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Rumo ao Tetra

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Borussia Dortmund 4 - 0 Benfica: Crónica de uma Viagem a Dortmund

benfica em dortmund.jpg

 Para eles será sempre a noite de Aubameyang, para nós será sempre a noite dos adeptos do Benfica no Westfalenstadion.
A esta hora já todos os leitores viram os vídeos que captaram os cânticos dos benfiquistas que deixaram os alemães rendidos. Foi um momento de inspiração, não foi exibicionismo porque ao intervalo não há jogadores em campo, não há televisões em directo, só há adeptos no estádio.

Quem se emociona a ver os vídeos não consegue imaginar o que foi viver aquilo ao vivo. Mas já volto a este momento.

 

Como tudo começa

 

Muita gente, conhecida ou não, contacta-me das mais variadas maneiras perguntando como é que é a melhor maneira para ir ver o Benfica no estrangeiro. Meus amigos, estamos em 2017 portanto permitam-me que diga que o que é mesmo preciso é muita força de vontade. Havendo essa vontade e sentindo que não podemos ficar de fora desse momento único que é estar nas bancadas de um estádio mítico a apoiar o nosso clube, meio trabalho está feito. O resto é capacidade de sacrifício, poder financeiro e sentido de organização. Há hipóteses para todos.

Pessoalmente, não tenho um plano definitivo. Em Liverpool, há 11 anos, investi bastante dinheiro para poder ir e vir no mesmo e não ter de faltar mais de 8 horas no trabalho. Mas também já fui para Faro apanhar um avião para Birmingham e depois seguir para Londres, assim como já segui de carro para o Porto onde dormi umas horas para depois ir de avião para Eindhoven, ou ir de avião para o Porto e seguir no dia seguinte para Munique, ou fazer Lisboa - Madrid - Bruxelas de avião, alugar uma carrinha e seguir por estrada até Amesterdão.

Enfim, dou todos estes exemplos para se perceber que há opções para todos os gostos. A comodidade e o conforto pagam-se, quem pode pagar avança das formas mais simples e óbvias, quem não pode tem que se fazer à vida. Claro que dormir em aeroportos, stressar com ligações que chegam a parecer perdidas, lidar com imprevistos, torna tudo mais emocionante e desesperante. Óbvio, que quando contamos o que passamos e fazemos só para estar 90 minutos ao lado da nossa equipa, há muita gente que não entende mas para nós faz todo o sentido. Sendo que todos os que sentimos isto da mesma maneira temos tendência para nos aproximar-mos, para nos ajudarmos e assim nascem companheirismos e amizades que ficam para a vida, apenas e só baseado em algo abstracto chamado benfiquismo.

Por isso, o conselho que dou é que quando tiverem muita vontade de estar com a equipa do vosso coração seja onde for, juntem-se a quem já esteja mais habituado. Mas comecem o trabalho ainda antes do sorteio, prevejam cenários e definam os vossos orçamentos para a aventura. Se for grande sigam directos da maneira mais rápida, ninguém vos pode levar a mal. Se não podem gastar o que não têm, há um mundo de alternativas mais fáceis do que parece.

Só para finalizar este primeiro capítulo, desta vez, assim que soube que o Benfica ia ao Westfalenstadion avisei uns amigos que já estavam com o dedo no gatilho para contarem comigo. Voo na véspera do jogo, com regresso marcado para o dia seguinte, pela TAP de Lisboa para Dusseldorf, casa alugada via Airbnb, viagem de comboio Dusseldorf - Dortmund - Dusseldorf para o dia de jogo e bilhete de jogo comprado. Tudo tratado via chat de facebook entre uma dezena de benfiquistas. Tudo correu bem, tudo bateu certo. É muito simples quando a vontade é maior que hesitação.

Isto tudo, claro, partindo do principio que estamos no universo dos benfiquistas disponíveis para uma aventura destas. Para não virem já os que não podem por razões profissionais, familiares, de saúde, financeiras e afins. Como é evidente.

Eu cruzei-me nestes dias com amigos de longa data e desconhecidos que chegaram ao jogo vindos dos pontos mais incríveis do mundo. Seis canadianos foram para Dusseldorf sem bilhete de jogo. Só para dar um exemplo. E também posso falar aqui de quem venceu todas as contrariedades e foi sempre arranjando soluções entre TGV's e carrinhas até chegar ao destino.

 

 

 

Que tal é Dusseldorf?

 

À hora que escrevo esta crónica sabe-se que o dia seguinte ao jogo de Dortmund fica marcado por um ataque assustador na estação central de comboios de Dusseldorf. Só por isto, apetece-me dizer que a cidade não merece este mediatismo por estas razões.

Dusseldorf é uma cidade simpática quando vivida na parte mais perto do rio Reno. A zona de Altstadt é bonita. Fiquei a saber que a Volta à França vai partir de uma praça daquele bairro e já tem publicidade ao evento. A oferta gastronómica é boa e basta seguir as indicações do Trip Advisor para se encontrar um local simpático para degustar um clássico joelho de porco com cerveja.

À noite também se encontra boa oferta de restaurantes, bons bares irlandeses sempre com muita atenção para o futebol. Em noite de Liga dos Campeões podíamos seguir os jogos em qualquer lado.

Nota-se que é uma cidade habitada por gente com poder de compra, basta reparar nas lojas de marcas fortes no centro da cidade. Ou seja, vale uma visita, sim senhor.

 

E a cidade de Dortmund? O Museu do Futebol.

 

Não querendo ser injusto, devo dizer que fui influenciado pelas opiniões de quem já lá tinha estado. Todas as indicações apontavam para não passar lá muito tempo porque não era uma cidade atraente, nem de dia, nem de noite. Daí a opção de teremos dormido as duas noites em Dusseldorf.

O clima não ajudou nada. Um dia cinzento, sempre a chover e com um frio desagradável.

O plano era simples. Sair na estação central de comboio de Dortmund, atravessar a rua, literalmente, e visitar uma loja do Borussia. Deu para comprar o cachecol do jogo e ver a excelente oferta que há para os adeptos do clube amarelo. Depois, andar uns metros e entrar no Museu do Futebol. Os 17€ que pedem à entrada podem desmotivar alguns mas eu ia determinado a encontrar-me com a minha história de adepto.

Quem costuma acompanhar as minhas prosas sabe da minha admiração pelo futebol alemão, a minha simpatia pelo Hamburgo e pela Selecção da Alemanha.

Podem imaginar a emoção que senti quando fiquei a centímetros da camisola 6 de Buchwald. Entre mim e o camisola mais linda de sempre em competições de Selecções estava apenas um vidro a separar-nos. Para animar, mesmo ao lado estava a azul de um tal de Maradona, a relembrar o grande duelo daquela final de Roma de 1990. Nunca tinha estado tão perto de um futebol que me marcou para sempre.

Senti o mesmo arrepio quando estive à mesma distância das camisolas do Hamburgo, claro, do Borussia Mönchengladbach, um clube respeitadíssimo na Alemanha, do Colónia ou da mítica 18 do Klinsmann, meu ídolo de juventude, do Bayern.

Há muito para ver, tudo sobre a selecção campeã do mundo, muitas curiosidades. É uma visita que recomendo a quem apreciar o futebol da Bundesliga. Gostei, foi uma óptima maneira de passar o tempo até ao almoço.

Aí valeu de novo o Trip Advisor. Fomos parar a um restaurante de decoração incrivelmente clássica, com pratos locais e boa cerveja. Já se sabe que almoço em dia de jogo do Benfica no estrangeiro é coisa para durar horas.  Histórias desta época e recordações de outros tempos. Gerações mais novas a ouvirem, aprenderem e, também, a ensinarem. Gente que vai ao Estádio da Luz e benfiquistas que vieram da Holanda. Realidades diferentes, mundos distantes, apenas unidos por um simples fio, o Benfica. Um restaurante em Dortmund que por algumas horas parecia uma casa portuguesa com mesas cheias de benfiquistas vindos sei lá eu de onde. Um aceno, um sorriso, um "vamos a eles", unem o universo benfiquista que parece estar todo ali naquela zona da Alemanha.

Depois umas cervejas bebidas no centro da cidade, algumas num bar de adeptos do Borussia nada incomodados com a invasão vermelha, diga-se, mas com pouco ambiente nas ruas devido à chuva e frio.

A ida para o estádio é muito fácil, tal como já tinha sido em Munique. Transportes eficientes, saída mesmo no estádio, tudo bem organizado sem margem para erros. É a Alemanha.

 

 

 

O Westfalenstadion

 

Sim, eu reparei numa tarja que os adeptos do Borussia mostraram a recordar que ali é o Westfalenstadion, apesar do naming obrigar a chamá-lo de Signal Iduna Park. É o estádio com maior capacidade na Alemanha, mais de 80 mil pessoas devido aos lugares em pé. Em noites europeias baixa para 65 mil por causa da UEFA.
A grande atracção é a bancada, chamada muro amarelo, por trás da baliza .

Mas o encanto começa cá fora. É uma zona de parque, acessos pedonais amplos, muitos pontos de venda de comida, bebida e artigos do Borussia. Há uma imagem incrivelmente romântica e forte que é observar a fachada da bancada central do estádio paralela ao recinto antigo do clube. O passado e a modernidade lado a lado. Lindíssimo cartão de visita para quem vê numa espécie de beer garden.

Adeptos da casa simpáticos e tolerantes, ambiente descontraído. Entrada fácil e acesso à nossa bancada sem problemas.

Primeiro impacto com o estádio vazio. Aquilo é maior do que parece na televisão. Não é só o muro. É tudo.

Muitos adeptos nossos queixaram-se do ambiente, esperava-se mais. Eu não consigo concordar. Só não ouvi o muro a cantar porque o sector do Benfica teve uma noite de sonho. Não se ouvia nada mais a não ser Benfica.

Porque eu vi e ouvi o que esperava dali. Antes das equipas entrarem, escutei, e até cantei para dentro, o You'll Never Walk Alone em versão alemã. É bonito mas não chega ao epicismo de Anfield Road. De qualquer maneira, foi respeitado pela nossa bancada que até aplaudiu no fim. Era o mote para uma noite memorável.

A coreografia não desiludiu. Uma original alusão à goleada do Borussia em 1963. Se ainda se lembram e até levaram jogadores dessa época ao relvado para os homenagear só engrandece o Benfica, eles sabem que foi uma proeza incrível bater o Glorioso dos anos 60. Gostei de ver.

Depois, a partir do começo do jogo não deu para perceber mais nada porque o os 3 ou 4 mil, não sei ao certo, que estavam no sector visitante resolveram dar um show vocal como nunca tinha visto. Pelo menos, com aquele intensidade e durabilidade.

Mas o estádio tem ambiente, estava esgotado e aqueles adeptos têm cultura de futebol.

 

 

 

O respeito do Borussia merece ser eternamente reconhecido

 

O jogo começou e o apoio ao Benfica disparou para níveis altos. Não sei o que se cantava no muro amarelo porque os nossos cânticos faziam eco! O 1-0 veio muito cedo e o Westfalenstadion explodiu, mais de alivio do que de euforia. A eliminatória estava empatada e poderia esmorecer o apoio vermelho e branco.

Mas aquilo só serviu para motivar ainda mais a mancha vermelha. Os golos ali são assinalados nas colunas com a passagem do "Go West" dos Pet Shop Boys. Pois bem, o pessoal aproveitou e imprimiu a sua força roubando o cântico e começando a cantar "Allez, Força Benfica, Allez", sem parar. Mas sem parar mesmo.

A equipa correspondeu e equilibrou o jogo. Passámos a discutir a posse de bola, soltámos os artistas. Salvio andava a fintar amarelos no meio campo, Nelson subia com perigo, Cervi pedia bolas em velocidade. Finalmente, o Benfica discutia o apuramento cara a cara.

Tal como em Munique no ano passado, o golo cedo só veio dar força à nossa equipa para subir no terreno e mostrar os seus argumentos.

A bancada sentiu o crescimento dos jogadores, os adeptos sentiram que todo os esforços feitos para ali estar naquela noite faziam sentido e expressavam-se a uma só voz com uma força que entrava nos ouvidos de quem lá longe acompanhava o jogo, via televisão, internet ou rádio.

Quando se chega ao intervalo com 1-0 significa que após um jogo e meio estávamos empatados na discussão de um apuramento na Champions League com o colosso de Dortmund.

Quando o apito soou para o intervalo cantava-se a versão "Lisboa Menina e Moça" adaptada pelo Topo Sul que termina com um forte "O Amor da Minha Vida".

Os jogadores saíram ao som disto. Os adeptos no resto do estádio preparavam-se para um intervalo normal. Só que o sector visitante num momento de inspiração benfiquista, numa espontaneidade sem igual e numa demonstração de benfiquismo puro e descontrolado não parou de cantar "Benfica, o Amor da Minha Vida" em loop. O tal momento que tem sido divulgado em vídeos.

O que esses vídeos não mostram é o espanto dos alemães a olhar, a fotografar, a filmar e a aplaudir aquela dezena mágica de minutos.

O que esses vídeos não explicam é a vontade incontrolável que eu tive de fechar os olhos enquanto gritava a plenos pulmões: Benfica, o Amor da Minha Vida. Olhos que quando se abriam estavam húmidos de tanta emoção de fazer parte daquele momento.

O que esses vídeos não captam é o que cada um de nós observou. Olhei para trás e vi uma menina, tinha uns 15 anos, de braços no ar, olhos brilhantes a olhar para o céu enquanto gritava Benfica, e de mão a bater no peito do lado do coração quando chegava a parte do Amor da Minha Vida.

Isto explica-se? Não. Sente-se.

Cinco minutos já me lavava a alma. Mais de dez, marca-me para sempre. Ao nível do que vivi há 11 anos em Anfield Road.

E há ingénuos que pensam que aquilo vem por causa de uma alucinação colectiva. Uma bebedeira geral. Pensam que é tudo por causa de um jogo, de 90 minutos na Champions, pela possibilidade de apuramento. Nada disso. Estão enganados. O Benfica é muito mais que um jogo. É muito mais que uma vitória inesperada ou uma derrota mais pesada. É muito mais que uma eliminatória. O Benfica também é muito maior do que aquilo que cabe em estádios como o do Feirense. Por isso, os benfiquistas quando sentem que o Benfica está no local certo, na hora certa, no estádio certo com o mundo todo a ouvir, manifestam-se assim.

O Benfica é o amor da nossa vida e nós cantamos desta maneira não pelo presente, não pelo imediato, mas sim pelo futuro. Por sentirmos que temos o Benfica de volta. Aquele Benfica que anda sempre na alta roda europeia. Que nos faz sonhar mesmo nos estádios mais míticos do mundo. Nós cantamos assim porque temos memória. Temos bem presentes na memória os grandes feitos que já vivemos, conhecemos bem a Glória conquistada nos anos 60 mas também não nos esquecemos nunca da sensação de impotência de não termos futebol para um HJK na Luz, de cair aos pés de um Halmstadt ou , pior, nem participar nestas noites.

Nós temos muita memória e muito benfiquismo, sabemos contextualizar um jogo como este em Dortmund. Isto não são só mais 90 minutos. Por isso cantamos assim. Agora, o muro e as muralhas amarelas à volta, ficaram a saber o que é a força do Benfica.

E sabem porque é que tudo isto foi possível?
Porque aconteceu num local onde o futebol é sagrado. Onde o respeito pelos adeptos é uma lei omnipresente.

Os responsáveis do Borussia ao assistirem aquela manifestação única e apaixonante dos adeptos visitantes optaram por não interromper. Não meteram música, não falaram, não estragaram. E estavam na sua casa, ninguém lhes levava a mal. Estiveram 10 minutos em silêncio como se não houvesse instalação sonora e speaker no relvado. E quando tiveram que abrir as colunas tiveram o cuidado de deixar as da nossa bancada em silêncio.

No final do jogo a mesma coisa. Os adeptos do Benfica assistiram ao festejo da equipa com o muro amarelo e aplaudiram em sinal de respeito. A equipa do Borussia deu uma volta ao campo para se despedir dos seus adeptos e ao passar no nosso canto, que não parava de cantar Eu Amo o Benfica, olharam cá para cima e chegaram a aplaudir! Ao nosso lado, no topo e na central, vi adeptos de camisolas amarelas a sorrir e a aplaudir. No metro fomos elogiados e cumprimentados com respeito e admiração.

Isto também faz um clube ser grande. O nosso e o deles.

 

O Jogo

 

Todos sabíamos ao que íamos, certo?

Vimos a maneira como ganhámos na Luz onde o Borussia mostrou um poder ofensivo impressionante e uma ideia de jogo atraente. Precisávamos de mais uma noite feliz para dar tudo certo.

Depois daquela derrota em Lisboa, o Borussia goleou por 3-0 duas vezes, e despachou com um 6-2 o Bayer. Não estamos a falar de uma equipa qualquer, é um dos modelos de jogo mais fascinantes do futebol actual.

O futebol é engraçado, o Aubameyang deve ter tido uma das noites mais infelizes da sua carreira na Luz. Em casa só precisou de 4 minutos para fazer um golo. Como é que se lidava com aquele desbloqueador tão rápido?

O Benfica respondeu bem. Equilibrou o jogo até ao intervalo.

O futebol pode ser muito cruel. Quando me perguntam qual é o auge de emoção na tua vida, eu invento qualquer coisa para não dizer: são aqueles décimos de segundo quando estou a olhar para um jogador do Benfica que se prepara para fazer golo. Sentir aquela adrenalina descontrolada no momento em que a bola vai parar aos pés de Cervi, ali bem no meio da área amarela, mesmo à nossa frente, parece que a vida pára e tudo acontece em fragmentos mais lentos que a câmara lenta da tv. Em tão curto espaço de tempo eu consigo ver onde é que o Cervi tem de meter a bola, consigo imaginar a melhor maneira de rematar, já estou a ver a bola a entrar naquelas redes pretas e amarelas. Tudo em 2 ou 3 segundos. É esta a magia de vivermos para estas emoções. Só que o remate do argentino é bloqueado por um muro. Parece que a outra bancada entrou dentro de campo e tapou a baliza do Burki. Se aquela bola entra estou convencido que estávamos a falar de uma noite mais do que épica, bíblica!

Não entrou.

O Borussia sentiu a ameaça, esteve perto de ficar atrapalhado na eliminatória. A resposta foi esmagadora. Em três minutos acabaram com a questão. E só assim podiam mesmo resolver o duelo.

O 2-0 nem tem grande impacto porque continuavamos a ter de marcar um golo para seguir em frente e isso permanecia possível. Mas o 3-0 logo a seguir, e a bater um Ederson que tinha estado em modo Galrinho Bento, abateu todas as possibilidades.

Com 3-0 o assunto estava encerrado. Mas o benfiquismo no sector visitante estava mais vivo que nunca. Não havia problema sermos afastados pelo Borussia. Fizemos o que pudemos, lutámos e sonhámos com aquele remate do Cervi. Acabou por prevalecer a lógica e a equipa com maiores craques, sem desrespeito para nenhum dos nossos, ganhou. O Aubameyang não tem duas noites horríveis. Ontem levou a bola de jogo e do seu hat tirck para casa. Geralmente, no futebol, ganham as equipas onde jogam os "Aubameyang's".

O resultado ficou em 4-0 mas ninguém naquela bancada se sentiu envergonhado. Vimos como foi construído, discutimos isto durante mais de partida e meia. Ganhámos em casa, perdemos fora. Paciência.

A sensação não é boa mas depois pensamos nos adeptos do milionário PSG e até dá vontade de sorrir. Ou da tareia que o Arsenal levou do Bayern, ou do triste fim das fanáticas gentes do San Paolo. É a Champions.

Em Setembro há mais e nós lá estaremos para mais histórias.

 

 

Um Enervante Rescaldo

 

Esta é a parte mais pessoal da crónica.

A seguir à dramática derrota de Amesterdão com o Chelsea tive tempo de sobra na viagem de regresso para ver as redes sociais que frequento. Fiquei de tal maneira revoltado com a absurda alegria de pessoas que gostam mais que o Benfica perca do que das vitórias dos seus clubes que dei por mim a eliminar dezenas e dezenas de "amigos". Foi libertador e fiquei com timelines muito mais dignas. Hoje em dia mantenho alguns amigos adeptos de outros clubes. São amigos que respeitam e merecem o meu respeito.

Isto só foi possível porque percebi que no Benfica não precisamos de lidar com o ódio. Nós estamos sempre mais perto de arrancar momentos mágicos como estes que aqui falei porque os nossos cânticos são TODOS pró Benfica. Não se canta uma única vez num jogo de Champions algo contra lagartos ou tripeiros como ouvimos constantemente nos momentos de alegria deles. Nem em jogos de Champions nem em nenhum. Felizmente, é uma cultura de estádio 100% pelo Benfica que foi adoptada por todos os adeptos.

Também não precisamos do sarcasmo, ironia ou humor de terceiros. É que para nos rirmos nas nossas desgraçadas temos também os melhores. Quem tem a rapaziada do Azar do Kralj, do Cota do Bigode, do Boloposte ou Insónias de Carvão, não precisa de mais nada. Nós lidamos bem com as piadas sobre os nossos dramas.

Eu não conheço outro clube onde isto aconteça, ou seja, as melhores piadas virem de dentro. É que isto vacina-nos para o que vem de fora. Também aí são mais fracos que nós. Não é uma opinião, é constatar um facto.

 

Bem, mas onde eu quero chegar é a algo mais pessoal e aborrecido. Depois daquela lavagem que referi no pós final de Amesterdão, dei por mim ontem à noite a remover "amizades" e "follows" a uma velocidade alucinante. Mas só a gente benfiquista.

Desculpem mas a minha tolerância para a parvoíce acabou. Continuem lá nos vossos dramas, na vossa realidade paralela mas longe do meu olhar. Não estou para sair de alma cheia de um estádio como o do Dortmund e levar com comentários do tipo: que vergonha não jogaram nada.

Aliás, isto serve para a nossa imprensa. Não toquei num único jornal português desde que voltei. Olhei para as capas e desisti.

Não perceber a diferença de valor individual e colectivo entre Benfica e Borussia é preocupante.

Mas exigir ao Benfica que passe pelo Dortmund como se estivesse a jogar com o Arouca, só porque também são amarelos, é parvo. Comentar que os jogadores são uns tristes e ignorar que estivemos dentro do sonho mais de meia partida é desonestidade intelectual.

Reagir desta maneira severa após um duelo desta intensidade é, em última análise, uma prova que, se calhar, torcem pelo clube errado.

Cada vez tenho mais a impressão que a grande maioria de benfiquistas, aquela dos milhões do Guiness, aquela que invade o Marquês, aquela que pode ser sócia mas não quer, aquela que pode ir ao estádio mas não vai, aquela que pode apoiar mas prefere assobiar, só é do Benfica porque quer estar ligada, de alguma maneira, a um clube ganhador. Portanto, o Benfica ganha 49 jogos seguidos mas quando perde um é o fim do mundo. O Benfica chega aos 1/8 de final da Champions, mas é pouco. Tem que ir às meias finais, no mínimo.
O Benfica ganha ao Borussia em casa mas não serve porque jogou muito mal, porque foi o 1-0 que envergonha a maioria benfiquista que se manifesta nas redes sociais.

Realmente, voltou a ser muito fácil ser do Benfica.

Eu não consigo ser assim, e agora também já não consigo tolerar isso. Estou a ficar velho e resmungão, eu sei. Mas cada vez que me lembro que estive na Luz a ver jogos de competições oficiais com mais 2 mil benfiquistas num estádio que chegou a levar mais de 120 mil... Desculpem, mas quando falo disto com alguém que me responde que também lá estava, chego à conclusão que devo conhecer todos os que iam nessa altura miserável aos jogos. Ou então, éramos mesmo poucos e hoje vive-se o milagre da multiplicação.

Não sou nem mais nem menos que ninguém, mas já não me apetece conviver com falsos exigentes e residentes de um mundo perfeito que não existe.

Meus amigos, o Benfica não vai ganhar sempre todos os jogos. Mas enquanto tiver uma massa adepta como a que tem actualmente nos estádios, vai estar sempre muito mais perto de ganhar do que perder. Isto devia chegar para se encherem de orgulho, para aprenderem alguma coisa em vez de quererem que o Benfica seja o vosso super homem particular e vos levarem às festas e a fazerem boas piadas nas redes sociais contra os vossos rivais.

Que os tristes de verde façam piadas no ano em que o Legia foi à Liga Europa e eles ficaram no sofá é digno da alarvidade odiosa em que vivem. Que benfiquistas se sintam envergonhados e revoltados com uma noite destas, é porque não percebem o que é o Benfica.

Para começar, esgotem o nosso estádio em qualquer jogo da Champions League, como eu vi ontem na Alemanha, e não apenas quando cá vem o Barça ou o Bayern. Esgotem os Red Passes no começo da época. Quando isso acontecer, aí sim, podemos falar de exigência galáctica.

O Benfica foi eliminado da Champions. Sim, fomos varridos pelos alemães.

E sim, pode acontecer uma surpresa do Estoril na Luz e ficarmos sem Jamor.

E sim, podemos perder o campeonato numa dessas finais que faltam até Maio.

E então? Se acontecer vão ficar mais felizes para poderem escrever "eu não disse?".

Isto é futebol, não são decretos. Temos que ir à luta e vencer. Ninguém nos dá nada. São todos contra nós. O que nos motiva é que hoje estamos sempre muito mais perto de ganhar do que perder. Foi isso que senti em Dortmund.

Se amanhã a equipa falhar e não corresponder ao que esperava não vou deitar os cartões fora, não vou virar costas, nem vou por tudo em causa.

Eu passei o Vietname do Benfica, expressão usada pelo Pedro Ribeiro, e não desisti nunca. Agora, em tempos destes é que ia deprimir? Só sou maluco pelo Benfica, não sou parvo.
Mas eu sou dos que ainda hoje não lidam bem com o afastamento europeu em Braga, e fico possuído quando alguém me diz que foi melhor assim porque perdíamos a final com o Porto. Nós que não perdemos uma final de Taça de Portugal ou confronto com eles na Taça da Liga, há anos e anos. Mas eu é que sou o maluco...

Não gostam do Luisão, do Salvio ou do Pizzi? Eu vi o Beto a marcar contra o Manchester e a assistir contra o Liverpool. Eu acreditava que o Rojas e o Leónidas iam ser campeões pelo Benfica. Não me lixem.

Acreditem em mim, hoje na casa do muro amarelo há muito mais respeito pelo Benfica do que havia antes dos 4-0. Pensem nisto.
Não perguntem o que o Benfica deve fazer mais por vocês, vejam o que podem fazer pelo Benfica. Vivam mais o clube. Vivam o Benfica. Viva o Benfica!