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Elogios e Reparos à FPF e à Taça de Portugal

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(Taça de Portugal no Estádio Municipal de Mogadouro, na tarde chuvosa de 20 de Dezembro de 1981. O resultado final foi de 0 - 2. Os marcadores dos golos foram Humberto Coelho, aos 67 minutos e Nené, aos 85 minutos - foto enviada pelo grande Francisco Araújo)

 

A Federação Portuguesa de Futebol tem feito um grande esforço por modernizar a sua imagem, aproximar as selecções dos adeptos, melhorar as competições que organiza e tentar devolver toda a dignidade à chamada prova raínha do futebol português. Isto merece muitos elogios porque é visivel o excelente trabalho em todas estas componentes. Aos olhos salta logo o ambiente à volta da selecção principal com estádios cheios e o apuramento para França já garantido. Tantos anos a batermos na FPF, agora é justo reconhecer o excelente trabalho que está ali a ser feito.

 

Falemos, então, da Taça de Portugal.

A FPF fez uma clara e óptima aposta em levar a competição a mais clubes, distribuir mais dinheiro, melhor o quadro competitivo.

Desde logo chamou mais equipas dos distritais na 1ª eliminatória e teve a preocupação de acabar com aquela aberração que era vermos nos primeiros sorteios dezenas de equipas isentas. Até acertar o número de equipas para que a prova decorresse com normalidade era preciso isentar tantas equipas que não fazia sentido.

A FPF achou que o melhor para acertar matematicamente as contas dos sorteios, seria repescar equipas derrotadas da ronda inaugural e dar-lhes nova hipótese na 2ª eliminatória. É bizarro na mesma. Numa prova a eliminar não faz sentido ir repescar clubes. Mesmo que fosse este o menos mau dos planos, devia haver um critério. Não se devia dar a mesma oportunidade a uma equipa goleada por 9-0 em comparação com um clube afastado no desempate por penaltis, por exemplo.

Sabendo que não é fácil chegar à solução ideal, o melhor era mesmo a FPF convencer todos os clubes inscritos a participarem na prova. Chamar mais equipas dos distritais em troca de incentivos financeiros. Sei que muitos clubes abdicam de jogar a prova por não quererem entrar em despesas mas a FPF devia insistir neste caminho. Quantas mais equipas entrarem menos problemas matemáticos ficam por resolver com isentos e repescados.

No entanto, diga-se, que esta é a edição em que entraram mais equipas e esse esforço tem que ser mesmo elogiado. A ideia aqui é só pegar no que de bom se fez para se tentar chegar ao óptimo.

 

Depois veio a ideia de obrigar os clubes das divisões profissionais a jogarem no campo dos adversários dos escalões amadores. Óptima ideia.

Mas aqui também devíamos limar arestas.

Ponho já de parte queixas que já ouvi de adeptos e responsáveis ligados a clubes amadores que reclamam também o direito de jogarem por uma vez num estádio de primeira classe. Há quem prefira calhar com um clube de topo e poder jogar na casa deles para sentir o ambiente da elite. Será uma minoria mas têm direito à sua opinião.

Em contrapartida, a sugestão da FPF é levar as melhores equipas do nosso futebol a jogarem aos cantos mais esquecidos de Portugal, como o interior do país. Levar os grandes jogos a estádios e campos que raramente vivem a azáfama dos grandes dia do futebol. Fazer a festa em localidades que nem em sonhos podem chegar aos campeonatos profissionais.

É aliciante para quem recebe e para quem gosta de viajar para ver a sua equipa jogar. Ir a locais desconhecidos descobrir novas paisagens e gastronomia. Tudo certo.

 

O problema está maneira como se está a forçar isso. Condicionar o sorteio da 3ª eliminatória desta maneira parece-me um exagero. Obrigar todos os clubes da 1ª divisão a terem um jogo fora com um clube amador é alterar o espírito da prova.

Temos que nos lembrar que o encanto da Taça está também na sorte das bolas escolhidas. Se sair um clássico ou um derby logo nesta fase também tem um especial encanto e faz parte da tradição da competição.

Por isso, sugeria que o sorteio fosse o mais puro possível. A única regra seria esta: quando saíssem jogos entre clubes de divisões diferentes o jogo seria sempre na casa do que estivesse na divisão mais baixa. Simples. Entre clubes das duas divisões profissionais não era preciso esta condição, respeitava-se o alinhamento do sorteio. Parece-me aceitável.

 

Finalmente, a parte que mais me irrita. Depois deste esforço todo em proporcionar futebol com equipas de primeira em locais nada habituados a estas andanças não se pode deitar tudo por terra e sair a correr para o estádio maior que se encontrar nos arredores.

Aqui é, talvez, a medida mais utópica que eu gostaria de ver aplicada.

Os clubes não podem ganhar o euromilhões e reagirem como se tivessem também acertado na lotaria e no totoloto. Quando uma clube das divisões inferiores tem a sorte de receber um dos grandes ou mesmo o Benfica, o maior de todos, não devia poder sair da sua casa.

Deviam aceitar a realidade, o regresso às origens. Eu lembro-me de ver o Benfica a jogar em campos pelados apinhados de pessoas. Já nem há pelados, por isso não vamos inventar condições, seguranças e transmissões de televisão.

Diga-se que o Benfica já jogou três vezes em Viana do Castelo contra o Vianense. Duas nos anos 60, sim, a equipa de Bella Guttman a caminho da glória europeia passou pelo pelado minhoto, e outra nos anos 70 com Nené a brilhar.

Atentem nesta maravilha, o Benfica a jogar em Macedo de Cavaleiros:

Os clubes deviam jogar onde jogam sempre. Não cabem lá os milhares que gostariam de ter? Paciência, a realidade é o que é. As televisões vão ter mais trabalho para transmitir em estádios modestos? Vão mais cedo e criem as condições.

Nenhum clube vai mudar o seu destino por causa de um jogo na Taça com uma equipa profissional. Pode ganhar ali mais dinheiro mas não lhes muda a vida. A experiência de receber o Benfica num modesto campo em Viana do Castelo é que não tem preço. Ficaria para sempre na memória daquelas gentes.

Ir para Barcelos é vulgarizar o momento. É só mais um jogo num estádio banal das ligas profissionais. Daqui a um ano ninguém se vai lembrar desta noite.

Era isto que eu gostava de ver defendido. Um esforço de proporcionar encontros destes não pode ser aniquilado por ganâncias financeiras porque o simbolismo de ter um clube grande na terra original de um clube pequeno não tem preço.

 

O meu sonho era ver o Benfica defrontar o Silves no estádio Dr. Francisco Vieira.

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