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Chelsea 2 - 1 Benfica : Crónica de uma Viagem

Quando nos saiu a bola do Chelsea no sorteio dos 1/4 de final da Champions League a minha primeira reacção foi qualquer coisa como "eu tenho de estar lá". Não só pela importância do jogo, não é todos os anos que vemos o Benfica entre as melhores oito equipas da europa, mas também pelo facto de Londres ser a cidade que eu mais gosto depois de Lisboa.

Em 1984 tive a sorte de ir com o meu pai para Londres. Tinha eu onze anos e aquela viagem marcou-me para sempre. Depois disso já lá voltei quatro vezes e sei que não foram as últimas. Ainda em Novembro lá estive uns dias antes de ir para Manchester ver o Benfica mas faltava-me estar em Londres com o Benfica.

 

Após uma primeira consulta de preço fiquei assustado e com a ideia que não ia dar uma vez que os preços de Londres - Lisboa estarem muito caros por causa das férias da Páscoa. Como nestas casos há mais amigos com a mesma vontade rapidamente fui informado que dava para encontrar preços mais em conta mas com mais trabalho ao nível das viagens. Avião de Faro - Birmingham e regresso por cerca de 100€ já entrava mais no orçamento. Junte-se a possibilidade de estadia em casa de um amigo de amigos e o projecto Chelsea nascia.

 

Tudo começou 2ª feira depois do dia de trabalho. Fomos três de carro para o Algarve. Paragem em canal caveira para um belo jantar à antiga e siga para os bares da Oura para um aquecimento do que íamos encontrar nos dias a seguir. O entusiasmo de virar umas cervejas enquanto se fazia a previsão do que podia acontecer em Londres fez com que as horas de sono fossem reduzidas a muito menos do que o mínimo exigível. Felizmente um de nós tinha casa disponível em Olhos d'Água o que melhorou imenso a logística. O voo era às 8h55 da manhã daí as horas entre o violento acordar e o embarque em Faro foram penosas.

 

Felizmente voltei a ter sorte com os vôos da Ryanair que continua a abusar da paciência dos seus passageiros ao não cumprir os vôos que vende. Eram muitos os que tinham ficado sem ligação para Inglaterra e outros mais iriam sofrer do mesmo tendo que passar horas e horas em Faro à espera.

O nosso avião saiu atrasado criando alguma apreensão já que tinhamos comprado os bilhetes de combóio Birmingham-Londres para as 13h. Afinal tudo correu bem e chegámos bem a tempo. Para que saibam o aeroporto de Birmingham é tão prático e organizado como os de Londres. Não há como nos enganarmos, orientações precisas e nem é preciso pedir ajuda a ninguém.

 

A viagem de comboio para Londres voltou a ser tão confortável como já tinha sido as de Londres-Manchester-Londres. Torna-se fácil arranjar alternativas mais baratas não indo directo a Londres.

 

Um dia inteiro em Londres para passar pelos locais mais emblemáticos, matar saudades de Picadilly, passar por um inevitável Mac. e atacar pubs e pints. Engraçado como é tão fácil a adaptação aquele estilo de vida londrino. Ao fim do dia já estávamos perfeitamente integrados. À noite encontro com outros companheiros de viagem em pleno Soho num bar onde o forte era jarros de cerveja. Cenas de ingleses.

 

Na 4ª feira ataquei um verdadeiro pequeno almoço britânico que deu quase para o resto dia todo em termos de alimentação. Em Oxford Street finalmente senti o Benfica na cidade. Muitos grupos de benfiquistas exibindo camisolas e cachecóis. Entrei na loja da Adidas e um dos seguranças meteu conversa. O respeito que aquela gente continua a ter pelo Benfica é incrível. Desejou a nossa vitória porque ele é do Arsenal e falou com admiração de Pablo Aimar, Cardozo e Javi!

Ainda deu para encontrar um amigo de longa data com quem comecei a ir ver os jogos do Benfica fora da Luz. Já não nos víamos há uns bons anos e ali em Oxford Street pusemos a conversa em dia sempre movidos por essa paixão comum chamada Benfica.

 

O aquecimento para o jogo foi feito num pub a duas estações de metro do estádio. Um ponto de encontro tão concorrido que acabámos por encher o espaço com as nossas cores. Deu para conhecer a boa gente benfiquista que vive em Londres, que já nos contactavam via redes sociais, e para encontrar a malta do costume a rapaziada que ajuda a marcar o nome do Benfica por essa Europa fora sempre apoiando a equipa. Não deixa de ser engraçado caminhar pelo bairro de Fulham (o estádio deles é muito perto de Stamford Bridge) entre cânticos benfiquistas.

 

Fui confirmando as minhas suspeitas em relação ao Chelsea, clube de bairro sem o ambiente em volta do estádio de outros clubes ingleses que já visitei. Só muito perto do estádio se percebe que há jogo e os adeptos azuis são demasiado pacíficos, até sorriem para a imensa e habitual festa que os portugueses montam nas ruas. Um estádio que aparece no meio de prédios com uma fachada que podia ser o edifício de uma qualquer multinacional, pouco cheira a futebol por ali.

 

Para irmos para a nossa bancada tivemos que continuar pelas ruas do bairro até encontrarmos a nossa porta. Antes de entrarmos uma rápida visita à loja do Chelsea para comprar o habitual cachecol do jogo e o programa. Entrada com direito a três revistas de segurança! Entrada pelos tradicionais torniquetes apertados e entrada para a bancada inferior.

A visão do nosso sector é impressionante. Estava cheio e todos acreditavam numa grande noite apesar de virmos a perder de Lisboa, apesar de não termos nenhum central a jogar e termos lá o Emerson. Mais uma vez percebi que ser do Benfica é mesmo isto, acreditar sempre!

 

Os jogadores perceberam a nossa crença e partiram para um jogo magnífico. Talvez a exibição mais categórica que vi do Benfica em Inglaterra, ironicamente foi a primeira vez que vi o Benfica perder.

 

Quando começo a ver a confiança de Javi e Emerson lá atrás, a tranquilidade com que Matic assumiu o meio campo, a vontade com que Bruno César, Gaitan e Witsel estavam em levar o jogo para a frente e a classe com que Aimar pegava no jogo senti o tal enorme orgulho de ser benfiquista. Isto tinha tudo para correr muito mal mas a verdade é que vi o Benfica a jogar cara a cara com o milionário Chelsea e até ao penalti o jogo estava mesmo muito aberto. Depois vem a expulsão do Maxi e aí pensei que tinha acabado a nossa resistência.

Eu não vou discutir a expulsão e o penalti mas tenho que dizer que raramente vi o Benfica fazer 11 faltas e receber cartões em metade delas. Isto em lances que quando aconteciam a Lampard ou Ramires não tinham o mesmo tratamento. Isso revoltou-me muito porque senti que nos estavam a condicionar e a complicar ainda mais uma tarefa que já era muito dura. Daí ter aderido espontaneamente ao cântico "Michel Platini" que agradou a Jesus e , pelos vistos, a Vieira. Foi um grande momento de ironia na bancada a mostrar que os adeptos do Benfica sentem-se como peixe na água em estádios ingleses.

 

Pela número enorme de SMS que recebi durante a noite a elogiar o nosso apoio fiquei esclarecido quanto ao sucesso da nossa missão na bancada. Junte-se a esse apoio os momentos em que Aimar pegava na bola com aquele equipamento encarnado e branco, o mais bonito em anos e anos, e a viagem já estava mais do que paga.

Ao intervalo uma surpresa que mostra a cultura destes ingleses e a sua paixão pelo futebol. Chamaram John Mortimore para o homenagearem e dar uma volta ao campo de maneira a ser aplaudido pelas adeptos das duas equipas. Foi um grande momento. Ele que como jogador fez carreira no Chelsea e como treinador teve duas passagens pelo Benfica sendo que a 2ª recordo-me bem e ao pormenor. Depois de ter estado de 1976 a 1979 ganhando um campeonato, voltou entre 1985 e 1987 ano em que ganhou campeonato e taça. Depois da dobradinha foi despedido pela Direcção que se queixava que a equipa não jogava um futebol bonito! Coisas nossas... Foi um prazer revê-lo e aplaudi-lo.

 

Para a 2ª parte estava reservada uma das melhores exibições que já vi do meu clube com uma equipa remendada, com menos um jogador e a jogar fora de casa nos 1/4 de final da Champions. Merecíamos melhor sorte, o golo de Javi podia e devia ter aparecido mais cedo mas Cech não deixou. Olhava para os ingleses à minha direita e via-os completamente enervados com as corridas de Nelson Oliveira e Rodrigo e com as oportunidades de Yannick tudo com o carimbo de Aimar.

Há imagens que vão ficar na minha memória, a defesa de Cech a remate de cardozo e o arco errado que a bola de Nelson Oliveira e o ambiente de pânico de Stamford Bridge antes do livre de Aimar aos 90'. Infelizmente saiu mal e acabou por dar no 2-1 mais enganador da noite europeia.

 

Apesar da derrota acabei o jogo satisfeito com a grande exibição dentro e fora de campo e senti um enorme orgulho de ser do Benfica.

Na saída confirmou-se que os adeptos do Chelsea são tão bem comportados que a polícia não hesita em deixar-nos sair todos ao mesmo tempo. No caminho para o metro ouvi muitos elogios ingleses à exibição do Benfica e aos seus adeptos e são esses elogios que guardamos para nós com mais carinho. De nós o que mais ouviram foram palavras de incentivo para o ... Barça. Espero que os catalães vulgarizem a equipa de David Luiz sem dó.

 

No dia seguinte acordar e saber que a equipa foi recebida com honra no aeroporto de Lisboa deixou-nos contentes. Foi uma recepção justa. A nossa viagem de regresso começou cedo e correu bem novamente. Comboio a hora de Euston para o aeroporto de Birmingham e vôo dentro do horário para Faro onde encontrámos chuva e frio pior que Londres, tal como em grande parte da viagem para Lisboa. Uma última palavra para um dos assistentes do bordo da Ryanair absolutamente fora do normal. Gozão e bem disposto anunciou que havia no menu cozido à portuguesa, bacalhau à braz ou francesinhas entre outras tiradas hilariantes e é aqui destacado porque a primeira coisa que disse foi: "Bem vindos... o Benfica é o MAIOR!". Ainda a meio disse que podíamos usar os cartões de telefone que estavam a vender para chamarmos a polícia e darmos conta do roubo do Benfica e à chegada despediu-se com saudações benfiquistas para gáudio de um avião esgotado na maioria por benfiquistas. Bem hajas rapaz!

 

A viagem com o Benfica a Londres merecia sem dúvida um resultado melhor mas valeu e muito por mais uma demonstração de benfiquismo numa Inglaterra que nos respeita e admira. Terminou de maneira muito digna a nossa época europeia. Uma bonita época, diga-se.

 

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