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Tetra Campeões

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Ir a Roma e Não Sentir a Loba

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A odisseia da Itália no seu Mundial, que revelou ao mundo um novo herói chamado "Toto" Schillaci,  a final que a Alemanha ganhou a Maradona, a épica final da Taça dos Clubes Campeões Europeus que a Roma perdeu na dança dos penaltis de Grobbelaar, aquela tarde que faltei às aulas na escola primária para ver o Benfica ganhar em Roma, aquela noite em que invadimos a casa do amigo que tinha parabólica com RAI para ver a Roma de Aldaír a vingar-se, aquele regresso contra a Lazio que tão mal acabou e podia estar aqui a mencionar momentos mais recentes, como a selfie de Totti, para dizer que o Estádio Olímpico de Roma era um destino que há muito tinha em mente.

 

Aproveitei mais uma viagem de turismo para incluir no menu uma visita de cultura futebolística. Bem, não foi só mais uma viagem, tratou-se da chamada "lua de mel" mas para quem já me atura há oito anos sabia que teria de passar por mais um estádio mítico.

 

Tinha grandes expectativas com esta visita a Roma. Queria sentir o pulsar dos tiffosi e saber o que conheciam do Benfica. Enfim, o normal para qualquer visita a uma cidade europeia. A desilusão não podia ser maior. Já se sabe que nestas aventuras cada qual tem uma experiência diferente. A minha foi fraca.

Não senti que Roma respirasse futebol, raramente encontrei alguém disposto a conversar sobre as equipas da cidade, não registei reacções aos meus passeios de casaco ou camisola com o símbolo do Benfica. Aconteceram excepções que partilharei mais à frente mas por norma não vislumbrei grande entusiasmo na cidade. Visitei uma das lojas da Roma onde vi artigos do clube. Fora desse contexto, zero!

Tudo começa na loja da Roma onde se pode comprar bilhetes para o jogo. Lá fui pedir dois bilhetes para o lado da curva sud. Não é simples o levantamento dos ingressos. É preciso dar a identificação das pessoas que vão entrar, os nomes são impressos no bilhete e é pedido que se leve o mesmo documento identificativo no dia do jogo. O meu custou 35€, o da minha mulher 31€. Desconto simpático.

 

Da loja não fiquei tentado por mais nenhum artigo. Achei até uma oferta fraca.

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Domingo, dia de jogo, a minha expectativa aumentava. Sentia que, finalmente, ia conviver com os famosos adeptos da Roma na recepção à Atalanta. Sempre achei muito charmosa esta maneira de usar o sentido feminino numa frase em que se fala de equipas de futebol, coisas à italiana.

 

Já tinha percebido no mapa que o Olímpico ficava longe do centro da cidade. Por esta altura já tinha caminhado entre quase todas as atracções em forma de monumentos da capital italiana.
Bilhete comprado, 1,50€ cada, autocarro apanhado na Piazza Veneza e lá vamos rumo ao estádio. Viagem mais curta do que era de esperar por haver algumas vias encerradas ao trânsito. O motorista garantiu que o caminho a pé até ao estádio era tranquilo e rápido. Tinha razão.

Até aí, diga-se, que não vi nenhum sinal de que havia jogo na cidade. Perto da rotunda onde começa o parque onde está o recinto é que aparecem os primeiros policias e adeptos trajados de amarelo e vermelho. Finalmente, sorri.

Ao fim de uns metros a caminhar ia fazendo comparações na minha cabeça. Aquilo lembrava-me o caminho para o estádio do Jamor. Árvores, recintos desportivos e o estádio lá ao longe.

Os adeptos todos muito discreto e calmos. Aproveitámos para parar no primeiro quiosque e matar a fome. Duas sandes de salame picante e duas birras. Vinte euros! Pois.

O salame era mesmo picante e, portanto, a birra escorregou num instante.

 

Havia que seguir o nosso caminho, como diz o treinador do Glorioso, e aproximamo-nos do estádio. Acontecem as primeira surpresas agradáveis.

Logo no primeiro portão um simpático adepto romano aponta para a minha camisola branca, a alternativa desta época, e repete várias vezes a palavra Benfica. Paro, volto para trás e tento um italiano/castelhano/português para saber porque identificou o manto sagrado. Só ouvi elogios, e o senhor, com idade para ser meu pai, acaba a sorrir afirmando ser grande admirador do Benfica desde pequeno. Soube bem o reconhecimento e os elogios.

Mais animado e motivado resolvi entrar numa loja improvisada num insuflável antes de entrar na área do estádio. Gostei de uma t-shirt em promoção e quando me preparava para experimentar por cima do manto sagrado aparece um senhor ainda mais velho que o simpático italiano. Era inglês e tinha uma história épica.
Queria cumprimentar-me porque é simpatizante do Benfica desde que viu Coluna e Eusébio a jogarem. Então, desenvolveu um ritual que consiste em visitar a Luz de dois em dois anos, para ver um jogo, beber cerveja e comprar camisolas. Estava triste porque ainda não tinha conseguido arranjar uma daquelas camisolas vendidas pelo nosso museu, réplicas dos anos 60, porque não há para o generoso tamanho dele.

Fica o apelo para que o Benfica mande fazer um tamanho XXL para os britânicos mais volumosos comprarem. No ano que não ia à Luz combinava com um amigo e escolhiam um estádio mítico para verem bola. Desta vez era o Olímpico de Roma. Fiquei tão feliz com este encontro que saí da loja sem comprar nada e fui direito à entrada do estádio. As revistas são mais apertadas do que cá, muitos policias e três paragens para ser revistado antes de subir as escadas do Olímpico.

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Quando, finalmente, estou de pé em frente ao relvado e à bancada central no meio daquelas cadeiras azuis, lembro-me de todos os momentos com que comecei esta prosa. Sente-se ali a história de um campo mítico. Ali estava eu nas bancadas do Olímpico de Roma. Foram momentos em que olhei para o relvado e tentei imaginar Conti, Falcão, Cerezo ou Giannini a jogarem. Ou os golos de Filipovic, ou o penalti de Brehme.

 

Depois lembrei-me de olhar para a esquerda e ver a famosa Curva Sud e os seus fieis tiffosi. E aí começa toda uma desilusão. A Curva está dividida para um separador em acrílico que os adeptos não toleram. Por isso, não há ultras no sector em jeito de protesto. Ou seja, vi zero dos famosos ultras da Roma.

A seguir percebo que o ambiente em volta da equipa também não é o melhor. Há assobios incríveis na altura do anuncio das formações. Rudi Garcia deve ficar surdo com tamanha assobiadela.

Pensei que tinha a ver com a goleada sofrida em Barcelona mas depois entendi que os adeptos da Roma estão fartos do seu treinador há mais tempo.

 

Mais assobios ao treinador da Atalanta, esteve dois anos a treinar a Lazio, mais assobios a De Sanctis porque não confiam no guarda redes, outra vez assobios ao "hino" da Serie A que é tocado no alinhamento das equipas.

Só um momento de euforia, no "hino" da Roma todos de pé com cachecol ao alto a gritar bem forte pela loba.

O jogo começa e a desilusão aumenta. Não se ouve um pio nas bancadas, conseguimos ouvir os pontapés mais fortes na bola. A Roma sem Gervinho e Salah é banal apesar de De Rossi, Dzeko e Pjanic. O futebol é triste e previsível, e a Atalanta chega à vantagem sem surpresa. Fica para memória o grande pontapé de Gomez mesmo ali à minha frente.

Um jogo para esquecer, um ambiente horrível. Salvou-se a conversa que fui mantendo com dois adeptos atrás de mim que iam explicando o que se passava e os risos dos muitos ingleses perto de nós que estavam ali na mesma condição de turistas.

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Ao intervalo um encontro ao pé do bar com dois rapazes benfiquistas que ao verem a minha camisola começaram logo a cantar pelo Glorioso. Também estavam de visita à cidade e estavam tão decepcionados como eu com o triste espectáculo que nos calhou. Serviu para matar saudades das conversas à volta do Benfica e partilhar a convicção de uma vitória em Braga no dia a seguir.

 

A segunda parte não melhorou nada, a Atalanta fez mais um golo e senti vergonha alheia ao ver os adeptos da casa a virarem costas ao jogo sem hesitações. Se a Roma ganhasse ficava a um ponto do líder mas, mesmo assim, os adeptos não aparecem. O estádio nem meia casa tinha preenchida.

 

À saída percebi que o acesso pela porta principal que vai dar à ponte é mais movimentada e , finalmente, vi pontos de venda de artigos relacionados com o clube. Nada de material Ultra nem pins. Pior foi não ter como comprar bilhetes para o regresso de autocarro e não saber que em Roma ninguém paga para andar de transportes. Não arriscámos a borla e acabámos numa longa caminhada até à Piazza del Popolo.

Salvou-se o jantar na pizzaria La Baffetto.

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 Nos dias seguintes ninguém mostrou interesse em falar de bola. Desprezo quase total pelo futebol. Ainda tentei na 2ª feira à noite numa café durante o Nápoles - Inter mas os empregados viam o jogo pouco interessados em alimentar conversas. Nem em encher a chávena do café que pedi. Fiquei a perceber bem o conceito de "italiana".

 

Ponto positivo, nas livrarias é possível encontrar muita literatura dedicada a jogadores, treinadores, dirigentes, jornalistas e clubes italianos. E até livros sobre os adeptos. Comprei um sobre a Curva Sud, outro sobre a grande Roma de Liedholm e mais um sobre as maiores figuras do AC Milan, onde nao falta uma página dedicada a Rui Costa.

 

De resto, Roma tem muito para oferecer em termos históricos, museus, monumentos, atracções católicas e gastronomia própria. Os italianos e italianas são simpáticos e prestáveis, a cidade é segura, e parece que passamos uns dias dentro de um postal ilustrado entre a imponência do Coliseu e a beleza da fonte de Trevi.

De futebol é que há pouco rasto.

 

 

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