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Destino Anfield Road – Um dia de sonho (Parte 2)



São 19h40, os putos da bandeira da Champions já estão no meio campo, as equipas prestes a entrar, o estádio já está completamente cheio, e eu estou ali mesmo! Estou a viver o sonho de estar no Anfield Road, e a apoiar o meu Benfica. O coração bate mais depressa.
Nas colunas do estádio ouvem-se uns acordes conhecidos… Ora aí está, é a música que todos queremos ouvir ao vivo, o momento mágico de que todos os amantes da bola conhecem, mas poucos já sentiram na pele. A expectativa é tão grande como foi ouvir os primeiros acordes de Paul McCartney em Lisboa há dois anos.
A canção começa lenta, os cachecóis começam a aparecer ao alto e na horizontal, a letra começa a ser clara. Tudo em crescendo, tudo em segundos. Está a chegar a parte do refrão, a nossa bancada tenta ensaiar um cântico de réplica, poucos aderem.
E aqui vamos nós à parte que vai subir:
Walk on, through the wind,
Walk on, through the rain,
Though your dreams be tossed and blown.
Walk on, walk on with hope in your heart

Nesta altura já estava arrepiado, e num instante eis Anfield na sua potência máxima:
And you'll never walk alone,
You'll never walk alone

Pronto, não resisti! Agarrei no meu cachecol do Benfica, ergui-o e juntei-me aquele momento mágico, todo arrepiado, e de olhos molhados também cantei:
You'll never walk alone !

Não sei se pode ser considerada como uma pequena traição o facto de ter cantado com os adeptos adversários, mas a verdade é que andei anos para sentir isto, não resisti.
O efeito é tremendo, sai tudo tão certinho, tão alto, com tanta alma que as estruturas da bancada à nossa volta vibravam!
Foram os minutos mais emocionantes que me lembro de passar num estádio antes do jogo começar. Nem o hino nacional durante o Euro 04 me fez sentir isto.
Ainda ecoavam os aplausos do grande momento, e as equipas já estavam alinhadas no relvado lado a lado.
Ia começar o jogo, a nossa bancada explode num apoio impressionante à equipa como que a mostrar aos ingleses que podemos não cantar tão certinhos, mas temos pedalada para eles, com cânticos bem mais directos, empolgantes e curtos.

Primeira parte

Começa a partida. Ia mentalizado para passar os 15/20 minutos mais sufocantes dos últimos tempos, sabia que era essencial não sofrer golos na primeira metade da primeira parte. Nunca pensei é que a primeira consulta ao cronómetro instalado no The Kop fosse registada pelos meus olhos aos … 40 segundos!
Exacto, 40 segundos de jogo e já eles estavam doidos a correr para a baliza onde estávamos a ver o jogo! Olhei para a cara de alguns dos nossos jogadores e senti que também eles estavam apreensivos. E as bancadas cada vez cantavam mais e mais alto. Era demais, parecia uma força extra a empurrar os vermelhos contra a nossa bancada.
Bolas cruzadas de lado, de trás, por cima, remates de longe, cantos, bolas ao poste. Meu deus, o meu coração vai sair pela boca se isto não acalma.

Por outro lado, sempre que a bola passava para o meio campo deles, sentia-se confiança em Simão, Nuno Gomes, Geovanni e Robert. Estavam a tentar atacar apoiados e até começavam a levar a bola à baliza do The Kop.
O tempo ia passando. Beto ia fuzilando Moretto, comentei passado uns minutos, em tom irónico, que o jogo já parecia mais controlado depois termos secado o … Beto! Pelo menos não ameaçou mais o nosso guardião.
Há o remate do Geo à trave, a recarga do Simão foi fraca. Mas a jogada encheu de moral (ainda mais) a nossa bancada, os ingleses acusaram o toque, e pela primeira vez senti que nós estávamos a cantar mais alto, e com mais convicção do que eles.
A nossa defesa estava brilhante, sentiam o nosso apoio nas costas e iam dando tímidos sinais que íamos ter grande noite.
Cada vez conseguíamos ter o Moretto mais descansado, que entretanto faz defesa maravilhosa com os pés a evitar a explosão de alegria de Anfield.

Geo está lá longe a chatear um deles, ganha a bola e dá para Nuno Gomes, este entrega a Simão. O capitão está descaído para a nossa esquerda, tem ali à frente uns 3 defesas, todos nós estamos com ele e percebemos o que ele ia fazer: Vai Simão, papa esses gajos, finta para a direita. Isso!! Mais um bocadinho… Chuta, Simão! CHUTA… e… GOLOOOOOOOOOOOOOOOOO!
Nos instantes em que a bola saiu do pé de Simão e bateu nas redes de Reina, nós vimos bem de frente o arco da bola e o monumental golo que nos levou à loucura!
Agarro-me ao Almeida, a gritar: LINDOO! Vejo o Amorim a saltar para os nossos braços, também o Tio João rejubila. Estou nas nuvens, sinto lágrimas de alegria!
Que momento!!
A partir dali não havia ninguém naquela bancada que não acreditasse na passagem.
Continuámos a sofrer, a ver o Liverpool tentar empatar, mas a confiança estava no máximo, a alegria escapava-nos pela voz, pelos saltos, pelos gritos de apoio ao nosso Benfica.

Intervalo

Intervalo e estamos a ganhar. Desço até ao wc. Pelo caminho vejo e cumprimento muitos companheiros de bancada de sempre. Os do costume também ali estavam.
Perto do bar bebia-se para retemperar energias, e aguentar a garganta apta para mais apoio. Ouvem-se os primeiros cânticos originais da noite, com base na mesma melodia do , já famoso, Our Eagle is bigger than Your BirD:


Sozinho José Cid é melhor que os Beatles
Sozinho José Cid é melhor que os Beatles
Sozinho José Cid
Sozinho José Cid
Sozinho José Cid é melhor que os Beatles

Ou ainda:
Para levar o Simão são 40 milhões
Para levar o Simão são 40 milhões
Para levar o Simão
Para levar o Simão
Para levar o Simão são 40 milhões

Estava lançado o mote para mais 45 minutos de emoções forte

Segunda Parte



Começa a segunda metade, e agora atacamos para a nossa baliza. Costuma dar sorte. Ainda no passado sábado os nossos golos foram na nossa baliza.
A tensão volta a subir, os de vermelho parecem diabos à solta, estão possuídos, correm que se fartam e querem desesperadamente meter a bola na baliza lá ao fundo.
Anderson e Luisão parecem dois monstros sagrados, aparecem em todo o lado, desfazem tudo o que os ingleses constroem, cortam tudo. O Luisão sorri para o Crouch, como que a dizer: Não te digo para cresceres e apareceres, porque altura já não te falta. Mas ainda estás muito verdinho, e isso lá na nossa capital não é nada bom.


Eles atacam, atacam, mas o tempo passa e a malta começa a perceber que o SLB está calmamente a controlar o jogo lá atrás. Está tudo controlado. É ver o Fowler e o Cissé a entrarem, e tudo a ficar na mesma.
Quando vemos Karagounis e Micolli a entrar em acção, sentimos que não vamos perder o jogo. E o pessoal assim que o italiano entrou, gritou bem alto: MI MI MICOLLI! Adivinhava-se.
O tempo passava lento, mas ia passando. Os lances de aperto são alguns, o susto de um golo que não foi, os nervos de ver as faltas todas marcadas contra nós, tudo ia acumulando cá dentro.


Até que chegam os últimos 10 minutos, e é evidente o desespero de jogadores e adeptos do campeão europeu. Os contra golpes do Benfica eram cada vez mais perigosos, o Nuno atrapalhou-se numa bola que o Léo-Maradona podia ter marcado…
Tudo bem, eles não marcam é o que se quer.


Olha… Aí vem o Simão… ANDA! Chuta. Espera, não chutes. Cruza… NÃO! Dá para o lado… ISSO! Vá Beto, força, faz como na primeira parte mas acerta na baliza… Xiii… Ah BOA!!! FOI PARA O MICOLLI… A bola está mesmo aí, miudo!!! CHUTAA… GOLOOOOOOO GOLAÇOOOOOOO QUE GOLÃO!!!!!!!!!!!!
Momentos de loucura total, delírio colectivo naquele cantinho de Anfield, entre a baliza de Reina e a bandeira de canto. Era o paraíso ali na nossa frente. Na nossa frente, não. Onde estávamos também era o paraíso!! Não me acordem, estou a ter um sonho lindo!
Até ao fim mal olhei para o relvado, andei de abraço em abraço, cantei, pulei, e olhava à volta para ver a reacção dos adeptos da casa.
E aí voltou a magia. Dei comigo a olhar para o The Kop completamente vermelho e branco, cachecóis estendidos e o Youll Never Walk Alone outra vez entoado com a mesma alma, apesar de estarem a levar 2 secos!
Estes gajos estão prestes a largar a Taça dos Campeões e cantam, aplaudem e ainda incentivam em busca do 1-2! Impressionante!

Depois dos 90 minutos

O jogo acaba, a festa é rija, os jogadores vêem até nós agradecer e festejar, enquanto os , ainda, campeões europeus saem debaixo de uma salva de palmas estrondosa!
Mas o melhor estava para vir. Os nossos rapazes depois de agradecerem o nosso apoio, viram-se para a saída e aceleram o passo para o balneário. São (somos) surpreendidos por uma monumental salva de palmas por parte de todos os adeptos do Liverpool. Completamente inesperado, o acto levou a que os jogadores do clube português abrandassem o passo e lentamente sairam retribuindo com aplausos e respeito.
Nunca tinha visto nada assim.
Como se não bastasse, ao abandonarem as bancadas todos os reds aplaudiram a nossa bancada, mostrando alguns cachecóis do Benfica e desejando sorte para o futuro.
Respondemos com orgulho e num gesto espontâneo levantámos ao mesmo tempo os nossos cachecóis e cantámos Youll Never Walk Alone. Foram minutos de emoção, com aplausos de parte a parte. Inesquecível!!

À saída do estádio estavam dezenas de adeptos, sobretudo miudos, à nossa espera só para nos apertarem a mão, pedirem cachecóis nossos e dizerem que tinhamos de ganhar a competição, porque segundo eles: “Quem bate o Liverpool, tem que ser campeão!”.
Foi neste ambiente que fomos para os autocarros que nos levariam até ao aeroporto.
Tudo correu sem o menor problema.
Aborrecido mesmo, só o tempo que tivemos para chegar ao avião e levantar vôo. Eram 48 autocarros a deixar adeptos no aeroporto, para 8 aviões.
Lá se esperou, já com o cansaço a sentir-se no corpo, mas a satisfação de termos vivido um dia assim não nos fazia largar o sorriso.
Era 1h e 40 da manhã quando começámos a viagem de regresso. Muito sono, algum descanso, mas sempre boa disposição.

Essa figura que ficou com o nome de Fifi confessou a um companheiro nosso que adorava saber quem era, afinal , esse tal de … Fifi!
Por volta das 4 da manhã aterramos em Lisboa, a malta começa a animar-se, e fica tudo em alta moral quando sabemos que vamos chegar primeiro que a equipa! Lindo! Já não havia muita esperança de os encontrar, pois a equipa embarcou uma hora antes de nós.
Foi mais uma sensação daquelas para não esquecer, a chegada ao átrio principal do aeroporto. Descer a última rampa e dar de caras com uma multidão em extâse para lá dos vidros é qualquer coisa de transcendente! Páro, fico de frente para centenas de adeptos aos saltos, eufóricos, vejo as grandes bandeiras da maior claque do nosso clube, sempre presentes! Abro o meu cachecol comprado horas antes e que dizia Liverpool-Benfica, levanto-o e mostro lá para fora. A reacção é de doidos, já vejo tochas acesas, e oiço os cânticos familiares. Arrepiante.
Apesar da falta de inteligência de alguns PSP’s que nos queriam fazer sair dali antes da equipa chegar, lá conseguimos ficar e receber os nossos heróis.



Foi um final fabuloso, vim ao lado do Luisão até cá fora, ele perguntou se tínhamos ido lá e ficou encantado com o nosso apoio. O Nuno Gomes, o Léo, O Micolli, todos simpáticos e emocionados com a recepção. Fiquei ao pé de toda a comitiva até entrarem para o autocarro. Senti-me um deles. Sou um deles! Foi por eles, e pelo enorme simbolo que o autocarro exibe bem ali na minha frente, que fui e vim a Liverpool no mesmo dia.
Amo o Benfica, adoro o Liverpool.

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