como jogador fez carreira no Chelsea e como treinador teve duas passagens pelo Benfica sendo que a 2ª recordo-me bem e ao pormenor. Depois de ter estado de 1976 a 1979 ganhando um campeonato, voltou entre 1985 e 1987 ano em que ganhou campeonato e taça. Depois da dobradinha foi despedido pela Direcção que se queixava que a equipa não jogava um futebol bonito! Coisas nossas... Foi um prazer revê-lo e aplaudi-lo.
Para a 2ª parte estava reservada uma das melhores exibições que já vi do meu clube com uma equipa remendada, com menos um jogador e a jogar fora de casa nos 1/4 de final da Champions. Merecíamos melhor sorte, o golo de Javi podia e devia ter aparecido mais cedo mas Cech não deixou. Olhava para os ingleses à minha direita e via-os completamente enervados com as corridas de Nelson Oliveira e Rodrigo e com as oportunidades de Yannick tudo com o carimbo de Aimar.
Há imagens que vão ficar na minha memória, a defesa de Cech a remate de cardozo e o arco errado que a bola de Nelson Oliveira e o ambiente de pânico de Stamford Bridge antes do livre de Aimar aos 90'. Infelizmente saiu mal e acabou por dar no 2-1 mais enganador da noite europeia.
Apesar da derrota acabei o jogo satisfeito com a grande exibição dentro e fora de campo e senti um enorme orgulho de ser do Benfica.
Na saída confirmou-se que os adeptos do Chelsea são tão bem comportados que a polícia não hesita em deixar-nos sair todos ao mesmo tempo. No caminho para o metro ouvi muitos elogios ingleses à exibição do Benfica e aos seus adeptos e são esses elogios que guardamos para nós com mais carinho. De nós o que mais ouviram foram palavras de incentivo para o ... Barça. Espero que os catalães vulgarizem a equipa de David Luiz sem dó.
No dia seguinte acordar e saber que a equipa foi recebida com honra no aeroporto de Lisboa deixou-nos contentes. Foi uma recepção justa. A nossa viagem de regresso começou cedo e correu bem novamente. Comboio a hora de Euston para o aeroporto de Birmingham e vôo dentro do horário para Faro onde encontrámos chuva e frio pior que Londres, tal como em grande parte da viagem para Lisboa. Uma última palavra para um dos assistentes do bordo da Ryanair absolutamente fora do normal. Gozão e bem disposto anunciou que havia no menu cozido à portuguesa, bacalhau à braz ou francesinhas entre outras tiradas hilariantes e é aqui destacado porque a primeira coisa que disse foi: "Bem vindos... o Benfica é o MAIOR!". Ainda a meio disse que podíamos usar os cartões de telefone que estavam a vender para chamarmos a polícia e darmos conta do roubo do Benfica e à chegada despediu-se com saudações benfiquistas para gáudio de um avião esgotado na maioria por benfiquistas. Bem hajas rapaz!
A viagem com o Benfica a Londres merecia sem dúvida um resultado melhor mas valeu e muito por mais uma demonstração de benfiquismo numa Inglaterra que nos respeita e admira. Terminou de maneira muito digna a nossa época europeia. Uma bonita época, diga-se.
Horas após o regresso de Inglaterra, mais particularmente de Londres, a única certeza que trago é que não foi a última vez que visitei a capital inglesa. Agora , mais do que nunca, tenho a certeza que em Inglaterra sou muito feliz e tenho vivido alguns dos melhores dias da minha vida. Recordando: foi em Anfield Road que vi o épico 0-2 , foi em Londres que conheci de perto a realidade de Upton Park e Emirates Stadium em dia de jogo e acrescentei agora o capítulo de um dos maiores apoios no estrangeiro que o Benfica teve. Estive em Old Trafford e voltei a ser feliz. Pelo meio ainda fui conhecer essa casa do futebol chamada Wembley.
Desta vez tudo começou com a possibilidade de ir ver um concerto histórico numa sala emblemática de Londres. Quando a vontade é grande e o esforço igual tudo se vai conseguindo e organizando para vivermos momentos únicos. Consumada a presença em Inglaterra por causa do tal concerto tal como explico detalhadamente no Grandes Sons aparece a oportunidade de meter mais uns euros, mais dias de férias e fazer uma ligação por comboio Londres - Manchester para estar no Old Trafford a apoiar o Benfica rumo aos 16 melhores da Europa.
Mãos à obra, marcação de vôos, hóteis, viagens de combóio e afins, tudo via internet e com ajuda preciosa de outros companheiros benfiquistas que se juntaram nesta aventura. Tal como na viagem de há dois anos contei com o apoio e excelente companhia da minha mulher que ao fim destes anos já deixa escapar desabafos deste género: «tenho de renegar o gosto por ver estes jogos ao vivo porque não tenho vida para ir sempre a jogos». Bonito.
Partida para Londres sábado de manhã e logo um belo avistamento na Portela já com alguns viajantes a exibirem cachecóis do Benfica nos embarques para Manchester e Londres. A operação começava bem devido ao excelente desfecho da véspera na terrível Batalha Naval da Figueira da Foz. Rodrigo era o assunto do dia.
Chegar a Londres e ter a tarde toda para aproveitar é óptimo. Check in no hotel bem no centro da cidade, carregar os passes para metro e autocarro e correr para os locais do costume, Covent Garden, Picadilly, Oxford, Soho...
A atracção pelas lojas que só podemos visitar na net com aquilo de que gostamos é irresistivel. Roupa e vinil no topo das preferências e um esforço para não estoirar com o visa em poucas horas.
Sem combinações encontramos o grupo de companheiros que viajaram mais tarde. Em pleno Soho sugerem-nos jantar num libanês (thai, emendou um dos companheiros de viagem) com excelente relação preço/qualidade/ambiente chamado Busaba, fica a sugestão. É bom termos gente amiga a divagar pela mesma cidade e incrível a facilidade com que nos cruzávamos ocasionalmente. Durante o fim de semana via-se cada vez mais benfiquistas a passear.
Domingo de manhã foi para ir conhecer um dos locais mais emblemáticos do futebol mundial. Já não fui a tempo de conhecer o original mas fui agora ao novo Wembley muito motivado pela tal foto que aqui publiquei com a nossa camisola exposta logo na página oficial na internet.
Viagem de metro do centro de Londres até à zona 4 onde fica Wembley Park. Saída da estação e primeiro susto, tudo aquilo que eu imaginava estava certo tirando um pormenor: não havia estádio nenhum à vista. Reconheci a escadaria que desce ao passeio largo que dá acesso ao recinto de onde são tiradas aquelas lindas imagens de rumaria popular em dia de jogo, especialmente na final da FA Cup.
A explicação estava num enorme nevoeiro que não deixava ver nada 300 metros à frente dos olhos. Ou seja, fomos avançando pelo passeio com base em memórias visuais e intuição do que eu conhecia pela televisão. Até que chegámos a um parque e lá deu para perceber que havia ali qualquer coisa.
A simplicidade com que os responsáveis ingleses tratam do acesso ao seu estádio só tem paralelo na imensa paixão e enorme orgulho que sentem pelo seu futebol! Fiz a marcação da visita em Lisboa via internet. Paguei e imprimi as folhas que me mandaram e ao mostrá-las na porta do estádio fui imediatamente encaminhado para a sala de espera do Tour sem mais confusões nem explicações. Ganhei uma credencial toda gira e ficamos numa entrada cujo "tecto" é apenas e só a famosa trave da baliza da final do Mundial de 1966! Logo para ficarmos rendidos à primeira.
Rapidamente chega um guia. Figura tipicamente escocesa, ar de adepto fervoroso de estádio e um discurdo marcado pelo humor britânico. Podia ser um funcionário a cumprir o seu papel sem alma nem paixão. Mas não. O homem vibrava e respirava futebol por todos os lados. Quis saber a nacionalidade de cada um dos visitantes e respectivos clubes e à medida que ouvia as respostas disparava sempre um comentário sobre a equipa. No meu caso olhou para o Manto Sagrado que fiz questão de levar, grandes ocasiões grandes vestimentas, apontou para o emblema e disse; Benfica? OH, Eusébio!! Great, great team Benfica Lisboa! Tinha feito um amigo.
Sentados nas bancadas superiores do estádio vemos a beleza e o encanto de Wembley, lembro-me da final de Maio que o Barça venceu, da FA Cup de estreia neste novo recinto que o Liverpool ergueu, dos playoffs de acesso às divisões principais. Mal se via a bancada do lado contrário, o nevoeiro aqui é tipo Choupana. Sam, o guia, mantinha um diálogo sempre aberto connosco. Confessou ser escocês mas adepto do Manchester United. Meteu-se com pai e filho ao meu lado que tinham vindo de Liverpool para ir testemunhar a vitória dos reds na casa do Chelsea nessa tarde. Sempre bom ambiente, aproveitei para também lhe ensinar qualquer coisa que ele não sabia. Não é só a Inglaterra que tem uma estádio próprio para a sua Selecção jogar, tipo estádio Nacional. Expliquei que o Jamor também tinha esse propósito e que até foi lá que o Celtic do seu país viveu o momento mais alto da sua história ao vencer a Taça dos Campeões. Ficou admirado porque sempre pensou que esse jogo tivesse sido no Stadium of Light. Não lhe consegui explicar porque é que o Jamor não é melhor aproveitado.
Andámos nas escadarias, corredores, áreas vip, bares, balneários, acesso ao relvado e lugares honrosos do estádio. Se os nossos novos estádios têm 5 estrelas da UEFA este tem de ter 6 tal é o luxo de todos os acabamentos e pormenores. Sentei-me perto do lugar do Platini na final da Champions e por momentos não me importava de entrar naquela Mafia da UEFA para poder ver dali os grandes jogos. Depois de ter agarrado na réplica da Champions em Barcelona em Abril passado tive a enorme honra e prazer em levantar a mais bela e antiga Taça de competições de clubes, a FA CUP!
O fim da visita é feito num hall com uma maravilhosa exposição com uma montra por cada final da Champions. Lá estava o encarnado do Benfica bem vivo a marcar a história da competição. Um orgulho passear com o emblema glorioso por Wembley e sentir tanto respeito pelo nosso clube. Acabei a tirar uma foto com o grande Sam e a explicar-lhe que ele ia conhecer o Rodrigo brevemente.
Na loja do estádio levantei umas lembranças compradas baratas na altura da marcação da visita, um guia oficial do Estádio, um pin da Selecção, um dvd e uma bandeira que considero levar a alguns jogos do Benfica, branca e de cruz encarnada. Inglaterra, realmente a pátria mãe do futebol.
De regresso a Londres os encontros habituais com locais que adoram futebol e reconhecem o nosso Manto Sagrado, o respeito de sempre que insistem em mostrar pela nossa história e muitos incentivos para vencer em Old Trafford. Nas imensas conversas com ingleses nunca ouvi um nome de um árbitro, de um dirigente, de queixas da federação nem de nenhum Rui Santos lá do sitio. Nada, apenas e só futebol. Golos, memórias, tradições, histórias de adeptos e paixão pelos clubes. Ali sim, adoram futebol.
A segunda feira mais dedicada ao tal concerto por isso passemos para Terça Feira. Acordar cedo mandar abaixo mais um British Breakfast que pode ser traduzido para a nossa língua como um pequeno almoço à Benfica. Coisa à homem, bacon, ovos, salsichas, feijão e pão torrado. Maravilha. Fazer check out no Hotel e seguir a pé para a estação de Euston onde já se via muitas camisolas berrantes a desfilar. Também os bilhetes de comboio foram comprados online e nenhum stress houve para embarcar. Tudo tão organizado e simples que até irrita. Viagem de duas horas tranquila com carruagens confortáveis que perto do nosso Alfa são um luxo. E o preço nem é muito diferente, 17£ para Manchester, 11£ no regresso.
À saída da estação Picadilly em Manchester uma novidade, o frio dali é muito mais apurado que o de Londres que já é agressivo. Depois o costume numa cidade desconhecida, apanhar um táxi para andar meia dúzia de km's, já que o hotel até era bem perto da estação embora não parecesse no gps. E um estranho olhar e despachanço do taxista na chegada à zona marcada. Percebemos depois que ficámos bem no centro do bairro gay de Manchester! Bandeiras e nomes de bares bem grandes para ninguém ter dúvidas. Hora de agradecer a companhia da minha mulher, deu um jeitão aqui. Mas não se riam a pensarem que só este casal é que ficou ali na zona rosa. Nada disso, quase toda a comitiva de pessoal conhecido que ficou a dormir uma noite ali foi parar à zona do arco íris. Para ninguém se ficar a rir. Muitas piadas irão circular futuramente à conta desta estadia.
Na verdade Manchester pareceu-me uma cidade não muito grande que tem na zona gay uma das maiores comunidades. De resto vi uma avenida principal com comércio animado, a zona chinatown com muita oferta de jogo e comida mas sempre muito longe do encanto de Londres.
O estádio é bem longe do centro da cidade e o trânsito não é muito melhor que o de cá. Optámos por ir de autocarro depois de saber que só havia comboio para o estádio às 19h15. Queria chegar cedo para ver bem as imediações de Old Trafford e comprar uns pins e ver a Megastore para depois entrar com calma.
O autocarro pára bem perto do recinto que nos aparece no horizonte depois de passarmos uns bairros residenciais. Com a sua fachada de vidros e muita iluminação mais parecia um shopping. Mas ao chegarmos perto andando a pé revela-se um estádio imponente, muito bem cuidado como é hábito naquele país e com ambiente à volta digno dos grandes jogos. Uma Megastore bem recheada como é normal para aqueles lados, um atendimento impecável e um sistema de pagamento tão rápido que nem parece dia de jogo. Depois do jogo manteve-se aberta.
Feito o reconhecimento fomos para a fila da entrada na bancada. Acompanhados pelos habituais cavalos das polícia e com uma revista prática e nada hostil por parte de seguranças e polícias locais. A entrada muito estreita pelo torniquete, tudo parecido com o que vivi em Anfield Road. Subir e entrar na bancada, o impacto de ver ao vivo um velho espaço tão familiar de horas e horas de transmissões televisivas. Parece maior na televisão, sem dúvida. Bonito e muito vermelho, quase que nos sentimos em casa com aquelas cores. Caras conhecidas pela bancada e a certeza que íamos ser mais de 3 mil a puxar pela equipa. O pormenor dos seguranças quererem toda a gente nos respectivos lugares marcados no bilhetes chegou a irritar-me, pois o meu bilhete não era ao lado do da minha mulher. Lá escapámos à ira organizativa daquela gente que nem admite que haja um só adepto nas escadas. Não estamos habituados a tanto civismo, essa é que é essa. Ficámos na última fila com os enormes cativos atrás de nós, cabines envidraçadas onde adeptos viam o jogo com uma bela écran de tv ao lado a dar o jogo , e onde vimos a roubalheira do golo do Berbatov, enquanto comiam e bebiam à vontade. Gente que no fim ficou lá a ver a nossa festa. Uns senhores que mesmo atrás de mim só abandonaram o camarote quando me deram os parabéns aplaudindo e mostrando o polegar em sinal de aprovação ao nosso Benfica e ao nosso apoio. Nesses segundos o orgulho que sinto em ser Benfica é arrepiante. Eu que nem simpatizo com o United acabo por agradecer e desejar boa sorte para o jogo com o Basileia. Estes gajos são mesmo irritantes, obrigam-me a gostar e dizer bem deles!
Como em Liverpool as bancadas só enchem quando as equipas entram lado a lado. Sabia que o ambiente de Old Trafford não era o mais barulhento mas estava preparado para um apoio local tremendo. Quando o jogo começa e noto que nem o célebre "Glory Glory Man United" ouvi passei ao ataque. Cantar, cantar e cantar pelo Benfica. Aos poucos os mais de 3 mil benfiquistas tomaram conta do ambiente sonoro de Old Trafford. Era lindo estar ali a cantar de pé pelo Benfica sem reacção à altura dos ingleses que cada vez pareciam mais admirados com o nosso entusiasmo. Estavam à espera que tremêssemos. Mas ali tremer só se fosse de frio, nós somos do Benfica não tememos nenhum estádio e onde vamos é para nos fazermos ouvir. Ainda por cima a equipa está em sintonia connosco e toma conta do jogo. Daí até ao golo foi uma loucura de emoções. Quando vejo a bola entrar festejei como se fosse o 0-3, ou seja, a continuação de Liverpool! Incrível como chego a Inglaterra e vejo o meu Benfica deixar de rastos os temíveis favoritos Liverpool, campeão europeu em título, e Manchester United, vice campeão europeu.
São minutos de sonho, estamos outra vez no topo da Europa que olha novamente admirada para o Benfica a bater o pé em pleno Old Trafford! Canto emocionado como cantei em Anfield mas desta vez tenho a minha cara metade a aplaudir connosco e a compreender como é tão comovente estar ali num local tão especial e só se ouvir BENFICA BENFICA BENFICA!
A maneira como o Benfica jogava, a forma fácil e até bonita como construía os ataques estava a encher-me de satisfação, valia todo o trabalho e esforço das últimas semanas para ali estar.
Meia hora depois do jogo começar, confirmei no relógio ao lado do marcador, finalmente percebemos que os adeptos da casa não eram só figurantes. UNITED UNITED UNITED , ouviu-se fortemente e pela primeira vez o Old Trafford em desespero à procura do empate. De pouco lhes serviu porque a nossa gente sentiu-se picada e aumentou o apoio e lá voltou o ambiente da Luz a Manchester.
Até que Berbatov faz o 1-1. Em fora de jogo gritou-se na nossa bancada. Ideia confirmada quando me virei para trás e ver claramente na tv o golo ilegal. Sentimento de revolta mas nada de rendição.
Ao intervalo 1-1 em Old Trafford não era mau mas para o que tínhamos visto era muito pouco. O que pensar para a 2ª parte? Será que aguentamos o ritmo, será que eles vão mexer na equipa e aparecem espicaçados?
Afinal foi mais do mesmo, da nossa bancada o apoio continuava brutal a puxar a equipa para o meio campo do nosso lado. Lá veio a altura em que o ManU tenta tomar conta do jogo e chegar à vantagem, lá se ouvem alguns cânticos de apoio mas tudo muito tímido. Entretanto Artur apresenta-se aos ingleses que ficam incrédulos com duas defesas impossíveis e olhavam para nós espantados. Pois é, o tempo dos Robertos e Júlio Césares já lá vão. Ladies and Gentlemans: Artur, The Great Keeper of the EAGLES
Mas finalmente a muralha cedeu, e já sem Luisão em campo o Manchester chega mesmo à vantagem e não vou esconder que na altura pensei que se tinha acabado o estado de graça e que a partir dali as coisas iam ser negras. Do pensamento à reacção vai um minuto. Bola a meio campo e volta o grito de revolta FAZ O GOLO ALLEZ!!! e a esperança de ver que o nosso acreditar era o mesmo da equipa que não perdeu tempo em subir no terreno, pressionar os adversários, recuperar uma bola no ataque, rematar por Bruno César e confirmar pelo Mago Aimar o restabelecer da justiça naquele marcador! 2-2 o Benfica não se abate assim, o Benfica está vivo, o Benfica ainda não perdeu esta época e não vai ser Old Trafford a contrariar esse facto! Eu vi na baliza do lado da minha bancada o Aimar fazer um golo ao Manchester United, mesmo ali à minha frente. Se isto não vale uma viagem então não sei...
Depois foi sofrer até ao fim, já faltava pouco para carimbar em pleno Old Trafford o apuramento para a fase final dos 16 melhores da Europa. E pensar que no Verão tanto benfiquista via a equipa tombar nas pré eliminatórias...
Apesar dos nervos sentidos na altura por faltas parvas, cantos cedidos, a escolha de Ruben Amorim em vez de Nolito e de olhar para o relógio de minuto a minuto, a verdade é que sentia que ia sair novamente triunfante de Inglaterra. Senti uma enorme alegria em perceber que o país que melhor trata o futebol reserva para mim noites tão épicas. Deve ser o agradecimento pela enorme admiração que sempre tive por todo o futebol britânico, só pode.
E aqueles minutos sofredores a ver a bola a passar perto da baliza lá do outro lado de repente dão lugar a uns segundos de magia pura em que acho que até sustive a respiração ao olhar para a progressão do Rodrigo perto da área de De Gea. A jogada termina com um remate que dava um golo que mandava abaixo aquele lado do estádio. Saiu uns centímetros ao lado. Foi um final de jogo com as batidas cardíacas no máximo. Tudo o que de melhor o futebol nos pode oferecer, emoção alta com o nosso clube do coração num dos palcos mais emblemáticos do mundo.
Termina o jogo e o sonho concretizava-se: ir a Manchester carimbar o apuramento para os 1/8 de final da Champions quando ainda falta uma jornada para terminar a fase de grupos! Enorme proeza do Benfica na mais importante prova de clubes do mundo. Não há palavras que descrevam o ambiente naquela bancada no final do jogo. Felizmente já não foi novidade para mim. Obviamente que não vai ser a última vez que me vou sentir assim tão recompensado por ser benfiquista e apostar em seguir o meu clube Europa fora.
Mas é sempre especial e inesquecível.
É verdade que o Benfica goza de uma especial simpatia e enorme respeito em Inglaterra muito por culpa dos nossos antepassados com Eusébio na frente da lista mas podemos dizer com muito orgulho que a nossa geração muito tem feito para saber merecer essa admiração e até aumentar a nossa boa fama nas últimas décadas. Nos últimos 6 jogos com equipas inglesas só perdemos 1! Eu já testemunhei dois apuramentos europeus na prova máxima da UEFA em estádios ingleses. É um dos pontos mais altos como adepto de futebol poder viver a atmosfera de um jogo do seu clube em Inglaterra, antes, durante e depois da partida. Pelo menos eu vejo assim o futebol.
We Are S L B !
Na operação Old Traford vou primeiro estar uns dias em Londres e hoje visitei o site oficial do Estádio de Wembley porque estou a pensar visitá-lo. E o que nos aparece ao entrar em tão ilustre casa? É isto:
Merece ou não merece uma visita?
Grande ambiente na Tapadinha, da bancada central ao topo norte tudo cheio para apoiar o Atlético. Também algumas dezenas de adeptos do Padroense que fizeram 600 km na esperança de fazer a festa. Mas foi mesmo o popular clube de Alcântara que viveu um fim de tarde inesquecível. Voltou a repetir o 1-0 com uma exibição segura e muito desperdício na finalização, falharam um penalti e o 2-0 várias vezes, numa delas escandalosamente à boca da baliza. Fica provado que a grande estrela da equipa é Rudi mas foi o colectivo que garantiu a subida à liga profissional de futebol com o guarda redes Botelho também em bom nível.
Na próxima época temos futebol profissional da Tapadinha, podemos ter uma Atlético-Benfica na Taça da Liga e espero que não estraguem o ambiente único do estádio com modernices exageradas.
Fica o registo fotográfico do histórico dia do Atlético Clube de Portugal.
Sábado à tarde, 17h dia de sol e um jogo de futebol para ver no estádio. Parece coisa de anos 80 mas não é. Chegou a hora das grandes (e estúpidas decisões) a Alcântara. O mítico Atlético Clube de Portugal está na luta pela subida aos escalões principais entrando na Liga Orangina. Com disse atrás são jogos de decisões estúpidas. Num país normal o campeonato de futebol do 3º escalão apuraria justamente 3 equipas para o 2º escalão, isto tento em conta que no 3º escalão, II b, as equipas são divididas geograficamente por 3 séries. Pela lógica cada campeão de série seria recompensado com a subida. Mas como quem manda não quer mais do que 2 equipas profissionais a descerem da Liga de Honra temos este mini campeonato absurdo no fim de época para decidir qual é o desgraçado que após vencer a sua zona vai ficar precisamente na mesma. É uma situação incrível e o bom senso no nosso futebol é cada vez mais raro.
Chegados aqui importa dizer que o Atlético Clube de Portugal não é uma clube qualquer. Até final dos anos 70 o clube marcou presença na I Divisão por 24 vezes e conseguiu dois 3ºs lugares e um 4º lugar. Dava luta aos maiores de Portugal como ficou demonstrado em 2 finais da Taça de Portugal perdidas para Benfica e Sporting. Depois caiu nas divisões inferiores e nunca mais regressou mas há pouco tempo fez a gracinha de eliminar o Porto em pleno estádio do Dragão da Taça de Portugal.
Impunha-se uma ida à Tapadinha, estádio com lotação de 10 mil pessoas, para ver o jogo contra o União da Madeira. O movimento em Alcântara era grande , animado e colorido pelo branco, azul, vermelho e amarelo das cores do atlético reproduzidas em t-shirts , cachecóis e bandeiras. A entrada era livre e por isso as bancadas encheram-se do lado da sombra viradas para a ponte 25 de Abril .
O ambiente era muito familiar já que as caras conhecidass do Topo Sul da Luz eram mais que muitas. Um estádio à antiga tem bancadas de pedra, bar com cerveja sagres com alcool, obviamente, venda de tremoços, queijadas de Sintra e nogás. Não falta nada.
Aprende-se muito com os habituais adeptos da Tapadinha. Ali já morou o melhor relvado do país, já houve um jogo de Selecção de Esperanças no estádio da Tapadinha e o mais importante para nós benfiquistas: aquela águia de pedra que antigamente figurava em frente ao antigo Estádio da Luz, e que agora está no hall modernaço do novo estádio, foi oferecida pelo Atlético ao Benfica!
Do jogo com o União há que destacar o único golo do jogo apontado por Rudy. Um golão, por sinal. Uma finalização de bicicleta que deu a vitória e os primeiros 3 pontos à equipa de Alcântara que perdeu com o Padroense na estreia fora de casa por 4-1.
No próximo fim de semana há o 2º ( último jogo na Tapadinha ) deste apuramento para a Honra contra o Padroense.
Acho que vou repetir a presença porque o estádio de Alcântara cheira a História por todos os lados e acredito que o Atlético suba e venha recuperar os grandes duelos com os rivais de Belém. Era bem bonito derby Alcântara-Belém na próxima temporada às 11h15 da manhã de domingo. Vamos torcer para que aconteça a subida do histórico Atlético Clube de Portugal.
Regresso ao Algarve em busca das raízes do futebol. Depois de ter ido conhecer o Estádio do Silves há uns meses desta vez aceitei o repto de dois companheiros benfiquistas e algarvios que dominam o futebol das divisões inferiores da sua zona. Para sábado à tarde o programa mais aliciante era uma deslocação a Moncarapacho para assistir a uma partida vital na luta pela permanência. As equipas de Moncarapacho, perto de Olhão para quem não conhece, e de Aljezur corriam o sério risco de descerem à 2ª Divisão.
O Lusitano Ginásio Clube foi fundado em 1953 joga no Estádio da Torrinha que não é mais do que um campo pelado com uma pequena bancada central entre os bancos de suplentes. Diz que recebe até 1000 pessoas e tem um precioso café onde se pode beber umas cervejas frescas enquanto se espreita para o campo durante o jogo.
A luta pela permanência atraiu o público local e alguns aljezurenses ingleses que até cachecol tinham.
No banco do Moncarapachense uma figura conhecida, Miguel Serôdio antigo jogador do Farense de primeira divisão. É ele o treinador da equipa da casa e diz quem sabe que costuma ser um espectáculo na orientação da equipa. Desta vez esteve atrás do banco, talvez por castigo, e bem discreto. Tão discreto que mal terminou o jogo foi directo para o balneário sem festejar com o resto da equipa.
Este terá sido o último jogo em pelado jogado na 1ª divisão distrital, para a próxima época neste escalão as equipas terão de apresentar campos relvados. É a modernidade. Eu ainda sou do tempo que o Benfica jogava em pelados no campeonato nacional.
O jogo começou melhor para o Aljezurense que fez o 0-1 na primeira parte deixando os adeptos da casa preocupados. Depois um penalti veio dar possibilidade de empate que os da casa não falharam e antes do intervalo um grande golo em jeito de chapéu da autoria do central do Moncarapachense veio concretizar a remontada.
Depois na segunda parte muita luta, boas defesas do guarda redes da casa, e muito preocupação nas bancadas com os outros jogos. Ouvia-se de vez em quando o inconfundível grito de "GOLO" berrado no rádio e logo a bancada comentava e fazia contas de quem descia.
Portanto, um jogo às 16h da tarde, um campo pelado, e adeptos a ouvirem os outros jogos pela rádio. O futebol tal como eu o conheci ainda existe.
Com 2-1 no fim do jogo a festa foi da equipa de Moncarapacho e a desilusão viajou para Aljezur. Sabendo os resultados finais uma boa surpresa, o Silves foi vice-campeão com a vitória na Guia.
No entanto a festa do Mocarapachense foi comedida pois ainda há hipótese de descerem caso o Messinense seja despromovido da 3ª divisão nacional!
Coisas do nosso futebol que tem pormenores que ninguém percebe muito bem.
Na próxima época há mais.
PS: o moncarapachense já pode (mesmo!) festejar, com os resultados de hoje, o messinense não desce.
Ao longo dos últimos anos tenho partilhado aqui e nos anteriores projectos as minhas experiências em viagens por essa europa fora. Principalmente as aventuras a acompanhar as deslocações do Benfica como aconteceu recentemente na Holanda.
De há uns anos para cá resolvi que o meu dia de aniversário é para ser festejado longe de casa a conhecer novos espaços. Sempre com o Benfica em pensamento o mês de Abril não é fácil para se marcar viagens encaixando no calendário de jogos, este ano , felizmente, ainda mais difícil foi devido À presença em várias frentes.
Há um ano vim de Salamanca no próprio dia de anos para ver o Benfica golear o Olhanense no caminho para o título, este ano marquei a viagem de partida para o dia de anos porque na véspera havia a final da Taça da Liga para ganhar. O regresso ficou marcado para quinta feira com chegada a Lisboa pelas 17h30. Na altura que marquei não fazia a menor ideia se estariamos nas meias finais da Liga Europa mas como acreditava tomei as devidas cautelas. Só na Luz é que soube que ontem corri o risco de perder o jogo por atrasos em vários vôos devido a uma greve dos homens das malas no aeroporto de cá. Felizmente não me calhou nenhuma má surpresa.
Este ano escolhi Barcelona para o aniversário. Para mim um destino terá que ser minimamente interessante em termos de futebol local, música ou gastronomia e lugares míticos. Convenhamos que Barcelona tem isto tudo em doses altamente intensas. Por isso resolvi regressar lá depois de ter conhecido a cidade por alturas da eliminatória com o Espanhol que o Fernando Santos não quis ganhar. Como a minha mulher não conhecia a capital da Catalunha foi sem hesitar que regressei lá. Desta vez levava a vantagem de já conhecer um dos estádios locais e ter a ajuda do amigo Tiago que por lá vive e deu dicas muito valiosas para que a experiência fosse inesquecível.
Nolito
Foi chegar guardar as malas e correr para ... Camp Nou. Não para ver o campo principal mas sim para ir ao Mini Estádio, o recinto onde joga o Barcelona B que no meu dia de anos jogava ao meio dia com o Betis de Sevilha empenhado no regresso à liga principal espanhola. Mesmo em passo de corrida só consegui chegar ao campo já na 2ª parte e deparei-me com uma lotação esgotada! E digo-vos que o Mini Estádio do Barça é bem melhor que alguns dos recintos das nossas ligas profissionais. A minha mulher confirmou que este campo ganha de goleada ao estádio do Trofense onde ela viu o Benfica de Quique.
Ambiente fantástico porque metade das bancadas eram sevilhanas que vibraram com a vitória por 0-3. Vi uma enorme festa à volta do relvado e uma equipa do Bétis forte contra os putos do Barça que têm realmente pinta de jogadores. O tal Nolito esteve discreto mas deu para ver o quanto os culés gostam dele. Eu consegui entrar na bancada 15' antes do fim do jogo porque abriram simpaticamente as portas à malta, como eu, que via o jogo cá de fora entre umas colunas. E dava para ver perfeitamente. Foi aí que perguntei a um senhor que estava ao meu lado qual era o número de Nolito. Depois de me dizer que era o "9" perguntou-me se eu era português com ar desconfiado. Disse-lhe que sim mas não gostava da armada tuga do Real, ele sorriu. Acrescentei que estava ali só para ver o Nolito jogar porque o meu clube o ia roubar para o ano. Foi-se embora.
Engraçada experiência de ver um jogo da 2ª Divisão espanhola e ouvir ao vivo um dos meus sons favoritos do mundo da bola; oportunidades de golo falhadas que provocam um ruidoso coro: UUUUUUUHHHHHI! Adoro.
Respeito pelo Benfica no Museu do Barça
Desta vez fiz a visita ao Camp Nou e ao seu Museu.
A experiência custa 19€ e é parecida com o que já tinha feito no Santiago Bernabeu há 3 anos ou com o que se faz na Luz. A diferença está no conteúdo e na maneira como nos é apresentado.
A passagem pelo corredor dos troféus ganhos é incrível, aproveitei para me concentrar junto da Supertaça Europeia e deixo aqui a foto acreditando que também a vamos ter em Agosto no nosso Museu.
O grande trunfo deste espaço são as paredes e as mesas multimédia interactivas. Podemos tocar no mosaico que mais nos interessa para ver detalhes, fotos e até vídeos da chegada de Cruyff ou Maradona, de noites inesquecíveis de Lineker, Stoitchkov ou de conquistas imortais desde as mais antigas às mais recentes. É um regalo para os olhos e para a memória desfilar tantos momentos marcantes da história do futebol.
No meio de tanta conquista esmagadora a minha alma enche-se de emoção e orgulho ao perceber que a única final europeia que o Barcelona não venceu e tem direito a fotografia em destaque é a de Berna. Uma final a que eles chamam de Final dos Postes! Não dá para acreditar que no meio daqueles craques todos que fizeram a história do Barça está a imagem do grande José Águas a levantar a Taça dos Campeões Europeus. Está numa mesa dedicada às finais e basta um toque na imagem para aparecer uma janela maximizada com a história do jogo que eles lamentam ter perdido pela falta de sorte mas que nunca metem em causa a justeza da vitória do Benfica de Coluna, Águas, Simões, Costa Pereira... Eu fico eufórico e vejo várias vezes o vídeo e desabafo alto: Muito grandes, muito ganhadores mas o meu Benfica ganhou-lhes a Taça dos Campeões!
Um senhor italiano que estava por perto sorriu e apontou para a foto de Águas e disse qualquer coisa como: que grande equipa esse Benfica, meu deus!
Depois citou mais de meia equipa para meu espanto e com delicadeza deu-me uma palmada enquanto me dizia ser do AC Milan. Tudo isto para acalmar a minha alegria e explicar que podemos ter vencido o Barça mas com o Milan dele nunca lhes demos a volta. Verdade. Mas em compensação em não sei o nome de metade do Milan dele dos anos 60 e ele sabe do meu Benfica.
O respeito com que é tratado esta conquista do Benfica é impressionante. Depois há mais uns sinais ao longo do Museu como o gabinete Presidencial ter um galhardete com o emblema do Benfica e Eusébio estar homenageado junto ao autocarro antigo do clube.
Além disto ainda fui surpreendido por um dos seguranças do Museu que ao ver o meu pólo do SLB veio fazer conversa. É português, já está há muitos anos em Barcelona e resume assim a sua vida: "tenho o melhor trabalho do mundo, sou empregado do grande Barcelona e sou benfiquista orgulhoso". Não lhe consegui tirar a dor da recente eliminação da Taça de Portugal, o homem tinha tudo programado para ir ao Jamor, estava de rastos. Por isso já disse e repito, os nossos profissionais é que deviam ir a Barcelona perceber a nossa grandeza e dar explicações a quem tanto sofre tão longe.
Com tantos sinais do Benfica presentes naquela visita acabei por me entusiasmar mesmo na sala de imprensa onde somos convidados a pousar junto da mãe de todas as taças europeias. Fui lá aproveitar para ensaiar a passagem de testemunho que se quer para breve, da Catalunha para a Luz. Fi-lo com convicção e não resisti a comprar a foto no fim da visita para poder guardar para sempre o momento em que um emblema do Benfica levantou a Taça dos Campeões. O empregado que me recebeu junto da Taça sorriu e identificou logo as cores sagradas aprovando a presença ali de um benfiquista.
O ponto alto da visita é a entrada nos balneários onde fui surpreendido por um mosaico de fotos de jogadores que iam mudando em jeito de moldura digital. Os maiores craques das equipas que já visitaram o Camp Nou estão lá. Todos! Até o nosso Rui Costa como se pode ver na fotografia acima. Mais Benfica em Barcelona.
Depois é a ida ao relvado, a passagem pelas bancadas e local de imprensa que proporcionam sempre boas fotos e momentos de reflexão onde tentamos imaginar o momento em que Simão falhou o 1-1 há poucos anos ou a noite em que José Carlos viu Stoitchkov passar por ele o jogo todo.
Aconselho a todos os amantes de futebol fazerem esta visita. Vão ver como mudam de opinião em relação ao clube catalão, nunca vi tanto respeito pela nossa história como ali. Arrisco até dizer que em Camp Nou sabem mais do nosso glorioso passado do que muito boa gente assalariada presentemente no Benfica.
O Grande Clássico visto por dentro
Não , não fui a Madrid ver o duelo para a Champions. Segui a sugestão do amigo Tiago que me marcou dois lugares ao balcão do La Terreta que é de um amigo dele independentista de Valência, tal como seu pai, e que já viveu em Portugal durante quatro anos. O grande Miguel recebeu-me, e à minha mulher, de braços abertos e apesar do enorme nervosismo à volta do jogão foi sempre dando notas interessantes acerca do local e dos clientes.
Vi o jogo no meio de adeptos absolutamente apaixonados pelo seu clube, pela sua causa e em loucura por estarem a defrontar o principal inimigo. O facto de sermos portugueses podia até causar algum mau estar, sim porque nesta altura não é fácil ser português na Catalunha devido às figuras que a armada lusa anda a fazer na capital espanhola, José Mourinho à cabeça. Mas bastou explicar que sou do Benfica e que não gosto de Mou porque em Portugal limpou tudo pelos Corruptos, pela mesma razão não gosto de Pepe nem de Carvalho e sobre CR7 é apenas um ex-lagarto, e fiquei logo entre amigos.
Antes de começar o jogo o Terreta vai enchendo, rapazes, raparigas, velhos, novos, engravatados ou em calções e geralmente de camisola com emblema do Barça. Quase todos de pé cantam o hino do Barça segundos antes de começar a partida. O anfitrião Miguel é dos mais empenhados e ainda tem tempo para aconselhar uma tapa valenciana, uma espécie de crepe aberto com recheio de atum e anchovas para acompanhar a cerveja de marca desconhecida por mim, Moritz. Divimos o crepe cortando com garfo e faca e no fim percebemos que aquilo era para enrolar e comer à mão. Da próxima já sabemos como é. Apostámos 2€ num 1-2 para o Barça que nos podia ter dado 70€ de prémio num totobola caseiro. Falhámos por 1...
Cada plano de José Mourinho originava um coro de insultos e muitos dedos espetados para as duas tv's do bar. Com CR7 acontecia o mesmo. Ambiente muito quente.
A primeira parte corria sem grande interesse mas a posse de bola do Barça ia aumentando brutalmente com os culés a ganharem cada vez mais confiança. O remate de Villa ao lado suscitou um dos melhores UUUUHHHI's que já ouvi. Confesso que também me juntei ao coro. Não me julguem por isto, sempre quis gritar isto em casa pela piada do som, ali é irresistível!
Entretanto o Miguel ia resumindo na perfeição estes clássicos: João, é isto!! O Real é isto! Só conversa fora de campo, dentro de campo não jogam nada de nada, só defendem , não querem a bola, não atacam, nada! Ganharam a Copa nem sabem como, hoje voltámos ao normal. Mourinho é um palhaço, e o Cristiano também!
Concordei.
No intervalo tudo lá para fora fumar e disfarçar os nervos mas a confiança era altíssima.
Recital de bola na segunda parte com muitos cânticos dentro do bar e euforia com a expulsão de Pepe seguido de um cântico muito na moda entre os adeptos do Barça: Ese portugués , hijo puta és!
Até que aparece Messi e aí entramos numa nova dimensão. Quando Leo embala os adeptos vão com ele, sentem que vai haver magia. Ele faz o primeiro golo e a explosão de alegria no Terreta foi brutal! No meio de vénias ao argentino, abraços, saltos surge nas colunas o hino do Barça agora cantado por todos!
E não mais pararam os cânticos e a respectiva cerveja para matar a sede e aguentar as gargantas. No segundo golo ainda foi mais impressionante. O amigo Miguel tinha acabado de me avisar que Messi sempre aparece nestes momentos, e foi com espanto que vejo o pequeno génio a fintar os merengues enquanto à minha volta todos gritavam GOL a cada nó do argentino até ao GOL final com a bola a entrar na baliza de Casillas. Tive a calma suficiente de filmar o momento que se viveu logo após o 0-2 e deixo aqui para verem como se festeja em Barcelona:
Noite ganha, até ao fim ambiente de festa, no final do jogo festejava-se como se tivessem ganho a Taça, e ouve-se o hino da Catalunha! Grande noite, grande ambiente e grande anfitrião.
Quando quiserem ver bola em Barcelona procurem o Terreta, digam ao Miguel que vão da minha parte.
O regresso de Grácia para o Bairro Gótico foi para testemunhar a loucura que se instala na cidade com toda a gente na rua com camisolas e cachecóis do Barça a festejar. Mais do que a provável presença em Wembley festeja-se a vitória contra o inimigo, as capas do Sport, jornal de referência da Catalunha, são bem a prova disso no dia do jogo e no dia a seguir.
Dizia a minha mulher que aquele ambiente fazia lembrar Lisboa na Altura do Euro 2004. Faz sentido, eles ali juntam-se em volta de um emblema que é mesmo mais que um clube, é como uma selecção nacional que só lhes dá alegrias. Contaram-nos que um estudo recente dizia que ali a esperança de vida é maior e uma das causas apontadas é toda a sucessão de triunfos do Barça!
As camisolas do clube estão espalhadas por toda a parte, da Boqueria ao metro, homens, crianças e mulheres, turistas, emigrantes ou locais, todos envergam a camisola do Barça que tem lojas oficiais em todo o lado da cidade, sendo a do estádio a maior e o exemplo do que deve ser uma loja de um clube grande de futebol. Aqui também podíamos ir lá aprender qualquer coisa.
Quando andei de camisola do Benfica vestida pela zona do Bairro Gótico e Ramblas fui cumprimentado por alguns catalães com um sorriso a dizerem Bénefica! Apenas um comerciante com ares de indiano hesitou ao olhar para o manto sagrado e perguntou se era do Liverpool. Respondi que não, mostrei melhor o emblema e disse Benfica. Atrapalhado emendou logo: Ah si si ... Benfica, Benfica... do Di Maria...!
Outros espaços ficaram por conhecer, como o novo estádio do Espanhol ou um bar onde se vê os jogos da nossa Liga. Fica para a próxima, porque de certeza que isto não foi uma despedida a Barcelona, foi apenas e só um até já.
Na memória ficou-me a parte de trás de uma t-shirt que vi um puto envergar quando já ia em direcção ao aeroporto e que dizia qualquer coisa como: não penses numa temporada. pensa na história!
Quando se começa a planear uma viagem destas há situações que nos parecem muito mais lógicas e inteligentes ao olhar para o monitor, ou seja na teoria, do que na altura em que acontecem. Comprar um vôo com partida a 300 km da nossa casa às 6h40 da manhã de uma quarta feira parece perfeito porque sabemos que ficamos com o dia da véspera do jogo todo para gozar bem o destino. A motivação de iniciar a aventura logo no fim da tarde de 3ª feira e jantar uma francesinha já a norte ajuda. Assim aconteceu, viagem tranquila de carro Lisboa - Porto e seguindo o conselho de quem sabe ataque a uma excelente francesinha no Pontual bem no centro do Porto.
O problema começa quando já estamos para lá da meia noite e ainda ninguém pensa em dormir. Estadia estratégica nos arredores do Porto em casa amiga para dormir umas 2 ou 3 horas. É aqui que uma pessoa se interroga da sanidade mental de quem marca viagens para as 6h40 da manhã. O acordar , a viagem para o aeroporto Sá Carneiro e o embarque é um episódio que na altura parece um pesadelo num misto de sono e ansiedade pela viagem. Os cachecóis e camisolas do Benfica avistadas na fila de embarque dá logo para acordar, sorrir e ficar em forma. Da mesma forma que a essa turma bem trajada a meio da viagem conseguiu levar-me ao desespero com cânticos que interromperam injustamente o meu sono. Cantar pelo Benfica deve ser sempre bom para os meus ouvidos, uma das excepções é quando me acorda em pleno avião.
As expectativas eram altas porque eu nunca tinha estado na Holanda. Desde que cheguei ao aeroporto de Eindhoven até ao regresso as expectativas foram todas superadas.
Este é um relato de contemplação ao povo holandês e a duas cidades lindas.
Por muito que hoje em dia já se saibam pormenores dos nossos destinos por pesquisa na internet, e com a ajuda do google maps, o impacto visual no local é sempre grande. Do aeroporto ao centro de Eindhoven tudo muito simples e facilitado por uma rede de excelentes autocarros que faz a ligação por 3€. A vista durante o trajecto é de ruas largas onde as bicicletas e scooters são tão (ou mais) importantes que os carros tendo cada um a sua via própria. Ruas sempre planas, largas e limpas com casas todas muito parecidas e bonitas envoltas em parques de diversão ou desportivos e zonas verdes. Passagem pelo famoso Evoluon, um edifício da Phillips em formato de ovni que é um centro de congressos onde a marca apresenta as últimas novidades. Isto foi explicado por um guia improvisado que ia connosco no autocarro e falava castelhano. Só porque viu o nosso espanto a olhar para o Evoluon sentiu-se na obrigação de ir explicando a paisagem. Não foi uma excepção, é esta a postura dos holandeses de uma forma geral, simpáticos, abertos e hospitaleiros.
Ficámos na estação de comboios da cidade onde íamos buscar a chave do apartamento alugado. A imagem de centenas de bicicletas estacionadas era impressionante. O tempo que para nós era frio para os locais era agradável vendo-se algumas mangas curtas. A primeira impressão das holandesas é que são todas princesas em cima de bicicletas.
O receio quanto ao alojamento deu lugar ao espanto geral da comitiva portuguesa. Além do senhorio nos transportar no seu carro da estação para o apartamento, tendo de fazer duas viagens, o espaço era tão arrebatador que todos concordámos que vivíamos ali sem problemas. Um excelente apartamento com o pormenor de estar com o frigorifico cheio. Parecia que o senhor sabia que ia alojar a malta do Funil que se fez logo às cervejas holandesas. Um luxo. Fiquei conquistado à primeira.
Pus o meu plano em marcha. Já bem hospedados havia que regressar à estação de combóios e tratar de uma viagem de ida e volta a Amsterdão para passar lá o dia. Há anos e anos que espero pelo momento de entrar na capital holandesa. Quase todos os companheiros de viagem acharam boa ideia e lá fomos nós. Por 23€ em 1ª classe num óptimo combóio, desconto simpático feito pela senhora da bilheteira. Não há como não gostar daquele pessoal!
A meio da viagem avistei o estádio do Utrecht e partilhei um pouco de história com a carruagem: o Utrecht no ano em que fomos à final da Taça UEFA jogou na Luz mas contra o Porto que tinha o estádio interdito na altura em que Fernando Martins era o nosso Presidente. Este cruzamento com o Utrecht pode dar sorte para a nossa desejada ida a Dublin.
Antes de entrarmos na Capital do nosso lado esquerdo aparece na janela o imponente ArenA do Ajax. Impressionante como os dois rivais PSV e Ajax têm os seus estádios ligados por uma linha de comboio à distância de 2 horas!
O objectivo de ir conhecer o estádio foi abortado porque a distância para o centro de Amesterdão ainda é considerável. Ainda por cima só soube que o Ajax até jogava nessa noite um jogo particular de ajuda ao Japão quando caía a noite e faltava menos de uma hora para o jogo.
Fiquei por Amesterdão e percebi uma enorme ligação entre cidade e clube. Orgulhosos do seu Ajax os vendedores têm sempre artigos do clube em qualquer canto. Não resisti a comprar uma sweat.
Como faço questão de passear com o símbolo sagrado do Benfica vestido sempre à vista acabei por fazer alguns "amigos" nas longas caminhadas durante todo o dia nas zonas mais famosas da cidade. Quase todos os que me abordaram para conversar sobre futebol pediram que o Benfica goleasse novamente o PSV. Percebi que a rivalidade é enorme, até doentia, e é só com o PSV. Confirmei umas horas mais tarde já nos bares de Eindhoven que o "amor" é recíproco.
A ideia com que fiquei é que a maioria das pessoas adoram futebol, adoram o Ajax e veneram a selecção laranja. Percebem do assunto e gostam de conversar mostrando conhecimento sobre a actualidade do futebol português. Facilmente se pode ir para Amsterdão sozinho e passar uma tarde em cafés conversando sobre futebol e também sobre música.
Depois os fumos, os canais, as holandesas e as montras correspondem às expectativas e merecem toda a publicidade que gozam no mundo inteiro. Amesterdão é uma cidade para voltar de certeza absoluta. Se nos sair o Ajax brevemente melhor ainda.
Depois do regresso a Eindhoven temi fraquejar e entregar-me , finalmente, ao sono. Mas a ida ao apartamento só serviu para encontrar companheiros prontos para irmos explorar os bares da zona. Na Holanda é mais uma hora do que cá por isso já não me recordo se saímos à meia noite de lá ou daqui. Sei que facilmente encontrámos animação na zona mais conhecida perto do centro. Uma rua só de bares onde se podia andar à vontade. Acabámos num bar com outros adeptos que jogavam snooker e setas onde descobrimos um empregado português e benfiquista que ainda nos pagou umas cervejas.
Mesmo em frente outro bar cujo dono era fanático do PSV mas que adora futebol e tem fama de ser o melhor anfitrião dos adeptos visitantes. Dizia-se que as noites em que os escoceses do Rangeres invadiram a cidade ficaram para a história. Pela amostra que vivi acredito perfeitamente. Ofereceu também cerveja em troca de uma foto lado a lado, cada um envergando os seus emblemas de coração, enquanto pendurou um cachecol do Benfica no bar.
Entre os bares convivia-se alegremente. De vez em quando aparecia um outro adepto da casa a provocar gritando porto mas à resposta Ajax mudavam a cara e iam embora. Fizemos amizade com raparigas universitárias simpáticas que além de saberem de bola sabiam de moda e música e ficaram facilmente conhecidas por primas. Alguém se lembrou de meter conversa com as jovens explicando que eu era um famous writter em Portugal e elas ao acederem aos meus blogues pelos telemóveis ficaram convencidas. Connosco é assim, tudo serve para meter conversa. Conversa que já tinha começado com um amigo português mais velho que nós e que ali estava sozinho deliciado com aquela animação. Vim a saber que era o piloto do avião que transportou o Benfica. Festa nele , logo! Sem cerveja, que pilotar os nossos meninos não é para brincadeiras.
Mais tarde entram no bar umas caras conhecidas. Um olhar mais atento e descobri que a equipa do jornal A Bola já conhecia bem aquelas paragens com Fernando Guerra no comando das operações. O resto da imprensa portuguesa passou por nós na tarde seguinte com Helder Conduto a acenar para a nossa esplanada.
A noite esticou-se animada entre cerveja e fumos de Amesterdão como convém na Holanda. O dia já ia muito longo, desde que tinha acordado para trabalhar na 3ª feira até às 5 da manhã já de quinta feira apenas tinha dormido 2 horas. Fomos até ao apartamento dormir. Mas pouco porque havia que levantar cedo para tentar curar a ressaca rápido e ir explorar Eindhoven de dia.
Eindhoven é uma cidade muito mais recatada que Amesterdão. Tudo muito mais calmo. Vê-se que os habitantes vivem muito bem, andam sempre sorridentes, entre a bicicleta e os passeios a pé mostram boa disposição e também gostam de mostrar orgulho no clube da sua cidade, vi gente de todas as idades e feitios envergando camisolas do PSV durante o dia. Em conversas com alguns adeptos da casa fiquei espantado com a capacidade cerebral de análise deles. Não tiveram problemas nenhuns em dizer que iam na esperança de ver um milagre mas não tiveram dúvidas em elogiar o nosso futebol dizendo que tínhamos muito melhor equipa. Mais tarde cheguei a pensar, aos 2-0, que tinham feito bluff.
Impressionante como o custo de vida em Eindhoven cai para metade do que eu vi na véspera em Amesterdão. Os 5€ que vale a cerveja na capital ali desce para metade, tal como a comida. Aquela rapaziada não sabe o que é comer. Para eles um pacote de batatas fritas tipo McDonalds compradas na rua cheias de molho serve perfeitamente para almoço ou lanche. Só os vi a comer sanduíches ou comida de centro comercial. Fomos nos safando com kebabs, hambúrgueres e muita cerveja.
Em passeio por várias lojas lá descobrimos outro português, ou um africano que falava português para ser mais preciso, que nos explicou algo de espantoso. Atentem bem: o rapaz trabalha na Zara e por dois dias serviço por semana recebe ao fim do mês 400€! Ele estuda e com outro biscate diz que consegue viver bem, pagar os estudos e passear pela Europa. Fiquei a pensar o que andamos cá a fazer, ainda por cima quando todo e qualquer contacto com o nossos país nestes dias apenas resultavam em ecos de desgraça e FMI.
Eu que tinha ido a pensar na reportagem que vi há pouco tempo na RTP dos Portugueses no Mundo feita em Amesterdão pude confirmar localmente que quem tenha a coragem de tentar lá a sua sorte tem grandes possibilidades de ser feliz.
Ok, vivem melhor, aparentemente estão mais felizes que nós mas o PSV fica agora em casa e o Benfica está nas meias finais. Foi para isso que lá fui, apoiar a minha equipa e mostrar ao país que não há crise que abata o nosso clube, pelo menos em futebol senti-me mais feliz e superior aos amigos de Eindhoven.
O estádio Phillips é bonito por fora, está muito bem conservado, tem uma loja grande do clube, e está perfeitamente localizado e assinalado. Deixei a praça das enormes esplanadas repletas de benfiquistas que ali estiveram toda a tarde e fui cedo para o recinto do jogo. Reparei que no meio da cordialidade à volta do estádio só uns cachecóis anti-Ajax quebravam aquele clima.
A nossa entrada é feita por um corredor superior em forma de tubo. Tudo pensado para quandos os rivais vão ali jogar não ataquem nem sejam atacados já que esse tubo fica muito perto da estação de comboio, portanto não dá espaço a grandes confrontos. Destaco a rapidez da revista que fazem os seguranças, a simpatia e a educação com que fui tratado. Nenhum problema com a famosa faixa Funil.
O problema foi subir a frio 6 andares de escadas até ao topo onde ficámos. O nosso sector é um canto do estádio com bancadas construídas a pique que chegam a dar vertigens. Estamos rodeados de paredes envidraçadas o que dificulta a exposição de bandeiras e faixas. Têm que ser coladas. Um segurança ao ver a minha desilusão de faixa da mão veio sugerir que suba tudo e a pendure nas grades onde terminam as cadeiras. Agradeci e segui o conselho. Resultou porque amigos em Portugal mandaram sms a dizer que a viram e já há vídeos onde se vê.
O estádio é engraçado, tem o seu carisma, e quando se encheu perto da hora do jogo deu para sentir um ambiente quente e entusiástico que aumentou quando o PSV começou a crescer no jogo.
O nosso sector estava à pinha, depois havia benfiquistas espalhados pelas bancadas ao lado e o apoio ao Benfica foi fortíssimo do principio ao fim.
O falhanço de Gaitán e o brinde que Saviola desperdiçou deram a errada ideia que íamos ter uma noite fácil e os cânticos portugueses calaram por completo os holandeses que pareciam resignados.
O primeiro golo do PSV veio mudar tudo. Os adeptos da casa ficaram loucos de alegria e a partir dali começaram a empurrar a equipa de cada vez que a bola ia ao nosso meio campo. Os nossos jogadores pareceram apáticos, a nossa bancada tentou puxar mais por eles mas quando surge o 2-0 a nossa boa disposição deu lugar à preocupação. Pessoalmente não contava ter de sofrer naquele jogo, quando caí na realidade e olhava para o marcador antes da meia hora a dar 2-0 no jogo e 4-3 na eliminatória comecei a ficar com o coração tão acelerado e com a cabeça tão quente que por momentos todos aqueles elogios à Holanda que fiz até ali iam passar a ofensas sem fim. Eindhoven tinha de ser uma cidade marcada por boas recordações e tinha de viver ali uma das grandes jornadas de benfiquismo da minha vida porque desde 1988 que estou para me vingar do grupo desportivo da Phillips que arruinou dias de vida da minha juventude.
Entre o pânico de poder assistir ao vivo a uma reviravolta embaraçosa e a felicidade de estar ali presente e poder com a minha voz bem alto ajudar os nossos homens a recomporem-se acho que fechei os olhos quando o Maxi teve uma rara falha e isolou o avançado do PSV. Devo ter fechado os olhos no momento em que Roberto negou o fatal 3-0 e a partir daí cresceu a minha confiança. Cresceu o apoio da bancada e cresceu o nosso Benfica.
Já tinha desejado o intervalo há muito tempo, no marcador lá estava o minuto 45 parado há um bocado mas estávamos com um livre a nosso favor mesmo ali à nossa frente. Respirei fundo e pensei que se marcássemos o golo agora a alegria voltava e a Holanda voltava a ser um lindo país.
Bola cruzada para a área, eu vejo a trajectória da minha esquerda para a direita onde vi que o Javi quase cabeceava, sobra para o Luisão que não chuta logo apesar de eu ter rematado por ele na cadeira da frente, ajeitou e sai pontapé acrobático genial a vingar o falhanço de Gaitán... A bola sai alta e vai entrar mesmo no cantinho superior da baliza ali à minha frente! Não vi mais nada do relvado tal foi a festa na bancada. Abracei-me a conhecidos da Luz e a desconhecidos que nem devem viver no nosso país, desci umas dezenas de filas de cadeiras aos saltos a gritar e acabei nos braços de alguém que me gritou ao ouvido: MEIAS FINAIS!
Foi aí que voltei a olhar para o relvado e já nem havia jogadores em campo. Estávamos no intervalo e aí é que tive bem noção que estava a viver uma alegria enorme de ir a uma meia final europeia 17 anos depois.
Só para não nos esquecermos daquela noite negra de Maio de 1988 apareceram ali os malandros que nos roubaram a 3ª Taça dos Campeoes. Uma homenagem bonita e perfeitamente lógica de quem se orgulha da história do seu clube. Vi um pano holandês a pedir o regresso de Guus a casa. Ele também viu e sorriu mas acho que não volta.
Este intervalo foi uma delícia. Ainda deu para voltar a descer os 6 andares de escadas para ir ao wc e beber uma cola no Bar e ser surpreendido por uma armada de empregadas lindas a servirem a comida e bebida!
Era como se o jogo fosse começar com a nossa moral altíssima. Voltou o apoio massivo na 2ª parte, alguns suspiros porque se o 3-1 acontecia voltávamos à corda bamba e não me apetecia nada ficar ali para um prolongamento quando na rua dos bares havia litros de cerveja para beber e holandesas em desfile.
César Peixoto percebeu o meu pensamento e pegou no jogo de uma maneira tão surpreendente quanto embaraçosa para os assobiadores da Luz que espero que tenham ficado de consciência bem pesada quando ele sacou o penalti da morte do PSV.
Penalti lá na outra baliza. Os holandeses assobiavam inconformados com o fim do sonho que se adivinhava, lembrei-me a tempo e fiz ligação pelo telemóvel para minha cara metade que sofria por nós longe em casa pela tv. Foi ela a primeira em Portugal a festejar o golo do Cardozo juntamente com a nossa bancada. Quando a imagem da SIC mostrou o golo já ela sorria por nós e tinha festejado connosco. Foi a melhor prenda que consegui dar.
Apenas a preocupação pela lesão de Salvio quebrou o clima de loucura no nosso canto. Foi festa até ao fim.
É tão bom sentir que a 1813 km do estádio da Luz somos o Benfica, cantar o nosso hino, festejar um apuramento europeu. De repente as horas não dormidas, as viagens de carro, os vôos de madrugada, tudo faz sentido, tudo está certo. Estar ali é tão natural como o Benfica voltar a ser falado na Europa do futebol. Foi sempre em festa até ao apito final, loucura no aplauso à equipa que nos foi agradecer o apoio, sorrisos ao vermos que depois dos holandeses saírem as outras bancadas tinham algumas dezenas de portugueses que não se cansavam de gritar para o nosso canto com cachecóis e bandeiras. O Benfica é maior que Portugal, sem dúvida nenhuma!
À saída uma curiosidade; depois de descermos os 6 andares de escadas, passado o tal tubo fomos surpreendidos por um corredor que nos levava para dentro do estádio novamente. Entrámos directamente para a zona do relvado! Pelo meio os seguranças iam explicando que era mesmo assim e que podíamos tirar fotos à vontade. É aí que vimos aquilo que me pareceu ser uma princesa dinamarquesa vestida de segurança. Não hesitei e pedi para registar aquele momento com uma foto lado a lado com a total simpatia da parte dela. Qualquer um de nós ficaria feliz de casar com aquela loura alta que trabalha no estádio como steward. Já não tenho dúvidas, amo a Holanda!
Não percebi bem a ideia de passarmos paralelamente ao relvado mas adorei, fotos das balizas, das bancadas e de mais seguranças giras.
Regresso para o centro da cidade, deixar a faixa em casa e rumar aos bares. Ambiente espectacular nas ruas cheias de universitários que celebravam a sua noite com tudo a que tinham direito, as miúdas super produzidas, eles sorridentes (pudera!) entre cervejas e fumos, música alta para todos os gostos. E por falar em música, um concerto nesta mesma noite dos Slayer e Megadeth trouxe à confusão mais uns milhares de turistas devidamente tatuados e vestidos de preto. Portanto, entre estudantes, metaleiros, adeptos do PSV e benfiquistas tudo a correr bem na noite de Eindhoven. Presença policial discreta mas oportuna e alguns avisos surpreendentes. Uma senhora polícia veio dar-me os parabéns pela vitória, elogiou o manto sagrado que eu tinha vestido e aconselhou-me a largar o copo de cerveja que estava a beber. É que andar a beber no meio da rua de Eindhoven dá uma simpática multa de 90€! Coisas deles...
Cada um dos companheiros de viagem passou a noite à sua maneira, eu acabei a perder-me na conversa com um grupo de adeptos do PSV que adoram futebol como eu e ficámos horas a falar dos nossos clubes e tudo à volta. Diga-se que no grupo também havia raparigas que mereciam na boa uma capa na nossa GQ e que bebiam e discutiam futebol com toda a sabedoria. Fiz a boa acção de dizer bem de Albufeira dando o empurrão final para aquela malta ir passar férias ao Algarve em Julho. O turismo do ALLgarve devia-me pagar porque fiz mais por eles em 10 minutos ( e 2 cervejas ) do que eles na vida toda.
Mais uma vez a cultura futebolísta daquela gente fascinou-me, a maneira racional com que encaram a realidade do seu clube surpreende-me e o pedido que todos me fizeram de levantar a Taça em Dublin motivou-me.
Depois a noite morre a partir das 3 da manhã e havia um avião para apanhar às 10h para o Porto. Sem esperas, sem bolas de golfe pudemos regressar de carro. Mas só depois de voltarmos a ter uma refeição digna desse nome e acabar como começámos, com uma francesinha, desta vez no Cufra.
Foi uma aventura concluída com sucesso, fomos carimbar a passagem às meias finais num país espectacular. Agora deixem-me respirar fundo e preparar-me para o regresso à selvajaria que passa pelo regresso aquela Pedreira do Porto B onde nem tenho vontade de ir. Sempre estou para ver se a UEFA também vai permitir bolas de golfe e outros truques que vi ali há um mês.
Chego a Portugal e vejo tudo eufórico com umas meias finais europeias com três clubes portugueses. Devo ser o único a lamentar não termos uma meia final com o Benfica e três equipas holandesas...
Este é o fim de semana de Sines. Como acontece sempre por esta altura do ano desloco-me para Sines para acompanhar o Festival Músicas do Mundo que é muito mais do que um simples Festival. É acima de tudo uma óptima oportunidade para aproveitar a hospitalidade dos sineenses conviver com outras "tribos" e reencontrar (tantos!) companheiros de bancada com gosto por estas andanças.
Depois de ter visto a vitória sobre o Feyenoord na Toca do Zorro, discreto restaurante bem perto do Castelo que muito aconselho pela imbatível relação qualidade - preço, voltei lá para o jantar de ontem. Os festejos dos 4-1 da véspera valeram-nos um mimo ao pedir a 2ª garrafa de tinto da casa ( bem bom, por sinal ) que veio com um rótulo personalizado e que pode ser apreciado na foto anexa.
Pedimos mais uma, obviamente!
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