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Bayern de Munique 1 - 0 Benfica: Sofrer, Resistir e Mostrar ao Mundo o Benfica!

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Vamos começar por um exercício de imaginação absurdo. Estão a jantar com os vossos familiares mais queridos e um deles pede-vos que vão ter com ele durante 90 minutos daí a duas semanas só para estarem juntos no centro da Europa.

Depois, esse elemento, dos que vocês mais estimam, recordo, informa que terão de ir mas com os custos todos a vosso cargo e, por isso, sugere uma rota mais económica do que um simples voo directo da vossa cidade para onde ele vos espera.

Começa a explicar que terão de sair ao fim da tarde de uma 2ª feira em direcção ao Porto. Vão de avião, porque por 20€ conseguem ir e vir tranquilos. A seguir apanham no Porto outro avião rumo a Munique, uma cidade escolhida ao acaso, e fazem as quase 3 horas de ligação para chegarem lá de manhã.

O avião parte às 9h e tal da manhã, por isso terão que ir cedinho para o aeroporto. Chegados ao destino, aproveitam e passeiam pela cidade até chegar a hora de estar com ele os tais 90 minutos.

Depois ele vai à sua vida e vocês ficam com uma noite e um dia pela frente porque o avião de regresso ao Porto só acontece na 5ª feira de manhã. Marcam um quarto digno e económico, aproveitam para fazer turismo pela cidade e quando chega 4ª feira à noite procuram um bar para ver os jogos europeus dessa noite e beber umas cervejas.

No fim, já cansados de tanto andar, lembram-se que não podem ir dormir porque resolveram não marcar nenhum quarto para essa noite já que vão ter de estar no aeroporto para regressarem a casa antes das 6h da manhã. E só depois de uma noite sem dormir voltam para o Porto e passam a manhã no aeroporto Sá Carneiro à espera do voo de regresso a Lisboa que, por acaso, até atrasa.

Mas seria tudo por uma boa causa, estar 90 minutos a conviver com um ente familiar, muito querido, que podem ver em vossa casa de 15 em 15 dias, pelo menos. Só que meteu na cabeça que quer este encontro especial.

Ora bem, mesmo perante toda a família a resposta seria algo do género: mas está maluquinho ou quê ?!
Mais coisa, menos coisa. E ninguém vos levava a mal pela reacção nem deixavam de gostar da pessoa em causa.

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Se duas bolas tiradas ao acaso por um estranho algures na Suíça ditarem um encontro do Benfica com o Bayern e a reacção for um imediato impulso de marcar viagem, aí já tudo o que descrevi em cima passa a fazer sentido. Quando dizem que a magia da paixão por um clube não se explica, é verdade mas há exemplos que, pelo menos, ajudam a entender. Seja de quem for a paixão, seja qual for o clube.

 

Esta é a história de uma viagem há muito anunciada e sonhada.

Já expliquei muitas vezes ao longo da minha vida que tenho uma atracção muito forte pelo futebol alemão desde criança. Especialmente, na altura das fases finais de Europeus ou Mundiais tenho sempre que explicar porque torço incondicionalmente pela Alemanha. Volto a repetir aqui, muito resumidamente, que um amigo da minha mãe trabalhava no Consulado Geral de Portugal em Hamburgo e que sempre que vinha a Portugal trazia cassetes VHS com resumos da Bundesliga porque achava piada ao meu interesse por futebol. Como eu vi o HSV ganhar a Taça dos Campeões na televisão no começo dos anos 80, sempre achei que os alemães tinham um futebol incrível. Daí ter ficado fã do Hamburgo para sempre mas sem nunca desenvolver nenhum ódio a qualquer clube alemão. Tanto que gosto do St. Pauli, rivais da cidade.

Torço, quase sempre, pelos clubes alemães nas provas europeias, vi o Werder Bremen ganhar a Taça das Taças ao Mónaco na Luz, por exemplo. O Klinsmann foi um ídolo para mim, e entre os jogadores que mais me marcaram, a nacionalidade mais presente é a alemã.

Em 1988 recebi a camisola com que a Alemanha ia jogar o seu Europeu meses antes da prova. Foi das melhores prendas de aniversário de sempre. Ainda hoje procuro uma réplica dessa camisola que depois veio a ganhar o Mundial 90. Acompanho sempre muito de perto a Bundesliga e há muito que sonhava em ir à Alemanha ver futebol. Tentei ir em 1988 a Estugarda ver o Benfica - PSV mas esqueci-me que era menor de idade e a minha mãe manteve-me em casa com juízo.

 

Portanto, esta ida a Munique era o melhor pretexto de sempre para avançar. Ajudado por quem conhece bem os truques nas marcações mais económicas de viagens e estadias decidi logo ir e embarcar no espírito aventureiro da deslocação.

Foi tudo o que contei no primeiro parágrafo do texto. Acrescento que fomos em grupo, tudo gente boa, e que ainda tivemos a companhia de um casal benfiquista que vive no norte e nos apresentou a famosa francesinha da Taberna Belga em Braga na "escala" da noite no Porto. Bem hajam pela refeição, companhia e benfiquismo.

 

Como sempre acontece nestas alturas, a viagem rumo ao local onde vamos estar com o Benfica é sempre uma animação. Não há cansaço absolutamente nenhum desde que levantamos voo de Portugal até à altura de abandonar o estádio. O benfiquismo que nos move é à prova de tudo. Vivemos tudo numa intensidade que nos parece tão normal que só dias depois percebemos o seu valor.

 

Pessoalmente, era uma viagem muito especial pelo que já expliquei. Estava impaciente para saber como era estar nas ruas de Munique, como eram os alemães, como era o ambiente, como seria o estádio. Acho que só para Liverpool senti a mesma ansiedade.

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Facilmente percebi que Munique era tudo o que esperava. Até tive a estranha sensação de estar a pisar terrenos familiares, apesar de nunca ter ido à Alemanha. De tanto ler, de tanto ver imagens, tudo me parecia fazer sentido.

Organização exemplar, um sentimento de segurança total de manhã à noite, o metro funciona de madrugada sem o menor problema. É um povo tão organizado e de mentalidade tão evoluída que partem do principio que todas as pessoas são civilizadas e pagam para usufruir transportes competentes. Por isso não há nenhum tipo de controlo nas entradas e saídas do metro, por exemplo, não se sente nenhuma observação exagerada por parte das autoridades em nenhum local. Um país de primeiro mundo, uma expressão que oiço tantas vezes, deve ser isto.

 

A minha experiência em contacto com os alemães foi positiva. As ideias com que ficamos de um povo tem tudo a ver com a maneira como as vivemos. Depois, quando há várias pessoas a partilhar a mesma opinião é que dizemos que esse povo é mais ou menos simpático, por exemplo.

Eu fiquei com a ideia que os alemães são simpáticos quanto baste. Não têm aquela forma mais expansiva de receber mas tentam ser simpáticos e úteis. Não se esforçam por ter um inglês exemplar mas dá para manter sempre a ligação.

Houve episódios curiosos em que nos mostraram o seu gosto pelo nosso país e por Lisboa. Um senhor, já com idade respeitável, parou a sua bicicleta no meio do nosso grupo quando íamos a atravessar a ponte da estação de Hackerbrücke só para nos dizer que adorava Lisboa. Assim, do nada. E ouvi outras manifestações simpáticas tanto para o nosso país como, especialmente, para o nosso Benfica.

 

Munique é uma cidade que vive o futebol. Vê-se muita gente a usar roupa ou acessórios do Bayern mesmo sem ser em dia de jogo, também há muitos adeptos da outra equipa da cidade e que mostram o seu orgulho pelo TSV Munique apesar de estarem na divisão secundária. Pena jogarem de azul e com um leão ao peito.

A quantidade de lojas do Bayern espalhadas pela cidade mostra bem a importância que o futebol ali tem.

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No dia do jogo, 3ª feira, aconteceu o habitual convívio entre adeptos do Benfica. Um almoço inesquecível no Augustiner Bräustuben deu para ficar com uma óptima ideia do que é o espírito germânico à volta de uma mesa cheia de cerveja, que não achei assim tão má como a pintam, e pratos de carne de porco. Adorei um pernil com uma camada estaladiça. Adeptos dos dois clubes a comerem e beberem no melhor ambiente possível.

Sinais dos tempos são traduzidos na emoção da boa sensação de rever ali companheiros benfiquistas de sempre juntos nos brindes ao Benfica. Eles que tiveram que ir para longe daqui para viverem a sua vida com a dignidade que merecem. O Benfica junta-nos sempre, a quem veio da Holanda, de Londres, de Paris ou de outras cidades da Alemanha. É sempre bom conviver com amigos benfiquistas mas estes momentos sabem ainda melhor. Gente boa que não merecia a tortura de viver tão longe da sua paixão.

 

Depois, todos os caminhos nos levam a Marienplatz, a belíssima praça principal de Munique invadida por benfiquistas de todos os lados. Aqui tenho que agradecer a todos os que me ofereceram cerveja e me cumprimentaram com palavras de um carinho e generosidade incrível. Adeptos que vieram de outros países, adeptos de Portugal mas que nunca vi, tantos que perderam um minuto para falar deste blog ou do programa em que participo na BTV. Inesquecível, o companheiro que se agarrou a mim a chorar e o irmão que acabou por nos tirar uma foto. Se lerem isto mandem-me a foto que eu gostava de guardar, grande abraço a todos.

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A ansiada partida para o Allianz Arena deu-se da estação de metro de Marienplatz. Um mar vermelho a caminho da bola, coisa linda de se ver. O Bayern tem cores de bom gosto.

Não tive nem vi nenhum problema na viagem. Vivi uma festa incrível na carruagem do metro com cânticos que punham os alemães a rirem. Estavam divertidos a ver a nossa motivação. Nunca se mostraram arrogantes apesar de terem festejado nos últimos anos títulos mundiais a nível de clube e selecção.

 

Assim que se sai da estação olha-se para a esquerda e o coração bate mais forte, o Allianz Arena está no nosso horizonte. Até parei no meio da multidão com o impacto visual. À medida que nos aproximamos o estádio torna-se cada vez mais imponente e bonito. Com a noite a cair assistimos à mudança de cor gradual do branco para o vermelho. Um espectáculo digno de se ver. Até acertamos o passo com o ritmo da mudança de cor para ver se lá chegamos perto com o estádio iluminado de vermelho.

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A sensação que tive ao caminhar de frente para o recinto é que parecia um bloco rectangular de formas arredondas com um magnetismo mágico. Parecia que tinha um poder de íman e que nos chamava para o seu interior. Raramente, vi um estádio tão bonito ao vivo.

Entre encontros inesperados, fotografias, conversas com adeptos adversários e algum espanto por ver tantos bilhetes vendidos ali em segunda mão, o tempo passava e anoitecia. Quando passamos os torniquetes que davam acesso ao passeio em redor do estádio conseguimos olhar lá para dentro e a sensação é logo de aprovação. Dar a volta por fora à procura do nosso sector e ver tantos adeptos do Bayern de natureza tão diferente é curioso. Vi aqueles famosos blusões de ganga cheios de emblemas bordados, típicos dos anos 70, vi um figurão vestido com cachecóis do Bayern, vi gente de fato e gravata, vi muitos jovens, muitas mulheres, muitos casais apaixonados. O tal ambiente familiar que a Bundesliga gosta de mostrar.

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Encontrado o sector tivemos que subir muita escada. Para entrar na bancada tivemos de passar o bilhete novamente e depois foi respirar fundo dar passos lentos e entrar no nosso sector e ver com os próprios olhos a sua imponência.

Que estádio maravilhoso!

 

Tive ali longos minutos sentado a olhar à volta a procurar todos os detalhes, a lembrar-me de quantos jogos já vi ali disputados mas na televisão. É muito mais bonito ao vivo. A casa da "minha" selecção alemã. Que emoção!

 

Sonhei com aqueles momentos várias vezes mas o melhor de tudo é que estava ali para ver o Benfica.

Tratar de arranjar um lugar para ver o jogo. Escolher ficar entre benfiquistas que vivem longe e estar perto deles naquelas emoções.

É incrível como aqueles minutos antes do jogo passam num instante. Parece que estamos a viver mais rápido que o tempo.

De repente lá está a mítica bola dos campeões agitada no meio campo e oiço a apresentação do Bayern. Sai-me um sorriso quando oiço o nome dos campeões do mundo que jogam nos bávaros. Até me apetece aplaudir jogadores que tanto admiro. E aplaudo mesmo.

Entram as equipas e o grito de Benfica que sai daquela bancada não engana. Estamos todos ali para fazer história. A motivação subiu ainda mais quando percebemos que Rui Vitória honrou o pensamento maior de Cruyff, mentor de Guardiola, e mostrou ao mundo a equipa do Benfica que costuma usar. Sem adaptações, sem invenções, sem encolhas, sem medo. Se tivermos que cair que seja com as nossas ideias, a nossa filosofia de jogo. E ali estava o onze do Benfica com os dois avançados.

 

Ambiente muito bom com os alemães a entoarem o hino do Bayern, lá estava a bancada do outro lado do estádio atrás da baliza com a claque do Bayern em grande estilo.

Um pormenor absolutamente maravilhoso, quando as equipas estão prontas para entrar em campo o risco luminoso que atravessa todo o estádio por cima da última fila de lugares no topo como a acender e apagar ao ritmo de batidas cardíacas que se ouvem nas colunas em crescendo. Genial!

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Infelizmente, rapidamente percebi que também alternava alegremente entre branco e vermelho no golo da equipa da casa.

A bola sai nossa e antes que se esgote o primeiro minuto de jogo já o Bayern estava a assaltar a baliza à minha frente. Com um minuto e 32 segundos fizeram golo.

Só me tinha acontecido em Anfield Road olhar para o relógio no marcador do estádio e entrar em pânico por que aos 40 segundos já estávamos a sofrer um canto contra. Agora senti o mesmo. E ao ver a equipa de vermelho a repor rapidamente a bola em jogo temi o pior.

 

Aqui aproveito para explicar a todos os que me disseram que eu não regulava bem por querer ir ver um jogo em que íamos "encher o saco", benfiquistas incluídos, que o que me move não é triunfos ou golos. O que me motiva é o Benfica, é o ser benfiquista, é o estar no meio dos benfiquistas seja onde for, é viver a história do Benfica ao lado da equipa e acreditar que podemos ajudar com a nossa voz. O objectivo é sempre ganhar, a motivação é sempre ter o privilégio de ver as nossas camisolas ao vivo. Bem bonitas, por sinal. Este equipamento alternativo é tão Benfica, não é?

 

Isto foi um autentico dois em um, ver o meu clube e ver uma equipa que faz história no futebol mundial. Ver as movimentações tácticas e posicionais dos jogadores de Pep é um misto de pânico, desespero e encanto.

A bola está no lado direito do ataque do Bayern, a tendência é os jogadores irem para aquele lado, só que no outro flanco nós estamos a ver quatro(!!) jogadores de vermelho à espera da bola. É assustadora a forma tranquila com que mudam de alas e aparece meia equipa na área pronta para finalizar. Lewandowski ou Müller podem aparecer a cruzar bolas para a área que encontram Vidal, Ribery ou Thiago prontos para finalizarem. É uma rotação de loucos e que baralha qualquer defesa.

Os nossos laterais não conseguiam acertar a marcação porque era gente a mais a passar por ali. Durou cerca de vinte minutos aquela sensação de impotência, Ederson deu o mote mostrando segurança batendo o pé ao Bayern. Numa saída brilhante a negar o golo a Müller, após um livre superiormente marcado a isolar o atacante, o jogo mudava.

O Benfica, finalmente, mostrou que tinha acertado marcações, defendeu compacto, alto, e olhos nos olhos. Procurou ter a bola, foi a equipa com maior posse de bola nos últimos tempos naquele recinto, e procurou chegar à baliza contrária. Uma ousadia que deixou os alemães calados na bancada e começou a revelar a paixão benfiquista em forma vocal para todo o mundo ouvir.

 

Gaitán cruza para a área e Lahm a deslizar deitado na relva corta a bola com a mão. Nós no outro lado gritámos penalti, Gaitan também. Via telemóvel recebíamos a informação que tinha sido mesmo mão. Não foi marcado, paciência.

Aqui importa parar um pouco.

O que disse Nico Gaitán sobre este lance?

"O que peço é penálti, mas são jogadas muito rápidas e o árbitro também é humano. Pode errar, como nós e vocês, jornalistas, também. É uma jogada muito rápida, mas que não foi cobrada. Para mim é penálti, mas ele não viu ou entendeu que não era nada e já está"

 

É isto mesmo. Sem dramas, sem choros, sem teorias da conspiração, sem vitimizações. Isto é o Benfica. Sabemos que o futebol é assim.

Por isso mesmo, dispensamos todos capas como aquela coisa que o Record fez no dia seguinte. Uma manchete que é um lixo. Um lixo que encontra paralelo no que fizeram no dia seguinte à morte de Cruyff. Uma coerência de que não queremos fazer parte. Tiveram oportunidade de mostrar indignação com uma arbitragem há pouco tempo após a final de Turim. Não quiseram, agora não se esforcem para nos fazerem passar por ridículos porque nós não somos esse clube que o Record tanto bajula. Isto com todo o respeito pelos profissionais que lá trabalham, tenho lá amigos que são excelentes profissionais. O lixo é a capa. O Benfica é o conteúdo das afirmações de Gaitán. Que fique bem claro.

 

Obviamente, lamentamos o penalti não marcado mas queremos é continuar a procurar surpreender o Bayern. E isso foi conseguido na 2ª parte. Que jogo do Benfica!

Ver o Benfica a trocar a bola, ver o Jonas a fazer o chamado sombrero a Vidal, ver o André Almeida a fazer a chamada cueca a um adversário, ver os avançados do Benfica a pressionarem na saída de bola do Bayern, assistir ao desespero das bancadas do Allianz Arena que assobiaram forte e feio a sua equipa por não estar a conseguir atacar, tudo momentos que não esqueceremos.

Não me peçam para criticar o Jonas pelos golos não marcados. Falhar um golo perante dois guarda redes tem que ter desculpa. Sim, dois. O Bayern na Baliza tem o Manuel e o Neuer. Um só para defender outro só para fazer parte da rotação da bola. É um monstro.

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Inacreditável aquele momento em que Renato Sanches desata a correr na esperança que Neuer cometesse um erro também pressionado por Jonas. Neuer resolveu, apertadíssimo, com um passe magistral no meio dos adversários e o Bayern saiu calmamente para o ataque. Olhámos uns para outros e rimos. É de outro mundo!

O outro falhanço de Jonas após vários ressaltos e quando eu senti que íamos mesmo marcar, foi devido à intervenção de Javí Martinez que entrou para o lugar de Kimmich que não estava a dar conta do recado. Mérito de Guardiola que tem à sua disposição uma colecção de jogadores de um nível incrível.

 

O mérito do Benfica foi ter posto em sentido a equipa e os adeptos do Bayern, ter conseguido resistir ao assalto final que derrubou a Juventus, por exemplo, e continuar sempre a espreitar o ataque.

Acabámos o jogo vivos. Para todos os imbecis que me perguntaram se agora tinha passado a festejar derrotas deixo mais uma explicação: nós nunca festejamos derrotas. Quando estamos a perder em casa com o Zenit 0-2 ou com o Sporting 0-3 e o estádio espontaneamente explode num só grito de "eu amo o Benfica", não estamos a festejar nada. Estamos só a mostrar que sabemos que não podemos sempre ganhar mas quando perdemos não deixamos de sentir um enorme orgulho de ser deste clube.

O que aconteceu em Munique não foi festejar coisa nenhuma, foi demonstrar a nossa motivação, o nosso orgulho por estarmos vivos a meio da eliminatória contra um dos maiores colossos do mundo a jogar a bola. Aquilo não era o estádio do Skënderbeu e não levámos 3. Nem 6. Nem 7. Percebem?

 

Após este jogo em Munique, onde tivemos o resultado menos pesado de sempre, há muitas esperanças para a Luz. Há dignidade e honra pela nossa história. Mas, não tenho dúvidas, o Bayern continua a ser favorito a seguir em frente. Não mudou nada, e é óbvio que os alemães podem chegar à Luz e fazer golos. Aliás, será o mais natural. A nós cabe-nos a missão de fazer mais um jogo superior e disputar até ao fim o acesso à meia final da melhor prova do mundo de clubes.

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O pós jogo foi divertido. Saímos das bancadas muito mais aliviados do que entrámos.

O estádio por fora à noite é tão lindo que não apetece sair dali. Aquele vermelho em forma de aliança a romper o céu escuro é hipnotizante. Ficámos ali a ver a eficácia surreal como o trânsito é escoado, a organização incrível com que dezenas de autocarros saem dos parques para levar de volta milhares de adeptos do Bayern pelo país fora. Isto sem nunca vermos o trânsito parado.

 

Sem saber como, o nosso grupo arranjou uma bola mini réplica da adidas da final de Milão. Voltámos todos a ter 10 anos e ficámos ali a jogar perante o olhar divertido de polícias e adeptos que iam saindo aos poucos do recinto. Um deles até tentou entrar no jogo e interromper uma série de toques de um dos nossos craques que ao sentir a aproximação do alemão fez-lhe um cabrito épico. Risada total, e cumprimento de aprovação do adversário temporário. O futebol é tão maravilhoso.

 

Regresso para o centro da cidade e a constatação de dois factos inesperados. Munique dorme cedo, na zona histórica não há onde comer tarde. Fomos salvos por umas pizzas. A outra constatação surpreendeu-me pela negativa, na terra de Angela Dorothea Merkel há muitos jovens sem abrigo a dormir encostados a montras. Muitos mesmo.

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O conforto de saber que íamos ter camas para dormir e recuperar do cansaço acumulado não superava a excitação pelo que tínhamos vivido naquelas bancadas. Não foi fácil adormecer.

 

No dia seguinte a motivação estava em alta. Um dia inteiro para dar umas voltas por Munique. Foi unânime a escolha de irmos conhecer o mítico estádio olímpico. Muito bonito o parque olímpico. Complexo desportivo com zonas para correr e pedalar, piscinas, um pavilhão que acolhia naquela noite a famosa banda pop norueguesa A-Ha e campos para vários desportos.

Mas o objectivo era estar no estádio que acolheu os jogos olímpicos de 1972 onde Mark Spitz brilhou, onde Cruyff perdeu aquele Mundial de 1974, onde Klinsmann dizimou o nosso Benfica.

Não fazia a menor ideia que o estádio tinha sido construído para baixo. A entrada é feita ao lado das torres de iluminação! Bonitas, por acaso. À entrada uma dúvida. Pagamos 3€ para uma visita simples ou apostamos nos 8€ com direito a guia e passagem pelo interior do estádio? Em boa hora optámos pela visita mais completa.

 

Começámos pelo topo da bancada atrás da baliza onde Dimas marcou um golo. Na rede cá em cima uma singela homenagem a Cruyff.

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O que mais chocava no olhar pelo estádio era a falta do verde da relva. Foi substituída por alcatrão para uma corrida de DTM com a participação do irmão de Michael Schumacher há dois anos e optaram por manter assim. A conservação da relva era muito cara e não tinha uso. O futebol da cidade mundo-se para o Allianz Arena, o TSV também lá joga, e os maiores eventos agora são concertos de música. Elton John irá lá, por exemplo, este ano.

Mesmo assim o estádio mantém um nível de conservação impressionante. O hall de entrada principal está modernizado, há salas de conferência, uma equipa de cozinheiros bem alargada.

A descida aos balneários é longa. Aí ficamos a saber que o estádio foi feito para baixo para mostrar que o povo alemão aprendeu com os erros do passado e queriam mostrar eficácia em vez de imponência. Daí não se ver o estádio ao longe ao contrário do que acontece normalmente.

Entrámos naquele que era o balneário do Bayern que mantém o aspecto que sempre teve. Sente-se a história que por ali passou. Há retratos gigantes ao longo dos bancos, Karl-Heinz Rummenigge e Lothar Mathaus, por exemplo. Deu para tirar foto ao lado do mítico "10" campeão do Mundo em 1990.

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 Oportunamente passam um vídeo nas televisões ali instaladas com os momentos mais marcantes daquele estádio. Aparece Enke, ficamos a saber que o TSV só venceu 3 derbys, e revivemos as emoções de outros tempos. Ficamos no ponto para a subida ao "relvado". Pisamos alcatrão mas a imaginação encarrega-se de nos fazer sonhar. Pensar que naquele espaço aconteceu tanta história. Fui de uma ponta a outra, vi a torre de comunicações lá fora e lembrei-me das imagens da moeda ao ar que enquadravam a torre, lembrei-me de tantos jogos, do Euro 88, etc.

As bancadas são de desenho simples mas imponente. Deu para sentir ali o peso da história e de alguns pedaços importantes do futebol mundial. Ainda bem que o Estádio se mantém aberto. Noutro país qualquer era abandonado com certeza, ali respeita-se a história.

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Depois, o resto do dia foi andar de loja em loja em busca de livros, adereços e camisolas ligadas ao futebol. Trazia dezenas de camisolas e livros, felizmente, mantive a minha sanidade mental e consegui optar só por duas ou três amostras. Mas já tenho cachecol e bandeira para torcer no próximo Euro.

 

Foi um dia bem passado pelas ruas de Munique, inesquecível pela experiência e pela companhia. Pelas histórias contadas, pela troca de opiniões, por conhecer gente nova, por saber mais aventuras à volta do Benfica, enfim, foi óptimo por nos sentirmos vivos e a viver.

 

Vimos os outros jogos das Liga dos Campeões num pub. Festejámos os golos de outros alemães contra o Real, e sorrimos com os golos do Manchester City. Sonhámos com viagens para ver Supertaça europeia e Mundial de clubes. É parvo? Até pode ser. Mas sabem porque é que o fizemos? Porque podemos! Porque estamos lá. Temos direito a tudo.

 

E aos poucos a frescura física e mental vai diminuindo para níveis dramáticos. As pernas pesam, a cabeça acusa as poucas horas dormidas e no horizonte está uma madrugada sem cama com ida para o Aeroporto e um voo que só parte depois das 6 da manhã. É aqui que o plano que parecia tão bom no papel passa a parecer uma alarvidade.

Mas todos sabemos porque estamos ali. Foram só 90 minutos com o nosso amor mas foram os minutos que dão sentido a todos os blocos de 90 minutos que depois passamos à espera de regressar. É duro? Talvez.

Mas andar de metro a meio da madrugada é uma experiência engraçada. Estar num aeroporto que parece nunca dormir é marcante. Adormecer nos bancos ou nas bancadas onde se carregam telemóveis é humano. Lá fora o dia amanhece, os nossos voltam a invadir o aeroporto com cachecóis e camisolas do Glorioso. Chega a hora de partir e voltam os sorrisos. Está tudo vivo.

A viagem Munique - Lisboa pareceu-me teletransporte. Adormeci antes de levantar voo, acordei ao lado do Cristo Rei. No entanto, foi um sono falso sempre com a sensação que já dormi melhor.

Ainda faltava a espera final, uma manhã no aeroporto do Porto com direito a atraso. Nunca ninguém perdeu a paciência. Foi mais tempo para mais histórias, mais risadas e mais assuntos sobre o Benfica.

Chegámos a casa, Estádio da Luz, a meio da tarde de 5ª feira. Esgotados mas de alma cheia. Olhei para o nosso estádio e pensei no Allianz Arena, quanto mais viajo mais gosto do Benfica.

Se fosse para ir ver o tal familiar durante 90 minutos, quando o podemos ver regularmente perto de casa, seria bonito mas utópico. Para ir ver o Benfica é dar sentido a uma vida. A uma, não. A milhares. E não me refiro só aos 4 mil que estiveram em Munique. Naquela bancada possuída por cânticos de incentivo ao Benfica, e zero de ofensa a adversário, não estamos só nós. Nunca somos só nós. Estão todos os que não podem lá estar. Estão através da voz e pensamento de cada um. Os que não podem por razões profissionais, os que não têm razões profissionais para poderem ir, os que ainda não têm idade, os que já partiram mas serão sempre do Benfica, os que podem e não conseguem, e os que conseguem e não podem. Estamos todos juntos sempre que se puxa pelo Benfica. É um clube maior que a vida.

Esta foi só mais uma etapa maior numa história de vida magistral.

Testemunhá-la é um privilégio.

Viva o Benfica!

 

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